Sentaro Monotagari (仙太郎物語), ou simplesmente Sentaro (仙太郎) é uma história que guarda alguma semelhança com os grandes clássicos gregos em que as personagens principais não querem morrer e buscam a imortalidade.
O medo da morte, os prazeres da vida, o desejo de triunfar sobre a mortalidade e a ilusão de que viver para sempre é aquilo que os gregos chamavam de Hybris, ou seja, a arrogância e a transgressão da ordem natural ou desafiar os deuses.

Há sempre um desejo infantil dentro de todo o ser humano em ser mais do que merece.
Muitas vezes, existe incapacidade de se perceber em estar em um lugar muito melhor do que realmente mereceria.
Mas a ganância humana não tem limites. Na história deste artigo, o personagem principal é um paspalhão. Não se admire se reconhecer em Sentaro alguém que você conheça.
Aqui, Sentaro faz o papel de arquétipo para adultos infantilizados tão comuns em nosso tempo. Mas, diferente dos clássicos gregos, A lenda do homem que não queria morrer não é uma tragédia.

Confira agora a lenda de Sentaro Monogatari: A lenda do homem que não queria morrer na íntegra traduzida do japonês para o inglês por Yei Theodora Ozaki, e do inglês para o português pelo portal Japão Real.
Sentaro Monogatari
Há muito tempo viveu um homem chamado Sentaro. Seu sobrenome significava “milionário”, Apesar de não ser tão rico assim, estava longe de ser um pobretão.
Sentaro herdou uma pequena fortuna de seu pai e no auge de seus 32 anos de idade vivia gastando seu tempo de forma despretensiosa e sem nenhum pensamento sério sobre trabalhar.
Um belo dia e sem nenhum motivo aparente, ele começou a pensar sobre a morte e a doença que o acometeria. A ideia de cair doente ou da morte o deixou muito perturbado.
“Eu quero viver até eu ter 500 ou 600 anos pelo menos, livre de todas as doenças. A vida de um homem comum é muito curta. – disse para si mesmo ”
Ele começou a perguntar se começasse a viver de forma simples e modesta, se conseguiria prolongar sua vida do jeito que desejava.
Sentaro conhecia muitas histórias de Imperadores do passado que viveram mil anos. Também teve a Princesa de Yamato que, segundo contavam, viveu até os 500 anos de idade. Esse foi a última história de longevidade que se tinha notícia.
Sentaro tinha ouvido uma história sobre um Imperador chinês chamado Shin-no-Shiko, um dos mais poderosos e hábeis na história da China. Ele construiu todos as grandes edificações do país, incluindo a Muralha da China.
Shin-no-Shiko teve tudo o que desejou. E apesar de toda sua felicidade, do luxo e esplendor de sua corte, da sabedoria de seus conselheiros e da glória de seu reinado, se sentia miserável porque sabia que um dia morreria e deixaria tudo para trás.
Quando Shin-no-Shiko se deitava a noite, quando o dia raiava, conforme seu dia passava, pensava que a morte estava sempre ao seu lado. Ele não conseguia escapar disso. Ah, se ele pudesse ter o Elixir da Vida, como ele ficaria feliz.
O Imperador então convocou sua corte e perguntou quem entre eles seria capaz de encontrar para ele o Elixir da Vida que tinha ouvido tanto falar.
Um velho cortesão chamado Jokufu disse existir do outro lado do oceano um país chamado Horaizan e lá viviam eremitas possuidores do segredo do Elixir da Vida. Aquele que bebesse aquela poção viveria para sempre.
O Imperador ordenou para o velho Jofuku partisse para Horaizan para encontrar os eremitas e trazer com ele um frasco desse elixir mágico.
Ele entregou a Jofuku uns juncos (cestas) e os carregou com grandes quantidades de tesouros e pedras preciosas para presentear os eremitas.
Jofuku então navegou até Horaizan, mas nunca retornou para o Imperador e estava o aguardando.
Desde aquele tempo era dito que o Monte Fuji era Horaizan da fábula, lar dos eremitas e detinham o segredo do elixir. Bem como Jofuku passou a ser venerado como um deus.
A partir dessa lenda, Sentaro ficou determinado a encontrar esses eremitas, e se pudesse, se tornar um para obter a água da vida eterna.
Ele se lembrou ter ouvido falar quando criança que esses eremitas viviam no Monte Fuji, mas nos picos mais altos.
Sentaro partiu de sua velha casa e a deixou sob os cuidados de seus parentes para seguir em sua busca. Ele viajou através de todas as regiões montanhosas, subiu aos picos mais altos, mas nunca encontrou um eremita sequer.
Por fim, depois de vagar por regiões desconhecidas durante dias, Sentaro conheceu um caçador.
“Você pode me dizer onde vivem os eremitas que possuem o Elixir da Vida Eterna? – perguntou Sentaro.”
“Não. Não sei dizer onde vivem tais eremitas, mas há um notório ladrão vivendo por essa região. Dizem que ele é o chefe de um bando com mais de 200 seguires. – respondeu o caçador.”
Essa estranha resposta deixou Sentaro muito irritado. Ele pensou no quão idiota tinha sido em gastar todo aquele tempo procurando pelos tais eremitas.
Decidiu ir de uma vez até o santuário de Jofuku ao sul do Japão onde ele era adorado como uma deidade pelos eremitas.
Sentaro chegou ao santuário e rezou durante sete dias pedindo para que Jofuku mostrasse a ele o caminho para os eremitas darem a ele o que tanto desejava encontrar.
À meia-noite do sétimo dia, quando Sentaro se ajoelhou, a porta interna do santuário se abriu e Jofuku apareceu luminoso envolto de nuvens chamando Sentaro para que ele chegasse mais perto e então falou:
“Seu desejo é muito egoísta e não pode ser dado com facilidade. Você acha que gostaria de se tornar um eremita para que pudesse encontrar o Elixir da Vida. Mas você sabe o quão difícil é a vida de um eremita?Ao eremita só é permitido comer fruta, bagaços e cascas de pinheiros. Um eremita deve cortar seus laços com o mundo para seu coração se tornar mais puro do que ouro e esteja livre de todos os desejos mundanos. Depois de seguir essas regras tão restritas, gradativamente o eremita para sentir fome, frio ou calor, seu corpo se torna tão iluminado que ele pode montar em uma garça ou em uma carpa e caminhar sobre as águas sem molhar seus pés.”
“Você, Sentaro, aprecia a boa vida e todos os confortos. Você não é sequer um homem comum por ser excessivamente ocioso e por isso mais sensível ao calor e ao frio do que a maioria das pessoas. Você jamais seria capaz de caminhar a pé ou vestir uma roupa fina durante o período de inverno! Você acha que teria a paciência ou perseverança para viver a vida de um eremita?” – continuou Kofuku.
“Porém, em resposta às suas orações, vou te ajudar de outra maneira. Vou te enviar para o país da Vida Perpétua onde a morte nunca chega e onde as pessoas vivem para sempre”.
Quando terminou de falar, Jofuku colocou na mão de Sentaro uma pequena garça feita de papel, disse para ele sentar nas suas costas e a garça o levaria até lá.
Sentaro obedeceu à ordem maravilhado. A garça cresceu o suficiente para ele viajar confortavelmente. A garça bateu as suas asas, subiu alto no ar e voou para longe das montanhas em direção ao mar.
No começo Sentaro ficou muito assustado, mas aos poucos foi se acostumando com o rápido voo pelo ar.
Mil milhas já haviam se passado e nada da garça parar para descansar ou comer, mas, sendo um pássaro de papel, ele não precisaria de nada disso. Mas curiosamente, nem Sentaro precisou.
Após dias de viagem eles chegaram a um a ilha. A garça sobrevoou uma distância no interior da ilha e então pousou. Assim que Sentaro desceu das costas da garça, ela se dobrou e entrou no bolso de Sentaro.
Sentaro olhou para ele maravilhado e curioso para saber o que ver que tipo de país era o País da Vida Perpétua. Ele encontrou uma cidade após andar um pouco no novo país. Naturalmente tudo era bastante diferente de sua terra natal.
Tanto a terra quanto as pessoas pareciam ser bastante prósperas. Sentaro então decidiu ser uma boa ideia se hospedar em um hotel.
O proprietário era um homem gentil. Quando Sentado disse ser um estrangeiro que tinha ido viver no País da Vida Perpétua, o proprietário prometeu arranjar tudo o que fosse necessário com o governador da cidade sobre sua estadia por lá.
Ele até mesmo encontrou uma casa para seu convidado. E foi dessa forma que Sentaro obteve o seu maior desejo e se tornou um residente do País da Vida Perpétua. Nenhum residente da ilha lembrava de alguém que tivesse morrido lá e a doença era algo desconhecida.
Monges vindos da Índia e da China contaram sobre um belo país se chamava Paraíso, onde a felicidade, a bem-aventurança e o contentamento preenchiam o coração dos homens, mas seus portões só podem ser alcançados através da morte.
Essa tradição foi passada através das eras de geração em geração, mas ninguém sabia exatamente o que era a morte, a não ser que ela levava ao Paraíso.
Diferente de Sentaro e das pessoas comuns, em vez de sentirem pavor da morte, todos eles, fossem ricos fossem pobres, aguardavam por ela como algo bom e desejável.
Todos estavam cansados de suas vidas longas e aguardavam ansiosamente para ir para a terra da felicidade e contentamento chamada Paraíso que os monges tinham dito a séculos antes.
Foi o que Sentaro descobriu conversando com os outros após sua chegada na ilha. Depois de refletir, ele se descobriu na terra de Topsyturvydom: tudo estava de cabeças para baixo.
Ele tinha desejado escapar da morte, chegou ao País da Vida Perpétua com grande alegria e alívio apenas para descobrir que seus habitantes, condenados a nunca morrer, consideravam uma benção encontrar a morte.
Tudo o que ele até aquele momento considerava como um veneno, essas pessoas comiam como boa comida. Tudo aquilo que ele tinham se acostumado como boa comida, essas pessoas simplesmente rejeitavam.
Não importava qual mercador de outro país chegasse ao País da Vida Perpétua, as pessoas mais ricas corriam ávidas para comprar seus venenos. Eles engoliam o veneno avidamente na esperança de encontrar a morte e poder ir para o Paraíso.
Mas o que em outras terras era um veneno mortal, no País da Vida Perpétua não tinha nenhum efeito e as pessoas que os bebiam na esperança de encontrar a morte acabavam rapidamente se sentimento melhor de saúde em vez de pior.
Eles tentavam em vão imaginar como a seria morte. Os ricos dariam todo o seu dinheiro e seus bens se pudessem encurtar sua vida em 200 ou 300 anos. Sem nenhuma mudança, viver para sempre parecia algo triste e cansativo para os habitantes do País da Vida Perpétua.
Nas farmácias existia um remédio constantemente demandado. Após consumi-lo por 100 anos, os cabelos supostamente começavam a ficar levemente cinzentos e trazia algum desconforto estomacal.
Sentaro ficou chocado ao descobrir que veneno de baiacu era servido nos restaurantes como um prato delicioso e os vendedores ambulantes vendiam molho de mosca espanhola. Ele nunca viu uma pessoa sequer ficar doente depois de comer essas coisas horríveis nem ninguém com um mísero resfriado.
Sentaro ficou encantado. Disse para si mesmo que nunca ficaria cansado de viver e considerava profano esse desejo de morte. Ele acabou se tornando o homem mais feliz da ilha por conseguir o que queria, viver mil anos e aproveitar a vida.
Decidiu abrir um negócio e nunca nem passou pela sua cabeça voltar para sua terra natal. Porém, com o passar dos anos, as coisas não estavam indo tão bem assim. Ele teve pesadas perdas nos negócios e por diversas vezes os assuntos com seus vizinhos davam errado, o que lhe causava grande aborrecimento.
Para ele o tempo passava voando como uma flecha, sempre ocupado da manhã até a noite. 300 anos se passaram dessa monotonia e finalmente começou a crescer um cansaço de viver nesse país. Esse sentimento o fez querer ver sua terra e sua velha casa.
Porém, quantos anos ele tinha vivido nesse lugar? Porém, a vida é sempre um jogo a ser jogado, então não seria uma tolice, além de ser cansativo, viver ali?
Sentaro desejou escapar do País da Vida Perpetua e lembrou de Jofuku que o ajudou anteriormente quando ele desejou escapar da morte. Então ele rezou para que o santo o levasse de volta a sua terra natal.
Mesmo antes de terminar de orar para Jofuku, a garça de papel pulou de seu bolso. Sentaro ficou impressionado ao vê-lo intacto durante todos aqueles anos.
Mais uma vez a garça cresceu até que ele pudesse montar nela. E assim ele fez. A garça bateu suas asas e voou rumo ao mar em direção ao Japão.
A natureza teimosa do ser humano falou mais alto e Sentaro olhou para trás se arrependendo do que ele tinha deixado para trás. Ele tentou parar a garça em vão. Ela já tinha voado mais de mil milhas oceano adentro.
De repente surgiu uma tempestade e a garça de papel ficou úmida, amassada e caiu no oceano. Sentaro caiu junto. Assustado com o pensamento de se afogar chorou em alto e bom som para que Jofuku o salvasse.
Ele olhou ao redor, mas não havia nenhuma embarcação por perto. Ele tinha engolido bastante água do mar, deixou sua situação miserável ainda pior. Enquanto ele lutava para se manter boiando, viu um tubarão monstruoso vindo em sua direção.
Conforme o tubarão se aproximava com sua enorme boca aberta para devorá-lo, Sentaro ficou completamente paralisado pelo medo e sentiu que o fim estava próximo e gritou o mais alto que pôde para que Jofuku viesse em seu resgate.
Eis que Sentaro acordou com seu próprio grito. Ele se deu conta de que tinha dormido no santuário enquanto fazia suas longas orações e todas as suas extraordinárias e assustadoras aventuras tinham sido apenas um sonho maluco.
Sentaro suava frio de pavor e estava completamente perplexo. De repente uma luz brilhante veio em sua direção. Havia um mensageiro na luz carregando um livro nas mãos. O mensageiro disse para Sentaro:
“Fui enviado por Jofuku que respondeu às suas preces e permitiu que você visse nos seus sonhos a terra da Vida Perpétua. Mas cresceu em você o cansaço de viver lá e você implorou para que ele permitisse o seu retorno a sua terra natal onde você poderia morrer. Jofuku, para te testar, permitiu que você caísse no oceano e que um tubarão viesse te engolir. Seu desejo de morrer não era real, mesmo naquele momento você chorou e gritou por ajuda.”
- “Também é vão o seu desejo de se tornar um eremita, ou encontrar o Elixir da Vida Eterna. Essas coisas não são para você, sua vida não é austera. O melhor que você pode fazer é voltar para a casa de seus pais e viver uma vida boa, diligente e laboriosa. Nunca deixe de celebrar o aniversário de seus ancestrais e tenha um ofício que provenha seus filhos no futuro. Dessa forma você viver muitos anos e será feliz, mas desista do desejo vazio de escapar da morte porque nenhum homem pode fazer isso, e você já deve ter percebido que mesmo que você consiga realizar seu desejo egoísta, ele não te trará felicidade. – continuou o mensageiro.”
“Nesse livro que estou te dando há muitos bons preceitos para você aprender. Se você estudá-los, eles te guiarão no caminho que eu apontei para você. – concluiu o mensageiro”.
Aquela imagem angelical desapareceu assim que terminou de falar e Sentaro tomou essas palavras no coração.
Com o livro em mãos retornou para sua velha casa, abriu mão de todos os seus desejos vazios, tentou viver uma vida boa e útil, e observou as lições do livro. E assim, Sentaro e sua casa prosperaram doravante.
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