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Tokyo Jitensha Bushi: documentário revela perspectiva de um entregador do Uber Eats na maior cidade do mundo

Empurrado para serviços de entrega por aplicativo, o jovem Taku Aoyagi de 28 anos produziu um documentário sobre sua experiência de entregador na maior cidade do mundo

Taku Aoyagi, um jovem de 28 anos natural de Yamasanhi lançou um documentário no dia 10 de julho chamado Tokyo Jitensha Bushi e revela a perspectiva de um entregador do Uber Eats na maior cidade do mundo.

Quando a pandemia de COVID-19 começou, a vida do diretor virou de cabeças para baixo. Sem emprego e com apenas 300 ienes, Aoyagi mudou-se para a capital japonesa e passou a entregar comida em abril de 2020, época do primeiro estado de emergência.

O cinema Porepore Higashinakano exibiu o filme Tokyo Jitensha Bushi no dia 10 de julho. A expectativa é que o documentário entre em outros cinemas do país
O cinema Porepore Higashinakano exibiu o filme Tokyo Jitensha Bushi no dia 10 de julho. A expectativa é que o documentário entre em outros cinemas do país

Exibido em 10 de julho no cinema do PorePore Higashinakano, é esperado que o documentário também seja exibido nos cinemas de todo o país. O filme foi gravado a partir do celular de Taku Aoyagi e mais uma pequena câmera.

Este documentário orbita entre as belezas das relações humanas por meio da tecnologia e a crueza de um mundo cada vez mais isolado em si mesmo, em que as interações sociais entre os indivíduos são majoritariamente por meio digital.

Antigo projeto

Antes da pandemia, Aoyagi queria ter gravado um filme em sua cidade natal, Yamanashi, enquanto trabalhava em um emprego de meio período. O objetivo era gravar a capital da prefeitura de carro.

Quando a pandemia começou, o diretor foi demitido de seu emprego e em pouco tempo suas reservas acabaram. Foi quando decidiu ir para Tokyo encontrar uma fonte de renda, e com o aumento dos serviços por aplicativos, Aoyagi se cadastrou no Uber Eats.

“Eu também me interessava por Tokyo sem grandes multidões. Comecei a filmar pensando que talvez pudesse encontrar algo se fizesse registros da perspectiva de um entregador, transitando livremente de bicicleta pela cidade.”, Taku Aoyagi, diretor de cinema e entregador de aplicativos

Taku Aoyagi, entregador de aplicativos e diretor de cinema acaba de lançar seu primeiro filme documental sobre sua experiência como entregador do Uber Eats: Tokyo Jitensha Bushi
Taku Aoyagi, entregador de aplicativos e diretor de cinema acaba de lançar seu primeiro filme documental sobre sua experiência como entregador do Uber Eats: Tokyo Jitensha Bushi

De acordo com o jovem: “No começo eu admirava o trabalho dos entregadores, imaginava-os conectando as pessoas por Tokyo fora do fluxo do cotidiano e devolvendo para a cidade um senso de humanidade”.

Concluiu então com sua experiência: “Mas na verdade, descobri que eu só deixava o produto em frente as portas e raramente encontrava com um cliente cara a cara, nem sei dizer a quem meus serviços ajudaram. Percebi que eu era apenas uma pequena parte de um sistema maior”.

Realidade e desilusão

Como milhões de pessoas mundo afora atiradas em serviços precários como o Uber Eats, na chamada uberização do trabalho, Taku Aoyagi passou por grandes dificuldades durante sua experiência.

Tal como o serviço Uber de transporte, os aplicativos de serviços não possuem vínculo trabalhista com seus “colaboradores” (com exceção do Reino Unido), essas plataformas alegam que são apenas um intermediário entre o consumidor e o prestador de serviço.

Milhares de japoneses, incluindo pessoas de meia idade se viram obrigados a recorrer aos aplicativos de entrega por causa da crise econômica causada pela pandemia de coronavírus
Milhares de japoneses, incluindo pessoas de meia idade se viram obrigados a recorrer aos aplicativos de entrega por causa da crise econômica causada pela pandemia de coronavírus

Ele contou em entrevista ao Digital News Center, que em dado momento, os pneus de sua bicicleta furaram e seu celular, ferramenta indispensável para realizar o trabalho, também havia quebrado.

De acordo com o jovem, os custos para arrumar sua bicicleta e comprar um novo smartphone foram quase tão altos, quanto o que um entregador ganha em média. Mas, o maior susto foi descobrir que a companhia que ele atende não possui seguro em caso de acidentes.

“Mesmo se eu trabalhasse muito não poderia economizar. Assim que percebi isso, senti que éramos trabalhadores dispensáveis. Os contratantes não pensam na subjetividade do entregador, nem o trata com um ser humano” Taku Aoyagi, diretor de cinema e entregador de aplicativo.

A solidão do trabalho

Nesse momento, Aoyagi sentia-se como uma engrenagem incorporada a um sistema de busca, que procura sempre o melhor serviço pelo menor preço. Ele relembra momentos em que realizou 70 entregas em três dias para receber uma recompensa.

Em meio a suas entregas, o jovem de Yamanashi conheceu uma mulher idosa que sobreviveu aos bombardeios dos EUA durante a segunda guerra mundial. Ela lhe contou sua experiência naquela região onde eles conversavam e foi completamente destruída na guerra.

Ao ouvir sobre a destruição da capital japonesa, Taku lembra que deixou escapar para ela: “Tokyo também queimou em 2020”.

Há pouca perspectiva para trabalhadores de aplicativos, os baixos salários e nenhuma proteção trabalhista são os piores traços da uberização do trabalho
Há pouca perspectiva para trabalhadores de aplicativos, os baixos salários e nenhuma proteção trabalhista são os piores traços da uberização do trabalho

Ela respondeu: “É. Na verdade, há muitos edifícios de pé que aparentaram não estar em uma área de desastre e incêndio. Mas há cada vez mais pessoas que como eu sentem-se solitárias com seus corações endurecidos para não aceitar essa realidade, uma realidade em que as pessoas se dividem em um sistema criado por outra pessoa. A paisagem mental das pessoas e com corações se fechando se sobrepõem as palavras de uma mulher sobre uma cidade arrasada. Algo terrível está acontecendo”.

Para o produtor do documentário, Kazuo Osawa, a expressão “queimar” no diálogo entre Aoyagi e essa senhora fala sobre um sistema (Uber Eats) que explora e escraviza pessoas, os trabalhadores sentem-se abandonados pelas empresas e solitários em suas vidas.

Histórias e aprendizados

Aoyagi se disse deprimido por não ter sido capaz de encontrar a maioria das pessoas que ele serviu, mesmo em um momento em que os aplicativos de entrega registraram lucros recordes.

Por outro lado, o filme mostra o contato direto com os contratantes por meio das redes sociais e outros aplicativos de comunicação, com pequenas interações e dicas em como aliviar a solidão.

Cartaz do filme de Taku Aoyagi, Tokyo Jitensha Bushi
Cartaz do filme de Taku Aoyagi, Tokyo Jitensha Bushi

Taku também gostaria que as pessoas buscassem observar a paisagem urbana de Tokyo no período do primeiro estado de emergência e enxergassem as belezas que a capital possui quando a multidão não está lá.

Taku Aoyagi continua trabalhando como entregador de aplicativos, como outros milhares de japoneses e milhões de pessoas de todo mundo em meio as instabilidades econômicas causada pela pandemia de SARS-CoV-2.

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