Quando se pensa em história japonesa, é provável que a primeira imagem histórica do Japão que vem à mente é a de um samurai. Porém, a história desse país é muito anterior e tem seu “início” no período conhecido como Jomon.
Reconstrução facil de mulher de aproximadamente 40 anos que viveu há mais ou menos 3800 anos atrás no período Jomon descoberta em 1989 na ilha de Rebun, Hokkaido
O período Jomon, ou Jōmon-jidai (縄文時代) é gigantesco. Ele compreende um período entre aproximadamente 12 mil a.C. até mais ou menos 300 a.C., ou seja, literalmente a pré-história do Japão.
Por razões óbvias, este artigo tem como objetivo apresentar os principais fatos históricos desse extenso período e não será capaz de responder todas as perguntas possíveis que essa era tão fascinante suscita.
Reconstrução facil de homem que viveu há cerca de 5 mil anos atrás no período Jomon e descoberto em 2012 no sítio arqueológico e Ichigaya Kagacho 2-Chome em Shinjuku
O período que chamamos de pré-história, curiosamente, é o maior período que a humanidade viveu e foi fonte das revoluções mais significativas de nossa espécie. Continue o artigo e saiba mais sobre como um pequeno arquipélago que se tornou o Japão.
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Período Jomon: a formação geográfica do Japão
Antes de entrar no período Jomon vale a pena mencionar como surgiu o arquipélago propriammente dito. Essa porção de terra que hoje chamamos de Japão era parte da porção oriental do continente eurasiano há cerca de 30 milhões de anos.
Antes de ser um arquipélago, o território que hoje é o Japão fazia parte do continente euroasiático. A figura demonstra o que era o território há 70 milhões de anos atrás e a parte amarela representa o território seco, ou seja, a terra firme
Um violento terremoto, no entanto, separou essa porção de terra e a lançou no que hoje chamamos de oceano Pacífico. Essa porção de terra foi aumentando sua distância em relação ao continente e ficou cercada por água.
20 milhões de anos atrás, uma ilha vulcânica colidiu com essa porção de terra e resultou no que hoje chamamos de península de Izu, oeste de Tokyo, e as planícies de Kantō.
Evolução geológica do arquipélago japonês em um intervalo de 25 milhões de anos e 15 milhões de anos atrás
Alguns 5 milhões de anos depois, os movimentos da placa tectônica das Filipinas moldou as montanhas do arquipélago, e finalmente, há 3 milhões de anos a geografia do Japão se fixou no que é hoje.
Quando última era glacial se encerrou há cerca de 10 mil anos, o Japão era coberto de florestas primitivas e ainda era conectada com o continente eurasiático por terra porque o nível do mar era 100 metros menor do que é hoje.
O território que hoje compreende o Japão desde 20 mil anos atrás. O território em bege marca o que foi a vegetação de florestas primitivas. A parte branca é o território sem florestas
E foi assim que os primeiros humanos atravessaram para o Japão. Estudiosos acreditam que os primeiros humanos seguiram grandes mamíferos como elefantes-de-naumann e alces-gigantes.
Os primeiros japoneses
A migração para atual território japonês não aconteceu de forma uniforme. Ao menos dois grupos distintos de humanos cruzaram do continente eurasiano para o arquipélago. Um grupo veio do sudeste do continente eurasiano e ficaram conhecidos como Jōmon.
Possíveis rotas de migração para o Japão quando o arquipélago ainda tinha conexão por terra com o continente eurasiático
Esse primeiro grupo chegou ao Japão pelo sul através da península coreana pelas passagens de terra que existiam durante o final da era glacial mencionada acima.
O segundo grupo veio pelo norte do continente eurasiano e migrou para o norte do Japão. Esse segundo grupo ficou conhecido como Yayoi. Não se sabe exatamente quando os Jōmon chegaram ao Japão, sabe-se no entanto que a atividade humana no território data de cerca de 40 mil anos.
Embora os povos Yayoi e Jōmon sejam considerados os mais relevantes povos a habitar o Japão, outros povos também fizeram e fazem parte da formação da população daquele território, mas que são menos mencionados pela historiografia japonesa.
Etnia Jomon (esquerda) e Yayoi (direita)
Atualmente, a maioria dos japoneses são uma miscigenação entre a etnia Jōmon e Yayoi. Há outras minorias étnicas como os Ainu e os Ryukyuanos, mas ambos também têm relações genéticas com o povo Jōmon.
Kyūsekki Jidai
Kyūsekki Jidai (旧石器時代) foi o período Paleolítico do Japão, ou, se preferir, a Idade da Pedra Lascada do Japão. Até o período pré segunda guerra mundial, a academia acreditava que o Japão não teve um período da Idade da Pedra Lascada.
Ferramentas de pedra lascada, Dasei-sekki (打製石器), encontradas no sítio arqueológico de Iwajuku, cidade de Midori, província de Gunma
A descoberta da atividade humana durante esse período que varia entre 30 mil e 40 mil a.C. até aproximadamente 10 mil a.C. foi descoberta em 1946 por um comerciante e arqueologista amador chamado Aizawa Tadahiro (1926 – 1989).
Tadahiro descobriu ferramentas de pedra lascada conhecidas no Japão como Dasei-sekki (打製石器) feitas de obsidiana (“黒曜石”, Kokuyōseki) em 1946 durante uma viagem pela vila de Kasagake (atual cidade de Midori) na província de Gunma no sítio arqueológico Iwajuku.
Aizawa Tadahiro, o descobridor da existência do período paleolítico do Japão
Gunma é uma província localizada na região de Kantō, região essa que possui um barro/argila muito particular conhecida como Kantō Loam, uma terra de cinzas vulcânicas com camadas de solo acumuladas há mais de 10 mil anos.
A descoberta de Aizawa Tadahiro originou uma pesquisa arqueológica completa em 1949 pela Meiji University. A pesquisa confirmou oficialmente que sim, existiu no Japão um período Paleolítico.
Escavações em Iwajuku após descoberta de Aizawa Tadahiro
Os agrupamentos de pessoas que viveram durante esse período no Japão eram caçadores coletores que utilizavam ferramentas de pedra lascada, Dasei-sekki, para caçar e pescar, embora ainda não tivessem criado nenhuma peça de cerâmica.
As ferramentas de pedra lascada utilizadas por eles eram machados para cortar, lanças para caçar, e facas para abrir as caças e tirar o couro. Esses grupos viviam em cavernas ou em tendas com mais ou menos 10 pessoas, mas migrando conforme a necessidade.
Cada ferramenta feita de pedra lascada, Dasei-sekki, tinha finalidades específicas, umas serviam para cortar, outra para caçar e outras para limpar a caça tirando os órgãos e a pele
Levando em consideração os Dasei-sekki encontrados pelo Japão a partir das descobertas em Iwajuku, descobriu-se que os agrupamentos humanos já realizavam troca e comércio em diferentes regiões do arquipélago.
Quando o clima começou a esquentar há cerca de 20 mil anos, os grandes animais começaram a desaparecer. O acaso desses grandes mamíferos também alteraram as ferramentas humanas. Elas se tornaram menores e ganharam outras funcionalidades.
Réplica de lanças feitas com Dasei-sekki utilizadas durante o período Jomon
O aumento da temperatura também fez com que o nível do mar aumentasse e as conexões por terra do arquipélago com o continente desaparecessem. Esse isolamento deu origem à formação de uma língua (idioma) e uma forma de cultura única.
Período Jomon: a primeira era do Japão
Como dito na introdução, o período Jōmon compreende um período entre aproximadamente 12 mil anos a.C. até mais ou menos 300 a.C. Esse período é marcado por avanços técnicos das ferramentas.
Ferramentas de pedra polida Masei-sekki (磨製石器) revela o salto técnico da população do período Jomon em relação as ferramentas de pedra lascada
Pedras polidas chamadas Masei-sekki (磨製石器), ferramentas feitas com fragmento de ossos como pontas de flechas, lanças e até anzóis, objetos de madeira como arco, flecha e barcos, além de cerâmica, em especial as famosas cerâmicas Jōmon.
A cerâmica Jōmon é caracterizada por padrões de nós de corda que eram levadas a fogo baixo com a cerâmica e que no final do período produziu objetos com uma estética belíssima, embora o objetivo inicial tenha sido para o uso culinário e de armazenamento.
O período recebe esse nome por causa dos padrões nas cerâmicas encontradas nas escavações arqueológicas: Jō (“縄”, corda) e Mon (“文”, padrão)
Esses objetos de cerâmica inicialmente tinham fins culinários e é por causa dessa cerâmica que o período ganha o nome que tem: Jō (“縄”, corda) e Mon (“文”, padrão), ou seja, período Jōmon é o período do padrão de cordas.
O nome foi adotado por causa da dificuldade em definir o período neolítico do Japão. Apesar de convencionalmente o período datar de cerca de 12 mil anos atrás, descobertas recentes de cerâmica Jōmon na província de Aomori remontam cerca de 16,5 mil anos atrás e levantaram dúvidas sobre quando o período de fato começou.
Réplica de Tateana Jukyo (竪穴住居) do Kasukabe City Local History Museum, província de Saitama, inspirado em um sítio arqueológico de Hanazumi
As pessoas desse período também viviam como caçadores coletores em pequenos grupos relacionados por laços consanguíneos. Normalmente buscavam viver próximos a fontes de água e em casas subterrâneas chamadas Tateana Jukyo (竪穴住居).
Essas habitações, a mais antiga forma de arquitetura do Japão, eram construídas a partir de buracos cavados com cerca de 50cm de profundidade e cobertos com matéria orgânica de terra, rizomas e raízes com camadas de palha finalizando o telhado.
Esquema de como funcionava os Tateana Jukyo
Esse telhado era sustentado por vigas de madeira que também ficavam enterradas dentro da Tateana Jukyo. O tamanho dessas habitações primitivas tinham o tamanho de quatro ou cinco peças de tatame, ou seja, entre 7 a 9 metros quadrados.
Em geral, entre 4 e 5 pessoas viviam dentro de um Tateana Jukyo. Uma curiosidade interessante é que a metragem de um Tateana Jukyo é mais ou menos a mesma metragem de um quarto das habitações do Japão moderno.
Parte externa dos Tateana Jukyo
No começo do período Jōmon, as comunidades eram pequenas com apenas alguns Tateana Jukyo. Já para o final do período, as comunidades podiam ultrapassar uma centena de habitações Jukyo.
Kaizuka e o povo Jōmon
A maior parte do que se sabe hoje sobre o povo Jōmon é graças aos Kaizuka (貝塚), montes com conchas, ossos de peixes, ossos de animais e outros detritos que foram formados por agrupamentos pré-históricos, espalhados pelo Japão. No Brasil chamamos isso de Sambaqui.
Memorial em Omori, Tokyo, em homenagem a Edward S. Morse, o primeiro a descobrir a existência dos Kaizuka (Sambaquis) no Japão
Esses Sambaquis, ou Kaizuka, ficavam nas proximidades das regiões onde esses povos viviam, e foi por eles que as estruturas que o povo Jōmon utilizava para sobreviver foram descobertas.
Edward S. Morse (1838 – 1925), zoólogo e arqueólogo estadunidense foi o primeiro a descobrir a existência de Kaizuka em 1877 observando um pela janela durante uma viagem de trem.
Na época ele lecionava zoologia na Tokyo Univesity e ao avistar essa formação iniciou uma escavação no local que ficou conhecido como Ōmori Kaizuka, ou Sambaqui de Ōmori, na região de fronteira entre Tokyo, Shinagawa e Ōta.
Sítio arqueológico de Kaizuka (Sambaqui) da era Jomon
O trabalho iniciado por Morse foi muito importante para impulsionar e desenvolver o campo da arqueologia no Japão e há uma estátua em sua homenagem até hoje no Ōmori Kaizuka.
Sannai Maruyama
Na capital da província de Aomori, a cidade de Aomori, é lar de uma das mais importantes descobertas arqueológicas sobre o período Jōmon: o sítio arqueológico Sannai Murayama, ou Sannai Murayama Iseki (三内丸山遺跡).
Sítio arqueológico Sannai Murayama Iseki em Aomori, capital da província de Aomori
O sítio arqueológico foi habitado entre 5500 anos e 1500 anos atrás e se supõe que este local tinha uma população de aproximadamente 500 pessoas em formação sedentária.
Sannai Maruyama é extremamente importante porque a suposição era de que o povo Jōmon era uma população semi-nômade, mas Sannai Maruyama, que é uma prova definitiva da existência do povo Jōmon, foi um assentamento permanente.
As pesquisas arqueológicas revelaram algo extraordinário: os habitantes de Sannai Murayama cultivavam feijão, abobrinha, bardana (gobō), castanhas e nozes
Essa descoberta foi uma surpresa para a historiografia japonesa. O sítio arqueológico foi descoberto em 1992 e cobre uma área de 40 hectares (400 mil metros²).
Mas o mais impressionante para os pesquisadores foi descobrir que a população que viveu em Sannai Maruyama cultivava feijão, abobrinha, bardana (gobō), castanhas e nozes.
Essa descoberta mudou radicalmente as teorias sobre como as pessoas desse período viviam. O sítio também revelou uma torre de vigia, uma grande habitação que pode ter sido utilizada como espaço de trabalho comum ou local de reunião.
Área interna da grande habitação do sítio arqueológico de Sannai Murayama Iseki
Parte significativa dos artefatos encontrados no local não são da região. Isso revela que os habitantes de Sannai Murayama trocavam ou comercializavam com outras regiões bastante distantes do Japão.
Como viviam os Jōmon
Antes da descoberta de Sannai Murayama Iseki, acreditava-se que a expectativa de vida do povo Jōmon era de aproximadamente 30 anos. Porém, Sannai Murayama mudou esse entendimento.
Representação da dieta do povo Jomon
Foi encontrado no local abundância de ossos de peixes como Buri (“ぶり”, olhete ou olho-de-boi), Madai (“まだい”, goraz) e Saba (“さば”, cavalinha). Também foi encontrado evidência de bebidas alcoólicas produzidas a partir da fermentação de frutas.
Tudo isso para dizer que as pessoas que viveram em Sannai Murayama Iseki tinha acesso a uma nutrição bastante ampla. Uma pesquisa feita em 2010 com 86 esqueletos da era Jōmon revelou que 32% viveram 65 anos ou mais, ou seja, 28 dos 86.
O desenvolvimento cultural e artístico do povo Jomon foi possível por causa da surpreendente longevidade que eles tinham
Considerando que o povo Jōmon tinha uma fonte bastante estável de alimento, eles puderam passar parte significativa de seu tempo produzindo e desenvolvendo arte e cultura, especialmente a tão famosa cerâmica e avatares que simboliza as deidades.
O povo Jōmon reverenciava a natureza como deidade. Mandingas e divinação tinham grande importância dentro dessas sociedades e os avatares de cerâmica eram utilizados de forma ritualística para pedir por boa colheita, prosperidade e proteção contra o mal.
Deidades do povo Jomon em cerâmica
Isso lembra bastante o shintō, não é mesmo? Uma coisa bastante interessante é que esses bonecos avatares foram encontrados despedaçados, o que faz crer que destruir essa esculturas era parte do ritual, o que também lembra muitos rituais preservados ainda hoje no Japão.
Evolução do período e do povo Jōmon
Ao longo do período Jōmon muitas transformações culturais e sociais aconteceram. No começo do período, os vasilhames eram caracterizados por terem o fundo pontiagudo e os avatares eram bidimensionais e achatados.
Cerâmica do início do período Jomon
Na metade do período, os vasilhames começaram a ter uma de uma decoração mais tridimensional e a base ficou mais reta, tal como um vaso dos dias atuais. Os avatares também começaram a ter uma aparência mais tridimensional.
No final do período, os vasilhames se refinaram e se diferenciavam para propósitos distintos. Os avatares também ficaram mais sofisticados e aparentavam mais personalidade.
Cerâmica da metade do período Jomon
Os costumes funerários eram bastante interessantes também. Os mortos eram enterrados com os braços amarrados às pernas em uma posição fetal. Eles também tinham como cultura arrancar um dente específico como ritual de passagem para a vida adulta.
Esqueletos encontrados no final do período revelam que muitos foram mortos por ferimentos feitos por armas. A hipótese é que o aumento da população e a queda de alimentos causada por mudanças climáticas levaram a conflitos por recursos entre os assentamentos.
Rito funerário do período Jomon consistia em amarrar os braços nas pernas e deixar o corpo em posição fetal
Conclusão
A pré-história é fascinante. É o período mais longo da humanidade. Os últimos 2 mil anos são apenas um piscar de olhos na experiência humana nesse ponto pálido azul.
Apesar de fascinante e gigantesco, é bastante difícil encontrar evidências que dêem conta e expliquem como viveram nossos antepassados. Esse artigo dá uma noção de como tudo começou, mas a história não pára de avançar.
As agrupamentos do período Jomon tendiam a ficar próximos a fontes de água
Técnicas modernas e novas tecnologias elucidarão as grandes perguntas que ainda temos sobre esse período de mais cerca de 16.500 anos do povo que habitou a terra que hoje chamamos de Japão.
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