Um dos períodos que mais causam curiosidade e fascínio é o Japão feudal. Muito por conta de séries e filmes que ficaram famosos no oriente e ocidente, mas também pelas diferenças culturais próprias do país e são fascinantes.
No ocidente nós temos uma visão moldada por conta de todo o intercâmbio e influência, mas o imaginário popular é bem escasso em relação ao Japão por conta dos estereótipos que por anos foram representados de forma não acurada.
Saem os cavaleiros que eram donos de terras e entram os samurais que seguem o bushido e servem lordes recebendo um salário. O cenário era de uma época de incertezas em que a violência reinava com situação de pobreza e desigualdade extrema.
Enquanto uns estavam no topo, as pessoas que estavam nas camadas mais baixas lutavam para sobreviver. A figura dos samurais passou do auge ao ostracismo em câmera lenta.
O período feudal japonês foi bem longo e teve várias fases. Começou no período Kamakura (1185-1333), passando pelo Muromachi (1336-1573), Sengoku (1467-1590), Azuchi-Momoyama (1568-1600), atingindo seu ápice dourado na era Edo (1603-1868) culminando em seu fim na era Meiji (1868-1912) quando o país começou a era moderna.

Classes sociais Kamakura
No Japão feudal as classes sociais eram guiadas pela necessidade de manutenção de ordem. No começo da era Kamakura no topo do topo vinha o Heika (Imperador) sem poder político, a corte com nobres, depois vinham os shugos e os samurais que os serviam e eram a classe média, seguidos pelos cidadãos comuns.
Shogun
O shogun tinha um shogunato e era o líder de toda a classe guerreira com poder de comando dos shugos e de distribuir terras.
Shikken
O shogun tinha um funcionário chamado shikken que cuidava de todos os aspectos burocráticos e atuava como regente. Ele tinha muito poder e influência podendo escolher trabalhadores e os colocando em posições de vantagem dentro do governo. Ele tinha direito a um rensho (assistente).
Hyojoshu
Responsável por conselhos e se certificar das políticas e leis.
Eles tinham uma governança que controlava uma central administrativa com samurais e servos de um lado e local administrativa com os shugos e outros funcionários.
Kumonjo e Mandokoro
Gerenciavam finanças das províncias do Japão na era feudal.
Monchujo
Eles resolviam disputas e os levavam para serem resolvidos ao Hyojoshu.
Samurai-Dokoro
Aplicava as leis de forma física, sendo responsável pela ordem e figura de autoridade.
Hikitsuke
Ele desenvolvia os casos para o Hyojoshu.
Já a parte local administrativa tinha outra hierarquia que era responsável por gerenciar outras partes do Japão.
Abaixo deles existiam Chinzen Bugyo e Chinzei Tandai responsáveis pela estabilidade ao oeste e na época da invasão mongol ficaram com a defesa militar.
Oshu Sobugyo trabalhava para manter estabilidade na região norte.
Shugos
Eles eram os líderes das estratégias militares e governavam os territórios. Faziam parte da classe guerreira e de família samurai. Na época dos estados combatentes Sengoku (1467-1615) eles tinham rixas entre si com muitos embates por território e consequentemente violência.
Em suma eles deveria reforçar a autoridade do shogun junto com o Rokuhara Tandai.
Por fim da cadeia de alta escalão vinham os Jito que coletavam as taxas.
Ashigaru
Então, tinham os ashigaru, soldados de linha de frente que eram compostos por pessoas comuns e pessoas que dedicavam sua vida ao combate ou fazendo trabalhos de segurança. Era uma forma de conseguir subir de classe social nesse período.
No entanto, a partir do momento que o país se unificou e a era de batalhas acabou, os ashigaru passaram a não ser uma opção de trabalho como era antes desaparecendo da pirâmide.
Pense que em um país que vivia em guerra, as classes mais valorizadas eram essas citadas. Elas são necessárias, tem privilégios, mas ao mesmo tempo muito risco.
Por fim as pessoas comuns tocavam sua vida em meio ao caos e sensação de instabilidade constante. No entanto, existia uma separação entre pescadores e agricultores, artesãos e mercantes.
Muromachi
O período Muromachi foi marcado pelo shogunato Ashikawa aonde o poder foi centralizado no shogun eliminando seus subordinados diretos. Isso permitiu a abertura para que famílias tivessem influência direta sobre políticas e acesso ao shogun durante o seu mandato.
O que se mantiveram foram as duas frentes de administração central e local. Uma adição na frente administrativa central no topo está o Kanrei que cuidava de toda a contratação. Esta posição era ocupada pelo mais leal shugen.
Seguido pelo Hyojuchu conselheiro judiciário que trabalhava ao lado de Hikitsuke. Depois Mandokoro nas finanças, Samurai Dokoro que era a mão da justiça e Manchujo que resolvia disputas.
No topo da administração local estava o Kamakura Kubo e o Kanto Kanrei que mantinham a estabilidade e autoridade, Kyushu Tandai, Oshu Tandai e Ushu Tandai cuidavam da estabilidade e autoridade em locais específicos do Japão, Shugo e Shugodai cuidando dos territórios e Jito e Jitodai cuidando das taxas.
Tanto no Kamakura quanto Muromachi, o Imperador e a corte tinham nenhum poder político. O período Muromachi foi o começo da guerra no Japão com ineficiência dos shugos deixou o poder enfraquecido e autoridade foi sumindo.
Por outro lado os shugos foram tentando ganhar influência e poder usando a força militar em oposição ao shogunato. Eles tinham conseguido independência e autosuficiência econômica e militar sobre seus territórios.
Período de guerras e unificação
Não iremos detalhar o período de estados combatentes Sengoku quando o Japão passou pelo período de guerra civil com pouca estrutura central de governo ou sistema que funcionasse, pois cada região tinha a sua regra, de acordo com o shugo.
Já o período de unificação foi um período político de transição em que nomes como Oda Nobunaga e Toyotomi Hideyoshi traçaram o caminho árduo rumo a unificação do país. Abaixo você verá como funcionava o período medieval sob a governança Tokugawa Ieyasu na era do período Edo inaugurando mais de 200 anos de paz e desenvolvimento.
Disclaimer
Se você leu Musashi e está aqui saiba que os acontecimentos começam após a batalha de Sekigahara em 1600 marcando o fim do período Azuchi-Momoyama e o caminho para a levantada do poder de Tokugawa Ieyasu e o período Edo.
Já para quem está aqui por causa da série Xogun da HBO, os eventos antecedem a tomada de poder de Tokugawa Ieyasu e o período Edo.
Período Edo
Antes do período Edo a dinâmica de poder ficava com os shoguns com seu maior ativo (samurais) em uma época marcada por constantes batalhas entre clãs e guerra civil. Depois vinham os fazendeiros, os artesãos e mercantes.
As classes mais altas eram compostas por guerreiros que devotavam suas vidas, mas tinham assegurados bens. Algumas pessoas comuns se tornavam servos de donos de terra em troca de trabalho aonde ganhavam uma porção da colheita e proteção.
A sociedade funcionava por classes que eram hereditárias com os nobres nascendo em famílias e se perpetuando. Estes tinham riqueza e propriedades. Em seguida vinham os guerreiros, agricultores e servos. As classes se mantinham dentro da regra de que se você nascia de um nobre, você era nobre.
Se nasceu de um servo, seu destino seria servir. Não existia meritocracia, mas isso acabou em partes com a ascensão de Toyotomi Hideyoshi, que nasceu filho de um fazendeiro e acabou reinando por todo o Japão unificando o país e colocando o governo como central no poder novamente.
As divisões de classes abaixo é desse período em que as guerras civis cessaram para dar o começo a um período de paz que possibilitou que o país se desenvolvesse até a abertura forçada na era Meiji.
Samurais

Os samurais eram a classe guerreira que serviam a senhores de terra locais e eram especializados em artes marciais.
Eles usavam uma armadura leve feita de couro revestido em laca e às vezes com revestimento de placas de metal que davam alguma proteção, mas era pouca.
Código bushido
Viviam sob o código bushido em que honra, lealdade e coragem eram o caminho dos guerreiros. Além disso, eles deveriam cultivar valores morais como respeito, frugalidade, benevolência, sinceridade, autocontrole e agir de forma correta.
Eles se mantinham firmes nesse código de conduta de moralidade, pois segundo o budismo por ter escolhido viver de combates e mortes, eles não tinham direito a uma vida pós morte e acabariam no inferno.
O caminho do guerreiro continuou até a era Tokugawa de 1600 a 1868 com desenvolvimento teórico com prática de arte marcial e estudos das eras de guerra até o início da guerra Boshin entre 1868 a 1869 até o começo da restauração Meiji.
Homens e mulheres podiam ser samurais

Os samurais tinham acesso a educação e não havia distinção entre homens e mulheres. Estes lutavam e morriam independente de seu gênero. As mulheres ganhavam título de onnabugeisha, mas o histórico de seus feitos foi apagado em uma era obscura do Japão.
No entanto, existem relatos que sobreviveram como lendas e ossadas de mulheres são encontrados ao lado de homens em sítios arqueológicos que foram campos de batalha.
Os guerreiros e guerreiras eram educados para saber combater com espada, mas também na poesia, caligrafia e outras manifestações artísticas e intelectuais.
Como uma de suas bases era a honra e eles podiam cometer um ritual de suicídio para manter a honra. Essa prática se chamava seppuku.
O ato era considerado de coragem e a forma de morte era muito dolorosa, mas era o caminho considerado da honra e era esperado que o samurai ganhasse prestígio e sua família deveria ter o mesmo destino da morte honrada como esposa e filhos ou marido e filhos.
Mudança de papel na era da paz
Os lorde chamados de daimyo eram protegidos e viviam em castelos de madeira. Estes por ocupar posições de poder provilegiada tinham como obrigação moral em proteger quem vivam sob suas terras.
Em troca as pessoas comuns que vivam em torno dos castelos pagavam impostos que eram colhidos pelos samurais no período de paz. Pararam de lutar para executar serviços burocráticos.
Ganhavam seu salário uma porção das taxas coletadas, mas transformadas em sacos de arroz, que eram coisas de valor. Podiam servir de alimento ou trocados por dinheiro.
Após anos de serviços militares, eles passaram a viver de seguridade social em que eram pagos em arroz, mas esse valor era fixo e não aumentava.
As mulheres samurais ficavam com a ocupação de governança familiar, educação, etiqueta e assuntos relacionados aos lares.
Tinham que seguir um estilo de vida
Com os aumentos de custo de vida, algumas famílias tinham que se virar para fazer sua os estipêndios renderem e arcar com seu modo de vida que refletisse seu status.
Por ocuparem as classes mais altas eram obrigados a vestir certos tecidos caros, tinham que viver em casas de arquitetura específica e se engajar em atividades sociais da classe alta.
No geral a solução encontrada era produzir alguma coisa, entregar para ambulantes venderem. Isso de forma secreta. Eram a única classe que podia portar espadas.
Os samurais obedeciam a leis próprias separadas das pessoas comuns e seus endereços eram lastrado com o nome de daimyos. Tinham acesso a comida especial como peixes, saquê e pratos elaborados.
Ronins

Os ronins eram uma classe no Japão feudal bem particular. Um dia foram samurais que foram ligados a um daimyo. No entanto, sem um lorde feudal eles viravam ronin.
Eles eram vistos com maus olhos pela sociedade, pois vagavam pelo país sem receber salário ou ter como se sustentar. Por isso, eles viviam na pobreza e muitos tinham que vender suas espadas.
O daimyo podia ter morrido ou sido deposto. Alguns samurais eram expulsos e viravam ronin. Dada ao seu destino, alguns se voltavam ao crime.
Na época dos estados combatentes em que o país estava guerreando entre os estados, o uso de guerreiros era necessários e os samurais não ficavam sem emprego.
Com o início da pacificação do país na era do Tokugawa Ieyasu receberam novas funções, mas muitos se tornaram ronins.
Também era esperado que seguindo o código de honra bushi quando um daimyo era morto em batalha, seus guerreiros deveriam morrer também através de seppuku. Então, suas vidas eram vistas com preconceito de que deveriam ter seguido seus códigos de honra.
Essa regra servia ao propósito social de que guerreiros não fossem atrás de vingança ou que eles pudessem ser contratados por quem tinha propósitos que causassem mortes ou violência em troca de dinheiro.
Mas na época dos estados combatentes, eles eram muito necessários e era permitido que mantessem sua honra ao servir um novo daimyo, que poderia ser um parente ou próximo do que morreu.
Estes não podiam mudar de profissão e acabavam servindo de guarda costas de mercantes ou agindo como mercenário, atuando na vida ilegal em casas de prostituição, apostas e fazendo parte de gangues. Esses trabalhos ficaram ligados ao ronin e as pessoas os viam como disruptores e vagabundos.
Agricultores

A sociedade japonesa no período feudal funcionava com ênfase na moralidade, lealdade e com funções distintas. Após o topo da pirâmide de daimyos e samurais, quem vinha em seguida era quem trabalhava com a terra e fornecia alimentos. Portanto, sua importância era vital.
Os agricultores tinham em suas mãos não apenas comida, mas um sistema de valor, já que o arroz era o lastro do dinheiro naquela época. Também eram os donos de terras.
Os agricultores também pagavam altas taxas mesmo estando no topo de hierarquia e quando a safra era ruim isso estava ligado com muitos desastres sociais que iam desde fome a revoltas.
Eles também podiam ser convocados para trabalhar de graça em obras de infraestrutura na construção de pontes, estradas, irrigações e manutenções de castelo.
Artesãos

Depois vinham os artesãos, mestres em produzir bens que eram utilizados pela sociedade. Seu papel era vital no dia a dia e no desenvolvimento cultural. Eles produziam tudo que as pessoas precisavam nas casas até obras de artes.
Centro de inovação e produção
Eles eram o centro da inovação e focados em produção. Cada região tinha uma especialidade estética e funcional únicas, mas centradas em Tóquio, Osaka e Kyoto.
Eram carpinteiros, pessoas que trabalhavam na área têxtil, cerâmica, quem trabalhava com laca, papelaria, ferreiros de espada, escultores, quem trabalhava na impressão com madeira, quem fazia trabalhos decorativos em metal.
Eles tinham respeito na sociedade e dependendo da sua especialização podia acumular riquezas principalmente os que tinham contato com lordes e mercadores ricos.
Guildas
Eles faziam partes de guildas que regulavam preços, mantinham um padrão de qualidade, protegia interesses dos membros e monopolizavam atividades para deixar eles em um patamar e dar estabilidade econômica.
Eles podiam receber patrocínios de lordes, samurais, mercador, instituições religiosas, nobres da corte e do shogunato.
Apesar de poder ter um estilo de vida na bonança, eles tinham que seguir as regras de pessoas comuns e se vestir, morar e não podiam aparentar mais riqueza que os samurais, que estavam acima de sua classe.
No entanto, através de casamentos estratégicos podiam subir de status com o passar das gerações.
Mercadores
Por último vinham os mercadores que ficavam responsáveis por vender e distribuir os bens produzidos.
Apesar de estarem por último na escada social, no período Edo eles cresceram muito com a economia, que antes era baseada na terra mudar para o poder monetário.
Eles eram a ponte entre produtores e consumidores por todo o Japão. Então, eles ficavam responsáveis pelo transporte para os centros de comércio, lidando com vendedores que tinham lojas nas cidades.

Chegou um ponto que eles tinham muito acesso a dinheiro e chegavam a emprestar dinheiro para daimyos e samurais, que tinham seu lastro econômico em arroz e terras.
Apesar de ocuparem o topo da pirâmide social (daimyos e samurais), seus ganhos não tinham aumento e quando os custos de vida aumentavam ano após ano, eles passavam dificuldades financeiras.
Ascensão econômica
Então os mercadores atuavam como bancos naquela época com troca de casas, intermediando trocas grandes de dinheiro e facilitando trocas monetárias entre regiões.
Como lidavam com os artesãos, eles passaram a pagar custos de produção, organizar e cuidar de entrega de materiais para confecção e distribuir, portanto atuando como pólo industrial.
Eles eram investidores ao contribuir para construção de casas, lojas e desenvolvimento de distritos de entretenimento. Foi dessa classe que nasceram as grandes empresas com operação de negócios com prestação de serviços ao shogunato.
Eles faziam serviços com finanças, na construção de infraestrutura e forneciam bens para o governo central com monopólio e ganho de privilégios e comissão para controlar mercados e preços.
Não eram prestigiados
Apesar do grande poder econômico, eles não tinham prestígio social. A mentalidade era: por não produzirem nada e lucrar com o trabalho dos artesãos, eles não contribuíram diretamente com a sustentação do país. Bem, as pessoas os viam como parasitas.
Era como as pessoas pensavam baseadas em como foram educadas a pensar com base na distribuição da pirâmide, mas estavam desempenhando um papel vital no desenvolvimento econômico, distribuindo, atuando com finanças, desenvolvimento urbano e estavam pavimentando o sistema de sociedade comercial conhecido nos dias de hoje.
Estilo de vida: expectativa vs realidade
Era esperado que eles fossem frugais, humildes e ficassem limitados ao seu lugar na pirâmide, por isso eram vistos com desdém.
No entanto, foram os responsáveis por patrocinar as artes no Japão com o florescimento da cena cultural e do entretenimento. Além disso, vivam um estilo de vida sofisticado.
Alguns mercadores compravam status de samurais para seus filhos e melhorar sua posição na pirâmide.
Apesar de funcionar um sistema de classes em que se devia nascer naquele meio para ser daquele meio, existiam algumas formas de integrar classes mais abastadas, por exemplo casar com um samurai. Nesse caso a mulher ou homem podia ser adotado por uma família de samurai para poder casar.
Como emprestavam dinheiro para samurais, ficava uma relação de poder esquisita, pois eles deviam ficar abaixo, mas os samurais tinham senso de honra em pagar seus débitos com sua reputação em jogo.
Ao mesmo tempo os mercadores vivam na lascividade, indo de encontro aos prazeres e isso batia de frente com os valores samurais.
Daimyos

Os lordes feudais japoneses eram donos de terra com controle e autoridade sobre samurais, pessoas comuns e que viviam sob seus domínios.
Eles eram subservientes ao Imperador, mas seguiam sua própria agenda entre o século 12 ao 19. O shogun foi perdendo controle sob seus domínios e os lordes regionais shugos passaram a ter poder sobre as terras. No século 15 os shugos já não se reportavam a um governo central reinando em pequenos feudos independente armados com seus exércitos de samurais, usando seus guerreiros para coletar taxas para enriquecer e pagando um estipendo aos guerreiros.
Cada shugo tinha seu interesse próprio e isso levou a muitas guerras civis e cada região queria estar no papel de shogun e isso levou a anos de conflitos conhecido como Sengoku, o período dos estados combatentes. Tudo começou quando os clãs Minamoto e Tara entraram em conflito e o início das Guerras Genpei entre 1180 a 1185.
Foi uma época de incerteza, violência e embate por controle de poder e autoridade por conta da divisão por regiões. Foram 150 anos de caos até que o país se unificasse. Com a chegada da era Meiji, eles perderam seu status, poder e terras.
Daimyos no controle
Oda Nobunaga e Toyotomi Hideyoshi ajudaram o caminho para centralizar o poder. Já o shogun Tokugawa Ieyasu venceu a bataha de Sekigahara e conseguiu fazer com que os daimyos concordassem em concentrar toda a autoridade nas mãos do shogunato novamente, mas sem perder governança sob seus territórios.
Estratégias que funcionaram por mais de 200 anos
Para o shogun controlar cada região, cada daimyo devia passar meio período do ano na capital Edo e metade em suas províncias. Dessa forma, além de mantê-los por perto, se estimulava uma economia na capital e nas rotas de viagem dos lordes e todos os seus servos.
O governo central controlava os daimyos prevenindo que eles acumulassem grandes fortunas, direcionando ganhos para o desenvolvimento da infraestrutura do país com construção de estradas, facilitando meios de comunicação e mais.
Esse sistema feudal funcionou até a abertura externa forçada na era Meiji pela ameaça do comodoro Mattew Perry. O imperialismo ocidental abalou as estruturas da era Tokugawa em 1868. Alguns lordes perderam tudo, enquanto outros conseguiram transicionar para as classes industriais.

Nobres da corte
Os nobres da corte não tinham poder político, mas transitavam entre as pessoas das camadas mais altas, além de terem poder cerimonial.
Composto por famílias com linhagem que serviram o Imperador com grande prestígio e influência cultural. No entanto, seu poder era limitado para não desafiar o shogunato.
Eles eram mantidos na corte de Kyoto e com seus assuntos restritos, além de receber estipêndios deixando eles financeiramente dependentes.
Sua função era preservar a cultura com poesia, arte e cerimônias. Eram a autoridade cultural e espiritual do governo.
Imperador
O Imperador tinha papel centralizador dos papeis cerimoniais e divinos, já que ele era o descendente vivo da Deusa Amaterasu. Vivia segregado em Kyoto e os contatos com os lordes eram intermediados pela corte. Não tinha poder político apesar de estar no topo do poder.
Isso mudou com a entrada do período Meiji quando o Heika retomou o poder e passou a morar em Edo (atual Tóquio).
Ninjas

Pessoas com habilidades de ser furtivas, que conseguiam se mover na penumbra e executar missões eram conhecidos como ninjas.
No Japão feudal um dos ninjas mais famosos Hattori Hanzo era protegido de Tokugawa Ieyasu e o ajudou a chegar ao shogunato.
Além disso, uma ninja que ganhou nome era Mochizuki Chiyome que tinha um time de espiãs que assassinavam e agiam coletando informações para o clã Takeda.
Os shinobis vinham da classe de pessoas comuns e se concentravam em clãs e o que se sabe é que eles viviam nos domínios Iga e Koga no Japão.
Existem muitas histórias e relatos de ninjas japoneses atuando no Japão feudal. A arte ficou prestes a desaparecer em muitos momentos, mas por conta do manual Bansenshukai, uma enciclopédia escrita pelo Fujibayashi Yastake descendente de Nagato, a arte se preservou com táticas de guerrilha e espionagem que eram úteis na época de guerras civis.
Geishas
As geishas eram moças pobres ou vindas da classe dos mercadores que estudavam para se especializar em artes sabendo tocar instrumentos, fazer poesia, danças, eram articuladas para saber conversar sobre tudo, com inteligência, delicadeza e diplomacia.
Elas moravam dentro da vila e eram patrocinadas na época que os mercantes investiam na cena cultural e dedicavam suas vidas a apresentações. Além do talento, eram símbolos de beleza. Circulavam dentro na pirâmide social e podiam prosperar ou ficar famosas.
Geishas não eram prostitutas e não eram cortesãs. As prostitutas não podiam transitar nas classes da pirâmide e as cortesãs ficavam em casas fora das vilas.
Cortesãs
Moças ensinadas a terem talentos para entreter de forma sexual a elite. Elas vinham das classes baixas e fora da pirâmide social, mas que se especializaram no mercado de luxo ao saber conversar e entreter com refinamento.
Seus clientes eram mercadores, samurais e lordes, por isso seus serviços eram caros e exclusivos. Elas ficavam nos distritos do prazer afastadas da vila. Elas não atendiam pessoas comuns.
Monge budista ou sacerdote do shintô
Um caminho fora da pirâmide social era viver a vida do monastério sendo monge budista ou sacerdote do shintô. Esses dois não tinham status social, mas um papel social a desempenhar.
Chefes da vila
As vilas eram as unidades que abrigavam as pessoas dos entornos das terras dos daimyos e tinham uma forma de se manter. Um shoya dentro da vila, que atuava como chefe era responsável por intermediar os interesses do povo com os samurais responsáveis pela coleta de taxas.
Responsáveis pelas famílias Gonin-Gumi
As famílias eram compostas de forma central e todo mundo contribuía com trabalho e existia um forte senso de comunidade. A tradição de ensino cultural era oral e mantido com tradições e festividades.
As pessoas comuns comiam grãos como arroz, trigo, centeia, vegetais sazonais e peixe era ocasional. Carne era raro.
Cada unidade familiar era composta por membros de laços sanguíneos que eram parentes vivendo sob o mesmo teto. Essas unidades eram reunidas em grupos de dez casas, cada qual com famílias.
Responsáveis eram conhecidos como gonin-gumi e respondiam pelas ações dos membros dos grupos de unidades familiares, mas não só. Se uma casa deixasse de pagar impostos, todas as outras casas eram punidas também.
Todo mundo deveria se assegurar do pagamento de impostos, manutenção de ordem para evitar que crimes fosses cometidos, prevenir brigas por propriedades, vigilância e ajuda mútua em tempos de dificuldades. Estas regras eram uma ferramenta de controle social por parte das autoridades.
Além disso, após anos de guerras, isso deixava as pessoas focadas em trabalhar na terra e cuidar da vida em comunidade.
Pessoas comuns burakomin

O resto das pessoas que não faziam parte das classes acima, ficavam excluídos da prosperidade e bonança. Eram conhecidos como burakomin. Nada restava mais do que fazer serviços desagradáveis como execuções, matar animais, tingir tecidos, fazer segurança, entre outros serviços que derivavam de quem ocupava as hierarquias altas.
Elas estavam ali por conta de sua hereditariedade e não viviam nas vilas, mas nos arredores. Eram consideradas impuras por sua ocupação lidando com animais mortos e suas partes. Por isso, eram quem produziam calçados de couro, cintos e outros produtos derivados.
Eles faziam parte de um ostracismo social e não tinham leis que os protegessem e não podiam interagir livremente com pessoas de outras classes. Não podiam mover de classe social.
Hinin
Pessoas que acabaram com um fim considerado não humano por conta de diversos fatores geralmente de forma temporária, mas poderia ser uma condição levada até o fim da vida.
Eram os pedintes que faliram com condição de extrema pobreza, pessoas que viajavam performando como atores e músicos, criminosos que cumpriram pena e foram expulsos de suas comunidades, além de prostitutas.
Exemplos na sociedade
Seu papel era o de exemplo na sociedade e para manter a ordem de classes. Segregação e discriminação, além de aplicação de leis eram ferramentas para que as pessoas cumprissem seus deveres e obrigações para seguir as normas sociais, além de fortalecer o poder do shogunato com ordem e estabilidade.
Aqui as pessoas poderiam voltar para as classes da pirâmide social se melhorassem suas condições de vida ao conseguirem um emprego, por exemplo.
Regras e obrigações
O poder aquisitivo ficava com as classes da pirâmide oficial e o resto das pessoas ficava abaixo com uma estrutura própria que as forçava a trabalhar muito duro para sua subsistência. As pessoas comuns tinham que pagar taxas entre 40% a 60% anuais.
As pessoas comuns não podiam andar livres pelo país. Eles eram presos a seus domínios e se quisessem sair para outra vila tinham que pedir permissão aos daimyos. Isso era estratégico, já que eles eram ativos de trabalho dentro de suas vilas.
Não podiam carregar espadas, deviam ter casas construídas com materiais específicos, usar roupas com design e tecidos que refletissem seu status social e podiam participar de eventos específicos, mas não os de classes altas. Isso tudo para deixar as classes organizadas sem que houvesse possibilidade de ascensão social.
As pessoas comuns tinham seus endereços lastrados a província que viviam. Sua vida era precária e sem garantia de ganhos para sobrevivência e com leis injustas.
Se alguém tentasse suicídio e não conseguisse, ela se tornava criminosa e uma excluída da sociedade de pessoas comuns chamadas de hinins. Sua condição humana era destituída em outras palavras.
Além disso, não podiam ter um sobrenome ou portar armas sob pena de morte. Se a hierarquia japonesa tinha uma classe social, dentro da convivência das pessoas sem classe havia uma divisão.
Leprosos vivam reunidos em uma comunidade e os cegos viviam entre os seus familiares, caso não fosse possível viviam dentro de comunidades trabalhando como pedintes, massagistas ou contadores de histórias.
Muita gente vivia de pequenas plantações, mas não podiam ser considerados agricultores. Fora de seu trabalho principal precisavam fazer os trabalhos sujos convocados das classes superiores como se livrar de carcaças ou execuções.
Esse tipo de estrutura ficou em prática por dois séculos e meio até o começo da era Meiji. Após anos de guerra civil, essa estrutura foi a que manteve a ordem e a paz para o país se desenvolver.
No entanto, tinha suas falhas estruturais com seu sistema de segregação e discriminatório que empurravam as pessoas para níveis de sobrevivência sem dignidade, aonde as pessoas por mais que trabalhassem duro não tinham chances de melhorar suas condições de vida, já que suas escolhas eram limitadas de propósito.
Após anos de disputas de poder pelos daimyos com guerras, estes ficaram limitados para que a nação ficasse unida a custo de sacrifício das classes mais baixas.
Por não poderem acumular riquezas, mas em troca tinham seus privilégios para que continuassem a ordem social, além de outras táticas aplicadas que os restringiam e os deixavam de mãos atadas focados em manter suas regiões.
Já a segregação criava uma desigualdade estrutural sem solução, que produzia criminalidade e violência nas classes mais baixas.
Enquanto isso, nas classes mais altas existiam jogos de poder e influência, enquanto daimyos e samurais aproveitavam sua posições altas, mas sem poder acumular riquezas, poderiam viver de status e aparência, enquanto os custos de vida aumentavam nas cidades, mas seus estipêndios não aumentavam. Estes eram donos de bens e terras, mas estavam propensos a passar situações de aperto financeiro.
As demais classes aproveitavam suas posições, mas também lutavam para manter um estilo de vida confortável e com privilégios. A classe mercante era a menos prestigiada, mas que mais prosperou financeiramente e a que ocupou melhores lugares com o fim do lastro do arroz e concentração monetária no período de modernização.
O Japão feudal é um período muito interessante e os japoneses gostam muito de ver doramas de época focados no período Edo. Existe muita informação e detalhes das diferentes épocas do período medieval japonês, mas vamos ficar por aqui. Esperamos que tenhamos ajudado em seus estudos culturais.
Este artigo teve a intenção de dar um vislumbre de como as coisas funcionavam e ajudam a entender algumas bases que ainda refletem como a sociedade funciona nos dias de hoje. Desde corporações que seguem o bushido, existência de distritos de entretenimento, até senso coletivo que ficou enraizado moldando o modo de pensar japonês.
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Este artigo NÃO USOU IA para ser escrito em nenhuma etapa. É fruto de pesquisa e curadoria para entregar a melhor qualidade. Não julgamos quem usa, mas preferimos manter os processos assim.
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