Como em muitas lendas folclóricas do Japão, a lenda da princesa de Hase, Hase-Hime Monogatari, é baseado em personagens reais que fizeram parte da história política e cultural do país.
Hase-Hime, também chamada de Chūjō-Hime, nasceu em 30 de setembro de 747 e morreu aos 27 anos no dia 22 de abril de 775. Há também a hipótese de que ela tenha vivido entre 753 e 781.

O kanji ‘chū’, “中”, também é pronunciado como ‘naka’ que tem o significado de conectar os kami (e Buddha) com os seres humanos.
Cinderela japonesa, filha de Udaijin
Foi filha do Udaijin (“右大臣”, Ministro da Direita, ou segundo ministro) Fujiwara no Toyonari (704 – 765) e é comparada como a Cinderela japonesa.
Embora o conto não informe quem era o Imperador do Japão durante o período em que o conto acontece, provavelmente se trate do Imperador Junnin que sucedeu a Imperatriz Kōken e que reinou de 758, ano em que Hase-Hime tinha 12 anos, até 764.
Outra personalidade citada no conto é Ono no Komachi (825 – 900), considerada como a sexta maior poeta do estilo Waka.
Ela está ao lado dos 36 poetas imortais do Japão e incontestavelmente a mais brilhante poeta de seu tempo.

Além de sofisticada poesia, Komachi era considerada a mulher mais bela do Japão e um símbolo da beleza feminina, qualidades também atribuídas a Hase-Hime, uma espécie de modelo para mulheres japonesas.
Como se trata de uma lenda folclórica antiga, há mais de uma versão para a história. Em algumas dela, ela se torna uma freira no templo Taima-dera em Nara sob o nome de Zenshin-ni ou Dharma Honyo.

Em outra versão, Hase-Hime foge por lamentar a degradação que seu pai vivia. A versão de Hase-hime Monogatari: a lenda da princesa de Hase apresentada a seguir foi traduzida por Yei Theodora Ozaki do japonês para o inglês, e do inglês para o português pelo portal Japão Real.
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Hase-hime Monogatari: a lenda da princesa de Hase
Há muitos e muitos anos atrás, na antiga capital do Japão, Nara, viveu um sábio ministro de estado: o príncipe Fujiwara no Toyonari. Sua esposa era uma mulher nobre, gentil e bela, era chamada de princesa Murasaki (violeta).
O casamento entre Toyonari e Murasaki ocorreu de acordo com as tradições japonesas, as famílias arranjaram a união entre eles desde que eram crianças, e desde então, o casal viveu uma vida feliz.

Apesar da felicidade, havia algo que gerava grande lamento ao casal. Durante muitos anos o casal vinha tentando gerar uma criança, mas nenhuma gravidez chegava. A falta de uma criança era causa de grande tristeza de ambos.
Eles imaginavam ver a criança crescendo até a vida adulta, carregando o nome da família para as futuras gerações e manter os ritos em homenagem aos antepassados quando estes morressem.
Peregrinação ao templo Hase-no-Kannon
Depois de muitas conversas e reflexões, o principe Tonoyari e sua adorável esposa, a princesa Murasaki, decidiram realizar uma peregrinação até o templo de Hase-no-Kannon (deidade de misericórdia de Hase).

O casal tinha fé na deidade, acreditavam nas belezas das tradições de sua religião e que a Mãe da Misericórdia, Kaannon, surgisse com respostas as preces dos mortais na forma como eles mais precisassem.
Súplicas atendidas e a criança nasce
Depois de tantos anos de súplicas e orações a deusa, ela surgiria para eles na forma de uma criança amada como resposta à peregrinação do casal, afinal, era a maior necessidade que eles tinham em suas vidas.
Todo mais que a vida poderia oferecer estava à disposição, mas era como se não fossem nada, pois seus corações choravam de insatisfação.
Fujiwara no Toyonari e sua esposa Murasaki foram ao templo Hase Kannon e por lá permaneceram por um longo período.
Todos os dias foram oferecidos incensos e oração a Kannon, a Mãe Celestial, que realizasse o desejo de suas vidas. E as preces foram atendidas.

Finalmente a princesa Murasaki deu à luz à uma filha, um nascimento que encheu os corações de alegria.
Hase-hime
Murasaki apresentou a menina a seu marido e ambos decidiram chamá-la de Hase-Hime, a Princesa de Hase, pois ela era um presente do próprio templo Hase Kannon.
Murasaki e Toyonari cuidaram de Hase-Hime com atenção e ternura que crescia em força e beleza.
Cinco anos e a doença da mãe
Mas, quando a pequena princesa atingiu os cinco anos de idade, sua mãe, Murasaki, ficou gravemente doente. Os médicos disseram que a medicina não poderia salvá-la.
Instantes antes de seus últimos suspiros, Murasaki chamou por sua filha, gentilmente acariciou seu rosto e disse:
– Hase-Hime, você sabe sua mãe não poderá viver por muito mais tempo. Depois que eu morrer, você deve crescer e se tornar uma boa menina. Dê o seu melhor para não dar problemas nem a sua criada, nem aos familiares. Pode ser que seu pai case novamente e alguém assuma o meu lugar como sua mãe. E se isso acontecer, não lamente por mim, em vez disso, olhe para a segunda esposa de seu pai como sua mãe legítima, seja obediente e leal ao seu pai e sua nova esposa. Quando crescer, não esqueça de ser submissa aqueles que são superiores a você, e sempre seja gentil com aqueles que estão abaixo de você. Não se esqueça disso. Partirei com a esperança de que você se torne uma mulher exemplar.
Hase-Hime ouviu as palavras de sua mãe com muito respeito e prometeu que faria tudo o que lhe fora dito.
Há um provérbio que diz “Mitsugo no tamashii hyaku made” (“三つ子の魂百まで”, A alma de uma criança de três anos é a mesma até seus 100 anos).
Se torna uma princesa bondosa e obediente
Logo, Hase-Hime cresceu como sua mãe desejou, uma princesa bondosa e obediente, apesar de ser muito nova para entender o tamanho da perda que foi a morte de sua mãe.

A nova esposa cruel
Não muito tempo depois da morte da princesa Murasaki, Fujiwara no Toyonari casou novamente, desta vez com uma nobre com nome de princesa Terute. E de caráter muito diferente, diga-se.
Tão doce e sábia era Murasaki, mas essa mulher era cruel, tinha um coração sombrio.
Além de não amar sua enteada, era comum que tratasse a garota órfã de mãe de maneira desagradável, dizendo para ela:
– Isso não é filha minha! Isso não é minha filha!
Apesar disso, Hase-Hime suportou todas as grosserias com paciência, a aguardava por ela com gentileza, obedecia a todas as suas ordens e nunca deu nenhum problema a ela, da forma como ela foi treinada por sua mãe para ser. Por isso, Lady Terute não tinha do que reclamar da princesa Hase-Hime.
Estudiosa e musicista
A pequena princesa era muito diligente, seus estudos favoritos eram a música e a poesia.
Grande tocadora de arpa
Ela era capaz de passar horas a fio praticando todos os dias. Seu pai, Toyonari era o melhor e mais proficiente mestre para ensiná-la o Koto (arpa japonesa), a arte da caligrafia e versos de poesia.
Hase-hime foi tocar para o Imperador
Quando tinha apenas 12 anos, Hase-Hime tocava tão bem o koto que ela e sua madrasta eram convocadas para se apresentarem diretamente ao Imperador durante o Hanami, um evento de grande festividade na Corte.

O Imperador também caiu nos deleites da ocasião, desta feita, ordenou que a princesa Hase-Hime tocasse koto diante dele, e que sua madrasta deveria acompanhá-la com a flauta.
O Imperador tomou seu lugar, um estrado elevado com uma fina cortina de bambu enfeitadas com borlas roxas e que permitia a Sua Majestade visse tudo, mas não pudesse ser visto por ninguém, pois a nenhum súdito comum era permitido olhar para a face sagrada do Imperador.
Embora ainda muito jovem, Hase-Hime era uma habilidosa musicista que comumente deixava seus tutores atônitos com sua notável memória e talento. E na apresentação para o Imperador, a jovem princesa tocou muito bem.

Sua madrasta, por outro lado, a princesa Terute não foi capaz de acompanhar e teve de pedir para outra mulher da corte tomar o seu lugar, pois Terute era preguiçosa e nunca se preocupava em praticar o instrumento diariamente.
Fúria e inveja tomam conta de Terute
Este foi um momento de grande desgraça na vida de Terute, se encheu de fúria e inveja por ter falhado onde sua enteada obteve sucesso.
Sua ira só piorou quando o Imperador enviou vários presentes para a princesa Hase-Hime como recompensa por ter tocado em seu Palácio.
Rancor e a decisão
Existia outra grande fonte de ódio da madrasta em relação a sua enteada. Terute teve um menino com Fujiwara no Toyonari, e no fundo de seu coração dizia para si mesma de novo e de novo:
– Se ao menos Hase-Hime não estivesse aqui, meu filho teria toda a atenção e amor de seu pai.
Sem se dar ao trabalho de se conter, Terute permitiu que aquele pensamento doentio crescesse em um terrível desejo de tirar a vida de sua enteada.
O vinho envenenado
Um dia o desejo criou e vida e Terute ordenou em segredo que envenenassem uma pouco de vinho doce. Ela colocou o vinho envenenado em uma garrafa e um vinho sem veneno em uma garrafa igual.

A ocasião era o festival Tango no Sekku (“端午の節句”, Dia dos Meninos no Japão moderno) e Hase-Hime brincava com seu pequeno irmão.
Irmãos se divertiam
Em meio aos brinquedos de guerreiros e heróis espalhados por todos os lados, Hase-Hime contava histórias incríveis sobre cada um deles.
Terute leva bolo e vinho
Os irmãos se divertiam alegremente quando a princesa Terute chegou trazendo bolo e vinho.
– Vocês dois são tão bonzinhos e felizes. – disse Terute aos irmãos com um sorriso no rosto. Trouxe um pouco de vinho e bolos deliciosos como recompensa para minhas crianças.
Terute então encheu dois copos de vinho, um com veneno e outro sem. Nunca passou pela cabeça de Hase-Hime que sua madrasta pudesse conceber uma ideia tão perversa como a que ela agora executava.
Hase-Hime pegou um dos copos de vinho e deu para seu pequeno irmão e pegou o outro que tinha sido servido para ele.
Serve vinho com veneno para o filho
A rancorosa mulher tinha marcado com cuidado qual era a garrafa de vinho com veneno, mas foi ficando ansiosa na hora de servi-lo, e em sua desatenção acabou servindo o veneno para seu próprio filho sem perceber.
Terute observava as reações de Hase-Hime com ansiedade, mas para sua surpresa, nenhuma mudança no rosto da jovem acontecia. De repente, o garoto gritou e se atirou no chão se contorcendo de dor.

A mãe do garoto voou em sua direção, mas ao mesmo tempo, teve o cuidado de virar as duas jarras que ela trouxe para o quarto.
O menino morre
Terute levantou seu filho, os servos correram atrás de um médico, mas nada poderia salvá-lo. Ele morreu nos braços de sua mãe depois de uma hora.
Os médicos da época não entendiam tanto como hoje em dia, então acharam que o vinho fez mal ao garoto causando convulsões que o levaram a morte.
A perversa mulher fora punida com a morte do próprio filho ao atentar contra a vida da enteada.
Ódio começou a crescer
Mas, em vez de culpar a si mesmo, a princesa Terute passou a odiar Hase-Hime como nunca, e com toda a amargura e miséria de seu coração.
Ela aguardou ansiosamente por uma oportunidade para fazer mal a Hase-Hime, oportunidade essa que demorou a chegar.
Aos 13 anos, uma poetisa
Quando Hase-Hime tinha 13 anos, já era mencionada como uma poetisa com algum mérito. Este era um elogio muito estimado pelas mulheres do antigo Japão e tido na mais alta estima de sua época.
Chuva em Nara
É temporada de chuva em Nara e as enchentes e seus danos na vizinhança são reportadas diariamente.
O urro das águas torrenciais que transbordavam as margens do rio Tatsua, que corre pelo terreno do Palácio Imperial, não deu paz ao Imperador ao longo do dia e da noite.

Como resultado, o Imperador teve um distúrbio nervoso. Um decreto Imperial foi emitido a todos os templos do país para que os monges orassem aos Céus para que os barulhos das enchentes cessassem. Mas isso não adiantou.
Poetisa mais talentosa poderia cessar a chuva
De repente, começou a correr um murmúrio na corte Imperial que a princesa Hase-Hime, filha do Udaijin, Fujiwara no Toyonari, era a poetisa mais talentosa de sua época apesar de ser tão jovem, boatos esses confirmados pelos próprios mestres de Hase-Hime.
Há muito tempo atrás, uma bela e talentosa donzela poetisa foi capaz de mover os Céus orando em versos fazendo com que chovesse em uma terra seca e estéril. Assim diziam os antigos biógrafos da poetisa Ono no Komachi.
Se a princesa Hase-Hime escrevesse um poema e o oferecesse em oração aos Céus, talvez fosse possível que ela também conseguisse mover os Céus acabando com aquela enchente que se tornou a causa da mazela Imperial.
Imperador manda Hase-Hime escrever poema
Os múrmuros sobre o talento de Hase-Hime eventualmente chegaram ao conhecimento do Imperador que ordenou a seu ministro, Fujiwara no Toyonari, que ordenasse que sua filha realizasse a sugestão que corria pela Corte.

Hase-Hime ficou atônita quando Toyonari contou o que o Imperador havia solicitado.
Um grande fardo pairava sob seus jovens ombros: salvar a vida do Imperador pelo mérito da qualidade de sua poesia. Grande foi o medo que a princesa Hase-Hime sentiu ante sua responsabilidade.
Poema em folheto
Ao final daquele dia ela concluiu o poema que foi escrito em um folheto de papel sapecado em pó de ouro.
Em companhia de seu pai, servos e alguns oficiais da Corte, Hase-Hime se dirigiu até a margem que rugia com a torrente de água e elevou seu coração aos Céus.
Declamou em voz alta
Hase-Hime leu o poema que compôs em voz alta, elevando-o aos campos celestiais com suas duas mãos em oração. De repente, algo incomum aconteceu e foi notado por todos que estavam junto naquele momento.
Imperador se acalma
A água do rio cheio parou de rugir e ele passou a correr em silêncio em resposta dos Céus as preces de Hase-Hime. Pouco tempo depois o Imperador se recuperou do mal que o afligia.
Hase-hime vira tenente-general
O Imperador ficou muito satisfeito com a jovem poetisa, e como recompensa por seus feitos recebeu do Palácio Imperial o título de Chūjō (“中将”, tenente-general) para distingui-la.
Daquele momento em diante, Hase-Hime passou a ser chamada de Chūjō-Hime (中将姫), a Princesa Tenente-general.
Chūjō-Hime foi respeitada e amada por todos. Porém, havia uma pessoa que não estava nada satisfeita com o sucesso de Chūjō-Hime: a princesa Terute, sua madrasta.

Madrasta invejosa e mentirosa
Sempre remoendo a morte de seu filho que ela mesma causou quando tentou matar sua enteada com veneno, se mortificava ao ver a ascensão de poder e honra de Chūjō-Hime que tinha sob si a marca do favor Imperial e da admiração de toda a Corte.
A inveja e o ciúme queimavam seu coração como fogo. Foram muitas as mentiras que ela disse a seu marido, Fujiwara no Toyonari, sobre a enteada, mas foi tudo em vão. Toyonari não ouvia suas histórias, além disso, a admoestava dizendo que ela estava completamente enganada.
A oportunidade para vingança
Mas finalmente chegou o dia em que a princesa Terute encontrou a oportunidade perfeita de se vingar de Chūjō-Hime durante um período de ausência de seu marido.
A ordem de assassinato
Ela ordenou que um de seus servos levassem a princesa para as Montanhas de Hibari, a região mais selvagem do país e a matasse lá.
Ela inventou uma história para a pequena princesa dizendo que era a única forma de evitar que uma desgraça caísse sobre a família – matando Chūjō-Hime.
A tarefa ficou a cargo de Katoda, um de seus vassalos, e como tal, era obrigado a obedecer a princesa Terute.
No entanto, Katoda ponderou que seria mais sábio fingir que iria cumprir a ordem recebida durante essa ausência de Fujiwara no Toyonari.

Katoda colocou Chūjō-Hime em uma liteira e acompanhou até a região mais distante daquele distrito tão inexplorado.
Chūjō-Hime sabia que não seria capaz de protestar contra sua madrasta por mandá-la para tão distante de forma tão estranha, então, fez como foi ordenada.
Injustiça e a decisão de salvar a princesa
Embora obrigado a ordem que lhe fora dada, Katoda sabia que Chūjō-Hime era inocente de todas as razões que a princesa Terute inventou para ele quando deu a ultrajante ordem, e por isso, estava empenhado em salvar a vida da jovem princesa.
Mas, a menos que Katoda matasse a princesa Chūjō-Hime, ele não poderia retornar para sua suserana, por isso decidiu permanecer naquela região selvagem.
Com a ajuda de alguns camponeses construiu uma pequena cabana e entrou em contato com sua esposa para que ela fosse de encontro a ele.

Katoda e sua esposa deram o melhor que tinham a oferecer para cuidar da pequena Chūjō-Hime.
A princesa não deixou de confiar em seu pai nem por um segundo, sabia que voltaria logo para casa. Assim que seu pai não a encontrasse quando voltasse, ordenaria uma busca.
Quando Fujiwara no Toyonari finalmente voltou para casa, sua esposa, a princesa Terute, disse-lhe que Chūjō-Hime tinha feito algo errado e fugiu por medo da punição que receberia por seus atos.
O desaparecimento da princesa
Toyonari estava prestes a ter uma crise de ansiedade. Todos os servos da casa também diziam a mesma coisa: que a princesa tinha desaparecido. Ninguém sabia o motivo e nem para onde a jovem Chūjō-Hime tinha ido.
Fujiwara no Toyonari era Udaijin, o segundo ministro da Corte Imperial, não poderia se dar ao luxo de criar um escândalo envolvendo-o e sua família.
Começam as buscas
Toyonari manteve a discrição enquanto mantou procurá-la em todos os lugares em que pôde pensar, mas foi tudo em vão.
Um dia, tentando esquecer por um momento de sua terrível aflição, Toyonari convocou todos os seus homens e disse para que se preparassem para passar alguns dias nas montanhas para caçarem.
Todos logo se aprontaram, montaram em seus cavalos e aguardaram por seu lorde no portão. Toyonari cavalgou velozmente em direção ao distrito das Montanhas Hibari com uma grande comitiva o acompanhando.

A casa na colina
Muito à frente de seus vassalos, Toyonari se viu em um estreito vale pitoresco. Observando admirado o cenário ao seu redor, percebeu uma pequena casa em uma colina próxima e escutou uma linda voz lendo em voz alta.
Ficou curioso para saber quem estava estudando de forma tão diligente em um lugar tão remoto como aquele.
Desceu de seu cavalo deixando-o para seu cavalariço e caminhou colina acima até se aproximar da cabana.
E quanto mais perto ficava da cabana, mais sua curiosidade aumentava, ele sabia que a leitora era uma linda garota. A cabana estava aberta e ela estava sentada contemplando sua visão.
Toyonari afinou seus ouvidos e percebeu que se tratava das escrituras sagradas do budismo, mas sendo lida com grande devoção. Cada vez mais curioso foi entrando, abriu o pequeno portão e entrou pelo pequeno jardim.
Foi então que viu sua amada filha, Hase-Hime. Chūjō-Hime estava tão compenetrada no que estava fazendo que não viu nem ouviu seu pai chegar até que ele dizer alguma coisa.
– Hase-Hime! – chorava Toyonari. É você, minha Hase-Hime!
Chūjō-Hime foi pega de surpresa, quase não se deu conta de que era seu amado pai que a chamava, e por um momento ela não conseguia nem falar, nem se mover.
– Meu pai, meu pai! É você de verdade! Oh, meu pai!
Foram as únicas palavras que ela conseguia dizer enquanto corria em sua direção, agarrou a manga de seu kimono e enterrou seu rosto no peito de seu pai aos prantos.

Toyonari acariciou seus cabelos pretos e perguntou com gentileza a ela o que tinha acontecido, mas Chūjō-Hime só conseguia chorar e se perguntar se tudo aquilo não era um sonho.
De repente, Katoda, o fiel e leal vassalo de Fujiwara no Toyonari surgiu, curvou-se ao chão diante de seu suserano e lhe disse toda a fábula macabra que lhe ocorrera, contou tudo o que aconteceu e como ele foi encontrar sua filha em uma região tão desolada com apenas dois servos para cuidar dela.
O espanto e a indignação de Fujiwara no Toyonari não tinha limites ao ouvir o que seu vassalo, Katoda, acabara de lhe contar.
O retorno
Toyonari desistiu da caça e decidiu voltar para casa o mais rápido possível para levar de volta sua amada filha.
Um dos vassalos que acompanhava a caçada do príncipe e ministro da Corte Imperial voltou mais rápido que todos para dar as boas notícias na casa de Toyonari.
Terute se desespera e foge
A princesa Terute se desesperou ao ouvir a notícia e temeu encontrar seu marido agora que ele descobriu ação perversa.
Terute então fugiu, voltou para o teto de seu pai em desgraça e nunca mais se ouviu falar nela.
Katoda foi promovido a mais alta patente por serviços prestados a seu mestre e viveu uma vida feliz até seus últimos dias e devoto da pequena princesa, e ela por sua vez, nunca esqueceu que sua vida foi salva por seu fiel protetor.
Chūjō-Hime nunca mais teve problemas com madrastas e passou seus dias feliz ao lado de seu pai.
Como Fujiwara no Toyonari não tinha nenhum filho, adotou um nobre jovem da corte como seu filho e ele se casou com Hase-Hime.
Chūjō-Hime teve uma boa vida até sua velhice. Ela foi considerada como a mais sábia, mais devota e a mais bela senhora que reinou desde os ancestrais da família de Fujiwara no Toyonari.
Ela teve a felicidade de apresentar seu filho, o futuro Lorde do clã Fujiwara, a seu pai antes dele se aposentar da vida pública.

E até hoje há um pedaço de bordado preservado em um dos templos budistas de Kyoto.
É um belo pedaço de tapeçaria com a figura de Buddha bordado em fios de seda retirados de caules de flores de lótus. Acredita-se que tenha sido feito pelas mãos da princesa de Hase.


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