A crise econômica japonesa está envolta da falta de trabalhadores no Japão. É algo que está afetando negócios de diversos setores, prejudicando a economia e deixando um risco de falência nos próximos anos perigoso.
Crise econômica no Japão causada por falta de trabalhadores

Muitos negócios fecharam no país e alguns estão operando com capacidade menor causando sobrecarga aos funcionários existentes, além de reduzir os horários de funcionamento. O prejuízo foi estimado em 16 trilhões de ienes de oportunidades perdidas apenas em 2024.
Alguns restaurantes estão tendo que recusar clientes por não ter capacidade de servir todas as pessoas, negócios não conseguem expandir abrindo outras lojas pela falta de trabalhadores e restaurantes tem visto as vagas de trabalho anunciadas sem procura.
Aumenta número de empresas com risco de falir
De acordo com análise do Nikkei e do Tokyo Shoko Research, o número de empresas com risco de falir por conta da falta de mão de obra chegou a 13.500 apenas em 2024. Com isso, a sustentabilidade dos negócios fica ameaçada.
Apenas em outubro foram 965 falências, um aumento de 6% em comparação com o mesmo mês do ano anterior. Um dos exemplos é a da rede de restaurantes Takeya em Tóquio.
O local é reconhecido por servir um lámen de caldo de porco, peixe bonito e cavalinha muito gostoso. Já estampou matérias de revistas e vive cheio. Um dia, a rede já teve 5 lojas na capital.
No entanto, com falta de mão de obra, já teve que fechar 3 lojas e agora opera com dificuldade 2. A demanda de clientes é alta, mas o sistema operacional é prejudicado e eles passam por dificuldades.
Mesmo anunciando uma vaga de lavador de louça com carga de uma hora por dia, ninguém apareceu ou demonstrou interesse.
Restaurantes e hoteis com dificuldades
Os restaurantes e hoteis estão sofrendo bastante com isso, já que pós-pandemia pouca gente retornou a seus postos ou há o desejo de estar nessas áreas.
Longas horas de trabalho e salários baixos afastam os trabalhadores. Mesmo em cargos mais altos como gerência, não há interesse.
Ano passado, a empresa Takeya de lámen aumentou o salário em um nível sustentável em 200 ienes acima do mercado, mas ainda assim ficaram sem aplicações. Hoje em dia, o gerente do restaurante de rámen lida com mais responsabilidade operacionais como preparar o caldo do rámen, que leva cinco horas todos os dias.
Isso fez com que eles tivessem que mudar o horário de fechamento das 21hs para as 19hs. Além disso, o preço alto dos ingredientes também pesa no orçamento. Se as coisas continuarem como estão, ele contou a reportagem Nikkei News, que eles terão que fechar.
Menos trabalhadores a cada ano
Dados da empresa de pesquisa Shoko Research confirma essa tendência. De acordo com os números, a falta de trabalhadores dobrou em comparação com o ano anterior.
Na cidade de Karuizawa em Nagano, mesmo com o aumento de turistas na região, também sofre com a falta de mão de obra. Um hotel com mais de 40 anos de operação não consegue oferecer jantar em sua total operação, pois falta funcionários na cozinha e no hall. Isso causou uma queda de 30 a 40% no faturamento do restaurante do hotel.
São necessários 40 funcionários para eles funcionarem da forma como deveria, mas atualmente tem menos de 30. A competição entre os hoteis pelos trabalhadores aumentou com isso. Os negócios oferecem salários mais altos para atrair os staffs.
Para conseguir funcionar o hotel tem recrutado pessoas de outros departamentos mesmo sem experiência para preencher os quadros. Eles se sentem inseguros em servir mesas e responder perguntas sobre vinhos e menu.
Agora, eles consideram contratar mais trabalhadores estrangeiros, mesmo que as funções precisem de alguém que fale japonês, pois lidam diretamente com atendimento ao público.
Empresas em pré-falência
As empresas em pré-falência no Japão é de 2.5% das 540.000 firmas japonesas, segundo o analista Matsui, que estuda a área para a Nikkei.
As áreas mais afetadas são a de fabricação de equipamentos, de componentes eletrônicos e construtoras. Apesar das porcentagens não serem altas para hoteis e restaurantes, muitos registram baixas vendas mesmo na fase de recuperação pós pandemia. Isso significa que a taxa de falências possa subir nos próximos anos.
Ciclo perigoso
Em indústrias de hospitalidade, a falta de mão de obra leva a um declínio de qualidade de serviços. Por exemplo, demora na limpeza, o que afeta a satisfação do cliente, prejudicando lucro. Com isso, fica mais difícil contratar com um salário atrativo, criando um ciclo vicioso.
Apesar de negócios dos setores prejudicados terem conseguido sobreviver com auxílios na pandemia, agora elas sofrem uma pressão para normalizar as condições.
A discussão no momento é como essas empresas em fase de pré-falência podem ser diferentes das empresas zumbi, que funcionam, mas não conseguem cumprir com as suas obrigações. Esse é um problema de uma crise crescente no Japão.
Raízes do problema de falta de mão de obra no Japão
Por anos, o Japão passou por medidas econômicas que funcionaram com estímulos do pacote do primeiro-ministro Shinzo Abe chamado Abenomics. No entanto, um dos efeitos colaterais de suas medidas foi que os salários no Japão ficaram baixos.
A antiga política de economia do Shinzo Abe tinha três pilares, afrouxamento monetário, desembolsos fiscais e estratégia de crescimento. A antiga política fez de fato circular mais dinheiro e combater a deflação, mas com pouco crescimento salarial e como resultado deixou o iene fraco com aumento da taxa de importação.
Sistema de trabalho japonês causou um problema

Além disso, o modo como o mercado de trabalho japonês opera com funcionários trabalhando anos nas mesmas empresas até se aposentar não criou competição salarial.
O empregado não tinha motivos para pedir aumentos salariais, pois não existia a possibilidade de concorrência entre as empresas.
Além disso, o que ocorreu foi que em troca da lealdade e da seguridade de emprego para o resto da vida, os funcionários acabaram aceitando condições de trabalho, longas jornadas que era determinado por seus empregadores. Isso sem reclamar.
De um lado, os empregadores tinham uma força de trabalho flexível e que fazia o que era desejado em vista de uma alta performance. No entanto, isso ficou bem pesado quando a competição internacional entrou no mercado na década de 80.
Os funcionários regulares começaram a custar muito na folha de pagamento e eles passaram a contratar trabalhadores não regulares e de meio período. Eles se ajustavam em fases de ciclos dos negócios, sendo facilmente contratados e dispensados sem seguridade.
Dois mercados de trabalho paralelos
Isso fez criar dois mercados de trabalho paralelos no Japão. A demanda por funcionários jovens e recém saídos da faculdade são altas, pois eles cobram menos e trabalham mais. Os mais velhos entre 45 e 29 e aqueles entre 50 a 54 tinham dificuldades em serem contratados.
Depois com o pacote Abenomics, as empresas passaram a ser estimuladas a contratar quem já tinha se aposentado. Os funcionários com 65 anos ou mais cresceu 25% em 2024.

Quando alguém é contratado como trabalhador irregular, ele está fadado a só conseguir empregos assim. Este tipo recebe menos e enfrenta instabilidade.
Apesar disso, o número de força estava aumentando devido a inserção de mulheres e idosos no mercado como parte do Abenomics. Só que eles foram jogados na faixa do mercado de trabalhadores não regulares. Com maus salários e com falta de produtividade. Essa combinação prejudica muito a economia e taxa GDP.
50% das mulheres está em trabalhos irregulares, segundo relatório do Banco do Japão de 2025.
Além disso, o número de postos também aumentou. Isso fez com que a taxa de desemprego se mantivesse baixa.
Só que a pandemia acabou criando um efeito inesperado nos trabalhadores, que se recusaram a voltar a postos de trabalho que pagavam pouco e demandavam muito. Principalmente em atendimento e serviços.
Além de não retornarem aos seus postos, as pessoas também não se sentem atraídas pelas vagas. Em especial as gerações mais novas, que prezam um balanço da vida e carreira.
Enquanto outras áreas se reinventaram para atrair trabalhadores lançando workation nos escritórios, as áreas que precisam de mão de obra e não podem mudar suas condições de serviço, como nos restaurantes e hoteis, que operam ininterruptamente sofrem.
As empresas pequenas e médias estão em situação crítica e são as que mais sofrem, segundo artigo do Japan Center for Economic Research.
Se eles não conseguem atrair funcionários, a única saída é fechar e por isso o estado é crítico. A idade da população que trabalha entre 15 a 64 anos começou a declinar desde a década de 90 e isso é um adicional na crise econômica desencadeada pela falta de trabalhadores no Japão.
Segundo Jun Saito, pesquisador sênior do Japan Center for Economic Research, o desafio atual é reformar o sistema de trabalho, o que não será fácil.
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