A conjuntura de falta de mão de trabalho, aliado ao risco da seguridade econômica e o uso de inteligência artificial estão causando mudanças no mercado de trabalho japonês.
Continue lendo e entenda como é o cenário atual, as mudanças e problemas que necessitam de medidas pelo governo.
Mercado de trabalho japonês

A falta de pessoas, baixa produtividade e a relutância dos trabalhadores de pular de um emprego para outro são fatores significativos que prejudicam o cenário de mercado de trabalho no Japão de empregos regulares.
Os maiores impactados pela falta de pessoas foram as áreas de serviço prejudicadas por conta da pandemia, além do mercado de cuidadores e construção.
A indústria de logística também está a um ponto do colapso pela falta de motoristas, que já não davam conta das agendas apertadas de entregas com cargas altas de horas extras.
Faltará 11 milhões até 2040
O problema só piorará nas próximas décadas com uma estimativa da falta de 11 milhões de pessoas no mercado de trabalho até 2040. Para ter ideia, o país contabiliza cerca de 67 milhões de trabalhadores, segundo dados do mês de julho e repercutidos pelo jornal Kyodo News.
Mudanças do governo
O governo japonês está se vendo obrigado a repensar suas leis trabalhistas, além da necessidade evidente de direcionar sua classe trabalhadora para novas habilidades, mudando a base sênior, além de aumentar a mobilidade e melhorar a redistribuição. Também estão sendo tomadas medidas para evitar as longas horas.
Trocar de emprego cria oportunidades para jovens
Segundo o economista sênior do Dai-ichi Life Research Institute, Takuya Hoshino, se as pessoas aceitarem mudar mais de uma empresa para outra, criará vagas com melhores salários para trabalhadores jovens qualificados.
Enquanto o governo busca programas para dar novas habilidades, as empresas estão aprimorando sua força mais jovem com medo de perdê-los para outras empresas.
Elas também estão se voltando a tecnologia de inteligência artificial com automação. Como parte do esforço de seguridade nacional, o país tem buscado revitalizar o mercado de fabricação de chips com parceria com empresas taiwanesas para evitar a falta de matéria-prima.
Tempo de permanência do funcionário no Japão
A média de permanência dos japoneses no emprego é alta e eles ficam cerca de 12 anos na mesma empresa.
Isso é muito tempo e o mercado acaba estagnado em relação a salários e surgimento de novas oportunidades.
Troca e aumento

Um em cada três funcionários teve um aumento de salário de 10% ou mais após trocar de emprego em 2022.
Segundo reportagem do Nikkei, um funcionário de TI (tecnologia da informação) que é engenheiro da Simples Holdings viu seu salário aumentar 15% para mais de 7 milhões de ienes após ele sair de uma outra empresa de desenvolvimento de sistemas de porte grande.
Além do pagamento maior, ele contou que estava se dedicando a melhorar suas habilidades para combinar com os níveis necessários para sua função e que faça jus ao seu novo salário.
Atrair novos talentos
A empresa ainda pretendia contratar mais 110 funcionários em meio de carreira em 2022 para desempenhar um papel chave na expansão do mercado.
Segundo o presidente da empresa Hideki Kaneko, para atrair os talentos que estão saindo de outras empresas eles precisam ofertar salários melhores, já que tem bastante gente saindo de empresas grandes para buscar outras oportunidades.
Segundo dados do Ministério de Assuntos Internos e Comunicações, em 2022 uma média de 3.03 milhões de profissionais trocaram de emprego por mês, 130 mil a mais em comparação com o ano anterior.
Mudança do cenário
Este cenário é justamente o contrário do anterior, o que mostra uma mudança. Antes, quem trocava de emprego acabava sendo colocado para fazer tarefas de menos responsabilidade e que pagasse menos, já que as melhores oportunidades ficavam com funcionários com mais tempo de casa.
Os melhores pagamentos são das indústrias financeira e de informação com aumento de 14% na primeira e 10% na segunda em um período de dois anos.
Outro dado é que 66% dos funcionários estão empregados quando vão procurar novas oportunidades, segundo dados da Daiijob.
Mudança nos métodos de pagamento
Atualmente, os funcionários são pagos, de acordo com a sua idade. Então, a regra é que pessoas mais velhas ganhem mais e os mais jovens menos.
De acordo com habilidades e responsabilidades
A empresa Sompo Holdings já está mudando este sistema para assegurar talentos. Eles começaram a validar os funcionários de acordo com suas habilidades, além de colocarem compensações baseadas nas responsabilidades relacionadas ao trabalho.
O mercado de trabalho é bem rígido no Japão. Por isso, as mudanças buscam deixar o cenário mais flexível e dinâmico convertendo habilidades e trabalhando especializações. Desta forma, haverá uma revalorização do mercado segundo os especialistas.
No entanto, estas alterações privilegiam os trabalhadores que conseguem um emprego regular, mas mesmo assim para a maioria a renda é insuficiente.
Emprego secundário
Para conseguir complementar a renda, muitos trabalhadores optam por pegar um segundo emprego. Mesmo as empresas grandes já aceitam este tipo de arranjo.
Um estudo realizado pelo Ministério da Saúde, Trabalho, Bem-Estar em julho de 2020 teve 159,355 respostas de pessoas entre 20 a 65 anos. 9.7% tinha ao menos um emprego secundário.
Destes, 16.6% estavam envolvidos em atividades das áreas de pesca, agricultura, minas e florestas. 15.4% estavam na área de educação, suporte de aprendizado, hotel, restaurante. Já 14.6% estava na área de pesquisa acadêmica e serviços técnicos.
Viver de freela

Segundo reportagem da Reuters de 2022, um dos exemplos deste tipo de prática é o do Riku Omori de 26 anos que teve seu salário do emprego principal diminuído. Então, passou a entregar comida em Kawasaki de bicicleta.
Com isso consegue levar para casa mais 100.000 ienes (US$ 722 – R$3.654) onde esperam sua esposa e seu filho recém nascido. Seu emprego regular paga 160.000 ienes (U$ 1,069 – R$ 5,000) de uma empresa de mudança sob sistema freelance, ou seja, sem vínculos empregatícios.
Segundo explica para a agência reguladora de notícias internacional, este tipo de sistema de trabalho não dá seguridade alguma.
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Sem garantias
Este tipo de trabalho, tanto da agência de mudança, quanto o de entrega de comida ficam de fora do escopo do que é considerado um emprego regular e fica fora de leis. Estes freelancers são contratados, conforme demanda, que não é garantida nem assegurada.
Estes trabalhos freelancers abrangem serviços com recepção, aulas de música, venda de futon, manutenção de privadas e pequenas atividades.
Em 2020 havia 4.6 milhões de pessoas que tinham como principal fonte de renda trabalhos freelancer, segundo dados do governo liberados em junho daquele ano. Destes, 63% estavam insatisfeitos com suas receitas.
Como era o cenário anterior
No Japão, o mercado de trabalho era marcado pela inflexibilidade, rigidez, tarefas variadas e as longas horas. Sob o regime de trabalho tradicional os funcionários que são considerados regulares não tem limites de horas em seu contrato e são enviados para fazer o que é preciso.
Os empregadores ficam no controle de estipular horas, local, entre outros. Ao contrário do que acontece no ocidente quando existe horário estipulado a ser cumprido em contrato em que alterações são feitas sob acordo ou negociação.

Sem negociação, mas com seguridade
Então, eles acabam não tendo como recusar horas extras, ser transferidos para locais distantes ou delimitar funções.
No entanto, existiam algumas características que também influenciavam aceitar este tipo de contratação, que é a garantia de estabilidade. Se alguém era contratado, a empresa garantiria uma função. Por exemplo, se o cargo fosse extinguido, teria a certeza de ser realocado.
Processo de recrutamento

Em países ocidentais é comum que pessoas se candidatem a vagas, conforme suas habilidades. As empresas colocam anúncios de funções dentro da empresa com requisitos de habilidades e proposta de salário.
No Japão, quando as pessoas estão para ser formar, elas já começam seu período de busca para ter uma vaga dentro da empresa, sem antes mesmo de haver um anúncio sobre uma função, que será criada conforme as contratações.
Se ganha um salário com piso estipulado pela empresa, sem requerer experiência e de acordo com a idade.
Contratações em massa e sem habilidades especiais
As empresas selecionam uma quantidade grande de jovens e eles ficarão disponíveis para fazer o que forem solicitados dentro da empresa com seguridade nos seus próximos anos, ou seja, com garantia de emprego.
Quem não consegue fica com trabalhos não regulares
Quem perde esta contratação em massa das grandes empresas depois de se formar na faculdade, terá como opção apenas os trabalhos não regulares com salários mais baixos e nenhuma segurança com contratos temporários, sem benefícios.

Ganham 40% menos
Este tipo de emprego também é procurado por donas de casa querendo complementar a renda de seus maridos, que tem emprego regular. Este grupo ganha cerca de 60% do salário total de quem é regular.
Esta prática teve início nos anos 80 e as empresas passaram a preferir ter trabalhadores temporários não regulares. Sem seguro de estabilidade, plano de saúde ou qualquer benefício.
Trabalhadores sem seguridade e ganham mal
Por isso, começou a surgir os trabalhadores pobres, que apesar de serem empregados não ganhavam o suficiente para se alimentar e viver de forma adequada, tendo que cortar despesas de supermercado ou de remédios.
Não conseguem constituir família
Não ter um trabalho regular também foi o motivo de pessoas não conseguirem fazer planos para casar e ter filhos.
Cerca de 38% dos 57.1 milhões de trabalhadores eram temporários em 2022.
Mulheres no mercado de trabalho

A força de trabalho feminina enfrenta além das dificuldades citadas acima um cenário de baixos salários em comparação com os homens, além de enfrentar o sexysmo. Para ter ideia, o país está em 156 no ranking das nações desenvolvidas de 2021 para medir o nível de equidade salarial mundial.
Além disso, as jovens que perdem o recrutamento em massa ou não têm dinheiro para frequentar a faculdade acabam tendo que recorrer aos empregos secundários temporários não regulares. Por exemplo, hostess, trabalhos nos maid cafes, etc.
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Expectativas e realidade
A expectativa social deste grupo é alta, já elas devem fazer decisões difíceis em relação a maternidade, casamento e trabalho. É esperado que elas casem até os 25 anos de idade, que é a idade limite para ser considerado jovem no país.
Até lá quem consegue um emprego em uma empresa corporativa grande deverá fazer escolhas, já que se optarem por casar e ter filhos, espera-se que elas larguem o emprego para cuidar integralmente dos filhos.
No entanto, elas foram o grande recurso da campanha de revitalização do mercado de trabalho japonês da campanha do ex-premier Shinzo Abe (1954-2022) no plano popularmente conhecido como womenomics onde passaram a receber mais suporte do governo.
Por isso, o número de mulheres que trabalham no Japão chegou a um número recorde de 30.35 milhões em 2022, com aumento de 1,22 milhões nos últimos cinco anos, segundo dados liberados pelo Ministério de Assuntos Internos e repercutidos pelo Japan Times em 2023.
Apesar da queda de trabalhadores, a entrada e reentrada das mulheres no mercado de trabalho deu um combustível.
Realidade dos trabalhadores descartáveis
O molde do trabalho japonês que era o de oferecer garantia de um emprego por muitos anos em troca de atingir metas e ser útil para a empresa sem limite de horas e funções era algo que já causava problemas. Por exemplo, sobrecarga de trabalho e funções sem muito propósito.
Burakku Kigyo
O que funcionava no topo por causa da possibilidade de uma carreira de grandes corporações com salários bons e estabilidade, foi modificado para uso das empresas conhecidas como burakku kigyo, as empresas negras.
Passou a surgir um novo molde de trabalho não regular em que havia pressão em atingir as demandas do empregador, com o risco de ser mandado embora por qualquer motivo, ganhando mal e sem vínculo empregatício.
Karoshi
Essa situação de incertezas levou muitos salarymens ao suicídio com acúmulo de horas extras mensais em um fenômeno conhecido como karoshi (morte por trabalho).
Com contratos temporários neste molde, muitos trabalhadores passaram a não ter como pagar uma moradia indo dormir nas ruas virando homeless ou ganhando o suficiente para alugar um cubículo em cybercafes.
Horas trabalhadas

A recomendação legal é de 40 horas semanais no Japão, que dá 8 horas por dia. 80 horas extras semanais é o que algumas empresas acabam submetendo funcionários que acabam sendo vítimas do karoshi.
Ainda assim a legislação japonesa dá algumas brechas que podem ser usadas dentro dos contratos de forma legal como o Minashi Zangyo que permite 45 horas-extras sem adição de pagamento.
Também existe o ato 36 em que provisões especiais são permitidas para menos de 100 horas por semana é aceito de forma legal perfazendo menos de 80 horas entre dois e seis meses.
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Mudanças do limite de horas trabalhadas
Por causa das consequências provocadas pela pandemia, além do problema de falta de trabalhadores, o governo lançou novas medidas que propõe uma rotina de 4 dias de semana de trabalho para melhorar a qualidade de vida, promover a família e a vida social.
Além disso, ter a sexta livre é uma forma de promover consumo com as pessoas sendo estimuladas a sair e gastar.
Nos anos 80 a média de horas trabalhadas foi de 2,121 horas. Em 2022 caiu para 1,903.
Aumento da idade da aposentadoria
Antes era muito comum que quando se chegasse aos 60 anos, os funcionários se aposentassem. No entanto, a idade mínima subirá para 65 anos de forma gradual em um plano do governo que acabará em 2031. Ou seja, a cada dois anos aumenta um ano.
Tudo para tentar conter a contínua queda do número de trabalhadores no Japão.
Isso fez com que houvesse uma recontratação dos idosos, que acabaram voltando em acordos de médio-prazo. No entanto, seus salários são reduzidos em cerca de 70% após os 60 anos neste novo molde.
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