Nos primeiros anos do shogunato Tokugawa foram autorizados a construção de Yūkaku (遊廓), os famosos distritos da luz vermelha do Japão.
Foram colocados em três cidades japonesas: o distrito de Shimabara em Kyoto, Shinmachi em Osaka e Yoshiwara em Edo, fundada em 1618.
Quem assistiu a série Shōgun de 2024 no “Capítulo Sete: O Tempo de um Incenso”, a personagem Gin (Yuko Miyamoto), proprietária do bordel Mundo dos Salgueiros tem uma audiência com Yoshii Toranaga (Hiroyuki Sanada).

Na audiência Gin pede a Toranaga, personagem que faz alusão ao Tokugawa Ieyasu, autorização para a construção de um distrito em Edo com casas de chá de alto padrão como é o Mundo dos Salgueiros em vez de bordéis baratos que causam só problemas para a cidade.
No episódio seguinte, “Capítulo Oito: A Profundeza da Vida”, Gin e sua principal cortesã no Mundo dos Salgueiros, Kiku (Yuka Kouri) observam o local concedido por Toranaga para a construção do distrito da luz vermelha Yūkaku.

Esses distritos de entretenimento e prazer tiveram longa vida desde o início do período Edo até o final da era Meiji e foram retratados por poetas, escritores, músicos e artistas de ukiyo-e. Contudo, os Yūkaku são anteriores ao shogunato Tokugawa.
As origens dos Yūkaku, os distritos da luz vermelha do Japão
Os Yūkaku, os distritos da luz vermelha, eram basicamente locais onde a prostituição era permitida pelas autoridades.
O termo Yūkaku, aliás, é o coletivo do termo Yūjo (“遊女”, mulher de prazer), palavra aparece pela primeira vez na coleção Man’yōshū (万葉集) de poesia de 759.

A prostituição é muito antiga no mundo inteiro e no Japão não é diferente. Mas, foi a partir de Toyotomi Hideyoshi que construiu distritos em Osaka e Kyoto para a prestação de serviços sexuais em 1585.
Embora tenha sido inaugurada por Hideyoshi foi durante o período Edo que os distritos da luz vermelha tomaram outra dimensão, especialmente na capital Edo aonde o Yūkaku Yoshiwara foi especialmente pensado por Tokugawa Ieyasu.

O distrito da luz vermelha Yoshiwara na capital Edo foi fundamental para o sucesso do sistema Sankin Kōtai (para saber mais, acesse nosso artigo Sankin Kōtai no período Edo: saiba como funcionou o sistema que conectou o Japão todo e manteve a paz).
Durante o período de rodízio que os daimyōs tinham de passar em Edo era importante ter um lugar onde os senhores e seus vassalos pudessem ir em busca de diversão e entretenimento.
A capital era um canteiro de obras cheio de homens migrantes e poucas mulheres.

Yūkaku: um complexo e controverso distrito
Há muitas formas de observar os distritos da luz vermelha no Japão feudal.
A mais simplória delas é enxergar meramente como um local onde a prostituição era permitida e as filhas de famílias pobres eram exploradas sexualmente.
Essa visão não é errada, mas é incompleta simples demais para entender a complexidade da sociedade japonesa durante o período feudal, especialmente em Edo, cidade que originalmente era pouco mais de um pântano.

De acordo com o professor Hibiya Taletoshi, doutor em literatura pela Jissen Women’s University, os Yūkaku, para além da prostituição, eram locais onde a cultura prosperou muito mais do que em outros locais.
Nesses distritos, especialmente em Yoshiwara, uma série de artes prosperaram lá como teatro kabuki, música vocal, poesia haikai, arranjo de flores, kyōka (poesia cômica), cerimônia do chá, moda, ukiyo-e, publicações, festivais, incensos, caligrafia e sumō.

Mas, apesar de todo esse florescimento cultural não deve apagar o fato de que tudo isso convivia com um sistema de servidão onde as jovens mulheres trabalhavam para pagar o dinheiro que os bordéis pagavam a seus pais.
A organização do sistema dos Yūkaku
Instalados nas regiões mais periféricas da cidade e com muros de até 5 metros de altura, os distritos da luz vermelha tinham outros objetivos para além de servir ao sistema de rodízio/sequestro Sankin Kōtai.

Um deles era a segurança pública e a manutenção da moral ao concentrar as práticas das paixões humanas em um só lugar.
Outro objetivo era a facilitação da coleta de impostos dos estabelecimentos que eram autorizados, e em última instância, controlados pelo shogunato.
Os distritos só tinham uma entrada e saída, isso permitia o shogunato e as autoridades locais controlasse o fluxo de pessoas que entravam e saíam das casas de chá conhecidas como Ageya (揚屋) e bordeis dos Yūkaku.

Teoricamente, dentro dos distritos da luz vermelha não havia diferença hierárquica entre os frequentadores e todos eram tratados de forma igual, fossem camponeses ou samurais.
Além disso, os visitantes eram obrigados a deixar suas armas na entrada dos distritos.
Os distritos eram controlados pelo shogunato e as autoridades locais e tinham um propósito maior do que o lucro sobre os serviços sexuais e de entretenimento, existiam regras rígidas que não permitiam que as cortesãs fugissem ou saíssem dos Yūkaku.

As mulheres que serviam nas Ageya e bordeis só eram liberadas de seus serviços quando completassem 27 anos no tradicional sistema de contagem Kazoedoshi (数え年), que aumentava a idade das pessoas no dia do ano novo do calendário lunar.
Outra possibilidade era se uma cortesã de alto padrão ter sua liberdade comprada por um samurai ou mercador com posses com uma proposta para torná-la esposa ou concubina.

Ranking das cortesãs dos distritos da luz vermelha
Existiam muitas garotas servindo como cortesãs nos Yūkaku, contudo, havia uma hierarquia bem definida entre elas.
Uma pirâmide onde as Oiran (花魁), ou Tayū (太夫) a depender da região, estavam no topo, apenas 2% de todas as cortesãs chegavam nesse nível, e na base estavam as Kamuro (禿), as aprendizes.

Classificação hierárquica até 1750
Existiram duas culturas de classificação hierárquica das cortesãs, uma anterior a 1750 e que estava ligada a fundação dos distritos da luz vermelha, e outra posterior a 1750. Confira.
Hashi (端)
Cortesãs Hashi eram a base da pirâmide hierárquica das cortesãs antes da reorganização de 1750.
Elas ficavam expostas nos Harimise (張見世), uma espécie de treliça onde ficavam as cortesãs de baixo nível e não podiam negar clientes.

Elas atendiam clientes em um quarto separado por biombo chamado Mawashibeya (回し部屋) ou Waritoko (割床).
Se fosse necessário entreter seu cliente ou freguês essas cortesãs precisavam alugar uma sala para isso.
Tsubone (局)
Acima das Hashi, as cortesãs Tsubone tinham basicamente as mesmas condições de trabalho que as Hashi, porém, tinham a sua disposição uma sala para entreter seus clientes.
Kōshi (格子)
As cortesãs Kōshi eram as segundas na hierarquia abaixo apenas das Tayū.
Para obter seus serviços era necessária uma recomendação de uma Ageya (casa de chá), mas diferente das Tayū, as Kōshi só encontravam com o pretendente uma única vez.

Elas poderiam aceitar ou recusar o cliente, o que não era tão comum. O processo era muito mais simples do que para ter um encontro com uma Tayū. E após a Kōshi aceitar pela primeira vez poderia ser solicitada diretamente sem intermédio de uma Ageya.
Tayū (太夫)
As cortesãs de mais alto nível eram as Tayū. Treinadas a vida inteira para receberem esse título que, como dito acima, apenas 2% das cortesãs dos distritos da luz vermelha possuíam, obter seus serviços exigia muito mais trabalho do que as Kōshi.

Além da recomendação da Ageya, caso ela fosse aceita pela Tayū, eram necessários ao menos três encontros, todos com o agedai (“揚代”, taxa de serviço) pagos, além de rituais ou cerimônias.

Contudo, era comum e até esperado que as Tayū rejeitassem seus pretensos clientes. Também era comum que os pretendentes competissem pela afeição dessas cortesãs.
Classificação hierárquica pós 1750
O sistema de classificação hierárquica das cortesãs pós 1750 veio na esteira das profundas mudanças em toda a sociedade japonesa causada pela Kyōhō no Daikikin (“享保の大飢饉”, Fome de Kyōhō), que ceifou cerca de 169 mil pessoas entre 1732 e 1733. Confira.
Kamuro (禿)
Eram meninas entre 5 e 8 anos que eram vendidas para bordéis por seus pais e se tornavam aprendizes de alguma Oiran, sua responsável e que era tratada como a irmã mais velha. As Kamuro eram um símbolo do status da cortesã e serviam como atendentes.

Entre suas tarefas estavam a de mensageiras de suas “irmãs mais velhas”, compravam o que elas lhe pediam, levavam comida, entregavam presentes entre outras tarefas. Elas eram mantidas e vestidas sob responsabilidade de sua Oiran.
Shinzō (新造)
Quando as Kamuro chegam à idade de 12 a 14 anos se tornam Shinzō, aprendizes de cortesã. Diferente das Kamuro que recebem um nome completamente infantil, as Shinzō utilizam um nome que contenham algum elemento do nome de sua “irmã mais velha”.
Esse nome é provisório e escrito com caracteres hiragana, além disso, a jovem aprendiz de cortesã não deveria oferecer serviços sexuais até completar 16 ou 17 anos. A partir desse momento, a jovem recebe outro status Shinzō.
Tomesode Shinzō (留袖新造)
Tomesode Shinzō eram garotas que não tinham seu próprio quarto, sem possibilidades de ascensão, e que dividiam um dormitório com outras cortesãs. Elas atendiam clientes em um quarto separado por biombo (Mawashibeya).

Furisode Shinzō (振袖新造)
Embora as condições eram as mesmas das Tomesode Shinzō, isto é, sem quarto próprio e atendendo em clientes em Mawashibeya, as Furisode Shinzō eram cortesãs que tinham a possibilidade de ascender para as classes mais altas das cortesãs.
Bantō Shinzō (番頭新造)
Existiam dois tipos de Bantō Shinzō, garotas que não eram bonitas e talentosas para serem cortesãs, e as que passaram dos 20 anos e decidiram que não tinham futuro dentro da prostituição e escolhiam um trabalho menos rentável, porém mais segura.

A função das Bantō Shinzō era de gerenciamento e cuidando das necessidades de sua cortesã e até mesmo dormiam em seus quartos privativos. As Bantō Shinzō de cortesãs de baixo nível até poderiam aceitar clientes, mas as que cuidavam das cortesãs de alto nível não.
Apesar de servir cortesãs, isso não significava que as Bantō Shinzō fossem suas subordinadas, até porque na maioria dos casos elas eram mais velhas do que suas cortesãs. E diferente das Kamura, as Bantō Shinzō não serviam como um símbolo de status.
Taiko Shinzō (太鼓新造)
Esse tipo de cortesã não tinha muitos clientes interessados em seus serviços sexuais, no entanto, eram musicalmente talentosas e comumente apareciam em banquetes para uma apresentação, o que era vital para o sucesso de uma Oiran – ou Tayū.
Oiran e Tayū: as cortesãs de alto nível dos Yūkaku
Para se tornar uma cortesã de alto nível nos distritos da luz vermelha, Oiran ou Tayū a depender da região, era necessário um conjunto de habilidades surpreendentes para os padrões de qualquer tempo.
Além da notória e óbvia beleza física e aguçado intelecto, essas cortesãs tinham que dominar a arte dos poemas curtos Tanka (短歌), caligrafia, clássicos japoneses, go (jogo de tabuleiro considerado o mais inteligente já feito), koto, shamisen, entre ouras habilidades.

Diferente das cortesãs de baixo nível, as Shinzō, as Oiran adotavam nomes sofisticados escritos em kanji com referências a lugares como rios (sufixo “川” kawa ou gawa) e montanhas (sufixo “山” yama) ou locais famosos como Takao ou Yoshino.
Também era comum que as Tayū utilizassem nomes de locais populares como colinas, campos, enseadas e praias. Alguns registros dão conta que cortesãs utilizavam o nome de daimyōs que eram seus patronos, mas não é claro se isso era por causa dos senhores feudais ou nome de lugares.
Heyamochi (部屋持)
As Heyamochi eram as cortesãs de menor ranking entre as Oiran. Elas tinham um quarto para entreter e atender clientes, mas geralmente não tinham atendentes para ajudá-las em suas tarefas e atividades diárias, eram cortesãs que tinham acabado de serem promovidas do status de shinzō.

Geralmente essas cortesãs possuíam um quarto simples e atendiam principalmente os partidários dos daimyōs e funcionários de baixo escalão do shogunato. O agedai (taxa de serviço) das Heyamochi era a partir do equivalente a JP¥ 25 mil (US$ 161,63).
Zashikimochi (座敷持)
Cortesãs intermediárias entre as Oiran, as Zashikimochi tinham um apartamento com uma sala de estar para entreter e atender seus clientes. Em geral dispunham de uma Bantō Shinzō ou Kamuro para servi-las e ajudá-las em seus afazeres.

As Zashikimochi tinham como principais clientes os mercadores e comerciantes, seu agedai era a partir do equivalente a JP¥ 50 mil (US$ 323,26) atuais.
Chūsan (昼三)
As cortesãs Chūsan estavam praticamente no topo da hierarquia das yūjo dos distritos da luz vermelha e tinham o agedai mais alto: a partir do equivalente a JP¥ 130 mil (US$ 840,49), e ela poderia ter seus serviços contratados sem uma consulta privada.

Essas cortesãs de alto nível costumavam ficar sentadas nas casas de chá (Ageya). Seus principais clientes costumavam ser comerciantes ricos, oficias de alta patente do governo shogunal (samurais) e daimyōs.
Yobidashi Chūsan (呼出昼三)
A única diferença entre as cortesãs Yobidashi Chūsan e as cortesãs Chūsan é que para ter um encontro com uma Yobidashi Chūsan era necessária uma intermediação em uma consulta privada nas Ageya dos distritos da luz vermelha.
Por serem cortesãs de alto nível tinham a possibilidade de escolher quem atenderiam ou deixariam de atender. Não obstante, as vezes era necessário o pagamento de três agedai de JP¥ 130 mil das Yobidashi Chūsan e das Chūsan para que elas aceitassem uma visita íntima.

Além dos três agedai, o potencial cliente também tinha que presentear essas cortesãs de alto nível com dinheiro, roupas, acessórios como Kanzashi (簪), além de acertos com a casa que intermediou o encontro.
Sob essas condições um cliente teria que desembolsar o equivalente a JP¥ 1 milhão (US$ 6.445,29), um valor alto para apenas um encontro íntimo. Literalmente para poucos homens.
O lado nefasto dos distritos da luz vermelha
Embora os Yūkaku tenham sido fundamentais para o florescimento artístico e cultural do Japão, não se pode sob nenhuma hipótese romantizar esses locais onde a prostituição era autorizada e controlada pelo governo shogunal.
Algumas jovens nos distritos da luz vermelha eram “compradas”, isto é, a venda de uma jovem por seus pais a um bordel era na verdade uma dívida contraída e que deveria ser paga pela jovem através do trabalho sexual.

Muitas jovens Kamuro padeciam tentando fugir, vítimas de doenças sexualmente transmissíveis ou maus-tratos, outras que não tinham talento ou eram bonitas o suficiente eram vendidas para outros bordéis ou para se tornarem criadas.
O tratamento despendido às cortesãs, no entanto, dependia muito do tamanho e da natureza dos estabelecimentos. Existiam estabelecimentos que cuidavam e protegiam suas garotas, outros exploravam e abusavam fisicamente delas.

Como a maioria das jovens eram cortesãs de baixo nível hierárquico, as condições de vida poderiam ser, a depender do estabelecimento, muito mais insalubre do que a natureza do ofício normalmente possui.
O lado menos negativo dos Yūkaku
Como dito acima, os Yūkaku foram o centro do florescimento cultural e artístico do Japão, e apesar de muitas cortesãs enfrentarem condições de vida muito difíceis esse não era um quadro generalizado.

Muitas obras de arte descrevem as cortesãs dos distritos da luz vermelha como as mulheres mais lindas. As cortesãs de alto padrão, inclusive, ditavam a moda entre as mulheres e muitas copiavam seus estilos de cabelo e forma de se vestir, semelhante as pinups modernas.
Além disso, nem todas as cortesãs chegavam aos distritos da luz vermelha sendo compradas. Muitas garotas sem perspectiva, afinal, as possibilidades de trabalho para mulheres eram escassas, buscavam uma vida melhor dentro dos Yūkaku.
Apesar das condições e rígidas regras sobre a possibilidade da liberdade das cortesãs, muitas histórias de amor entre cortesãs e seus clientes serviram como base para muitos romances e peças teatrais.

Nos distritos da luz vermelha aconteciam os Oiran Dochu (花魁道中), desfiles com as cortesãs de alto nível que até hoje são reproduzidos sempre no segundo sábado de abril nas ruas de Asakusa, Tokyo e outras localidades do Japão.
Declínio dos Yūkaku
Embora os Yūkaku autorizados pelo shogunato fossem apenas três, eles estavam espalhados por todo o Japão, os chamados Shisyogai (私娼街) que passaram a ganhar poder na metade do período Edo, apesar do enorme risco de serem enquadrados por oficiais do governo.

A prostituição de rua, garotas conhecidas como Yotoka (夜鷹) em Edo, Tsujigimi (辻君) em Kyoto ou Souka (惣嫁) em Osaka, teve um papel considerável para o declínio dos distritos da luz vermelha no Japão, os legais e os clandestinos.
Diferente das casas de chá e bordeis sofisticados que eram acompanhados de entretenimento de alto custo, as Okabasho (岡場所), garotas que passavam a noite nas ruas oferecendo serviços sexuais eram muito mais baratas do que os distritos da luz vermelha.
Legislação anti prostituição
Durante a modernização na Era Meiji (1868 – 1912), o Japão foi duramente criticado por seu sistema de legal de prostituição por suas ligações com o tráfico humano. Na perspectiva de modernizar o país, algumas leis praticamente sem efeito foram adotadas.
Em 1872 foi decretada a Geishogi Kaiho Rei (“芸娼妓解放令”, Edital de Emancipação para Mulheres Artistas e Prostitutas), lei que proibia o aprendizado forçado de cortesãs (Kamuro).
É importante não confundir as yukakus com geishas, que não eram prostitutas como erroneamente já foi propagado.

Embora a lei tenha conseguido, em alguma medida e em algumas regiões, criar a oportunidade para que mulheres pudessem estudar para trabalhar nas indústrias leves e evitar que seus pais as vendessem para bordeis, pouco mudou a realidade dos distritos da luz vermelha.
A lei não fez com que os Yūkaku em si não fossem proibidos, então, no ano seguinte foi aprovada a lei Kashizashiki Tosei Kisoku (“貸座敷渡世規則”, Regulamento para Donos de Bordeis), uma tentativa de fazer a transição desses distritos.
Com essa lei de 1873, os Yūkaku perdiam o status de distritos de entretenimento e se tornaram uma região de locação de quartos, semelhante a um hotel.

Entretanto, tanto as Yūjos (Syogi “娼妓”, termo oficial para as cortesãs durante o período Edo), e todas as pessoas que tinham nos distritos da luz vermelha a base de suas vidas tinham garantido o seu sustento nesses locais, além de exames médicos periódicos para as cortesãs.
Fim dos Yūkaku
Apesar das leis, nada de muito concreto mudou. Aliás, com o expansionismo japonês durante o início do século XX até o final da segunda guerra mundial, a mesma lógica de distritos da luz vermelha foram implementas em Taiwan e na Coreia, por exemplo.

Em 1924 no Japão, entre Yūkaku e Shisyogai existiam 545 distritos da luz vermelha, cerca de 11.200 estabelecimentos licenciados e mais de 52.200 cortesãs (Yūjos/Syogi).
Foi somente após a II guerra que o sistema Yūkaku foi definitivamente abolido.
A ocupação estadunidense publicou um decreto em 21 de janeiro de 1946 chamado SCAPIN 642: Abolição de Licença para Prostituição no Japão e ordenava que as licenças dos estabelecimentos e seus contratos feitos com qualquer mulher que praticasse a prostituição se tornassem nulas.

A proibição dos distritos da luz vermelha e seus estabelecimentos não proibiu, no entanto, a prostituição propriamente dita. Dessa forma surgiram as Akasen Chitai (“赤線地帯”, área marcada em vermelho). Aliás, a própria ocupação dos EUA foi fiel cliente dos Yūkaku antes do decreto SCAPIN 642.
Akasen Chitai e os últimos dias das cortesãs
Nas áreas Akasen Chitai a prostituição encontrou outras formas de continuar existindo com a locação de quartos em “restaurantes especiais” que em 1952 somavam mais de 618 Akasen Chitai e 18 mil negócios relacionados.
Em 1956 foi lançado no Japão o filme Akasen Chitai de Kenji Mizoguchi e que foi traduzido para o português como A Rua da Vergonha e que retrata esse momento de transição tão complexo para milhares de pessoas no Japão. Confira completo e legendado em português.
A pá de cal que pôs fim a legalização da prostituição e aos negócios a ela vinculados veio com a Baishun Bōshi Hō (“売春防止法”, Lei de Prevenção a Prostituição) que ficou conhecida como lei anti prostituição de 1956 e que entrou em vigor em 1º de abril de 1958.
Se você optou por assistir ao filme A Rua da Vergonha, logo nos primeiros 10 minutos perceberá que, ainda que aos olhos de uma pessoa humanista de 2024, há muitas questões difíceis sobre a vida das cortesãs no Japão e seu destino com a proibição.
Considerações finais
O tema dos distritos da luz vermelha é um dos mais difíceis e espinhosos para ser trabalhado. Se você chegou até aqui não pôde deixar de notar que esse artigo é relativamente extenso, e ele poderia seguir ao infinito, afinal, considerando os anos de Toyotomi Hideyoshi, foram cerca de 373 anos de história dos Yūkaku.
Uma das coisas mais difíceis é separar os aspectos positivos e que foram fundamentais para a cultura do Japão dos horrores a que muitas garotas foram submetidas, além das complexas realidades de cada uma das cortesãs.

Muitas coisas ficaram de fora do artigo ou não tiveram a profundida que poderiam ter. Há muitos trabalhos acadêmicos, contos, livros, peças e dramaturgia como o filme indicado acima aos interessados em se aprofundar no tema.
O portal Japão Real faz um convite a você que chegou até aqui. A obra Musashi de Eji Yoshikawa também transita em alguns capítulos sobre a realidade de cortesãs no período feudal, desde uma menina vendida por sua mãe, até uma cortesã de alto nível em meio a história focada no samurai Musashi como parte de sua realidade, mas sem ser o foco principal.

Sob qualquer perspectiva, o romance Musashi é simplesmente inesquecível para qualquer leitor. Advertimos que uma vez que a história começa, é quase impossível parar de ler. Se você tiver a possibilidade de adquirir essa obra, se dê esse presente maravilhoso.


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