O período Heian (794 – 1185) é considerado como a era dourada da história japonesa. Foi nela que floresceu uma identidade cultural japonesa plena e distinta da cultura chinesa.
O período Heian é um terreno fértil para compreender melhor como o Japão se consolidou como uma civilização a partir de sua política, arte, religião, cultura, sociedade e economia.
O período Heian é considerado por muitos historiadores como a era dourada da história japonesa
O texto a seguir não terá uma ordem cronológica, ele vai e vem no tempo, mas é guiado por uma lógica que traz coesão aos muitos assuntos e suas complexidades dentro desse espaço-tempo que divide o Japão antigo do Japão feudal.
Naturalmente muita coisa ficará de fora e nem tudo terá a profundidade que merece. Esse é apenas um resumo razoável de um período que ocupou quase 400 anos da história do Japão. Continue acompanhando nosso artigo especial do Japão Real escrito após curadoria e pesquisa.
Se você gosta dos nossos conteúdos, considere nos apoiar através do APOIA.SE/JAPAOREAL e nos ajude a manter viva a cultura japonesa de qualidade e gratuita
Do período Nara ao período Heian
Embora considerada como a era dourada do Japão, o período Heian é herdeiro de uma era extremamente turbulenta, o período Nara (710 – 794). Durante o período Nara, o país passou por uma série de transformações políticas, econômicas e sociais radicais.
O período Nara foi marcado por extremas turbulências econômicas, sanitárias e sociais que se arrastaram para o período Heian
Durante o período Nara, o poder político era concentrado na mão do Imperador, ao menos no sentido jurídico por assim dizer. A maioria dos monarcas da época eram influenciados e até mesmo controlados por poderosos clãs da corte Imperial.
Foi uma época marcada por uma grande disseminação do budismo como uma saída para trazer harmonia, estabilidade e prosperidade ao Japão, grandes tumultos políticos, entre os quais duas rebeliões, pestes, traições e leis que transformaram a política do país.
O budismo foi uma busca coletiva para o fim das calamidades que afligiam o Japão durante o período Nara
É preciso de um artigo único para tratar do período Nara. Mas esse é mais ou menos o pano de fundo que o período Heian herda. Continue acompanhando.
A transição para o período Heian
O período Nara foi muito turbulento. Uma das principais características do período foi a tentativa do Imperador Shomu (701 – 756) de trazer paz e segurança ao Japão através da força do budismo, e para isso ele ordenou a criação de diversos templos pelo país.
Shōmu-tennō (701—756), 45º Imperador do Japão entre 724 à 749
Ao dar esse tipo de poder para o budismo, os principais templos de Heijō-kyō (Nara), a então capital do Japão, passaram a ter uma enorme influência na política japonesa, em especial o monge Dokyo que alcançou as mais altas posições no reinado da Imperatriz Shōtoku.
Mudança de capital
Para lidar com esse problema, o Imperador Kanmu (736 – 806) decidiu em 784 que a capital do país deveria ser realocada para outro lugar. Essa cidade foi chamada de Nagaokakyō, na província de Kyoto.
Heijō-kyō (Nara), a capital do Japão de 710 a 794
A mudança da capital tinha outros objetivos para além de asfixiar o poder político do clérigo budista na corte Imperial: a posição geográfica. Nagaokakyō foi construída ao largo do Rio Yodo que desemboca no mar de Seto, o mar do interior do Japão.
A cidade também é relativamente próxima ao lago Biwa, o maior do Japão e principal ligação entre as regiões centrais.
Todas as mercadorias oriundas do mar de Seto eram transportadas através do lago Biwa. Mover a capital entre esses dois pontos econômicos estimularia e facilitaria o comércio.
Além de resolver impasses políticos, mudar a capital de Heijō-kyō para Nagaokakyō estimularia a economia
Por fim, Nagaokakyō permitiria um trânsito mais fácil para a região norte de Honshu, Tōhoku, uma região instável que era precariamente mantida pela corte Imperial. Tudo parecia perfeito, mas nem tudo era flores na vida do Imperador Kanmu.
O caso do príncipe Sawara
Querer nem sempre é poder, ou pelo menos nem sempre é conseguir isso da forma como se imaginou, ainda que você seja Imperador. Nem todo mundo ficou muito feliz com a ideia do Imperador Kanmu de transferir a capital de Heijō-kyō (Nara) para Nagaokakyō.
Kammu-tennō (735 – 806), 50º Imperador do Japão entre 781 à 806
Desnecessário dizer que os mais infelizes com os planos do Imperador foram os clérigos budistas. Os monges e seus aliados na corte de Heijō-kyō estavam determinados a impedir a mudança da capital para perderem poder político com essa operação.
A nova capital estava em construção sob supervisão de Fujiwara no Tanetsugu, conselheiro de confiança do Imperador. Porém, ele foi “misteriosamente” assassinado em 785. As investigações apontaram para um mandante surpreendente, pero no mucho: o príncipe herdeiro Sawara.
Sawara era o irmão caçula do Imperador Kanmu e que passou a maior parte da sua vida como um monge budista.
Ele só abandonou a vida monástica por ordem Imperial, não de seu irmão, mas de seu pai, o Imperador Konin (708 – 782), sucessor da Imperatriz Shotoku.
Retrato do príncipe Sawara (750 – 785)
Sawara foi preso, mas negou envolvimento com o assassinato de Fujiwara no Tanetsugu. Ele fez greve de fome em protesto. Foi considerado culpado mesmo assim e foi exilado para a província de Awaji (atual província de Hyogo), mas morreu de inanição antes de chegar ao seu destino.
A maldição de Sawara
Como é recorrente na história japonesa, após a morte do príncipe herdeiro Sawara, uma série de eventos catastróficos aconteceram na vida do Imperador Kanmu.
Vários membros da família Imperial morreram e inundações catastróficas destruíram parte da construção de Nagaokakyō.
O Imperador Kanmu entendeu que não seria mais possível construir a capital em Nagaokakyō por ele ter se tornado um local amaldiçoado pelo espírito vingativo de seu irmão mais novo. A nova capital então teve que ser realocada em outro lugar um pouco mais ao norte.
Heian-kyō: a capital da paz
Heian-kyō, atual Kyoto, foi escolhida para ser a capital do Japão em 794, ano em que se marca o início do período. Sua posição geográfica continua igualmente interessante, embora um pouco mais distante do rio Yodo, mas nada que comprometesse a estratégia inicial.
Heian-kyō, a capital da paz do Japão
A localização da cidade foi decidida após consulta do Imperador por uma personagem muito importante do período Nara, Wake no Kiyomaro, figura central na contenção do avanço do poder dos clérigos na estrutura política do Japão durante o período Nara.
O nome da cidade foi providencial. Heian significa paz, e era exatamente o que o Japão precisava depois do caos do período Nara e o que o Imperador Kanmu também precisava depois do caos que sucedeu a morte de seu irmão.
Características e curiosidades de Heian-kyō
A nova capital Heian-kyō, Kyoto, possui várias curiosidades fantásticas. Em primeiro lugar, ela serviu como capital do Japão por quase mil anos, a capital mais longeva da história do país. Outra curiosidade interessante foi a mudança não só da capital, mas a escrita da província.
Heian-kyō foi uma cidade planejada desde o início, mas nunca viu a conclusão planejada
Heian-kyō estava localizada na província de Yamashiro. Antes da mudança da capital, a província era escrita com os kanji “山背” (montanha e costas, respectivamente). O nome continuou soando Yamashiro, mas a escrita passou a ser “山城” (montanha e castelo, respectivamente).
O primeiro nome era porque a província começava atrás das montanhas, mas com a nova capital se mudando para a região, o nome pareceu inadequado. Mas não foi só por isso que a escrita da província mudou.
Maquete em esacala de Heian-kyō
A outra razão é que Heian-kyō, Kyoto, possui defesas naturais extraordinárias como montanhas ao redor e dois rios principais a suas margens, o rio Kamo e o rio Katsura. Por fim, aparentemente, Heian-kyō foi construída baseada no Feng Shui.
Há evidências para tal alegação. De acordo com o Feng Shui, as quatro direções cardinais são guardadas por um ser mitológico: o Dragão Azul (Seiryu) no leste, o Tigre Branco (Byakko) no oeste, o Pássaro Vermelho (Suzaku) no sul e a Tartaruga Preta (Genbu) no norte.
A localização dos quatro animais celestiais em volta de Heian-kyō
Para a cultura japonesa, cada um desses guardiões habitam nos rios (Dragão Azul), estradas (Tigre Branco), lagos (Pássaro Vermelho) e montanhas (Tartaruga Preta).
Heian-kyō tem exatamente as mesmas características: o rio Kamo no leste, a estrada Sanindō a oeste, o lago Ogura no sul e o Monte Funaoka ao norte. A nova capital seria ligeiramente menor: 23 km² ante 25² da antiga capital.
Feng Shui se aplica perfeitamente a Heian-kyō (Kyoto)
Apesar de menor, a nova capital parecia mais simétrica, o palácio Imperial (“大内裏”, Daidairi) era maior do que em Heijō-kyō e a avenida principal que cruzava a cidade, Suzaku Oji, era maior e ligava o portão da cidade, o famoso Rashōmon (羅生門).
Ao lado do Rashōmon os únicos templos permitidos na nova capital, o Templo do Leste, Tō-ji (東寺), e o Templo do Oeste, Sai-ji (西寺). A nova capital contava com uma população entre 120 mil e 130 mil habitantes, mais populosa do que a antiga capital.
O princípio das reformas da era Heian
A condução política do período Nara foram desastrosas, ainda que algumas delas tivesse o objetivo de melhorar as condições de vida da população. Para rever esse quadro caótico, a primeira e principal meta do Imperador Kanmu foi a reconstrução do sistema Ritsuryō.
Estamos em meados de 794. A essa altura, o sistema Ritsuryō já estava alcançando seu centenário com o primeiro e mais influente código Taihō-ritsuryō de 701 contendo 11 volumes de código administrativo e 6 volumes de códigos criminais.
Fragmento do Engishiki, regras e regulamento sobre rituais e cerimônias do sistema Ritsuryō
O sistema que norteava a política do país já estava em seu limite dada a gravidade dos eventos que sacudiam o Japão como a expansão da religião budista e do poder político do clero budista, rebeliões na região norte de Tōhoku e o sistema de imposto rígido e disfuncional.
O Imperador Kanmu que assumiu o trono crisântemo em 781 herdou um país que no final do século VIII via a autoridade Imperial e a economia do país a beira do colapso. A maneira encontrada para lidar com a situação foi agindo fora do modelo institucional estabelecido pelo Ritsuryō.
Ryōge no Kan: as reformas do início da era Heian
Foi criado então o que ficou conhecido como Ryōge no Kan (“令外官”, Oficiais Externos), cargos e postos independentes do sistema Ritsuryō para lidar de forma rápida e flexível com as necessidades imediatas do dia-a-dia.
Um desses postos era conhecido como Kageyushi (勘解由使), o Conselho de Examinadores de Licenciamento que tinha como função examinar os documentos que eram criados ou alterados por quaisquer governadores de província (“国司”, Kokushi).
Ryōge no Kan foi uma inovação para dar mais eficiência à burocracia do governo
Os Kokushi, governadores de província, eram nomeados pelo governo central e tinham um mandato de quatro anos. Idealmente, a transição de poder entre os governadores de província deveriam acontecer sem problemas e o sucessor deveria registrar a posse do cargo sem problemas.
Mas, era bastante comum que houvesse conflito e corrupção entre as partes envolvidas. A principal função do Kageyushi era assegurar que a sucessão acontecesse de fato sem problemas e que cada Kokushi desempenhasse adequadamente em suas funções.
Seiitai Shogun
Outro posto criado dentro do Ryoge no Kan foi o Seiitai Shogun, ou Seii Taishogun (征夷大将軍), literalmente Grande General Pacificador de Bárbaros, normalmente abreviado apenas como Shogun.
Antes dos Shoguns serem os verdadeiros detentores do poder político do Japão após era Heian, o título de Seiitai Shogun era apenas uma alta hierarquia militar. Essa figura era o general temporário do comando central militar do governo responsável pelas operações militares contra os Emishi (蝦夷 ).
Ukiyo-e de Sadahide (1807 – 1873) representando o primeiro Seiitai Shogun, Sakanoue no Tamuramaro em batalha
As tribos Emishi que residiam na região norte de Tōhoku fizeram uma grande rebelião em 780 contra a autoridade imperial e queimaram a base de operações da corte imperial, o castelo Taga, sede do Chinjufu (鎮守府), a agência militar encarregada da pacificação e controle da região norte do Japão.
O primeiro Seiita Shogun foi nomeado pelo Imperador Kanmu em 801 e se chamava Sakanoue no Tamuramaro (758 – 811), um oficial que já tinha participado de diversas incursões contra as tribos Emishi e que foi capaz de acabar com a insurreição dos Emishi.
A conquista do norte
As forças tribais Emishi eram lideradas por Aterui, um lendário general que era respeitado até mesmo por Sakanoue no Tamuramaro, e seu exército mantinha suas bases na região de Isawa ao largo do rio Kitakami, local onde a coalizão de Sakanoue prevaleceu sobre os Emishi.
Após a campanha, Sakanoue no Tamuramaro levou o general Aterui e seu tenente, More, como prisioneiros e fez uma petição ao Imperador para perdoá-los alegando que ambos seriam úteis na reconstrução e manutenção da ordem na recém conquistada região.
Ukiyo-e de Utagawa Kuniyoshi (1798 – 1861) representando Aterui, líder Emishi do período Heian
Infelizmente para Sakanoue, mas principalmente para Aterui e More, as derrotas humilhantes e a destruição do castelo de Taga foram considerados imperdoáveis e os líderes militares das tribos Emishi foram executados.
Tamuramaro retornou para a região norte de Tōhoku e reconstruiu o castelo de Isawa em Oshu e também o castelo Shiwa, ambos na antiga província de Mutsu e atual província de Iwate, o que expandiu as fronteiras e o controle da corte Imperial na região norte.
É a economia, estúpido
A vitória sobre os Emishi, a expansão e o controle das fronteiras ao norte, além de resolver os conflitos e corrupção entre os governadores de província fizeram com que o poder político do Imperador Kanmu fosse afirmado.
Porém, um problema crônico do período Nara ainda não tinha sido resolvido: os pesados impostos. Em tese, todos os súditos deviam pagar impostos ao governo, com exceção de dois grupos de pessoas, as mulheres e os monges.
O problema crônico da evasão fiscal do período Nara persistiu nos primeiros anos do período Heian
Isso causou um enorme problema nacional como fraude no censo (homens se passando por mulheres), abandono de plantios e proliferação de clérigos não autorizados. Outros problemas também assolavam a população.
Os homens precisavam servir as forças militares e durante esse período não podiam trabalhar e não eram remunerados pelo serviço. Para piorar, os próprios soldados tinham que bancar seus custos com equipamentos e deslocamento.
Kondei no Sei: Reformas e flexibilizações
O problema econômico era uma questão urgente e muito mais complicada de lidar do que as tribos Emishi. Para lidar com a questão, o Imperador Kanmu começou com uma flexibilização dos impostos com uma série de medidas.
A primeira delas foi a chamada Kondei no Sei (“健児の制”, Sistema Baluarte de Jovens), um novo sistema de milícias para as províncias.
Manter os camponeses no campo e recrutar os filhos da aristocracia e das famílias mercantis para o serviço militar ajudou a minorar os problemas econômicos
Esse sistema fez com que em vez dos camponeses pobres tivessem que abandonar seus trabalhos na agricultura para servir longos períodos nas milícias, o Kondei no Sei recrutava os filhos da alta hierarquia provinciana e dos agricultores ricos na defesa local.
Se por um lado o número de soldados diminuía em quantidade, a qualidade desses guerreiros aumentava significativamente com indivíduos que dominavam arquearia e montaria. O que não significava que em períodos de guerras os camponeses não fossem convocados a servir.
Outra vantagem do sistema Kondei no Sei foi a construção de uma força armada profissionalizada de elite com arqueiros montados, guerreiros altamente sofisticados para o período
Os únicos locais onde o Kondei no Sei não foi implementado foi ao norte de Tōhoku e ao sul de Kyushu, regiões ainda instáveis e que o governo central queria ter certeza de que sempre houvesse grande força militar sempre disponível para quaisquer eventualidades.
A reforma Kondei no Sei foi a base para a nova cultura militar e marcial que tomaria conta do Japão em termos sociais e políticos dos próximos 11 séculos, a cultura Bushidō.
Reformas dos impostos Soyocho
Durante a era Nara foi estabelecido um sistema de impostos chamado Soyocho-sei (祖庸調) baseado no modelo da dinastia Tang chinesa, Zuyongdiao. Esse sistema de imposto era baseado em uma tríade de cobranças: grãos (So “租”), trabalho (Yo “庸”) e produtos e bens (Cho “調”).
O primeiro imposto era o Zōyō (“雑徭”, corveia irregular). Esse imposto obrigava os camponeses (homens) a trabalhar gratuitamente por 60 dias ao longo do ano sob a direção dos governadores de províncias. O Zōyō foi cortado pela metade, ou seja, 30 dias.
Reformas no sistema de impostos Soyocho-sei impostas pelo imperador Kanmu tinha o objetivo de reduzir o déficit dos cofres do tesouro imperial
O segundo imposto era o Kusuiko (“公出挙”, empréstimo de arroz patrocinado pelo estado), um empréstimo obrigatório onde o governo fornecia anualmente uma quantidade X de arroz aos agricultores, obrigava-os a plantar e depois coletava o empréstimo e os juros na colheita.
Os juros do Kusuiko eram de 50% e foram baixados para 30% pelo Imperador Kanmu. As obrigações do serviço militar e os impostos Zōyō e Kusuiko eram conhecidos pela população como Os Três Grandes Fardos do sistema Ritsuryō.
Reforma da terra
Com as reformas citadas acima, os camponeses tinham mais motivação para plantar, o que mantinha as terras produtivas e pagar os impostos corretamente, o que melhorava não apenas a vida das pessoas comuns, mas também dos cofres do estado.
Mas outro problema central que precisava ser endereçado era a questão das terras. Até a época da modernização Meiji, toda a terra do Japão era propriedade do estado e o estado fornecia a concessão das terras para a população em geral. Uns recebiam mais, outros menos.
O imperador Kanmu também tentou resolver o problema herdado do período Nara sobre a distribuição de terras
Durante o período Heian, a maior parte da população vivia da produção agrícola e todos tinham direito a um pedaço de terra para produzir. Porém, a terra sempre passava por sucessões geracionais à medida que as pessoas morriam.
A redistribuição de terras, portanto, era realizada a cada seis anos, um trabalho hercúleo que exigia um novo censo, a tabulação das terras cultiváveis e quais terras devem ser entregues a quem.
Kanmu ordenou que o senso fosse realizado a cada 12 anos para regular a terra e seu usufruto
Era um trabalho tão árduo que normalmente não era feito com a regularidade que deveria. Isso fazia com que muitas terras não fossem tabuladas e muito imposto deixasse de entrar nos cofres da corte imperial.
Para resolver esse problema, o Imperador Kanmu decidiu que esse processo seria realizado a cada 12 anos para que as coisas fossem feitas adequadamente.
Expectativas vs realidade
As medidas de flexibilização impostas pelo Imperador Kanmu foram extraordinárias e resolviam muitos problemas, ao menos em teoria. Mas na prática, o resultado para as finanças da corte imperial foram ínfimas, beirando ao fracasso absoluto.
Retrato de Fujiwara no Otsugu feito por Kikuchi Yosai (1788 – 1878)
Algo precisava ser feito para resolver os problemas econômicos, então, em meados de 805, o Imperador Kanmu convocou dois de seus maiores conselheiros para denaterem: Fujiwara no Otsugu (773 – 843) e Sugano no Mamichi (741 – 814).
O encontro ficou conhecido como Tokusei Sōrōn (“徳政相論”, Debate Sobre o Governo Virtuso). No debate, Fujiwara no Otsugu diagnosticou corajosamente que as campanhas militares contra os Emishi para controlar o norte e a construção da nova capital eram a razão do desastre econômico.
Fujiwara defendeu que ambos projetos deveriam ser cancelados imediatamente. Sugano no Mamichi, por sua vez, defendeu que se o Imperador chinês estava empenhado em grandes projetos, o Imperador do Japão também deveria fazê-los.
Retrato de Sugano no Mamichi feito por Kikuchi Yosai (1788 – 1878)
Felizmente para a corte imperial, para a população japonesa e para o país, o Imperador Kanmu foi convencido pelos argumentos de Fujiwara no Otsugu e tanto as campanhas militares ao norte e a construção da nova capital foram interrompidas.
Nessa altura, a nova capital Heian-kyō, lar do Imperador por mais de uma década, tinha concluído cerca da metade do projeto inicial. O restante foi cancelado permanentemente e a cidade passaria a crescer de maneira orgânica. O projeto original nunca foi realizado.
A religião e o estado
Como dito acima, um dos principais motivos para a mudança da capital imperial de Heijō-kyō (Nara) para Heian-kyō (Kyoto), era para conter a enorme influência que o clero budista exercia na corte imperial durante o período Nara.
Grande Buda do templo Todaiji de Nara, antiga capital do Japão em um período em que o budismo ganhou força religiosa e política
Os então poderosos templos de Heijō-kyō foram fadados a permanecer em Heijō-kyō, e os únicos dois templos permitidos em Heian-kyō eram patrocinados pelo estado, uma reversão na tendência da era anterior em que a religião influenciava o estado.
Essa desconfiança da corte imperial com as antigas classes religiosas dominantes da antiga capital abriram espaço para novas escolas de budismo. Foi nesse contexto que surgiram aqueles que são considerados como as figuras mais sagradas do budismo do Japão: o monge Kukai e o monge Saichō.
Monge Saichō
O monge Saichō (767 – 822), mais conhecido como Dengyō Daishi, em um poderoso clã, (Gōzoku), oriunda da província de Ōmi, atual província de Shiga e entrou para a vida monástica ainda muito jovem aos 13 anos de idade.
Aos 20 anos de idade recebeu os ritos oficiais de ordenação no templo Tōdai-ji, um dos templos mais importantes da antiga capital Heijō-kyō (Nara). Essa honraria era permitida a apenas 10 pessoas por ano no templo Tōdai-ji.
Retrato do monge Saichō, mais conhecido como Dengyō Daishi, por um artista desconhecido
A ordenação de Saichō o colocou dentro da elite budista do país, uma posição extremamente cobiçada. O jovem monge, no entanto, abdicou de seu status para habitar Monte Hiei, local relativamente próximo da nova capital, em busca da iluminação em meio a natureza.
Mas esse período no Monte Hiei não foi suficiente e Saichō decidiu que deveria ir à China para estudar budismo “direto da fonte”. Em 804 ele conseguiu um lugar em uma das missões diplomáticas do Japão para a China da dinastia Tang, os chamados Kentōshi (遣唐使).
A volta do monge Saichō e a escola Tendai de budismo
Saichō chegou à China no verão de 804, estudou a escola T’ien-t’ai de budismo e retornou ao Japão em 805. Após seu retorno, Saichō construiu o famoso templo Enryaku-ji no Monte Hiei. Lá, ele fundou a escola Tendai de budismo.
Templo Enryaku-ji, fundado pelo monge monge Saichō e sede da escola Tendai de budismo
Sua diretriz espiritual era de que todas as pessoas, fossem ricas, fossem pobres, tinham a capacidade de atingir a budeidade depois da morte. A diretriz prática era de que os monges deveriam se afastar das questões do estado e do governo.
Em vez disso, os monges deveriam passar seu tempo ajudando as pessoas. Essa diretriz fez com que o monge Saichō e a escola Tendai de budismo caíssem nas graças do Imperador Kanmu. Com isso, a escola Tendai se tornou a escola oficial do estado.
Monge Kūkai
O monge Kūkai (774 – 835), mais conhecido como Kōbō-Daishi, também nasceu em uma família abastada, Gōzoku, mas da antiga província de Sanuki, atual província de Kagawa, ilha de Shikoku. Diferente de Saichō, Kūkai foi para Heijō-kyō para estudar e se tornar um burocrata.
Retrato do monge Kukai, mais conhecido como Kōbō-Daishi na série de retratos denominado Shingon Hassozō (Os Oito Patriarcas do Shingon)
Porém, durante o período em que estudava para ser um burocrata, ficou apaixonado pelos mistérios do budismo. Abandonou então o estudo mundano para se dedicar ao estudo e treinamento do budismo na natureza, semelhante ao que tinha feito Saichō.
Contemporâneos, Kūkai também esteve na mesma missão diplomática que Saichō, o Kentōshi de 804, mas em uma embarcação diferente, também para estudar budismo “direto da fonte”. Kūkai, no entanto, estudou na escola de budismo esotérico Zhenyan.
A volta do monge Kūkai e a escola de budismo Shingon
O monge Kūkai retornou ao Japão em 806, um ano após o monge Saichō. Ele foi para o Monte Kōya onde construiu o templo Kongōbu-ji onde fundou a escola de budismo Shingon. Sua principal diretriz é a de que todos podem atingir a budeidade ainda em vida.
A escola Shingon de budismo tem uma forte influência no chamado Mikkyō (密教), rituais mágicos que são passados somente de forma oral. A principal deidade da escola Shingon de budismo é Dainichi Nyorai, o Buda Cósmico.
Templo Kongōbu-ji fundado por Kōbō-Daishi e sede da escola de budismo Shingon
As práticas do budismo Shingon tem forte ênfase em rituais de oração para afastar o mal e obter bênçãos no mundo material. Essa concepção foi a base para a fundação de boa parte do budismo japonês moderno e foi extremamente popular entre os aristocratas de sua época.
Após voltar ao Japão, Kūkai dedicou anos de sua vida viajando pelo país trabalhando em projetos públicos que beneficiavam a população comum, especialmente na ilha Shikoku, sua terra natal. Muitas fontes termais são atribuídas a ele, bem como o prato Sanuki Udon, uma iguaria da província de Kagawa.
Imperador Heizei e os tumultos
No mesmo ano em que o monge Kūkai retornou ao Japão de sua viagem à China, 806, foi ano em que o 50° Imperador do Japão, Kanmu, faleceu aos 70 anos de idade. Como vimos acima, Kanmu foi um Imperador ousado e promoveu uma série de reformas.
Kanmu foi sucedido pelo filho mais velho, o Imperador Heizei (774 – 824). Heizei manteve a tradição iniciada por seu pai em manter o estado sob o controle da coroa crisântema. Mas o reinado do jovem Imperador foi curto e caótico.
Heizei-tennō (773 – 824), 51º Imperador do Japão entre 806 à 809
Quando assumiu o trono crisântemo, Fujiwara no Kusuko (? – 810), filha de Fujiwara no Tanetsugu, o homem encarregado pela transferência da capital para Nagaoka-kyō e que foi assassinado, se tornou uma das figuras preferidas do Imperador.
Sob os favores do Imperador, Kusuko subiu consideravelmente de posição dentro da corte imperial. Ela foi elevada a posição de Jusanmi (“従三位”, terceiro escalão júnior) e se tornou a chefe das Naishi no Tsukasa (内侍司), a ponte entre os oficiais da corte e o Imperador.
Casos de família versão Heian
O Imperador Heizei conheceu Fujiwara no Kusuko quando ele ainda era o príncipe herdeiro. A filha de Kusuko foi prometida ao então príncipe herdeiro e foi morar no palácio imperial junto com sua mãe.
Acontece que o Imperador Heizei estava muito mais interessado na mãe de sua prometida do que na noiva. Ou seja, Heizei teve um caso oficialmente proibido com sua sogra, sogra essa beneficiada dentro da corte imperial graças aos favores do Imperador.
Representação artística de Fujiwara no Kusuko feita por SYAPO
Fujiwara no Nakanari (764 – 810), irmão mais velho de Kusuko e primogênito de Fujiwara no Tanetsugu, também trabalhou para que suas sobrinhas subissem na cadeia alimentar da corte imperial. Mas toda essa farra durou pouco.
O Imperador Heizei era uma pessoa com saúde frágil. Em 809, sua saúde estava tão frágil que ele abdicou do trono e passou a coroa crisântemo para seu irmão mais novo, o príncipe herdeiro Kamino, o Imperador Saga (786 – 842).
Briga entre irmãos e capitais
Não é preciso ser muito sagaz para imaginar que algumas pessoas não ficaram nada felizes com a ascensão do novo Imperador Saga, especialmente Kusuko e seu irmão mais velho Nakanari, que até então desfrutavam das regalias do Imperador Heizei.
Os irmãos Fujiwara começaram a incentivar o Imperador emérito e já com a saúde recuperada, Heizei, a voltar ao trono. Em 810, Heizei começou a reunir apoio político tomou a estúpida ou brilhante decisão de publicar uma ordem Imperial trazendo de volta a capital para Heijō-kyō (Nara).
Saga-tennō (786 – 842), 52º Imperador do Japão entre 809 à 823
Brilhante porque muita gente não ficou nada satisfeita com a decisão do Imperador Kanmu em mudar a capital para Heian-kyō, então muitos descontentes passariam a apoiar o Imperador emérito. Estúpida porque o verdadeiro Imperador nesse momento era o Imperador Saga.
Por um breve momento o Japão teve duas capitais e dois Imperadores: Heijō-kyō com o Imperador, ou melhor, Imperador emérito Heizei, e Heian-kyō com o Imperador de fato, Saga. O Imperador Saga não ficou nada feliz com os atos do irmão e decidiu agir.
O Incidente do Imperador Emérito Heizei
Aparentemente o Imperador Saga foi pego de surpresa pelas ações do irmão, mas agiu com agilidade. Fujiwara no Nakanari foi preso e executado, e Sakanoue no Tamuramaro, Seiitai Shogun que conquistou os Emishi do norte foi convocado para uma rápida ação militar na antiga capital.
A principal missão de Sakanuoe era impedir que o Imperador emérito Heizei juntasse forças militares em Heijō-kyō fazendo um cerco na cidade. Além da ofensiva militar, Saga também realizou uma ofensiva diplomática para lidar com o problema.
Sakanoue no Tamuramaro, Seiitai Shogun e pacificador de Tohōku, liderou o cerco contra o imperador emérito Heizei e seus aliados na antiga capital Heijō-kyō
Ao se dar conta de que seus planos fracassaram, Heizei raspou seus cabelos e se tornou um monge budista em sinal de abdicação de quaisquer ambições políticas. Sua amante Kusuko cometeu suicídio ingerindo veneno.
Até 2003, Heizei Jōkō no Hen (平城上皇の変), ou Heizei Daijō-tennō no Hen (平城太上天皇の変), o Incidente do Imperador Emérito Heizei era chamado de Kusuko no Hen (薬子の変), Incidente Kusuko.
A teoria mais provável é que o evento foi nomeado como Incidente Kusuko para proteger a reputação do Imperador Heizei e afastar a responsabilidade da família Imperial.
Historiadores modernos deram a ele a responsabilidade que um Imperador e um homem adulto precisa ter com suas ações.
Kurōdo Dokoro
A patuscada promovida pelo Imperador emérito Heizei fez com que um novo ministério (escritório) fosse criado no sistema Ryōge no Kan o Kurōdo Dokoro (“蔵人所”, Escritório do Camareiro) que era responsável por lidar com as correspondências sigilosas do Imperador.
Fujiwara no Fuyutsugu, o primeiro a ocupar o cargo de Kurōdo-no-to. Retrato por Kikuchi Yosai (1788 – 1878)
Apesar do Incidente do Imperador Emérito Heizei ter sido breve, o Imperador Saga teve muita dificuldade com suas correspondências que caíram nas mãos dos aliados de Heizei. O Kurōdo Dokoro surgiu para doravante lidar com essa questão.
O Kurōdo-no-to (“蔵人頭”, chefe do Escritório de Arquivos Imperiais) foi Fujiwara no Fuyutsugu (775 – 826), principal conselheiro do Imperador Saga durante o incidente. O cargo foi uma recompensa pelo trabalho e lealdade para com o Imperador.
A influência do clã Fujiwara
Desde o período Nara que o clã Fujiwara tem enorme peso político na corte Imperial. Traçando uma breve retrospectiva biográfica, Fujiwara no Fuhito foi arquiteto das legislações Taihō Ritsuryō de 701, e Yōrō Ritsuryō de 718.
Esse poderoso e influente membro da corte imperial deixou quatro filhos como herdeiros políticos na corte Imperial de Heijō-kyō. A partir de 729, os Quatro Irmãos passaram a controlar o governo de Heijō-kyō no que ficou conhecido como Fujishiko Seiken (“藤四子政権”, o Regime dos Quatro Irmãos).
Os Quatro Irmãos Fujiwara que governavam pelo que ficou conhecido como Fujishiko Seiken
Cada um desses quatro irmãos formaram seus próprios ramos familiares: ramo Hokke (北家), a Casa do Norte; ramo Nanke (南家), a Casa do Sul; ramo Kyōke (京家), a Casa da Capital; e ramo Shikike (式家), a Casa Cerimonial.
Após a morte dos Quatro Irmãos, as ramificações do clã Fujiwara passou a disputar força e poder político entre eles. Os irmãos Nakanari e Kusuko pertenciam ao ramo Shikike. Já Fujiwara no Fuyutusgu, o primeiro Kurōdo-no-to, era do ramo Hokke, a mais poderosa após o incidente.
Principais marcas do reinado do Imperador Saga
Após o caos do Incidente do Imperador Emérito Heizei, o reinado do Imperador Saga foi marcado por reforçar o sistema Ritsuryō dentro da capital e nas regiões ao redor, ao passo que seu pai, o Imperador Kanmu se destacou por fortalecer o sistema nas províncias.
Kebiishi, a primeira força policial imperial criada pelo imperador Saga
O Imperador Saga foi o criador da Kebiishi (検非違使), a primeira polícia imperial sob o guarda-chuva do Ryōge no Kan (sistema flexível e ágil em contrapartida ao burocrático e lento Ritsuryō). A principal função da organização Kebiishi era manter a ordem e aplicar a lei na capital Heian-kyō.
O Kebiishi permitiu que a capital tivesse sua própria organização policial armada e profissionalizada, em vez de camponeses que eram obrigados a fazer o serviço de policiamento durante um certo período de tempo no ano.
Kōnin Kyakushiki, Jōgan Kyakushiki e Engi Kyakushiki
Mas a mais importante marca do Imperador Saga foi a criação do Kōnin Kyakushiki (弘仁格式), um documento que suplementava o código Ritsuryō e compilava as leis e suas aplicações.
A etimologia da palavra é bastante explicativa: Kyaku (格), suplementos e emendas; Shiki (式), detalhes, real significado e explicações. Em suma, essa compilação em um só documento oficial aumentou a eficiência da aplicação da legislação e evitou confusões dos legisladores.
Exemplar do Ryō no Gige
O documento Kōnin Kyakushiki foi o único produzido a mando do Imperador Saga. Depois dele vieram mais dois: o Jōgan Kyakushiki (貞観格式) compilado entre 869 e 871 pelo Imperador Seiwa, e o Engi Kyakushiki (延喜格式) que foi compilado entre 908 e 967 pelo Imperador Daigo.
Esses três documentos iniciados pelo Imperador Saga são conhecidos como Sandai Kyakushiki (三代格式), Os Três Grandes Kyakushiki. O Imperador Junna, sucessor e irmão mais novo do Imperador Saga também teve uma grande contribuição com o documento chamado Ryō no Gige (令義解).
A arquitetura do poder Imperial
O reinado do Imperador Saga durou 13 anos. Em 823 ele decidiu se aposentar e passou o trono crisântemo para seu irmão mais novo, o Imperador Junna (786 – 840). Depois de abdicar do trono, o Imperador emérito Saga decidiu se afastar o máximo possível da vida pública.
Sua provável motivação era se comportar da mesma forma que ele gostaria que seu irmão mais velho, o Imperador emérito Heizei, tivesse agido depois de ter abdicado do trono. Esse ato fez com que a sombra do poder do antigo Imperador recaísse muito menos sobre o atual Imperador.
Junna-tennō (786 – 840), 53º Imperador do Japão entre 823 à 833
Para além, aparentemente houve um acordo informal entre o Imperador emérito Saga e o Imperador Junna sobre a sucessão do trono. Nesse acordo, Junna deveria passar o trono para o filho do Imperador emérito Saga, o príncipe herdeiro Masara (Imperador Ninmyō).
Por sua vez, o príncipe herdeiro Masara escolheria o filho do Imperador Junna, príncipe Tsunesada (825 – 884) para sucedê-lo no trono crisântemo. Esse acordo deveria fazer com que não houvesse disputas dentro das linhagens da família imperial e evitar um outro caso como o do Imperador emérito Heizei.
Planos por água abaixo
O reinado do Imperador Junna durou 10 anos e manteve o mesmo princípio adotado desde o Imperador Kanmu de fortalecer a autoridade imperial. Em 833 ele abdicou em favor do príncipe herdeiro Masara conforme o acordado com o Imperador emérito Saga.
Durante os primeiros anos do reinado do Imperador Ninmyō (808 – 850), o Japão teve dois Imperadores eméritos, o Imperador emérito sênior Saga e o Imperador emérito júnior Junna. Foi um período bastante estável na política do país.
Ninmyō-tennō (808 – 850), 54º Imperador do Japão entre 833 à 850
Porém, as coisas começaram a ficar bastante tumultuadas com a morte dos Imperadores eméritos. Junna morreu em 840 aos 54 anos e Saga morreu em 842 aos 56 anos de idade. Embora distantes, ambos contavam com grande peso e prestígio político.
A morte dos dois Imperadores eméritos abriu um vácuo de poder que acabou destruindo o equilíbrio político desenhado pelos irmãos Saga e Junna. Esse vácuo foi rapidamente preenchido por um clã já bastante conhecido nesse artigo: o clã Fujiwara.
O Incidente Jōwa
No mesmo ano da morte do Imperador emérito Saga, em 842, aconteceu o Incidente Jōwa (“承和の変”, Jōwa no Hen). Pouco antes da morte de Saga, uma mensagem secreta foi enviada para Tachibana no Kachiko (786 – 850), a Imperatriz consorte do Imperador Saga, Imperatriz Danrin.
O conteúdo dessa mensagem alegava que Tomo no Kowamine, um aristocrata assistente do príncipe herdeiro Tsunesada, estava tramando uma traição ao Imperador Ninmyō e que planejava colocar o príncipe herdeiro Tsunesada como líder desse golpe.
Fujiwara no Yoshifusa, uma das personalidades mais importantes do clã Fujiwara e do período Heian
A mensagem foi entregue a Fujiwara no Yoshifusa (804 – 872), filho de Fujiwara no Fuyutsugu e Chūnagon (“中纳言”, segundo conselheiro de estado) que tratou de tomar as diligências para lidar com os alegados traidores.
Relembrando, Fujiwara no Fuyutsugu (ramo Hokke, a Casa do Norte) foi o principal conselheiro do Imperador Saga durante o Incidente do Imperador Emérito Heizei, uma figura de grande poder e prestígio da corte Imperial.
Desbaratando o pseudo golpe
Fujiwara no Yoshifusa agiu rápido e aumentou a presença de soldados para proteger o Imperador, prendeu Tomo no Kowamine e tirou o príncipe Tsunesada da linha de sucessão do trono crisântemo. No lugar de Tsunesada, o príncipe Michiyasu, meio irmão de Tsunesada se tornou o príncipe herdeiro.
Se você é do tipo que acredita em coincidências, acredita que por um acaso do destino calhou da mãe do príncipe herdeiro Michiyasu ser vice-conselheira da irmã caçula de Fujiwara no Yoshifusa? E pasme: rivais políticos de Yoshifusa foram expurgados como co-conspiradores do golpe.
Fujiwara no Yoshifusa exerceu o que era conhecido como Tashi-haiseki, ou seja, expulsou seus rivais da corte imperial
Fica evidente que o grande arquiteto do Incidente Jōwa foi o próprio Fujiwara no Yoshifusa. Nas escolas japonesas, o Incidente Jōwa é ensinado como parte do processo do clã Fujiwara em eliminar seus oponentes políticos e tomarem cada vez mais poder.
O termo utilizado para isso é Tashi-haiseki (“他氏排斥”, expulsão de outros clãs). Agora Fujiwara no Yoshifusa tinha seu sobrinho na linha sucessória do trono crisântemo e subiu tanto na hierarquia quanto nas funções de estado.
O golpe dentro do golpe
Fujiwara no Yoshifusa passou de Chūnagon para Dainagon (“大納言”, Grande Conselheiro de Estado) em 842 e Udaijin (“右大臣”, Ministro da Direita) em 848.
Em 850 seu sobrinho se tornou o Imperador Montoku (826 – 858), e em 857 Yoshifusa se tornou Daijō Daijin (“太政大臣”, Chanceler).
O cavalo de Tróia de Yoshifusa não parou por aí. Ele conseguiu fazer com que o Imperador Montoku casasse com sua filha, Fujiwara no Akirakeiko, que se tornou a Imperatriz Consorte Somedono. Dessa união nasceu o príncipe Koretaka.
Montoku-tennō (827 – 858), 55º Imperador do Japão entre 850 à 858
Apesar de outros meio irmãos mais velhos, Koretaka foi coroado como príncipe herdeiro. O reinado do Imperador Montoku foi curto, ele foi entronizado em 850, mas morreu aos 31 anos em 858 em decorrência de uma doença.
Após a morte do Imperador Montoku, Koretaka foi entronizado como Imperador Seiwa (850 – 881) aos 9 anos de idade. Sem idade suficiente para comandar a política, adivinhe só quem se tornou o regente (“摂政”, Sesshō) do Imperador? Sim. Fujiwara no Yoshifusa, o avô da criança.
Assegurando o poder
Antes de Yoshifusa se tornar o governante de fato do Japão como Sesshō, esse tipo de manobra política de entronar uma criança para ser o governante por trás foi evitada durante séculos. Mas, depois que a porteira foi aberta por Yoshifusa, aí a coisa se tornou prática comum.
Mas apenas ser o Sesshō não era o suficiente para garantir o controle absoluto do poder, outras coisas precisariam acontecer para consolidar o regente.
Uma delas foi favorecida pela própria tradição da Casa Imperial que era a criança destinada ao trono ser criada na casa da família da mãe criança.
Seiwa-tennō (850 – 881), 56º Imperador do Japão entre 858 à 876
A Imperatriz Somedono era assim chamada por morar no Somedono, a vila de Fujiwara no Yoshifusa. O cargo de regente, Sesshō era em alguma medida um cargo não oficial, ainda que ele o fosse de fato. Mas só isso não bastava.
A posição era bastante permeável a maquinações de seus rivais políticos, era preciso algo que o tornasse absolutamente indispensável para o funcionamento da corte imperial. Esse algo veio quase que como um presente para Yoshifusa em 866.
O Incidente Ōtenmon
Em 866 aconteceu o Incidente Ōtenmon (“応天門の変”, Ōtenmon no Hen), ou Conspiração Ōtenmon, um evento absolutamente fortuito para Fujiwara no Yoshifusa, o regente informal.
Incendio no Daidari Ōtenmon durante o Incidente Ōtenmon
Curiosamente, esse evento político não tinha nenhum envolvimento relacionado ao clã Fujiwara, foi uma disputa de poder entre o Dainagon (Grande Conselheiro de Estado) Tomo no Yoshio (811 – 868), do clã Tomo, e o Sadaijin (“左大臣”, Ministro da Esquerda), Minamoto no Makoto (810 – 868).
Curiosidade: o clã Minamoto originalmente era um ramo da família Imperial que foi rebaixada ao status de nobres, uma maneira de não ter de pagar estipêndios ao clã. Mas Minamoto no Makoto não era parte dessa linhagem, ele era filho do Imperador Saga.
Tal qual o clã Minamoto, Makoto foi reduzido a um nobre burocrata com alto cargo na corte Imperial. Fato é que o Incidente Ōtenmon começa no terceiro mês do ano lunar no ano de 866 quando alguém ateou fogo ao portão Daidari Ōtenmon.
Sessão completa da ilustração do Incidente Ōtenmon do pergaminho Ban Dainagon Ekotoba, obra atribuída à Tokiwa Mitsunaga (1086 – 1185)
Daidari Ōtenmon (応天門) era o portão que servia como entrada ao Chōdōin (朝堂院) uma área do palácio Imperial onde eventos importantes eram celebrados como cerimônias, banquetes e questões de estado eram tratadas.
O desenrolar do incidente
Tomo no Yoshio acusou Minamoto no Makoto de ser o autor do incêndio na esperança de que seu rival fosse punido pelo crime. O plano de Yoshio funcionou inicialmente, porém, eis que Yoshifusa entrou em cena e defendeu o filho do Imperador Saga.
Pouco depois surgiu uma testemunha afirmando que o causador do incêndio foi o filho de Tomo no Yoshio, provavelmente a mando de seu pai. O testemunho foi corroborado por um servo de Yoshio. Vale dizer que o pobre mordomo testemunhou sob tortura.
Exílio de Tomo no Yoshio escoltado pela força policial imperial (Kebiishi). Pergaminho Ban Dainagon Ekotoba, obra atribuída à Tokiwa Mitsunaga (1086 – 1185)
Como consequência, diversos membros do clã Tomo e do clã Ki foram exilados para as mais distantes e remotas províncias do Japão. O clã Tomo nunca mais se recuperou depois desse golpe sofrido no Incidente Ōtenmon.
O que realmente aconteceu e quem foi o verdadeiro autor do incêndio permanece um mistério até os dias de hoje. Seja lá quem for, Fujiwara no Yoshifusa habilmente manejou a crise e aumentou ainda mais seus poderes na corte imperial.
Fujiwara no Yoshifusa: um Sith Lord
Se você está familiarizado com o universo Star Wars, é possível dizer que as semelhanças na trajetória política entre Fujiwara no Yoshifusa, o regente e centro do poder Imperial japonês, e o Darth Sidious, o Imperador Galático da franquia de George Lucas são impressionantes.
Como dito acima, Yoshifusa era o Sesshō informal do Imperador Seiwa, mas seu objetivo era alcançar o status oficial de Sesshō, algo que não poderia acontecer porque teoricamente o cargo de regente só poderia ser ocupado por um membro consanguíneo da família Imperial, o que ele não era.
Icônica cena de Star Wars Episódio III – A Vingaça dos Siths quando o chanceler Palpatine se revela Darth Sidious
Mas esse era um obstáculo que poderia ser superado. A principal pedra no caminho tinha nome e sobrenome: Tomo no Yoshio. Ele e seu clã tinham forças o suficiente para impedir que as leis fossem alteradas para nomear oficialmente Yoshifusa como Sesshō.
Poucos meses após o expurgo do clã Tomo, do clã Ki e de seus aliados por causa do Incidente Ōtenmon, Fujiwara no Yoshifusa foi oficialmente empossado como Sesshō do Imperador Seiwa. Foi a primeira vez que uma pessoa sem laços sanguíneos com a família imperial governou o Japão.
Dinastia Fujiwara
Fujiwara no Yoshifusa morreu aos 68 anos em 872, mas suas ações ecoaram por mais de dois séculos. Após sua morte, Fujiwara no Mototsune (836 – 891), filho adotivo de Yoshifusa, assumiu a liderança do ramo Hokke, a Casa do Norte.
Yozei-tennō (869 – 949), 57º Imperador do Japão entre 876 à 884
O Imperador Seiwa teve uma vida breve, morreu aos 31 anos em 881 e foi sucedido por seu filho, o Imperador Yōzei (869 – 949). Yōzei foi entronizado aos 8 anos de idade e era sobrinho de Fujiwara no Mototsune. Adivinhe só quem se tornaria o Sesshō do Imperador Yōzei.
Ao que tudo indica, Yōzei era um Imperador abjeto ao estilo Joffrey Baratheon de Game of Thrones. Incontrolável e perigoso, Mototsune armou um estratagema para tirar o Imperador Yōzei de cena e colocar no lugar o Imperador Kōkō (830 – 887) que assumiu o trono aos 55 anos em 884.
Kōkō-tennō (830 – 887), 58º Imperador do Japão entre 884 à 887
O Imperador Kōkō era uma personagem muito periférica na sucessão imperial e teve um reinado de apenas três anos, o que não o impediu de fazer de Fujiwara no Mototsune seu regente como agradecimento, apesar da impossibilidade que isso significava.
Um novo cargo
Por definição, um regente só poderia ser um regente, Sesshō, de uma criança que ainda não tinha idade suficiente para reinar ou uma mulher no trono. Então, era impossível Mototsune ser o regente de um monarca que tinha quase a sua idade.
Isso não impediu que Mototsune fosse o verdadeiro governante do Japão. Mas foi a partir do Imperador Uda (866 – 931), filho do Imperador Kōkō, que assumiu o trono aos 21 anos em 887 que Fujiwara no Mototsune recebeu um nome oficial para seu cargo: Kampaku (関白).
Uda-tennō (866 – 931), 59º Imperador do Japão entre 887 à 897
O termo é originário da China. O kanji Kan (関) significa “estar envolvido”, e o kanji Paku (白) significa “dirigir a palavra”. Em suma, era uma pessoa designada a se envolver e falar sobre qualquer assunto e que na prática era o regente de um monarca adulto, mas sob o nome de Conselheiro-Chefe.
Fujiwara no Mototsune foi o primeiro a receber o título de Kampaku, uma das posições mais importantes da história do Japão. Tudo parecia estar em perfeita harmonia, mas estamos falando da história do Japão, então senta que lá vem história.
A Controvérsia Akō
Tudo certo e nada resolvido, após ser apontado como Kampaku, Mototsune seguiu a tradição que envolvia ao ser apontado para um cargo tão alto na corte imperial que era renunciar imediatamente e aguardar por um segundo decreto do Imperador para o mesmo cargo.
Era o que deveria ter acontecido na cabeça de Fujiwara no Mototsune, mas, os conselheiros do Imperador Uda entre os quais Tachibana no Hiromi acharam que ele deveria receber o título de Akō (阿衡) em vez de Kampaku.
Retrato de Fujiwara no Mototsune por Kikuchi Yosai (1788 – 1878)
O título Akō também tem origem chinesa, mas com aplicações práticas bastante distintas. Mototsune ao Imperador que na China, o título de Akō consistia em um alto cargo, mas sem nenhuma função, ou seja, na prática Mototsune seria deposto do cargo de regente.
Há quem defenda que o Imperador e os conselheiros acreditavam que os cargos eram a mesma coisa, há quem defenda que foi uma tentativa de tirar Fujiwara no Mototsune do poder real. Ofendido, Mototsune decidiu se retirar da corte imperial e se recusou a governar.
Onde o poder realmente reside
Um olhar inocente poderia pensar: mas e o Imperador? Bem, Mototsune já era o governante de fato há mais de 10 anos e a principal figura política do país. Então, não raro que a coroa que um monarca tenha na cabeça sirva apenas como objeto de decoração.
A recusa de Mototsune em governar fez com que toda a máquina da corte imperial simplesmente parasse de funcionar, o que obrigou o Imperador Uda e seus conselheiros a ter que revogar o decreto que havia sido feito.
Sugawara no Michizane, uma das figuras mais importantes do período Heian e da história do Japão
Mototsune não se deu por satisfeito e exigiu que Tachibana no Hiromi fosse punido pela ofensa. Sem escapatória, o Imperador Uda estava pronto para punir seu conselheiro, mas eis que entrou em campo Sugawara no Michizane (835 – 903).
Michizane era um jovem erudito a serviço do governador da província de Sanuki. Ele escreveu uma carta para Mototsune e o convenceu a refrear sua raiva e aceitar o pedido de desculpas do Imperador.
Com esses panos quentes, a Controvérsia Akō terminou sem que a cabeça de ninguém rolasse e provou para todos que o centro gravitacional do poder no Japão era Fujiwara no Mototsune.
Retomando as rédeas da situação
Estava claro para todo mundo o poder que o clã Fujiwara tinha dentro da corte imperial, mas o episódio da Controversa Akō não deixou o Imperador Uda muito feliz. Quando Mototsune morreu em 891, o Imperador não apontou nenhum outro Kampaku.
Em vez disso, ele decidiu tomar para si o poder. Essa forma de governar tem o nome no Japão de Tennō Shinsei (“天皇親政”, Governo Direto do Imperador). Embora outros Imperadores também tenham governado dessa forma, é a partir do Imperador Uda que o termo é mais empregado.
Tennō Shinsei, um governo diretamente pelas mãos do imperador
O regime de governo do clã Fujiwara, os regentes, é chamado de Sekkan Seiji (摂関政治). Sekkan é a junção das palavras Sesshō e Kampaku, e Seiji significa política ou governo. Esses dois termos são importantes para distinguir qual era o tipo de governo dessa época.
O Imperador Uda ter tomado as rédeas do poder para ele não significava que ele tomava todas as decisões sozinho. O Imperador tinha dois grandes conselheiros: Fujiwara no Tokihira, filho de Fujiwara no Mototsune, e Sugawara no Michizane, o erudita da Controvérsia Akō.
Disputas de poderes entre os conselheiros
Sugawara no Michizane foi nomeado como Kurōdo-no-tō (chefe do Escritório de Arquivos Imperiais) e se tornou o principal confidente do Imperador. Isso não deixou Fujiwara no Tokihira muito feliz e não demorou para ele entrar em ação.
Em 894, o Imperador Uda decidiu que era hora de enviar outra missão diplomática para a dinastia Tang na China (Kentōshi), afinal, o último Kentōshi tinha acontecido 56 anos atrás (838). Para liderar a missão diplomática, o Imperador “escolheu” Sugawara no Michizane para liderar a missão.
As missões diplomáticas para a dinastia Tang na China, Kentōshi, eram extremamente arriscadas e não raro algumas embarcações não chegavam ao seu destino
Nessa altura do campeonato, não é preciso dizer que Fujiwara no Tokihira foi a mão que balançou o berço dessa decisão. Se Michizane fosse liderar a missão poderia ficar anos ausente, ou talvez, nunca mais voltar caso acontecesse um náufrago durante o trajeto, algo que era relativamente comum.
Infelizmente para Fujiwara no Tokihira, Sugawara no Michizane não era tapado. Em vez de recusar o convite, Michizane convenceu o Imperador que enviar uma missão diplomática para a dinastia Tang era um erro.
Bem informado e instruído, Michizane argumentou que a dinastia Tang passava por grandes tumultos e instabilidade, e que o Japão nada mais tinha a aprender com a China. O Imperador Uda concordou com Michizane e os Kentōshi foram permanentemente descontinuados em 894.
Consequências do fim dos Kentōshi
Michizane não só salvou sua pele e sua carreira política, como também estava certo sobre a dinastia Tang. Entre 874 e 810 ocorreu a Rebelião Huang Chao, uma revolta camponesa que debilitou a dinastia Tang de tal forma que ela colapsou em 907.
Surgimento da cultura japonesa
Mas mais importante do que isso, foi o momento em que o Japão parou de ser culturalmente influenciado pela China e começou a surgir uma cultura genuinamente japonesa que é vista no país até os dias atuais.
O fim da era do Imperador Uda
Apesar de ter tomado para si o poder político, o reinado de Uda foi breve. Em 897 o Imperador Uda decidiu abdicar em favor de seu filho, o Imperador Daigo (884 – 930) de 12 anos. Foi uma decisão estranha considerando que Uda tinha apenas 31 anos.
Não há dúvidas que a ideia de Uda era continuar governando o país através de seu filho, uma prática que se tornaria comum no Japão, mas que ainda não tinha tomado forma e esse foi um terrível erro de cálculo do Imperador Uda, que ele só veria anos a frente.
Daigo-tennō (885 – 930), 60º Imperador do Japão entre 897 à 930
Quando o Imperador Daigo assumiu o trono crisântemo, Sugawara no Michizane e Fujiwara no Tokihira mantiveram suas posições na burocracia imperial, Michizane como Saidajin (Ministro da Esquerda), e Tokihira como Udaijin (Ministro da Direita).
Sugawara no Michizane ser protegido e privilegiado pelo Imperador Uda era motivo de ódio entre Fujiwara no Tokihira e seus aliados. Novamente os planos Fujiwara entraram em ação e mais uma vez alteraram a história do Japão.
O Incidente Shōtai
Em 901, Fujiwara no Tokihira convenceu o Imperador Daigo que Sugawara no Michizane estava tramando um golpe contra ele. Esse convencimento foi bem entre aspas, isso porque o Imperador Daigo via em Michizane a figura que seu pai utilizava para continuar influenciando seu governo.
O Imperador Daigo juntou a fome com a vontade de comer e exilou Sugawara no Michizane da corte imperial. O Imperador emérito Uda tentou interceder em favor de seu aliado, mas foi impedido de entrar no palácio Imperial pelos guardas imperiais.
Ilustração do exílio de Sugawara no Michizane para Daizafu
Isso em si já revelou a fragilidade em que o Imperador emérito Uda se colocou ao ser impedido de entrar no palácio por soldados rasos. Enquanto isso, Sugawara no Michizane foi exilado para Daizafu, capital da região de Kyūshū.
Em vez de ser oficialmente exilado, Michizane foi tecnicamente transferido para se tornar Dazai Gon no Sochi (大宰帥), o segundo no comando de Daizafu. Apesar do nome bonitinho, a verdade é que Michizane foi exilado.
Consequências do Incidente Shōtai
O exílio de Sugara no Michizane não durou muito. Em 903 ele acabou morrendo vítima de uma doença. Foi aí que a chinela cantou e um clássico da história japonesa se repetiu. Após a morte de Michizane, uma série de catástrofes começaram a acontecer na corte Imperial.
Uma praga chegou à capital Heian-kyō, além de uma severa seca. Os filhos do Imperador Daigo morreram sucessivamente e também houve muitas mortes no clã Fujiwara. O Shinshinden, o Grande Auditório do Palácio Imperial foi repetidamente atingido por raios.
Trecho do emakimono de Fujiwara no Nobuzane (1176 – 1265) representando a vingaça do espírito de Sugawara no Michizane contra a corte imperial
Apesar da seca, chuvas torrenciais causaram grandes inundações na capital. Tudo foi atribuído ao espírito vingativo de Michizane. Para pacificá-lo, o santuário Kitano Tenmangu foi erguido em Heian-kyō dedicado a Sugawara no Michizane e apaziguar seu espírito.
Ele também teve seu cargo de Daijin restituído postumamente. Anos depois, Sugawara no Michizane foi deidificado e se tornou o Kami Tenjin-sama, deidade dos céus, das tempestades, mas também dos estudos e da sabedoria. Tenjin-sama é uma das deidades mais famosas do Japão até hoje.
A era do Imperador Daigo
Por mais que a arapuca armada por Fujiwara no Tokihira contra Sugawara no Michizane tivesse dado certo, ele nunca conseguiu se tornar o regente do Imperador Daigo, e nem seu pai, o Imperador emérito Uda. O Imperador Daigo tomou para si o poder e fez o regime Tennō Shinsei.
O governo do Imperador Daigo foi muito impactante no Japão. A sua era foi nomeada de Engi (延喜) e seu governo é celebrado como um governo imperial ideal, não àtoa que seu legado Engi no Chi é retomado pelo Imperador Go-Daigo quatro séculos depois.
Engi no Shōen Seiri-rei foi a última tentativa em tentar reformar o já falido sistema Ritsuryō
O Imperador Daigo também empenhou grande esforço para reformar e revitalizar o sistema Ritsuryō já tantas vezes citados no artigo. Tentaram consertar o sistema Ritsuryō desde a época do Imperador Kanmu, e por mais que tentassem melhorá-lo, nunca era o suficiente.
A última tentativa de reformar o já moribundo sistema Ritsuryō foi o Shōen Seiri-rei (荘園整理令) ou Engi no Shōen Seiri-rei (延喜の荘園整理令) em 902 cujo principal aspecto era o rearranjo dos campos cultiváveis aos camponeses.
Não deu certo. Após o reinado do Imperador Murakami, filho do Imperador Daigo, o sistema colapsou, mas se manteve, ao menos como letra morta, até o século XII. A partir do colapso do sistema Ritsuryō, os impostos deixaram de ser baseados nas pessoas e passou a ser baseado na terra.
Entre o poder do Imperador e dos regentes
O reinado do Imperador Daigo foi e é considerado por muitos como o regime ideal. Mas, seu sucessor, o Imperador Suzaku (921 – 952), tinha apenas 8 anos de idade ao assumir o trono crisântemo. Por isso o regime político foi o Sekkan Seiji sendo Fujiwara no Tadahira o principal regente.
Suzaku-tennō (921 – 952), 61º Imperador do Japão entre 930 à 946
Ao longo de 16 anos, de 930 a 946, o clã Fujiwara controlou a política do país. Mas, quando seu sucessor assumiu, o Imperador Murakami (924 – 967), assumiu o trono aos 21 anos, ele fez o regime Tennō Shinsei e assumiu a política do país.
O próximo Imperador, o Imperador Reizei (949 – 1011), que assumiu o trono aos 18 e reinou por apenas 2 anos antes de renunciar, voltou ao modelo Sekkan Seiji ao nomear Fujiwara no Saneyori como Kampaku.
Murakami-tennō (924 – 967), 62º Imperador do Japão entre 946 à 967
Com exceção dos Fujiwara, nem todo mundo estava muito satisfeito com o regime Sekkan Seiji, o regime político dos regentes. Naturalmente que esse descontentamento deu pano para as mangas em um novo incidente.
Queda de braços entre Minamoto e Fujiwara
Quando o Imperador Reizei assumiu o trono em 967, o clã Fujiwara ocupou quase todos os principais cargos da burocracia da corte imperial.
Além de Fujiwara no Saneyori como Kampaku, Fujiwara no Morotada (920 – 969) serviu como Udaijin (ministro da direita). O cargo de Sadaiijn (ministro da esquerda) foi ocupado por Minamoto no Takaakira.
Reizei-tennō (949 – 1011), 63º Imperador do Japão entre 967 à 969
Minamoto no Takaakira era filho do Imperador Daigo e vocalmente contra o poder exercido pelo clã Fujiwara como governantes de fato do Japão. Seu genro era um possível candidato à sucessão do trono crisântemo, uma informação não menos importante.
O Imperador Reizei tinha uma saúde bastante debilitada, sofria de doenças mentais e claramente não duraria muito no trono. Minamoto no Takaakira sabia que ser sogro do Imperador era uma via quase certa para ser o governante de fato.
Os Fujiwara contra-atacam
Minamoto no Takaakira, que já tinha sido Udaijin antes de ser rebaixado a Sadaijin, gozava de grande prestígio dentro da família Imperial, não àtoa que ele conseguiu casar uma de suas filhas com o príncipe Tamehira dentro do palácio Imperial, algo bastante inusual.
Ele esperava que com a queda iminente do Imperador Reizei, Takaakira esperava que seu genro, o príncipe Tamehira fosse o próximo Imperador por ser mais velho que o príncipe Morihira, o quinto filho do Imperador Murakami.
Minamoto no Takaakira tentou ser o regente com o casamento da filha com o príncipe herdeiro Tamehira
Só que os Fujiwara já tinham percebido esse movimento quando o casamento entre a filha de Takaakira e o príncipe Tamehira foi celebrado. O primeiro passo dos Fujiwara foi tirar o príncipe Tamehira da sucessão imperial.
Isso não foi tão difícil porque após a morte do Imperador Murakami e de Fujiwara no Morosuke, Minamoto no Takaakira estava isolado na corte Imperial. Para jogar uma pá de cal em Takaakira, ele foi acusado junto com uma série de nobres de conspirar um golpe contra o Imperador Reizei.
O Incidente Anna
O Incidente Anna (“安和の変”, Anna no Hen) foi esse golpe fatal desferido contra Minamoto no Takaakira e outros desafetos políticos do clã Fujiwara que culminou no expurgo desses rivais. Takaakira foi enviado para ser Dazai Gon no Sochi em Daizafu, tal qual Sugawara no Michizane foi enviado.
Minamoto no Takaakira ainda solicitou que ele e seu filho mais velho, Minamoto no Tadataka se tornassem monges na capital Hein-kyō, mas o pedido foi negado. Ele foi exilado, mas um ano depois Takaakira foi perdoado e pôde voltar para a capital.
Embora nem tudo tivesse saído 100% conforme o planejado pelo clã Fujiwara, após o Incidente Anna, os cargos de Sesshō e Kampaku se tornaram permanentes na corte Imperial e foi ocupado pelo clã Fujiwara pelos próximos 900 anos com uma breve exceção no século XVI.
O inimigo interno
Como dito anteriormente, os quatro ramos da família Fujiwara começaram a disputar entre si dois séculos antes do Incidente Anna e o ramo Hokke, a Casa do Norte, se sobressaiu como a mais poderosa dentro da corte Imperial.
Depois de expurgar todas as ameaças externas do ramo Hokke do clã Fujiwara, uma nova ameaça surgiu, dessa vez dentro do próprio ramo. As disputas internas para se tornar o novo Uji no Chōja (氏の長者), o patriarca e líder do clã.
Fujiwara no Michinaga foi uma das figuras mais emblemáticas e poderosas da história do clã Fujiwara
A luta entre irmãos para chegar ao topo do poder do clã era terrível e foi somente no começo do século XI que as coisas começaram a ficar menos tensas dentro do clã. O principal nome por trás dessa pacificação, e talvez, de toda a história do clã Fujiwara, foi Fujiwara no Michinaga (966 – 1028).
Fujiwara no Michinaga fez a proeza de casar quatro de suas filhas com quatro diferentes Imperadores: o Imperador Ichijō, Imperador Sanjō, Imperador Go-Ichijō e Imperador Go-Suzaku. Com esses laços Michinaga foi capaz de governar o Japão por aproximadamente 30 anos.
O Poema da Lua Cheia
Em 1018, Fujiwara no Michinaga já estava na casa dos 50 anos de idade quando declamou um poema sui generis por ocasião do casamento de sua terceira filha, o Mochizuki no Uta (“望月の歌”, Poema da Lua Cheia). Confira.
Cena do episódio 44 da série Hiraru Kimi-e (光る君へ) de 2024 em que Fujiwara no Michinaga declama o poema da lua
“この世をば (Kono yo o ba / Este mundo)
わが世とぞ思ふ (Wagayo to zo omou / Me pertence)
望月の (Mochizuki no / Que não carece de)
欠けたることも (Kaketaru koto mo / Nada como a)
なしと思へば (Nashi to omoeba / Lua Cheia)”
Há outras traduções possíveis como “Sem diminuir a glória da Lua Cheia, este mundo é de fato o meu mundo”. Seja qual for a tradução, esse poema revela uma personalidade extremamente complexa e multifacetada de Fujiwara no Michinaga.
Esse poema é bastante famoso no Japão e é o símbolo do auge do poder do clã Fujiwara. Muitos veem esse poema como um símbolo de arrogância de alguém que dominou o Japão durante muito tempo e se via como superior.
Olhos mais sensíveis, por outro lado, apontam melancolia do autor que lutava contra uma doença na época em que escreveu o poema. Essa análise entende que Michinaga via que tal a imponente Lua cheia no céu, sua própria glória e poder eram algo meramente transitório.
O apogeu do clã Fujiwara
Com o fim da era Fujiwara no Michinaga em 1018, seu filho mais velho, Fujiwara no Yorimichi (992 – 1074), se tornou o novo Sesshō e logo em 1020 ocupou a posição de Kampaku. Após a morte de seu pai, Michinaga em 1028, Uji no Chōja do ramo Hokke, a Casa do Norte.
Fujiwara no Yorimichi foi o governante do Japão por impressionantes 50 anos. Embora Yorimichi também tenha conseguido formar casamento entre suas filhas e outros Imperadores, nenhuma delas conseguiu gerar um herdeiro.
Estátua de Fujiwara no Yorimichi no Byōdō-in
A maioria dos historiadores concordam que o período do governo de Michinaga e de Yorimichi foi o apogeu do clã Fujiwara antes de seu gradual declínio. Durante regência de Yorimichi, ¾ de todo o Kugyō (公卿), a alta cúpula da corte Imperial, era composta por membros do clã Fujiwara.
No final dos anos 800 durante o período de Fujiwara no Yoshifusa e Fujiwara no Motosune, menos da metade dos membros do Kugyō eram do clã Fujiwara. No começo dos anos 1100, o número de membros do clã Fujiwara no Kugyō caiu novamente para menos da metade.
A cultura Kokufu
Com o fim das missões diplomáticas na China, o Japão começou a produzir sua própria cultura, a Kokufu Bunka (“国風文化”, Cultura Nativa / No estilo do nosso país), floresceu durante os séculos X e XI, um período dominado pelo regime Sekkan Seiji do clã Fujiwara.
Durante esse período houve uma explosão de novas expressões culturais marcantes e que representam a razão pela qual o período Heian é considerado por muitos como a era dourada do Japão. Um exemplo é a arte chamada Yamato-e (大和絵).
Emakimono, pergaminho utilizado para pintura e muito popularizado no período Heian
Embora com alguma inspiração nas pinturas da dinastia Tang, o Yamato-e é uma forma de pintura secular que normalmente era pintada nos Emakimono (“絵巻物”, rolo de pintura), prioriza linhas suaves e cores vivas para representar o cotidiano, o estilo de vida e as paisagens do Japão.
O próprio Emakimono, ou simplesmente Emaki (絵巻), que surgiu em meados do século VIII, agora se torna extremamente popular durante os séculos X e XI. O mais famoso Emaki já produzido é o Genji Monogatari Emaki que ilustra a obra do clássico literário de Lady Murasaki Shikibu.
Literatura clássica japonesa
O nascimento da literatura clássica japonesa é um fenômeno extraordinário para a cultura japonesa, Kokufu Bunka, não só pela qualidade das obras produzidas, mas também pelo estilo e forma de escrever únicas.
Evolução do Hiragana a partir do sistema Man’yōgana
Até a metade do período Heian, a forma de escrever no Japão era inteiramente através dos kanjis chineses no sistema chamado Man’yōgana (万葉仮名) em que os caracteres chineses representavam apenas a fonética japonesa e não o significado.
No final do século XII, os ideogramas do sistema Man’yōgana foram desmembrados e simplificados para uma escrita cursiva que deram origem aos dois sistemas de escrita utilizados até hoje no Japão: o Hiragana (平仮名) e o Katakana (カタカナ).
Evolução do Katakana a partir do sistema Evolução do Hiragana a partir do sistema Man’yōgana
O Hiragana foi desenvolvido e utilizado por mulheres da corte Imperial para escrever poemas. Não à toa que os principais nomes da literatura japonesa do período Heian foram mulheres: Lady Murasaki Shikibu, autora de Genji Monogatari e Sei Shōnagonm, autora de Makura no Sōshi (Livro de Travesseiro).
Uma literatura feminina
Ao longo do período Heian, parte significativa do trabalho político do clã Fujiwara era tentar casar suas filhas com o Imperador, fossem elas a Imperatriz consorte ou esposas menores (concubinas).
Murasaki Shikibu, autora de Genji Monogatari e um dos principais nomes da literatura clássica japonesa
Uma vez que o casamento era consumado, essas mulheres passavam a viver no Kōkyū (後宮), uma seção do Palácio Imperial onde vivia a família Imperial. As concubinas eram subordinadas da Imperatriz, mas eram acompanhadas de cortesãs e outras mulheres de famílias de menor status dentro da aristocracia.
Esse ambiente permeado por mulheres letradas e cultas criou um rico ambiente cultural que teve como resultado uma explosão de cultura literária. Tanto Murasaki Shikibu quanto Sei Shōnagon foram camareiras de concubinas do Imperador Ichijō, filhas do clã Fujiwara, mas de ramos rivais.
Sei Shōnagon, autora de Makura no Sōshi e um dos principais nomes da literatura clássica japonesa
Sei Shōnagon era uma mulher bastante familiarizada com os clássicos chineses e japoneses. Murasaki Shikibu era familiarizada com os clássicos chineses. As duas se conheciam e Murasaki criticava Shōnagon em seu diário como uma mulher frívola.
Nikki: os diários literários
Embora Sei Shōnagon e Murasaki Shikibu sejam os nomes mais conhecidos na literatura do período Heian, existiram muitas outras autoras que registravam e se expressavam através de seus diários, os famosos Nikki (日記).
Mãe de Fujiwara no Michitsuna, autora de Kagerō Nikki
Há diferentes tipos de diários, aqueles que registravam os afazeres do dia-a-dia e os diários que eram produzidos para contar histórias e de fato serem lidos por outras pessoas com interesse e prazer.
Entre esses clássicos escrito por mulheres está o Kagerō Nikki (“蜻蛉日記”, Os anos de Teia de Fada) escrito por uma mulher conhecida apenas como “a mãe de Fujiwara no Michitsuna”, e o Sarashina Nikki (“更級日記”, Diário de Sarashina), Lady Sarashina cujo nome real se perdeu na história.
As origens literárias
A literatura do período Heian é majoritariamente dominada por mulheres, mas há um nome masculino de destaque e que se supõe ter sido a inspiração para as literaturas do estilo Nikki: Ki no Tsurayuki, um aristocrata que serviu como Kokushi (governador) da província de Tosa em meados de 930.
Ki no Tsurayuki, autor de Tosa Nikki
Ki no Tsurayuki (872 – 945) escreveu o clássico Tosa Nikki (土佐日記) que conta sua viagem de 55 dias de Tosa para de volta à Heian-kyō ao final de seu mandato como Kokushi. Essa obra é bastante singular porque Tsurayuki escreveu a história sob a perspectiva de uma mulher.
Mais do que isso, Tsyrayuki também escreveu com muito mais caracteres Hiragana do que com kanjis chineses característicos da escrita masculina de seu tempo. Tudo isso criou um conto único que dispensou muitas expectativas e convenções, daí sua originalidade.
A ascensão da poesia Waka
Por ordem do Imperador Daigo, Ki no Tsurayuki concluiu o Kokin Wakashū (古今和歌集) ou simplesmente Kokinshū (古今集), um compilado de poemas Waka (和歌) escrito por Imperadores e nobres da corte Imperial do período Heian.
Kokin Wakashū, antologia de poemas japoneses clássicos que inaugurou a expansão da cultura Waka
Importante ressaltar que o principal estilo poético da época era o Kanshi (漢詩) chinês e os poemas Waka eram vistos apenas como uma forma de passatempo. Os poemas Waka só foram ganhar protagonismo a partir dos Imperadores Uda e Daigo.
A habilidade de compor uma boa poesia Waka passou a ser um fator de distinção, admiração e prestígio entre aristocratas e membros da corte Imperial. O compilado Kokinshū, por exemplo, possui poemas dos Imperadores Uda e Daigo, além de seus conselheiros mais próximos.
Arquitetura Shinden-zukuri
A arquitetura também floresceu maravilhosamente durante o período Heian. Naturalmente a arquitetura Shinden-zukuri (寝殿造) não era a arquitetura do povão, mas a arquitetura das mansões da aristocracia da corte Imperial na capital Heian-kyō.
Shinden-zukuri é uma das maiores belezas culturais produzidas no período Heian
Essa maravilhosa arquitetura era um Yashiki (屋敷), residências da aristocracia, simétrica e integrada com a natureza, e composta com diferentes edifícios que se conectavam por corredores externos que davam vista aos imponentes jardins.
O edifício principal e central era chamado de Shinden (“寝殿”, casa de dormir) e era nesse edifício onde o chefe da família dormia, servia banquetes e celebrava eventos para seus convidados e familiares.
Parque Murasakishikibu Echizen com arquitetura Shinden-zukuri
Ao norte, leste e oeste do Shinden ficavam os edifícios chamados Tainoya (対屋). Era nos Tainoya onde os membros da família viviam. Os Tainoya eram conectados por corredores cobertos e geralmente sem paredes chamados Wataridono (渡殿).
Na parte sul ficava o jardim onde eram realizadas cerimônias ou simplesmente era utilizada para recreação. No centro do jardim ficavam os lagos com pequenas ilhas conectadas com pontes arqueadas. Por fim, um corredor sem paredes que conectava a mansão até o centro do jardim chamado Tsuridono (釣殿).
Mappō Shisō: o fim dos tempos
Mas nem só de conspirações, reformas políticas e sociais, florescimento do budismo, da literatura, das artes, da cultura e da primorosa arquitetura que vivia o período Heian, o período considerado como a era dourada do Japão.
Incontáveis desgraças se abateram sobre a população comum do Japão. Se por um lado a aristocracia vivia uma vida que faz muita gente pensar que esse era um momento glorioso para estar vivo, a vida do japonês comum beirava o inferno na Terra.
Apesar de ser considerada como o era dourada do Japão em termos culturais, o período Heian também foi um período marcado por uma descrença tão grande que a ideia de fim dos tempos, Mappō Shisō, foi muito presente na socidade japonesa como forma de esperança em acabar o sofrimento
Inundações, secas, terremotos, vulcões, tufões, pestes e fome, tudo o que é desgraça acontecia com o japonês que não fazia parte da casta dos aristocratas. Não à toa que por volta da metade dos anos 900 começou a surgir uma ideia entre a população chamada Mappō Shisō (末法思想).
Mappō Shisō é uma espécie de ideia de fim dos tempos, ou Pensamento da Idade do Final do Dharma. De acordo com a tradição budista japonesa, o mundo passaria por três fases após a morte de Buda e a fase Mappō seria a última, uma era em que o mundo se tornaria um caos e a iluminação se tornaria impossível.
Fim dos tempos pero no mucho
É importante frisar que Mappō Shisō nada tem a ver com a escatologia monoteísta do fim dos tempos. Para ser mais preciso, Mappō Shisō é considerada uma época extremamente longa de escuridão e desespero.
Muitos consideravam que Mappō Shisō começou no ano 1052, um ano particularmente recheado de morte e desastres naturais no país, como resposta ao porque a vida da maioria das pessoas eram tão miseráveis.
Os japoneses esperavam pelo Gokuraku Jōdo, a Terra Pura do budismo com a chegada do Mappō Shisō
A semelhança, no entanto, entre o período Heian no Japão e a Europa medieval é que ambas civilizações buscam paz, felicidade e salvação no pós-vida. No caso dos cristãos no Reino dos Céus, no caso dos budistas, Gokuraku Jōdo (極楽浄土).
Gokuraku Jōdo, a Terra Pura dos Budas, é um lugar onde os seres renascem dentro do processo de transmigração da alma (para saber mais, confira nosso artigo Samsara: um guia sobre os seis reinos do Rokudō)
A Terra Pura é um lugar livre da dor e do sofrimento, reino celestial do Buda Amitābha (“अमिताभ” Luz Incomensurável), Amida Butsu (阿弥陀仏) no budismo japonês. Portanto, não se trata do fim dos tempos como se pensa nas religiões monoteístas, trata-se de renascer em um reino superior.
Amida-dō: um pedaço do paraíso na Terra
Desde o início da crença Mappō Shisō em 1052, alguns templos chamados Amida-dō (Salão de Amida) foram erguidos no Japão. De acordo com a história, em seu leito de morte, Fujiwara no Michinaga pediu para ter seus últimos suspiros em um Amida-dō enquanto olhava para a imagem de Amida Butsu.
O mais importantes e complexo dos templos Amida-dō que refletiam a nova crença religiosa foi construído pelo filho de Fujiwara no Michinaga, o Sesshō Fujiwara no Yorimichi, em Kyoto, o famos Byōdō-in Hōōdō (平等院鳳凰堂).
Byōdō-in Hōōdō, o principal legado deixado por Fujiwara no Michizane, um pedaço da Terra Pura budista no reino dos seres humanos
Não por acaso o Byōdō-in (“平等院”, Templo da Igualdade) Hōōdō (“鳳凰堂”, Salão da Fênix) foi construído em 1053, um ano após o Mappō Shisō, e no que era a casa de veraneio de Yorimichi. O Byōdō-in Hōōdō foi construído para ser uma expressão do que seria a aparência da Terra Pura.
Essa magnífica construção que está presente em todas as moedas de 10 ienes é uma das poucas construções erguidas a mando do clã Fujiwara que sobreviveu até os dias atuais e segue sendo uma das construções mais importantes do Japão.
O nascimento dos samurais
As desgraças não pararam nos anos 1050. Além das pragas, secas, enchentes, pestes, vulcões, terremotos, tufões e fome que assolavam o país ao logo do período Heian, uma sequência de conflitos moldaram o futuro do país.
Os samurais surgiram e nasceram como força política no período Heian
Lembra da reforma Kondei no Sei promovida pelo Imperador Kanmu para a criação de uma força militar que deixava de ser composta de camponeses pobres e passaram a ser exercidas pelos filhos da nobreza e da aristocracia das províncias e que ajudou a forjar a cultura Bushidō?
Outros eventos do período Heian também foram fundamentais para o surgimento de um dos símbolos mais famosos do Japão: o samurai. Mas, é preciso fazer uma breve recapitulação histórica para entender exatamente como esse ícone surgiu.
A terra no período Nara
Lembra que do Imperador Kanmu ao Imperador Daigo se tentou de tudo o que era jeito reformar o sistema Ritsuryō? Uma das principais reformas estavam ligadas a distribuição da terra e na forma da coleta dos impostos.
Pois bem. Ainda no período Nara, o Imperador Shōmu promulgou a lei Konden Einen Shizai no Hō (“墾田永年私財法”, Lei da Propriedade Privada Perpétua das Terras Cultivadas) que como o próprio nome diz dava posse perpétua para quem ocupasse terras e produzissem nela.
Shōmu-tennō (701 – 756), 45º Imperador do Japão entre 724 e 749
A ideia era aumentar a produtividade da agricultura encorajando as pessoas a tomarem a terra para si. Mas o que aconteceu na verdade é que essa lei beneficiou apenas os aristocratas e o clero. Esses eram os únicos atores sociais capazes de grandes empreendimentos e ocupação da terra.
A apropriação de terra pelo clero e pela aristocracia é chamado de Shoki Shōen (初期莊園), o primeiro estágio da propriedade privada no Japão. Como essas propriedades pagavam impostos, aparentemente não apresentavam nenhum risco ao estado, até o período Heian.
Reorganização da terra
De volta ao período Heian, lembra do Engi no Shōen Seiri-rei, uma reforma levada a cabo pelo Imperador Daigo para reorganizar a distribuição de terra em 902 e que não deu certo? Uma das razões é porque o governo central não tinha a compreensão necessária da sua própria população.
O censo do governo era completamente fraudado para evitar os impostos. A população correta era um mistério e sem dados corretos era simplesmente impossível distribuir a terra adequadamente. Então o jeito foi taxar a terra em vez das pessoas.
A questão da terra, de sua posse e usufruto mudou radicalmente no período Heian e abriu caminho para a feudalização do Japão no período Kamakura
O imposto era cobrado por unidade de terra ou campos de arroz chamados Myō (名). A gerência dos Myō ficava a cargo de agricultores ricos chamados de Tato (田堵) que administravam a terra. Os Tato, por sua vez, não respondiam ao governo central, e sim aos Kokushi, governadores de província.
Antes do imposto ser cobrado pela terra, isto é, o imposto cobrado sobre pessoas, os impostos eram cobrados pelos Gunji (郡司), burocratas locais que não tinham nenhum vínculo com os Kokushi.
Já os Tato estavam intimamente ligados e relacionados com os governadores das províncias. Sem os intermediários da coleta de imposto que não tinham relação com os Kokushi e com os novos associados Tato, o poder dos Kokushi aumentou significativamente.
Zuryō Kokushi: os governadores gananciosos
Durante esse período, os governadores de província começaram a ser chamados de Zuryō Kokushi (受領国司), ou simplesmente Zuryō (受領). Eles eram conhecidos por todos como indivíduos extremamente gananciosos pela forma como cobravam impostos em suas províncias.
O cargo de governador de províncias começou a ser muito interessante para aristocratas de baixo escalão e acabaram se tornando Zuryō Kokushi
O novo sistema fez com que as províncias pagassem os devidos impostos ao governo central, mas por causa do poder dos governadores, era relativamente simples coletar mais impostos do que o exigido para o benefício pessoal desses nobres.
Um exemplo histórico do poder, da ganância e da brutalidade com que os Zuryō Kokushi coletavam os impostos nas províncias foi o caso de Fujiwara no Motonaga, governador da província de Owari (atual província de Aichi) em meados de 980.
Owari no Gebumi: a petição dos agricultores
Durante o mandato de Fujiwara no Motonaga, agricultores, camponeses e funcionários distritais da província enviaram uma petição ao governo central chamada Owari no Kuni Gunji-Hyakushōra no Gebumi (尾張国郡司百姓等解文) em 988.
Essa petição comumente chamada apenas de Owari no Gebum foi enviada ao Grande Conselho de Estado e denunciou a má gestão e abusos do Zuryō Kokushi como a opressão da população, impostos ilegais e sua não presença na sede do governo para que ninguém pudesse reclamar com ele.
Trecho da petição Owari no Kuni Gunji-Hyakushōra no Gebumi
O documento também denunciou que Motonaga levou uma série de partidários de Heian-kyō para Owari e os empregado na província como seus coletores de impostos pessoais. O filho de Motonaga, Fujiwara no Yorikata, em especial, usava o nome do pai para exercer poder e roubar impunemente da população local.
Embora o Owari no Gebumi tenha conseguido retirar Fujiwara no Motonaga com o Zuryō da província de Owari, Motonaga se manteve na vida política e um de seus filhos acabou se tornando Zuryō da província de Iwami (atual parte oeste da província de Shimane) alguns anos depois.
O centrão da corte Imperial no período Heian
Se você é brasileiro, brasilianista ou simplesmente está familiarizado com o termo político “Centrão”, perceberá que o período Heian também tinha um centrão para chamar de seu.
Uma das razões pelo qual a petição Owari no Gebumi seja tão importante é porque é um dos poucos documentos que tiram o foco da capital Heian-kyō e fala sobre uma província em que, não fosse esse documento, provavelmente nunca seria mencionada na história.
As províncias eram uma fonte de acúmulo de riqueza longe dos holofotes da corte imperial
A briga de gente grande acontecia dentro da corte Imperial, na capital, e não nas províncias. Só que a corte Imperial não tem espaço para todo mundo. A aristocracia média que tinha consciência de que não tinham condições de conseguir um lugar ao Sol começaram a ver que valia muito a pena se tornar um Zuryō.
Se por um lado ser um governador de província não tinha prestígio político dentro da corte Imperial, pelo menos era muito lucrativo, o suficiente para aqueles que sabiam que estavam destinados a um cargo burocrático irrelevante dentro da corte ambicionarem voos mais altos.
Quem quer rir, tem que fazer rir
Na metade do período Heian começou a se tornar comum que aristocratas pagassem por construções de templos ou cerimônias Imperiais para “comprar” uma posição como governador de província. Existem termos para esse tipo de suborno e corrupção.
Suborno e propina eram práticas comuns na corte imperial para a compra de um cargo de governador de província
O termo Jōgō é utilizado para descrever o ato de usar os próprios bens pessoais para conseguir um mandato de governador de província. Já o termo Chōnin é utilizado para descrever o ato de compra de um segundo mandato de governador de província pelos mesmos meios.
Existiu também um tipo muito particular de governador de província chamado Yōnin. Os Yōnin eram nomeados governadores, mas enviavam um representante para coletar os impostos em seu nome e “governavam” da capital Heian-kyō enquanto relaxavam, curtiam e enriqueciam.
A ascensão dos Daimyō Tato
Quando o imposto passou a ser cobrado da terra e não das pessoas, outras forças econômicas e políticas emergiram. Os aristocratas de baixo escalão lucravam ocupando os cargos de governadores de províncias, os Tato também prosperavam em autoridade e influência.
Esses gerentes de fazendas, os agricultores ricos (Tato) receberam o nome de Daimyō Tato (大名田堵). Daimyō aqui siginfica “Myō extenso”. Muitos Daimyō Tato expandiam as plantações para além dos campos que o governo os confiou.
A fiscalização precária do governo central nas províncias permitia que os Daimyō Tato adicionassem terras que não era atribuida a eles
Essa expansão trouxe mais poder econômico, prestígio político e autoridade local aos Daimyō Tato. Esse novo poder estava de mãos dadas com os governadores regionais e pegavam carona na prática de extorquir a população com impostos ilegais.
Esse nível de ganância é uma das principais características da era Zuryō Kokushi. Mas as relações de poder entre as personagens emergentes e o poder central da corte Imperial começaram a se tornar cada vez mais promíscuas.
Corrupção e evasão fiscal
Assim como os aristocratas compravam seus mandatos para governadores de províncias, os Daimyō Tato também começaram a adular os aristocratas da corte Imperial. Os Daimyō Tato passaram a fazer doações de terras para figuras e instituições poderosas da capital.
Os mais visados eram os membros do clã Fujiwara, membros da família Imperial e templos com prestígio político. Essa foi a forma que os Daimyō Tato encontraram para driblar os governadores de província e não pagarem impostos.
Fuyu no Ken era um esquema em que os Daimyō Tato se faziam de administradores de terras de clãs poderosos que recebiam isenção de imposto, em troca pagavam os clãs, mas em uma quantia menor do que seria de impostos para os cofres do tesouro imperial
Essas terras doadas se tornavam Shōen, uma propriedade privada que através de seu poder e influência era capaz de assegurar isenção de impostos, uma licença especial chamada Fuyu no Ken (不輸の権). Assim, os Daimyō Tato se tornavam administradores das terras que eles doaram.
Agora, em vez de pagar o imposto para o governador da província, o Zuryō Kokushi, os Daimyō Tato pagavam apenas uma quantia bem menor do que os impostos para seus patrocinadores que oficialmente eram os proprietários dessa propriedade privada.
Um novo modo de produção
Os “novos proprietários” do Shōen, a propriedade privada, por vezes conseguiam uma segunda licença especial chamada Funyū no Ken (不入の権). Essa licença especial proibia a entrada de qualquer agente do governo da província no Shōen.
O poder do Zuryō Kokushi era enorme, mas não podia fazer frente contra a alta aristocracia e os poderosos templos de Nara. Conforme a prática de cooptação dos Daimyō Tato foi aumentando, mais os governadores viam seus impostos minguarem.
Não obstante em não ter que pagar impostos, o Funyū no Ken também impedia que oficiais do governo entrassem no território demarcado. Esse é o início do processo de feudalização do Japão com o nascimento de milícias privadas para proteger o território
Esse tipo de propriedade privada que era isenta de impostos e que estava fora da jurisdição do Kokushi e que era fruto da “doação” dos Daimyō Tato para as figuras mais poderosas do Japão ganhou o nome de Kishinchi-kei Shōen (“寄進地系荘園”, propriedades de campo doadas).
Esse modelo de propriedade sepultou com pá de cal o antigo sistema Ritsuryō e abriu caminho para uma nova forma de gerir a terra, um modelo feudal onde a terra deveria ser dividida e possuída.
Exércitos locais e senhores da guerra
Para possuir a terra é preciso mantê-la e só é possível manter a terra através da força. Com os Kishinchi-kei Shōen proliferando nas províncias, os Daimyō Tato passaram a armar seus familiares e subordinados em ordem de proteger a terra que eles gerenciavam.
A formação de exércitos locais e milícias por parte dos Daimyō Tato fez com que mesmo os outros proprietários de terras que estavam sujeitos aos impostos do governo da província também começasse a se armar para se proteger da cobiça dos mais poderosos e dos rivais.
Os Bushidan se reunião e respondiam ao Daimyō Tato, não ao governo central ou o governador da província
Um dos tópicos sobre as reformas promovidas pelo Imperador Kanmu descrito acima falava sobre a reforma Kondei no Sei que em suma fazia com que as forças militares provincianas deixassem de ser compostas por camponeses pobres e passassem a ser composta voluntários e filhos dos ricos e poderosos locais.
O armamento dos Daimyō Tato em milícias e exércitos privados é um desdobramento dessa reforma e deu origem ao termo Bushidan (“武士団”, bando de guerreiros). Nesse período, bushi não era uma casta social, era apenas um estilo de vida provinciano de autossuficiência de defesa.
A era dos Daimyō Tato
Quanto maior o poder do Daimyō Tato, mais seu Bushidan aumentava. Esse enorme poder militar sob controle de uma única pessoa fez com que se tornasse inevitável que a autoridade e o poder do Daimyō Tato fosse incorporado ao aparato do governo provinciano.
Muitos Zuryō Kokushi fixaram raízes nas províncias em que serviram como governadores em vez de retornar para a capital Heian-kyō. O líder dos Bushidan, fosse um Daimyō Tato, fosse um antigo governador de província, era conhecido como Tōryō (棟梁).
A ascensão do clã Taira
Os exemplos mais conhecido de Tōryō são representados em dois poderes ascendente ao longo do século X do Japão: Kanmu Heishi (桓武平氏), o ramo mais influente dentro do clã Taira; e Seiwa Genji (清和源氏), o ramo mais influente dentro do clã Minamoto. Note que os ramos trazem o nome de Imperadores.
O clã Taira foi formado por Taira no Takamochi, descendente do neto do Imperador Kanmu, príncipe imperial Takamochi que abdicou do status imperial para se tornar um nobre e governar a província de Kazuza (atual província de Chiba) em 898.
Descendentes do Imperador Kanmu, o 50° Imperador do Japão, o clã Taira foi fundado por Taira no Takamochi
Sem chances de ter uma posição de destaque na corte Imperial e desfavorecido pelo poder vigente, Taira no Takamochi foi fundamental para estabilizar a região de Kantō por causa de sua linhagem Imperial, ainda que ele fosse apenas mais um nobre na corte Imperial.
Os descendentes de Takamochi permaneceram na região, prosperaram e ganharam força. Algumas décadas mais tarde, a segunda geração do clã seria lembrada por uma das revoltas mais impactantes da história do Japão.
Taira no Masakado
Taira no Masakado (903? – 940) é uma personagem muito conhecida por fazer uma rebelião contra a capital Heian-kyō. Por volta de 930, Masakado entrou em disputa com outros familiares. A razão provavelmente foi herança de terra e questões matrimoniais.
Uma das principais consequências desse conflito interno foi a morte de Taira no Kunika, tio de Taira no Masakado, pelas mãos do próprio Masakado. Outra consequência foi que Masakado se tornou uma das principais forças políticas e militares de Kantō.
Taira no Masakado, figura icônica da história do Japão e líder da Rebelião Taira
Uma série de outros poderosos Tōryō, senhores de terra, procuraram uma aliança com Taira no Masakado para resolverem suas próprias querelas. Esse modelo de aliança acabou fazendo que Masakado entrasse em conflito direto com o governador da província de Hitachi (atual província de Ibaraki) em 939.
As forças de Masakado invadiram a província de Hitachi, atacou o quartel general da província e cercaram a sede do poder politico do governador. Um de seus aliados disse o óbvio: a punição por atacar um quartel general de província não deve ser diferente de atacar vários. E foi assim que Masakado conquistou toda a região de Kantō.
A lenda do Novo Imperador
Taira no Masakado se tornou muito poderoso. No auge de seu poder, era ele quem nomeava os governadores das oito províncias de Kantō e não Heian-kyō (capital do governo central imperial. Esse poder fez com que Taira no Masakado tivesse se declarado como “Novo Imperador” (“親王”, Shinnō ).
A história e veracidade dessa anedota histórica do “Novo Imperador” vem sendo questionada e revisada por historiadores modernos. Mas, seja fato, seja falso, dificilmente essa anedota sairá do imaginário coletivo que foi transmitido de geração em geração.
A queda de Taira no Masakado
O poder de Masakado se tornou tão grande que ele não podia mais ser ignorado pela corte Imperial, era preciso lidar com Taira no Masakado. Mas, enquanto Heian-kyō estava se organizando para nomear um novo Seiitai Shogun, Taira no Masakado foi morto.
Ilustração ukiyo-e de Tsukioka Yoshitoshi (1839 – 1892) de Taira no Masakado em combate em cima do cavalo
Masakado foi morto por dois rivais locais. Um deles era primo de Masakado, Taira no Sadamori, filho de Taira no Kunika que fora assassinado por Masakado. O outro era Fujiwara no Hidesado, um poderoso e influente da região de Kantō.
A Revolta Pirata
Concomitante aos problemas em Kantō com Taira no Masakada, uma nova ameaça ao poder central surgia no mar interior do Japão, o mar Seto, em Kyūshū com Fujiwara no Sumitomo (para saber mais sobre essa personagem, confira o artigo Conheça a história de três piratas japoneses).
Fujiwara no Sumitomo era membro de linhagem periférica dentro do ramo Hokke (Casa do Norte) do clã Fujiwara. Filho de Fujiwara no Yoshinori, Sumitomo não tinha grandes possibilidades políticas dentro da corte Imperial.
Fujiwara no Sumimoto, líder dos piratas do mar interior do Japão e da revolta dos piratas
Em meados da metade dos anos de 930, Sumitomo foi enviado para a província de Iyo (atual província de Ehime) para se tornar um subordinado direto do governador da província, um cargo chamado Jō (掾), o comissário, abaixo apenas do Suke (“介”, vice-governador) e Kami (“守”, governador).
Ao se tornar comissário do governador da província de Iyo, foi confiado a Sumitomo a tarefa de lidar com os piratas que viviam nas ilhas do mar Seto. Sumitomo obteve êxito em sua campanha, mas as glórias ficaram para os seus superiores e ele não foi convidado para a repartição das recompensas .
O início de uma rebelião
Ser tratado dessa forma pode fazer com que as pessoas mudem. Foi o que aconteceu com Sumitomo. Ele se fixou em Shikoku e se juntou aos antigos inimigos, os piratas que habitavam o mar do interior do Japão, organizando-os e fazendo deles uma frota naval.
Em 939 a frota de Fujiwara no Sumitomo realizou um grande ataque contra o governador da província de Bizen que foi considerado pela corte Imperial como uma traição, mas Heian-kyō as atenções da corte Imperial estavam voltadas para Kantō.
O governo central não tinha capacidade para lidar simultaneamente com a rebelião de Taira no Masakado e de Fujiwara no Sumitomo. Correram rumores na época e que se confirmaram falsos pela história de que Sumitomo e Masakado eram aliados contra o governo central.
Ganhando tempo
Sem poder fazer frente a frota de cerca de 400 embarcações de Fujiwara no Sumitomo, a corte Imperial precisou ganhar tempo enquanto lidava com Taira do Masakado. Para isso, ofereceu uma promoção na corte Imperial a Sumitomo.
Infelizmente para o agora pirata, Masakado foi derrotado e a corte pode voltar suas atenções para Shikoku. Uma grande mobilização foi realizada para caçar Sumitomo e seu bando. Sabendo disso, Sumitomo pilhou diversas províncias e derrotou as forças da corte Imperial.
A frota de cerca de 400 embarcações lideradas por Fujiwara no Sumitomo pilharam as cidades e infligiram derrotas às forças imperiais
Sumitomo também atacou o quartel general de Dazaifu no quinto mês de 941 e o reduziu a cinzas. Apesar de suas efêmeras vitórias, dias após queimar o quartel de Dazaifu, a frota de Sumitomo foi derrotada na Baía de Hakata.
Fujiwara no Sumitomo voltou fugido para a província de Iyo onde foi capturado e executado pelo chefe de polícia provinciana, um homem chamado Tachibana no Tōyasu. Ao final de 941 as rebeliões foram silenciadas no país.
O legado do Distúrbio Jōhei Tengyō
Tanto a rebelião de Taira no Masakado como a de Fujiwara no Sumitomo são tratadas na história japonesa como um evento único conhecido como Jōhei Tengyō no Ran (“承平天慶の乱”, Distúrbio Jōhei Tengyō) por terem acontecido simultaneamente durante a era Jōhei (931 – 938) e Tengyō (938 – 947).
As duas rebeliões do Jōhei Tengyō no Ran foram avassaladores para a corte Imperial em Heian-kyō. Ainda que Taira no Masakado e Fujiwara no Sumitomo tenham sido derrotados e mortos, seus nomes ecoaram pelos corações e mentes dos aristocratas.
Os dois focos de conflito e confronto dos Distúrbio Jōhei Tengyō no Ran
Existia algo a mais em Masakado e Sumitomo, algo que faltava aos outros. Imagine então o que aconteceu com aqueles que derrotaram tais figuras quase sobrenaturais no imaginário da classe dominante. Um novo poder emergia diante dos olhos de todos.
Fujiwara no Hidesato e Taira no Sadamori, os homens que derrotaram Taira no Masakado, e Minamoto no Tsunemoto, neto do Imperador Seiwa e o homem que derrotou Fujiwara no Sumitomo, foram fartamente recompensados.
O berço da guerra vindoura
Derrotar os rebeldes trouxe louros significativos aos recompensados pelo governo central. Hidesato, Sadamori e Tsunemoto foram elevados a altas posições dentro da corte Imperial e se tornaram governadores de diversas províncias.
Para além, Fujiwara no Hidesato, Taira no Sadamori e Minamoto no Tsunemoto e seus descendentes se tornaram os especialistas militares dentro da aristocracia de Heian-kyō. A montaria e a arquearia eram suas marcas registradas.
Saburau, aquele que servia ao mestre, termo que dá origem a palavra Samurai 侍
Os três clãs monopolizaram a classe guerreira da aristocracia e passaram a ser vistos como defensores da capital e das províncias, o que de fato eles se tornaram, fosse pela função de soldados, fosse pela função de polícia, ou ambos.
E por servirem a esse propósito, passaram a ser chamados de Samurai (侍). A palavra tem origem antiga. O termo originalmente era o verbo Saburau, aquele que serve um mestre. O sentido da palavra se transformou ao longo do tempo, mas naquele momento indicava a função, e não a classe.
A nova formação de poder
Alguns descendentes de Sadamori, Tsunemoto e Hidesato passaram a servir a classe dominante na capital, uns se tornando Kebiishi (a polícia da capital), outros como guerreiros conhecidos como Takiguchi no Musha (滝口武者), guerreiros de elite da guarda do palácio Imperial.
Já a maioria dos membros dos respectivos clãs fincaram raízes nas províncias tornando-as centros de poder do clã, além das províncias em que se tornavam governadores. Muitos outros eram apontados em posições de poder muito próximas aos Kokushi.
Minamoto no Mitsunaka, ukiyo-e de Utagawa Yoshitsuya em sua obra, a série Genke Yusho Kagami
Lembra do Incidente Anna (Anna no Hen) em 969 contado acima, quando Minamoto no Takaakira foi exilado acusado de tentativa de golpe contra o Imperador Reizei? Pois bem, uma das consequências diretas do incidente foi a mudança radical na arquitetura de segurança do Japão.
Quem acusou falsamente Minamoto no Takaakira de tentativa de golpe contra o Imperador foi Minamoto no Mitsunaka, filho de Minamoto no Tsunemoto. Mitsunaka também envolveu o filho de Fujiwara no Hidesato em toda a trama.
Como resultado, toda a descendência do ramo de Fujiwara no Hidesato caiu em desgraça e perdeu permanentemente seu status de família guerreira, assim, dois grandes poderes emergiram no Japão: o clã Taira, descendentes do Imperador Kanmu, e o clã Minamoto, descendentes do Imperador Seiwa.
Aliança Minamoto-Fujiwara
A queda de Minamoto no Takaakira como um possível regente no Incidente Anna também inaugurou uma aliança extremamente poderosa entre o clã Seiwa Minamoto e o clã regente Fujiwara. Essas relações políticas entre clãs ainda é muito forte no período Heian, anterior a era feudal do Japão.
Estandarte do clã Seiwa Minamoto, descendentes diretos do imperador Saga
Essa relação política entre Seiwa Minamoto e Hokke Fujiwara era importante especialmente para o clã Minamoto porque abriam portas para indicações de cargos políticos importantes que só seria possível pela intervenção da família regente Fujiwara.
Estandarte do clã Hokke Fujiwara
A aliança entre os dois clãs pavimentou o crescimento e reconhecimento político do clã Seiwa Minamoto, bem como aumentou significativamente o poder financeiro dessa nova força política.
Rebelião de Taira no Tadatsune
Enquanto o clã Minamoto gozava da aliança com a família regente Fujiwara, o clã Taira continuou se fortalecendo e se fortificando. Até que em 1028 estoura na região de Kantō a Rebelião de Taira no Tadatsune (“平忠常の乱” Taira no Tadatsune no Ran).
Foco da Rebelião Taira no Tadatsune de 1028 a 1031 na região de Kantō
Taira no Tadatsune (967 – 1031), neto de Taira no Masakado e governador da província de Kazusa durante algum tempo, controlava um território bastante considerável na região de Kantō, e tinha um poder político forte o suficiente para confrontar outros poderosos locais.
Buscando ampliar o controle de Kantō sob o domínio do clã Taira, Taira no Tadatsune lança um ataque na província de Awa (atual Chiba) e mata o governador da província em 1028. Esse ataque forçou a corte imperial a enviar uma expedição militar para acabar com a rebelião.
Ofensiva contra a rebelião
Quem assumiu a tarefa de acabar com a rebelião inciada por Taira no Tadatsune foi Taira no Naokata, um oficial do Kebiishi (guarda imperial da capital). Taira no Naokata vinha de uma linhagem que teve contendas com a linhagem de Tadatsune ao longo de gerações.
Frentes de batalha nas três antigas províncias da Península de Bōsō: Awa, Kazusa e Shimōsa durante a Rebelião Taira no Tadatsune
Isso fez com que Naokata assumisse a responsabilidade com ainda mais afinco. A campanha de Naokata foi um desastre. Foram três anos sangrando os cofres públicos com provimentos para as tropas de Naokata e batalhas inúteis que não deram nenhum resultado.
Taira no Naokata foi demitido de suas funções e em seu lugar a corte imperial nomeou Minamoto no Yorinobu (968 – 1048), terceiro filho de Minamoto no Mitsunaka e que na ocasião servia como governador da província de Kai (atual Yamanashi).
O fim da Rebelião Taira no Tadatsune
Yorinobu fez carreira servido Fujiwara no Michinaga, autor do Poema da Lua Cheia e arquiteto da era dourada do clã Fujiwara. Yorinobu era um dos chamados Michinaga no Shitennō (道長四天王), um grupo de quatro guerreiros aristocratas renomados e alicerces militares de Michinaga.
Ukiyo-e de Tsukioka Yoshitoshi na série Dai Nippon Meisho Kagami representando Minamoto no Yorinobu cruzando um rio para combater Taira no Tadatsune
Quando Taira no Tadatsune descobriu que Minamoto no Yorinobu estava indo em direção a província de Kazusa para combatê-lo, preferiu se render a ter de lutar contra Yorinobu. Tadatsune morreu doente durante sua viagem para a capital Heian-kyō para ser julgado.
Para não perder viagem, Minamoto no Yorinobu arrancou a cabeça de Taira no Tadatsune e levou como prêmio de consolação para a corte imperial. Essa campanha militar impecável rendeu muito poder e prestígio ao clã Minamoto.
As consequências da rebelião de Taira no Tadatsune
A rebelião liderada por Taira no Tadatsune trouxe consequências expressivas para o Japão e para a região de Kantō. A primeira dela é que a guerra devastou a produção agrícola da região. Foram necessários aportes e investimentos significativos ao longo de gerações para recuperar a economia.
A segunda foi abertura de um novo polo de poder do clã Seiwa Minamoto no leste do Japão. Antes da rebelião, o clã Minamoto controlava regiões centrais mais próximas a capital.
Kamakura na antiga província de Sagami, capital política de facto no Japão durante 1185 à 1333, foi dada a Minamoto no Yorinobu como presente de casamento por Taira no Naokata
Uma terceira e aparentemente menos importante foi um pedaço de terra que Minamoto no Yorinobu recebeu em Kantō por seus serviços prestados. Para além, Taira no Naokata, oficial que fracassou em deter a rebelião, ficou tão impressionado com Yorinobu que ofereceu sua filha em casamento.
Além da filha, Taira no Naokata também ofereceu como dote um pedaço de terra que estava sob poder de sua família há gerações na província de Sagami e que foi passada para Minamoto no Yorinobu. Essa terra na costa japonesa se chama Kamakura.
Invasão Toi
A Invasão Toi (“刀伊の入寇”, Toi no Nyūkō) aconteceu uma década antes da Rebelião Taira no Tadatsune em 1019 em Kyūshū. Milhares de piratas Jurchen (Toi para os japoneses), população étnica da Manchúria, lançaram um ataque no sul do Japão.
Os piratas saquearam as províncias do norte de Kyūshū por duas semanas seguidas e levou a morte de cerca de 300 japoneses, milhares foram capturados e cerca de 400 cavalos e gados foram roubados ou mortos durante a pilhagem.
Ilustração de Fujiwara no Takaie, Shitōkan (vice-rei)de Daizafu, o principal nome de liderança na defesa e expulsão contra a invasão pirata no Japão
Como as forças de Daizafu não contavam mais com o antigo sistema de militar, faltava pessoal e equipamento para enfrentar os piratas. Mesmo assim, guerreiros locais, muitos dos quais burocratas e membros do clã Kanmu Taira, enfrentaram os piratas em terra e os expulsaram da região.
A derrota final dos piratas aconteceu pelas mãos do general Yun Gwan de Goryeo (Coreia) quando os piratas retornaram para a Ásia continental. Além disso, o governo de Goryeo devolveu centenas de japoneses raptados. Daizafu agradeceu ao governo de Goryeo com ouro.
A região de Tōhoku
A região norte de Honshu, Tōhoku, foi um território bastante complexo e instável durante muito tempo. Como visto no começo, o Imperador Kanmu dedicou um grande esforço em subjugar os Emishi e estabelecer o controle no norte do país.
Tōhoku, a região norte da ilha de Honshū
A partir da segunda metade do século XI aconteceram dois grandes eventos políticos e militares extremamente importantes no período Heian, a Zenkunen no Eki (“前九年の役”, Guerra Zenkunen) de 1051 até 1062, e a Gosannen no Eki (“後三年の役”, Guerra Gosannen) de 1083 até 1087.
A região Tōhoku ficou, ao menos em tese, subordinada à corte imperial por mais de um século. A verdade, porém, é que o norte do Japão era controlado por poderosos clãs que cooperavam com o governo provinciano de forma bastante tímida.
Clã Abe
O Clã Abe era um dos mais poderosos e controlava a porção oriental de Tōhoku, a província de Mutsu (atual províncias de Fukushima, Miyagi, Iwate e Aomori).
Estandarte do clã Abe
O Clã Abe era considerado como um clã Emishi, ou seja, eram considerados bárbaros. Historiadores modernos, no entanto, vem refutando essa tese e alegando que o clã era uma família de burocratas que se estabeleceu na região norte do país.
A batalha de Onikiribe
Na metade do século XI, o líder do clã Abe, Abe no Yoritoki (? – 1057), começou evitar honrar seus compromissos de pagar impostos e fornecer mão de obra para o governador da província de Mutsu.
A postura de Abe acabou levando a um confronto militar entre o clã Abe e o governador da província de Mutsu em 1051. O governador era um aristocrata nascido na capital e não tinha nenhuma experiência militar.
Trecho do pergaminho Zenkunen Kassen Emaki que narra a Primeira Guerra dos Nove Anos
Desnecessário dizer que a batalha foi curta e o clã Abe saiu vitorioso do confronto na Batalha de Onikiribe, batalha essa que marca o que ficou conhecida como a Guerra Zenkunen (Zenkunen no Eki), ou a Primeira Guerra dos Nove Anos.
Derrotado, o governador de Mutsu fugiu para a capital e a corte imperial nomeou Minamoto no Yoriyoshi (998 – 1075), um militar de renome e filho de Minamoto no Yorinobu, o herói da Rebelião de Taira no Tadatsune, em seu lugar.
A frágil paz
Quando Minamoto no Yoriyoshi assumiu como Kokushi de Mutsu, a atitude de Abe no Yoritoki, que na verdade também se chamava Yoriyoshi mas mudou de nome para não gerar mal entendidos com o novo governador, mudou radicalmente.
Abe no Yoritoki assumiu uma posição muito mais submissa e evitou ao máximo qualquer tipo de atrito entre Minamoto no Yoriyoshi, o novo governador da província e seus subordinados.
Minamoto no Yoriyoshi, governador da província de Mutsu
Ao longo dos quatro anos de mandato de Yoriyoshi, tanto o governador quando o clã Abe conseguiram manter uma paz bastante frágil, mas ainda assim paz. No final do mandato de Yoriyoshi, no entanto, tudo mudou.
Pouco antes do fim do mandato, subordinados do governador Yoriyoshi foram atacados por Emishi. O ataque foi provocado por desconhecidos, mas, mesmo sem evidências, Yoriyoshi acusou o filho de Yoritoki, Abe no Sadatō (1019 – 1062).
A derrocada de Minamoto no Yoriyoshi
Com um pretexto em mãos, Minamoto no Yoriyoshi lançou um ataque em larga escala contra o clã Abe. Após a morte de seu pai em batalha, Abe no Yoritoki, assumiu a liderança do clã e impôs uma resistência feroz e inesperada ao governador.
A guerra já se arrastava por cerca de dois anos quando durante o inverno de 1057, na Batalha de Kinomi, as forças de Minamoto no Yoriyoshi foram completamente derrotadas por Abe no Sadatō.
Abe no Sadatō derrotou Minamoto no Yoriyoshi na Batalha de Kinomi
A lenda diz que sobraram apenas sete pessoas do exército de Yoriyoshi sobreviventes, incluindo ele e seu filho, Yoshiie. Mas, é preciso ter em conta que os exércitos daquela época contavam com centenas ou apenas alguns milhares de soldados.
A derrota também se deu pelo fato de que a corte imperial não atendeu aos inúmeros pedidos de reforços de Yoriyoshi. Derrotado, Yoriyoshi então fez um pacto em 1062 com o clã Kiyohara da província vizinha, Dewa (atual província de Yamagata e Akita).
O clã Kiyohara
Desassistido pela corte imperial, Minamoto no Yoriyoshi se aliou ao clã mais poderoso da província de Dewa. O clã Kiyohara era a outra força dominante na região de Tōhoku ao lado do clã Abe.
O líder do clã, Kiyohara no Takenori, se aliou a Minamoto no Yoriyoshi e marchou para o leste em direção a província vizinha de Mutsu com uma força militar estimada em 10 mil homens e os remanescentes do exército de Yoriyoshi.
Obra de Kikuchi Yōsai na série Zenken Kojitsu representando Kiyohara no Takenori, líder do clã Kiyohara
No mesmo ano em que o pacto entre Yoritoshi e o clã Kiyohara foi selado, o clã Kiyohara saiu vitorioso e anexou os territórios que eram controlados pelo clã Abe na província de Mutsu.
Mais do que isso, Kiyohara no Takenori foi nomeado como Chinjufu-Shogun pela corte imperial. Takenori era visto pela aristocracia como um Emishi, um bárbaro e um bárbaro receber tal título foi devastador para a alta sociedade japonesa.
A queda do clã Kiyohara
Após a Primeira Guerra dos Nove anos, o clã Kiyohara controlou completamente a região de Tōhoku sem nenhum rival. Porém, 20 anos depois, sua hegemonia foi destruída de dentro para fora.
Três netos de Kiyohara no Takenori, Kiyohara no Sanehira, Kiyohara no Iehira (? – 1087) e Kiyohara no Kiyohira (1056 – 1128) entrarem em confronto pelo controle do clã.
Kiyohara no Kiyohira, o caçula e vencedor da disputa entre os três irmãos pelo controle do clã e da região de Tōhoku
Sanehira era o irmão mais velho liderava o clã Kiyohara. Iehira era mais novo e meio irmão de Sanehira e sua mãe era do clã Abe. Kiyohira não tinha nenhum laço sanguíneo com o clã Kiyohara.
Kiyohira era filho da mesma mãe de Iehira e seu pai era descendente de Fujiwara no Hidesato. Tanto a mãe quando Kiyohira foram adotados dentro do clã Kiyohara como uma espécie de refugiados de guerra.
Guerra Gosannen
No mesmo período em que a contenda entre os irmãos se instalava, Minanomoto no Yoshiie, filho de Minamoto no Yoriyoshi, foi nomeado como governador da província de Mutsu pela corte imperial.
Yoshiie, assim como seu pai Yoriyoshi, assumiu o cargo com sede de se envolver nos assuntos regionais. No conflito entre os três irmãos, se aliou ao mais velho, Sanehira.
Cena da Guerra Gosannen, ou Guerra dos Últimos Três Anos de Utagawa Kunisada retratando uma das cenas mais famosas da guerra. À esquerda está Kamakura Kagemasa, que correu em auxílio de Minamoto no Yoshiie, retratado no centro do tríptico, enquanto à direita está Toriumi Yasaburo, um vassalo do clã Kiyohara
Sanehira, no entanto, morreu em marcha, o que abriu espaço para uma tentativa de acordo de paz entre Iehira e Kiyohira. Yoshiie usou sua posição como governador da província de Mutsu para tentar distribuir os territórios do clã Kiyohara entre os dois irmãos.
A paz não foi aceita. Com uma força a menos na disputa pelo controle do clã, os dois irmãos restantes decidiram resolver a questão na base da força. A disputa belicistas também tinha um componente pessoal.
Iehira se ressentia por ter recebido a mesma quantidade de territórios que Kiyohira que não eram um membro de sangue do clã Kiyohara. Em 1085 Iehira ordenou um ataque contra a residência de Kiyohira que acabou matando a esposa e o filho de Kiyohira.
Retaliação de Kiyohira
O ataque de Iehira foi tão grave que colocou o novo governador da província de Mutsu, Yoshiie, em aliança com Kiyohira. Yoshiie e Kiyohira passaram dois anos lutando contra as forças de Iehira.
Apesar da defesa encarniçada de Iehira, Kiyohira e Yoshiie conseguiram derrotá-lo no cerco do último bastião de Iehira, Kanezawa no Saku e colocaram fim à Guerra Gosannen.
Ukiyo-e de Ginko representando Minamoto no Yoshiie no Posto Nakoso
Há uma especulação de que Yoshiie já sabia que a conciliação entre os irmãos era impossível e que ele só aguardou o melhor momento para se colocar na melhor posição para tirar dela prestígio moral e econômico.
A tese é reforçada pelo fato de que após a derrota de Iehira, Yoshiie solicitou à corte imperial uma recompensa por sua atuação em controlar a rebelião do norte.
Para sua surpresa, a corte rejeitou o pedido alegando que aquela era uma questão de caráter pessoal e não uma revolta, e que Yoshiie agiu na contenda em nome de seus próprios interesses.
Nasce uma lenda
A corte imperial foi além e o removeu do cargo de governador. Curiosamente isso deu a Yoshiie uma oportunidade de ouro de fazer seu nome famoso. Como ele não recebeu uma recompensa da corte, teve que pagar seus soldados com seus próprios recursos.
Ukiyo-e de Utagawa Kuniyoshi retratando Minamoto no Yoshiie sentado em um tapete feito de pele de tigre
Com a fama militar nos dois conflitos do norte que participou e por ter pago seus soldados do seu próprio bolso, Yoshiie conseguiu criar vínculos entre sua linhagem Seiwa Minamoto com outras famílias de bushi menores que lutaram ao lado dele.
Esses clãs até então menores se tornaram famosos durante o shogunato Kamakura, entre eles os clãs Oba, Kajiwara e Miura, tudo graças a aliança com Yoshiie na Guerra Gosannen.
A pacificação de Tōhoku
Vencedor do conflito entre os irmãos Kiyohara, Kiyohira se tornou personagem principal da unificação da região de Tōhoku. Isso porque ele tinha o sangue dos bushi de Kantō, do clã Abe que controlavam Mutsu, e adotado pelo clã Kiyohara da província de Dewa.
Após se consolidar como senhor de Tōhoku, Kiyohira mudou o seu nome para o nome da família de seu pai e se tornou Fujiwara no Kiyohira estabelecendo uma longeva dinastia que ficou conhecida como Oshu Fujiwara (Oshu era o nome antigo da região de Tōhoku).
Tour virtual no Chūson-ji durante o outono
Fujiwara no Kiyohira se estabeleceu em Hiraizumi, vila localizada na atual província de Iwate, e passou décadas tentando realizar sua visão sobre um reino budista sagrado na região norte.
A experiência de ter a esposa e o filho assassinados, a perda do pai na guerra e as outras mortes no campo de batalha causou um profundo impacto em Kiyohara e o empurrou com força para a fé budista
Ele também passou o resto de seus dias orando em templos pelas almas daqueles que pereceram nas duas grandes guerras de Tōhoku, além de trabalhar para reconstruir uma região devastada pela guerra.
Konjikidō
Sua contribuição mais significativa foi o complexo do templo Chūson-ji, Patrimônio Mundial pela UNESCO. A construção mais impressionante feita por Kiyohira é o Konjikidō, o templo de ouro onde está os restos mortais de Kiyohira e três gerações de descendentes.
Neste artigo você teve um mergulho na história do Japão no período Heian. Pode perceber como era a interação na corte com suas intrigas e disputas.
Também soube como as políticas foram surgindo, além da criação de regiões governadas por daimyos, o início da criação dos samurais e como o Imperador foi perdendo poder político de forma lenta e gradual.
Além disso, ficou por dentro da origem de conflitos e do surgimento de clãs importantes e que são sobrenomes proeminentes da política, fazendo parte das empresas e grandes corporações japonesas.
Gostou do artigo? Deixe sua visita em nosso site em dia. Temos sempre conteúdos sobre o Japão para promover intercâmbio cultural.
Este artigo faz parte dos nossos artigos especiais, resultado de curadoria e pesquisa. Optamos por não usar IA em nenhuma parte do processo. Acreditamos que assim mantemos a qualidade dos conteúdos para entregar informações com precisão e direto de fontes confiáveis, valorizando o processo humano sem valorizar demais produtividade.
Se chegou até aqui, é um amante ou estudioso da cultura japonesa. Continue nos apoiando para produzirmos conteúdos de qualidade e de graça pelo nosso site.
0 comentário em “Período Heian: conheça a era dourada do Japão”