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Desemprego estrutural no Japão aumenta pelo quarto ano consecutivo

Dados oficiais apontam que 640 mil pessoas estão na categoria de desempregos estruturais.

O ano de 2021 registrou pelo quarto ano consecutivo um aumento do desemprego estrutural no Japão. Com a crise sanitária e econômica da pandemia de COVID-19, a situação ficou ainda mais crítica.

Uma pesquisa realizada pelo Ministério do Interior revelou que cerca de 660 mil pessoas entraram para a categoria de desempregados estruturais, isto é, sem uma vaga no mercado de trabalho devido as mudanças dentro da dinâmica econômica do país.

Desemprego estrutural aumenta, mas os números são dinâmicos pelo próprio método de pesquisa que leva em consideração a renda em especial
Desemprego estrutural aumenta, mas os números são dinâmicos pelo próprio método de pesquisa que leva em consideração a renda em especial

Em outras palavras, a sofisticação tecnológica, automação industrial e a economia do conhecimento estão extinguindo algumas profissões.

Com isso, muitas pessoas passam por longos períodos sem conseguir se realocar no mercado de trabalho.

Em muitos casos, os desempregados estruturais japoneses, assim como em outros países que passam pelo mesmo processo, acabam aceitando trabalhos que não tem nenhuma proximidade a sua real área de atuação.

Dados da pesquisa do Ministério do Interior do Japão

O resultado da Labour Force Survey foi divulgado pelo ministério em 15 de fevereiro. Os dados informam – baseados na renda média mensal – que 1,93 milhões de japoneses ficaram sem trabalho em 2021, 20 mil a mais em comparação a 2020.

Segundo a pesquisa, esses desempregados procuraram trabalho por todo o ano de 2021, mas não foram capazes de encontrar uma vaga.

Aqueles que já não conseguem trabalho desde 2020 representam 34,2% dessa população, um aumento de 6,5%.

Pesquisa governamental revelou que 1,93 milhões de japoneses ficaram sem trabalho por falta de oportunidade
Pesquisa governamental revelou que 1,93 milhões de japoneses ficaram sem trabalho por falta de oportunidade

Em números, estipula-se que o desemprego estrutural no Japão atinja 640 mil pessoas devido a um pequeno recuo no desemprego no último trimestre do ano fiscal de 2021.

Apesar da taxa de desemprego no Japão ser relativamente baixa, não significa que a estabilidade profissional e econômica é a ampla realidade de seus trabalhadores. Desde a(s) década(s) perdida(s), a oferta de empregos integrais vem diminuindo consideravelmente.

Ushinawareta Jūnen: as décadas perdidas do Japão

Ushinawareta Jūnen (失われた十年), conhecido no ocidente como Década Perdida do Japão, especificamente durante a década de 90, vem sendo rebatizada como Décadas Perdidas no qual é incluído os anos 2000.

Quando a economia japonesa deu sinais de recuperação do colapso da bolha imobiliária e financeira ocorrida no Japão ao final da década de 80, veio a crise da bolha imobiliária e financeira dos EUA em 2008.

Entre 1990 e 2010, o Japão enfrentou uma crise econômica sem precedente na história moderna do país. Com isso, a precarização do trabalho aumento significativamente até os dias de hoje
Entre 1990 e 2010, o Japão enfrentou uma crise econômica sem precedente na história moderna do país. Com isso, a precarização do trabalho aumento significativamente até os dias de hoje

A falência do banco de investimento Lehman Brothers e de diversas outras instituições privadas abalaram o mundo, a Toshiba Corporation, por exemplo, viu seu valor de mercado derreter após um período de lucros históricos.

Em 2010, o Japão viu sua população de desempregados atingir 1,2 milhões de pessoas. O número recuou para 510 mil em 2019 e vem se deteriorando novamente como consequência da pandemia de COVID-19.

A sombra da grandeza

Se por um lado a taxa de desemprego no Japão é baixa, por outro, a pandemia revelou o tamanho da fragilidade que a terceira maior economia do mundo possui em relação a estabilidade profissional e econômica da população.

Desde a Ushinawareta Jūnen, o número de oferta de empregos integrais, isto é, vagas no mercado de trabalho que asseguram os direitos e proteções do trabalhador, estabilidade profissional e financeira, além de uma perspectiva de construção de carreira, vem declinando.

Com o avanço da precarização do trabalho, existe hoje no Japão mais vagas temporárias do que empregos integrais. Foto por Noriko Hayashi, Bloomberg
Com o avanço da precarização do trabalho, existe hoje no Japão mais vagas temporárias do que empregos integrais. Foto por Noriko Hayashi, Bloomberg

Por sua vez, a oferta de vagas de trabalho temporárias, isto é, contratos curtos baseados numa produção limitada a um pedido ou projeto sem a maioria das franquias legais estabelecidas pelo Ministério do Trabalho, Saúde e Bem-Estar junto a OIT (Organização Internacional do Trabalho), vem aumentando.

Contratos curtos e pontuais maximizam os lucros das empresas, pois, uma vez que o trabalhador se apresenta como uma empresa, o que no Brasil ficou conhecido como pejotização, é como se uma empresa prestasse serviço a outra.

Com essa manobra digna de um duplo twist carpado, as empresas evitam os impostos e encargos que teriam como determinam as leis trabalhistas, caso contratasse a mesma pessoa em uma vaga integral.

O problema da subjetividade

Como os índices de desemprego se mostram baixos, existe a sensação de que o país vai muito bem, obrigado. A pandemia de COVID-19 evidenciou que não, o Japão tem gravíssimos problemas estruturais e econômicos.

Uma das principais diferenças no comportamento social entre ocidentais e orientais é que, em geral, o principal sentimento do mal-estar na sociedade moderna é a culpa, culpa pelo seu fracasso, culpa por não ter feito assim ou assado.

Diferente do sentimento da culpa, a vergonha não é transferível a ninguém. Não se pode responsabilizar pelo próprio sentimento de vergonha, ele é individual e intransferível
Diferente do sentimento da culpa, a vergonha não é transferível a ninguém. Não se pode responsabilizar pelo próprio sentimento de vergonha, ele é individual e intransferível

Já os orientais sentem um afeto diferente em face aos mesmos problemas: a vergonha. Uma pessoa que sente culpa tem mais facilidade para justificar sua condição e eventualmente direcioná-la a terceiros. A vergonha não é passível de transferência.

Portanto, é mais fácil para uma pessoa assolada pelo sentimento da culpa assumir sua condição, do que alguém que é assolado pela vergonha de sua própria condição. E é isso que faz pessoas abaixo da linha da pobreza no Japão não pedir ajuda nem do governo, nem de ninguém.

Muitos japoneses com trabalhos temporários quando entrevistados, se dizem empregados, mesmo que sua condição financeira esteja entre a insegurança alimentar e estar abaixo da linha da pobreza.

Problemas estruturais

Quando a pandemia de COVID-19 chegou ao Japão, a atividade econômica despencou, com isso, muitas pessoas que possuíam trabalhos irregulares nas fábricas do país se viram sem emprego por que a indústria não estava mais comprando.

Descobriu-se então que 15,7% da população japonesa vivia na pobreza no Japão (de acordo com dados oficiais), ou seja, dos 125,8 milhões de cidadãos japoneses, cerca de 19,7 milhões estão na faixa da pobreza.

O impacto econômico causa pela pandemia de COVID-19 revelou cerca de 20 milhões de japoneses que vivem em situação de pobreza material
O impacto econômico causado pela pandemia de COVID-19 revelou cerca de 20 milhões de japoneses que vivem em situação de pobreza material

Contudo, é importante lembrar que as vagas informais são a maioria dos postos de trabalho no Japão, portanto, a situação financeira de muitos não tem estabilidade e dependem dos bons auspícios da economia global.

A pandemia também criou um fenômeno de quebra de setores, especialmente os vinculados ao turismo, isto é, hotelaria, bares, restaurantes e demais serviços.

E esse é um dos setores que mais empregam e mais contribuem para a economia do país.

Altas exigências e falta de experiência

No começo da pandemia, além da catástrofe econômica, a falta de vacinas fez com que muitas pessoas ficassem desempregadas por muito tempo, e após a vacinação, também encontraram condições ainda mais difíceis para encontrar uma vaga.

Os entrevistados na pesquisa realizada pelo Ministério do Interior informaram que após o fim do quarto estado de emergência declarado pelo governo, entre os meses de outubro de dezembro de 2021, as exigências dos empregadores aumentaram muito.

A situação dos desempregados estruturais ficou particularmente mais difícil entre os meses de outubro e dezembro de 2021 com muitas exigências por parte dos contratantes
A situação dos desempregados estruturais ficou particularmente mais difícil entre os meses de outubro e dezembro de 2021 com muitas exigências por parte dos contratantes

Com mais restrições e exigências, muitos trabalhadores não foram capazes de se realocarem no mercado de trabalho dentro ou na órbita de sua profissão. Muitos também não conseguiram criar um novo caminho profissional pela idade e/ou falta de experiência.

No obstante, uma pesquisa independente realizada pela NLI Research Institute, uma subsidiária da Nippon Life, revelou 160 mil pessoas desalentadas (pessoas que desistiram de procurar emprego) no período de outubro a dezembro de 2021.

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Pouca luz no fim do túnel

Atualmente não há sinais de que a questão do desemprego estrutural no Japão melhorará. A avaliação foi ponderada por Taro Saito, pesquisador executivo da Economic Research Department da NLI Research Institute.

“Não há sinais de que as condições no mercado de trabalho melhorarão”, disse Saito em entrevista ao The Asahi Shimbun.

Sem grandes perspectivas de melhora, o desemprego estrutural e o desalento devem aumentar em 2022 se não houver mudanças nas condições para ocupar uma vaga no mercado de trabalho
Sem grandes perspectivas de melhora, o desemprego estrutural e o desalento devem aumentar em 2022 se não houver mudanças nas condições para ocupar uma vaga no mercado de trabalho

Com o aumento no preço das principais commodities da indústria global em meio a guerra na Ucrânia e os pacotes de sanções mais agressivos da história irão, inevitavelmente, respingar na economia mundial.

O mundo adiciona a crise da guerra à crise da pandemia que revelou as fragilidades deixadas pela grande recessão global de 2008. E como regra, os primeiros a sofrerem ficam na base da pirâmide social.

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