Para os brasileiros, tomar banho é sagrado. Pelo menos um banho por dia, quando não vários a depender do calor e do clima. Já a cultura de banho no Japão, uma das paixões que une Brasil e Japão, tem suas razões particulares.
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A cultura de banho no Japão é muito forte e tem raízes milenares que perduram até os dias atuais
Locais públicos para banhos como Sentō (銭湯) e Onsen (温泉) são parte da cultura japonesa pelo menos desde o período Nara (710 – 794) e podem ser ligados tanto em tradições budistas, quanto nas tradições do Shintō.
Para além da limpeza do corpo, a cultura de banho no Japão também está ligada a purificação da alma, uma purificação espiritual vinculada ao mito de criação da cosmologia Shintō quando Izanagi retorna do mundo dos mortos e se lava no lendário rio Tachibana.
Ritual de purificação de Izanagi no lendário rio Tachibana após visitar sua amada esposa, Izanami, o reino dos mortos, Yomi
Desde a era Meiji (1868 – 1912), a cultura de banho também tomou conotações políticas e ideológicas com o imaginário de um povo japonês limpo e moralmente virtuoso. Continue acompanhando e saiba mais.
A cultura de banho no Japão
A cultura de banho no Japão começou a ganhar força na metade do século VI com o estabelecimento do budismo e a propagação de templos pelo país com locais para banhos que serviam tanto aos monges quanto aos visitantes.
A cultura de banho no Japão foi ampliada com a chegada do budismo no país nos templos que disponibilizavam banhos aos monges e aos peregrinos. Ukiyo-e Perspectivas do templo Kinryzûzan Temple de Utagawa Toyoharu (1735 – 1814)
Os visitantes que tomavam banho nos templos faziam doações, o que lhes rendiam uma espécie de mérito por doar ao templo de Buda.
Fato é, que com o passar do tempo, os locais de banho começaram a se espalhar. Casas de banho comerciais começaram a surgir no país com seu auge durante o período Edo (1603 – 1868).
O primeiro Sentō, casa de banho, de Edo, atual Tokyo, foi inaugurado em 1591. Registros históricos apontam que havia pelo menos um Sentō em todos os distritos da capital shogunal até o final do século XVI.
Casas de banho começaram a se popularizar no Japão na segunda metade do século XVI com pelo menos um Sentō em cada distrito da capital shogunal
É compreensível que tantas casas de banho tenham surgido na capital shogunal. Edo era basicamente uma vila de pescadores desconhecida até 1457 para se tornar a primeira metrópole com mais de um milhão de habitantes em 1721, a maior cidade do mundo naquele tempo.
A cultura de banho por necessidade
O período Edo foi o período mais pacífico que o Japão passou. Foram mais de 250 anos sem grandes conturbações. Com o fim das guerras do período Sengoku (1467 – 1615), o Japão passou por grandes transformações.
Com a pacificação da era Edo, a capital Shogunal, Edo, e outras grandes cidades passaram por grandes transformações urbanas e de infraestrutura. Ukiyo-e intitulado Honjo Tatekawa de Katsushika Hokusai (1760 – 1849)
Essas transformações não se limitaram a esfera social e cultural, as cidades japonesas passaram por um período de desenvolvimento urbano. Em suma, grandes cidades como Edo, Osaka e Kyoto se tornaram um grande canteiro de obras.
Com a expansão das cidades, obras de infraestrutura e urbanização dos grandes centros, uma multidão de trabalhadores de pequenas cidades e vilarejos japoneses começaram a migrar para as cidades e trabalhar nesses projetos.
Com as contruções urbanas a todo o vapor nas grandes cidades houve um intenso fluxo migratório de trabalhadores das pequenas vilas para os grandes centros
As casas de banho que naquele tempo eram conhecidas como Yuya (湯屋), locais que ofereciam banhos a vapor (o mais comum daquele tempo) serviam aos trabalhadores braçais da construção civil, que após o dia de trabalho iam aos Yuya para se sentirem limpos e refrescados.
Nem todos eram adeptos da cultura de banho
Na metade do período Edo, Kaibara Ekiken, um estudioso neo-Confucionista escreveu o Yōjōkun, um guia de saúde que alertava sobre os riscos do excesso de banhos. Segundo a teoria de Ekiken, banhos quentes exauriam a energia vital, o Ki.
Kaobara Ekiken (1630 – 1714), filósofo e botânico neoconfuncionista autor de Yōjōkun (Livro do Caminho da Saúde)
Independentemente da veracidade ou não das afirmações de Ekiken, sua obra permite ao menos concluir que as pessoas durante o tempo em que o Yōjōkun foi escrito (o livro foi lançado em 1713) tomavam banho em quantidade suficiente para levantar preocupações de alguns.
As casas de banho Zakuroguchi
No mesmo período em que foi lançado o Yōjōkun, também surgiram as casas de banho no estilo Zakuroguchi (柘榴口).
Casas de banho no estilo Zakuroguchi fornecia vapor aos frequentadores, alé de um local para ficar imerso na água (que não era trocada com frequência)
Esse tipo de Sentō tinha uma partição de madeira que dividiam onde as pessoas se lavavam e onde as pessoas emergiam na água.
A entrada era baixa para evitar que o vapor se dissipasse e obrigava seus visitantes a entrarem abaixados.
Esse tipo de Sentō era escuro e por isso seus frequentadores não percebiam se havia algo boiando na água em que eles se banhavam.
Planta de um Zakuroguchi, confira
1: “Doma”, entrade de terra batida;
2: Atendimento do banho;
3: Local para troca de roupas;
4: Áreas para se lavar;
5: Entrada para o banho de vapor Zakuroguchi;
6: Local de banho
Apesar do Zakuroguchi ser uma casa de banho com água, isso não quer dizer que esses Sentō eram abastecidos por água encanada, ou seja, a troca de água desses estabelecimentos não eram realizadas com frequência.
Regras das casas de banho da era Edo
A cultura de banho no Japão foi bastante curiosa ao longo do período Edo. As casas de banho de seu tempo, as Yuya, normalmente atendia a homens e mulheres simultaneamente, não existia uma separação por gênero para os antigos Sentō.
Antes da promulgação da Kansei no Kaikaku a partir de 1787, as casas de banho atendiam homens e mulheres no mesmo espaço. Essa prática só acabou efetivamente durante a era Meiji
Foi somente durante a Kansei no Kaikaku (寛政の改革), um conjunto de leis adotadas entre 1787 e 1793 para reforma econômica e políticas reacionárias formuladas por Matsudaira Sadanobu, conselheiro do shogunato, que os banhos mistos foram banidos no Japão.
A professora da Ritsumeikan University, Kawabata Miki, especialista em história da higiênica pública, diz que muitos estudiosos acreditam que o banimento do uso misto de gêneros nas casas de banho tinha como objetivo controlar a população pobre que viviam nas periferias dos grandes centros.
Kawabata Miki, especialista em história da higiênica pública e autora do livro Seiketsu Na Kokumin Wa Ika Ni Umareta Ka (Banho e Patriotismo: Como Nasceu as “Pessoas Higiênicas)
A ideia era que as autoridades do shogunato utilizassem as casas de banho como instrumento para monitorar elementos, que lideravam protestos violentos quando as colheitas de arroz eram parcas ou quando havia racionamento do grão.
A cultura do banho no Japão encontra o ocidente
Após a abertura forçada do Japão para o comércio com as potências imperiais do ocidente pelo comodoro Matthew Perry em 1853, o Tratado de Kanagawa de 1854 e o Tratado de Harris de 1858, a presença ocidental no Japão explodiu.
Após a abertura do Japão, a presença das potências ocidentais no país explodiu
Nesse encontro entre civilizações tão diferentes a partir da segunda metade do século XIX, os ocidentais ficaram admirados com o hábito dos japoneses em tomarem banhos diários, uma marca de limpeza e higiene.
Por outro lado, ficaram escandalizados com a normalização da nudez e da prática das casas de banho receberem homens e mulheres simultaneamente. Esse desconforto ocidental ajudou na implementação de novas reformas.
O governo de Tokyo decretou em 1879 a Yuya Torishimari Kisoku, uma lei que estabelecia regulações para casas de banho que exigiam para seu funcionamento uma licença, regras para a prevenção de incêndios e a proibição de banhos mistos.
Somente após a decretação da Yuya Torishimari Kisoku que as casas de banho aboliram definitivamente o público misto
Legislações semelhantes foram adotadas em todo o país até o final da era Meiji com as casas de banho sendo monitoradas pela polícia. A partir daí os Sentō começaram a ser modernizados tanto em sua estrutura física quanto na sua gestão.
A cultura do banho para o corpo e a mente
Para além do hábito da higiene diária, também existe a cultura de lavar o corpo, a mente e o espírito que é tão antiga quanto a própria cultura de banho no Japão. A professora Kawabata Miki cita os três séculos do Japão a partir do período Edo.
A higiene pessoal, o hábito de tomar banho e a manutenção da limpeza é uma característica milenar da sociedade japonesa
“A medida em que a cultura se desenvolveu ao longo dos três séculos do período Edo, o ato de tomar banho foi se aproximando da ideia da limpeza espiritual e da purificação.”, Kawabata Miki.
A obra Kengu Irigomi Sentō Shinwa (“賢愚湊銭湯新話”, Sabedoria e Loucura Misturadas em Novos Contos das Casas de Banho) de Santō Kyōden publicado em 1802 retrata, entre outras coisas, o hábito das pessoas de se juntarem às casas de banho durante o fim do ano.
Ilustração do livro Kengu Irigomi Sentō Shinwa
Essas pessoas se encontravam para lavar tudo o que acumularam ao longo dos 12 meses do ano, limpar o corpo, purificar a mente e lavar o espírito dos apegos e desejos mundanos. Há diversos rituais, eventos e festivais religiosos no Japão desse tipo.
A cultura do banho do Japão na era Meiji
Com a modernização do Japão e a nova construção da identidade japonesa dentro de um mundo disputado por grandes potências imperiais, a cultura do banho passou a ser visto como uma virtude moral da nação japonesa.
A cultura do banho no Japão foi utilizado pelo governo Meiji como uma característica de superioridade racial e social em relação as nações vizinhas e as potências ocidentais
Durante esse período da segunda metade do século XIX tudo era motivo de distinção. Um exemplo curioso é o esporte.
Nações que tinham esportes coletivos eram consideradas superior às nações que não tinham. Foi assim que o baseball se tornou tão importante e popular no Japão.
“Na virada do século XX você começava a ver um certo tipo de discurso: as pessoas começaram a clamar orgulhosamente do Japão possuir a tradição de tomar banho desde os tempos ancestrais, que os japoneses de todas as classes sociais e tomavam banho regularmente enquanto que no ocidente, mesmo as classes mais altas só tomavam banho de vez em quando, e assim por diante. Tomar banho era essencialmente visto como algo inerentemente positivo, e o costume japonês refletia no fato de que eles eram um povo limpo e higiênico único.”, Kawabata Miki.
A cultura do banho foi compreendido como inerentemente positivo e um traço que distinguia o povo japonês das outras nações
Esse pensamento ganhou força com as vitórias militares que o Japão conquistou contra a dinastia Qing na Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894 – 1895) e contra o Império Russo na Guerra Russo-Japonesa (1904 – 1905).
A ideologia da superioridade pelo banho
Com as vitórias na guerra contra dois vizinhos gigantes, a classe política e intelectual japonesa procurou por explicação de como uma pequena nação insular com uma pequena população foi capaz de subjugar grandes potências como a Rússia e a China.
A vitória sobre a China na Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894 – 1895) garantiu ao Japão, entre outras coisas, no controle de Taiwan, a ilha de Penghu e a península de Liaodong
Uma das explicações óbvias que surgiram desses círculos foi o caráter Bushidō intrínseco nos japoneses, mas o hábito de tomar banhos regulares também foi apresentado como resposta para a superioridade do Japão.
As razões para o sucesso japonês foram produzidos a partir da comparação com as nações ocidentais e que respondiam em partes a visão ocidental em relação aos países asiáticos com a propaganda racista nos países ocidentais sobre o chamado “Perigo Amarelo”.
A vitória sobre a Rússia na Guerra Russo-Japonesa (1904 – 1905) garantiu ao Japão hegemonia na península coreana e transformou o recente país independente em um protetorado japonês, o arrendamento da península de Liaodong, o controle da Ferrovia da Manchúria do Sul (construída pela Rússia) e metade da ilha Sacalina
As vitórias reforçaram o caráter moral sobre a cultura do banho no Japão através do Kyōiku Chokugo (“教育勅語”, Edito Imperial de Educação) de 1890 pelo próprio Imperador Meiji e que enfatizava a moral confucionista e os valores tradicionais japoneses.
Como o texto foi escrito em uma linguagem abstrata e de difícil compreensão para o público geral compreender, uma série de livros com linguagem mais acessível sobre a moral pública começaram a surgir no país para aumentar o alcance da mensagem.
Kyōiku Chokugo, o Edito Imperial de Educação de 1890 que inspirou livros para espalhar a ideologia da limpeza e purificação da sociedade japonesa
“O governo precisou estabelecer valores nacionais que unissem as pessoas espiritualmente, encorajassem o patriotismo, a lealdade ao estado e ao Imperador como pedra angular. Disso nasceram ideias sobre a moralidade nacional que supostamente construiriam o caráter nacional. Claro que houve debates sobre qual era exatamente o caráter nacional. Um dos traços positivos que a população apreciava dizia respeito a purificação. As pessoas também apontavam para os samurais que se tivessem comprometido sua lealdade poderiam provar sua pureza espiritual com o Seppuku. Todos esses ideais eram refletidos na ideia da purificação física dentro do costume nacional do banho regular.”, Kawabata Miki.
A cultura de banho e o Shintō
Como dito na introdução desse artigo, o hábito e a cultura de banho do Japão está intimamente ligada a religião, especialmente ao kami Inazagi.
Além disso, foi durante a era Meiji que o Shintō foi declarada como a religião oficial do estado japonês.
Misogi: o ritual Shintō de purificação
Existia a discussão de que a impureza física levava a contaminação espiritual. Para isso era citada a mitologia de Izanagi que purificou a si mesmo com água para se librar da contaminação após voltar do mundo dos mortos.
A ideia de que se purificava o espírito lavando a sujeira do coração já estava estabelecido no período Edo.
No ritual Somin-sai, os participantes devem se purificar nas águas do rio Ruritsubo (rio Yamauchi) exclamando “Jasso Joyasa” (que o mal se afaste)
Por isso é provável, ao menos partes, que essa cultura de banho da era Meiji tenha sido mais fácil para as pessoas aceitarem como ideologia.
A cultura de banho do Japão e o papel das mulheres
Durante a implementação da educação centralizada da era Meiji, mais especificamente no começo do século XX até o final da segunda guerra mundial, as crianças recebiam o livro do governo chamado Shūshin (“終身”, Treinamento Moral).
As crianças eram ensinadas nas escolas da era Meiji que o banho era mais do que saúde e higiene, mas uma doutrina para servir ao Império e ao Imperador
O livro ensinava que manter a higiene e saúde era benéfico não só para o próprio indivíduo como também para a nação.
Dentro de casa, o papel de garantir a higiene das crianças da nação com banhos diários eram das mulheres e das donas de casa.
Ao final da primeira Guerra Sino-Japonesa, as mulheres foram encorajadas ao ideal Ryōsai Kenbo (“良妻賢母”, Boa Esposa, Mãe Sábia).
O ideal Ryōsai Kenbo, Boa Esposa, Mãe Sábia, foi fundamental uma forma de fazer com que a ideologia de purificação através do banho para melhores súditos ao Imperador fosse passado de geração em geração
A primeira vez que o termo surgiu no Japão foi em meados de 1800, mas só ganhou força nas primeiras décadas do século XX.
Isso porque uma série de livros foram publicados voltados ao público feminino dando dicas e conselhos sobre como a casa deveria ser gerida. Esses livros também enfatizavam a importância de dar banho nas crianças.
O ideal Ryōsai Kenbo, Boa Esposa, Mãe Sábia, foi adotado por muitas mulheres japonesas como uma forma de ter uma função social válida na sociedade Imperial japonesa. Reprodução: Old Photos of Japan
A expectativa da sociedade em relação as mulheres é que elas fossem as responsáveis por passar a tradição de tomar banhos diários através das gerações para criar crianças limpas e saudáveis para cumprirem com seus deveres para com o Império.
“Observando o contexto histórico amplo sobre a busca das mulheres por seus direitos, é possível dizer ao menos algumas mulheres abraçaram esse papel voluntariamente como forma de afirmar seu valor na sociedade. Mas esse papel histórico da maternidade para o estado, o qual muitas mulheres aceitaram e internalizaram, teve impactos duradouros. Podemos ver seus efeitos em muitas questões que enfrentamos hoje, incluindo o trabalho nas sombras não remunerados (cuidados) que ainda é esperado muitas mulheres por trás das cortinas.”, Kawabata Miki.
Visões civilizatórias da cultura de banho
A cultura de banho sempre foi muito importante para os japoneses e para o orgulho nacional.
A milenar cultura de banho do Japão se tornou um distintivo de civilização superior no final do século XIX, início do século XX
A partir do século XX, a classe política japonesa deu cabo a reformas inspiradas no ocidente com foco em fornecer casa de banho nas regiões periféricas onde viviam imigrantes, a classe trabalhadora e os mais pobres.
“Tanto no Japão quanto no ocidente, tomar banho é associado a ideias de limpeza espiritual, ordem social e civilidade. No Japão era dito as pessoas que tomar banho os ajudava a se tornarem súditos leais ao imperador. No ocidente a ênfase era de que as pessoas se tornavam bons cidadãos. Especialistas japoneses em higiene pública que viajaram para o ocidente para observar as condições no ocidente e voltaram para casa defendendo que as casas de banho deveriam ser construída como parte de uma política social e que o governo deveria fazer com que elas fossem acessíveis. Isso levou a um sistema onde o governo construiu as casas de banho, mas elas foram dirigidas pelo setor privado. Essa política de parceria público-privada levou a um boom de novas casas de banho, especialmente nas grandes cidades.”, Kawabata Miki.
Na Kyoto da década de 10 e 20 do século XX, mesmo nas regiões ocupadas pelos Burakumin (部落民), grupos sociais tradicionalmente discriminados na sociedade desde a era Edo, foram instaladas casas de banho geridas pelos líderes das comunidades locais.
Casas de banho públicas foram instaladas até mesmo nos Burakumin, o que melhorou a infraestrutura e trouxe oportunidade de empregos para as regiões marginalizadas do Japão
Além de melhorar a higiene desses grupos marginalizados, as casas de banhos nessas regiões também criaram oportunidades de emprego nas áreas mais em desvantagem e melhorou a infraestrutura de água encanada.
Casas de banho também foram construídas em comunidades Ainu em Hokkaido e nas colônias do Japão Imperial como Taiwan e na península coreana.
“As práticas de banho e noções de limpeza foram utilizadas para justificar a discriminação e a assimilação. Ignorando as diferenças culturais, costumes e meio ambiente, as pessoas tratavam os Ainu ou os Okinawans como sujos por eles não compartilharem os costumes de banho do Japão continental. Já nas colônias, os esforços para promover a assimilação e a higiene coexistiu com práticas discriminatórias de apartheid, incluindo a separação nas casas de banho entre japoneses e a população local.”, Kawabata Miki.
Limpeza e purificação
A partir da era Meiji com a política de higiene, a limpeza e a cultura de banho se tornaram processos para eliminar tudo o que se desviasse da normalidade estabelecida pelo estado, uma forma de limpar a sociedade das impurezas.
A cultura de banho foi um marco distintivo de superioridade civilizacional para o governo Meiji e separava tudo o que era considerado diferente da sociedade japonesa idealizada pela classe política
As residências japonesas passaram a ter seu próprio ambiente de banho a partir do pós guerra e reforçou ainda mais a norma de tomar banhos diariamente de forma quase inconsciente e a deixou ainda mais forte do que antes da guerra.
Essa cultura de limpeza, higiene e purificação seguem permeando a sociedade japonesa até os dias de hoje, ainda que na primavera de 2024 tenha surgido uma trend no Japão chamada Furo Kyanseru Kaiwai (風呂キャンセル界隈), uma comunidade de japoneses que decidiram não tomar banho todos os dias.
Um dos principais nomes desse movimento é a Idol Suzuki Mob do grupo Nippon Wachaha. A celebridade afirma que só toma banho uma vez a cada quatro dias ou mais e que mesmo depois de se apresentar, ninguém reclama de seu cheiro.
Furo Kyanseru Kaiwai é uma tendência que surgiu na internet japonesa entre pessoas que preferem ficar sem tomar banho por vários dias, a principal figura dessa tendência é pop idol Suzuki Mob do grupo Nippon Wachaha
Uma pesquisa realizada pela LIXIL Corporation em 2024 revelou que 70% dos entrevistados acham que tomar banho é incômodo, mas que eles continuam tomando porque querem manter o corpo limpo.
Cultura de banho na pandemia
Durante a pandemia de COVID-19 no Japão, para além da ênfase no uso de máscara e em lavar as mãos constantemente, surgiu também o que ficou conhecido como Jishuku Keisatsu (“自粛警察”, polícia de autocontrole), cidadãos que monitoravam outros cidadãos.
Grupos de vigilantes de cidadãos japoneses durante a pandemia de COVID-19 vigiavam pessoas que não cumpriam com as determinações de distanciamento social, uso de máscara e higienização das mãos, uma reflexo da cultura de limpeza e purificação
Eles sentiam que o estado não fazia o suficiente para conter as pessoas que não usassem máscaras e faziam esse “serviço” checando indivíduos dentro de empresas e nos espaços públicos.
Eles também assediavam profissionais de saúde por considerá-los como potenciais vetores de infecção. Esse é um reflexo da internalização da cultura do banho, limpeza e purificação dos japoneses.
Houve um senso de superioridade moral e higiênica de alguns políticos japoneses por causa dos índices de mortalidade do Japão em comparação aos países ocidentais.
O bom desempenho do Japão durante a crise da pandemia de COVID-19 em relação a outros países ocidentais trouxe a mesma mentalidade de superioridade entre algumas figuras públicas pela cultura da limpeza e purificação que foi utilizada como resposta pelas vitórias nas guerras há mais de 100 anos contra a Rússia e a China
Esse tipo de mentalidade é exatamente a mesma utilizada após as vitórias da Guerra Russo-Japonesa e a Primeira Guerra Sino-Japonesa e que serve como um potencializador do espírito coletivo e da harmonia social entre os japoneses.
Entre o bem e o mal
É difícil contestar que tomar banhos todos os dias é um hábito saudável tanto para o indivíduo quanto para a sociedade.
Além da sensação de bem-estar que um bom banho causa para a parte e para o todo, uma série de problemas de saúde são prevenidos.
A cultura de banho no Japão tem, historicamente, multiplas faces que vão desde a religião, a necessidade, o bem-estar e até mesmo a instrumentalização por governos autoritários
Por outro lado, ao observar a história do banho e da limpeza no Japão, especialmente a partir da era Meiji, uma série de questões podem ser levantadas como questões de gênero, governo autoritário, discriminação e exclusão social.
A cultura de banho no Japão continua e provavelmente continuará profundamente enraizada na sociedade, seja pela religião, pela política ou pelo bem-estar, apesar de tendências recentes de internet.
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Como sempre, o Ocidente querendo mandar na cultura dos outros.
Cara, qual era o problema de homens e mulheres tomarem banho juntos? Era algo normal, sem maldade. Isso era bom até para normalizar a nudez entre os sexos, sem erotização.
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