Yasuke (弥助) já foi tema de enredo da Mocidade Alegre no carnaval paulistano de 2023 no Brasil. Aliás, tema vencedor daquele ano, enredo de uma animação na Netflix e também se tornou um dos personagens principais do game Assassin’s Creed Shadows.


Yasuke

Os africanos no Japão e a chegada de Yasuke
Yasuke foi o primeiro e historicamente único estrangeiro oriundo do continente africano a se tornar um samurai no Japão, contudo, não foi o primeiro contato dos japoneses com pessoas de origem africana.

Em meados de 1546, três navios portugueses com parte da tripulação de moçambicanos escravizados chegaram ao Japão.
De acordo com um missionário jesuíta, pessoas vieram de distâncias de até quase 100 km só para ver os escravizados.
A curiosidade dos japoneses por pessoas de pele preta também foi registrada pelo missionário italiano Gnecchi-Soldo Orgatino em 1570.
Em carta, ele disse aos colegas jesuítas que o interesse dos japoneses era tão grande, que eles pagavam só para ver os escravizados etíopes.

Orgatino inclusive aconselhou a seus pares em dificuldades financeiras que quando fossem para o Japão não deixassem de trazer “negros” com eles. Mas foi em 1579 que a personalidade histórica Yasuke chegou ao Japão.
O país era homogêneo e a curiosidade aparecia quando chegavam pessoas de tons de pele e cabelos diferentes. O país apenas tinha contato com holandeses e portugueses em sua maioria.
Oda Nobunaga encontra Yasuke
Em 1579, o missionário napolitano Alessandro Valignano levou consigo para o Japão um preto que atuava como seu guarda costas – uma vez que não era permitido a padres e missionários a escolta de soltados ou homens armados – de uma viagem vindo da Índia.

Em meados de março de 1581, Valignano tinha uma audiência marcada em Kyoto com Oda Nobunaga, o primeiro reunificador do Japão para pagar tributos e solicitar permissão de deixar o país.
Ele caminhou pela cidade com seu guarda costa.
A notícia de que um homem de pela preta caminhava pelas ruas da antiga capital logo se espalhou pela cidade e causou um alvoroço na população, que tentou a todo custo ver tal homem causando uma espécie de caos em Kyoto.
De acordo com Thomas Lockley, coautor do livro African Samurai: The True Story of Yasuke, a Legendary Black Warrior in Feudal Japan (sem tradução para o português), quando Nobunaga viu o guarda costa de Valignano, não acreditou que ele de fato tivesse a pele preta.

Acreditando se tratar de um ardil, ordenou que o homem fosse desnudado, banhado e esfregado. A suspeita de Nobunaga era do homem ter sido pintado.
Quem foi Yasuke?
Existem muitas especulações sobre quem foi Yasuke antes de ser Yasuke. Apesar da nacionalidade mais provável de Yasuke ser a moçambicana, há hipóteses de que ele também pudesse ser etíope ou nigeriano.

O nome que conhecemos hoje, Yasuke, foi dado por Oda Nobunaga ao moçambicano. Infelizmente seu nome real, idioma nativo, data de nascimento e religião são desconhecidos, embora há quem defenda que ele fosse muçulmano.
No livro The Chronicle of Lord Nobunaga (sem tradução para o português), originalmente Shinchō Kōki escrito por Ōta Gyūichi e compilado no século XVII descreve Yasuke brevemente como o homem que se tornara vassalo de Nobunaga.
“No 23º dia do 2º mês, um negro chegou de país cristão. Ele aparentava ter 26 ou 27 anos. Preto por todo seu corpo, esse homem robusto e de bom comportamento parecia um boi. Ademais, sua formidável força era superior à de 10 homens. O padre o trouxe enquanto ia prestar respeito a Oda Nobunaga. Na verdade, foi graças ao poder e à glória de Nobunaga que tesouros ainda inéditos dos Três Países e curiosidades deste tipo passaram a ser vistos aqui repetidas vezes, uma verdadeira bênção.”
No diário de Matsudaira Ietada, vassalo de Tokgawa Ieyasu, também há um registro de Yasuke no dia 11 de maio de 1582 logo após Oda Nobunaga ter destruído o clã Takeda:
“Nobunaga-sama estava acompanhado de um homem preto que lhe foi presenteado por missionários e que recebeu dele estipêndio. Seu corpo é preto como tinta e ele tem 6 saku 2 bu (1,82 metros) de altura. Dizem que seu nome é Yasuke.”

Outro registro histórico é uma troca de cartas entre o padre Lourenço Mexía e o padre Pero da Fonseca datada de 8 de outubro de 1581.
“O homem negro entende muito pouco de japonês e Nobunaga nunca cansava de conversar com ele. E porque era forte e sabia alguns truques, Nobunaga teve grande prazer em protegê-lo e fez com que ele percorresse toda a cidade de Kyoto em sua companhia. Algumas pessoas na cidade acreditam que Nobunaga fez dele um Tono (lorde).”.
Por fim o Shinchō Kōki armazenado nos arquivos da Sonkeikaku Bunko, biblioteca do clã Maeda, afirma:
“Foi ordenado que fosse dado ao jovem homem preto Fuchi (“扶持”, estipêndio), o nome Yasuke (弥助), uma Sayamaki (“さや巻”, espada curvada) e uma residência privada. Por vezes, a ele também será confiado carregar as armas do mestre.”
Yasuke: o samurai africano
Oda Nobunaga ficou fascinado com o homem de pele preta, e depois de confirmar que de fato sua pele era preta, Nobunaga ordenou que uma festa fosse preparada para o convidado, além de ter sido incorporado ao quadro de vassalos dias depois.

Não se sabe exatamente como que ele deixou os serviços do Valignano e passou a servir Oda Nobunaga.
As dúvidas são consequências de que, apesar do fato extraordinário de um homem como Yasuke se tornasse um samurai, sua vida foi pouco documentada.
Para Thomas Lockley, o conceito de samurai era muito fluido. Ele argumenta que não era preciso ter nenhuma habilidade especifica para ser um samurai e que qualquer um que pegasse em armas em nome de um daimyo poderia se chamar ou ser chamado de samurai.

Porém, é muito difícil sustentar o que o autor propõe, especialmente pelo fato de a sociedade feudal japonesa ser organizada em castas, incluindo as hierarquias da classe guerreira. Um ronin não era confundido com um goshi e não era confundido com um samurai.
Yasuke era inequivocamente um samurai
Após a polêmica da personagem Yasuke ser o protagonista do game Assassin’s Creed Shadows, Yu Hirayama, professor de história especializado no período Sengoku (1467 – 1615) confirmou categoricamente que o Moçambicano foi um samurai.
Autor de livros como A Estrutura Básica dos Domínios dos Daimyos nos Estados Beligerantes, A Rebelião Tensho Jingo, A Queda do Clan Takeda e Sengoku no Shinobi (nenhum com tradução para o português ou para o inglês) afirmou na sua conta no X no dia 19 de julho de 2024:

“Parece que o assunto do momento é sobre Yasuke, um preto que serviu Oda Nobunaga. Há pouco material histórico sobre ele, mas não há dúvidas de que foi um samurai que serviu a Nobunaga.
Na sociedade medieval (estados beligerantes), não importava seu status social, se seu suserano o tratasse como um samurai, você poderia se tornar um samurai. A razão pela qual posso dizer isso é porque fontes históricas apontam que Nobunaga deu a ele:
- Um estipêndio (rendimentos ou salário);
- Uma residência;
- Uma espada longa;
O fato dele ter recebido estipêndio e ter servido como atendente próximo de Nobunaga cumpre as importantes condições de um contrato de mestre e servo em promessa de sustento.
Também é importante frisar que, como ele pôde empunhar uma espada longa, ele era um vassalo de duas espadas e não um servo (que não podiam carregar espadas).
E se a ele foi dado uma residência, não há espaço para dúvidas. Ele provavelmente foi escravizado até que Nobunaga o pegou do missionário escravocrata, mas dado os mencionados 1 a 3 acima, ele provavelmente se tornou um samurai por vontade própria.
A razão por ele não ter sido morto durante o incidente de Honnō-ji foi por ele ser considerado um animal ou um não japonês pelos seguidores pelos seguidores de Akechi, e Akechi não o reconheceu como um samurai (provavelmente devido ao seu preconceito).
Naquela época, era comum os mestres recrutarem pessoas de baixo status para se tornarem samurais. Toyotomi Hideyoshi é um ótimo exemplo disso.”
Incidente de Honnō-ji
A história não é um objeto de estudo inanimado e fechado, a história é uma poderosa ferramenta de poder um ente vivo, sujeito a novas análises, descobertas e interpretações. Dito isso, o termo Incidente de Honnō-ji é muito bem escolhido.

Há muitas interpretações sobre o que aconteceu no 2º dia do 6º mês do 10º ano da era Tenshō (21 de junho de 1582), especialmente em relação aos motivos que levaram Akechi Mitsuhide, general de confiança de Oda Nobunaga a trair seu suserano.
São ao menos 10 diferentes teorias, algumas mais benevolentes que outras, um tema digno de um longo artigo.
A grosso modo, esse evento, conforme documentos indicam, Yasuke foi uma personagem importante no Incidente de Honnō-ji.

De forma ultra resumida, em meio a campanha de unificação do Japão, Oda Nobunaga ordenou que Toyotomi Hideyoshi lançasse uma ofensiva contra o clã Mōri na região de Chūgoku.
Apesar do otimismo após a queda do clã Takeda, surpreendentemente, o clã Mōri, o único rival político e militar de Nobunaga ao lado do clã Uesugi, lançou uma contraofensiva em larga escala em Chūgoku.
Hideyoshi enviou um pedido de reforços para Nobunaga e Nobunaga ordenou que Akechi Mitsuhide fosse em seu auxílio, inclusive, o próprio Nobunaga também iria para o campo de batalha.

Nobunaga decidiu se preparar para a batalha no templo Honnō-ji em Kyoto, mas despachou suas tropas para auxiliar Hideyoshi. O número de pessoas que acompanhavam Nobunaga é um tema em discussão, mas não eram mais do que 150, entre elas, Yasuke.
A traição de Mitsuhide
Um dos pontos com maior possibilidade de interpretações sobre o que aconteceu no Incidente de Honnō-ji foi um Renga (連歌), um estilo de poema colaborativo, entre Mitsuhide e outros poetas onde suas intenções foram declaradas, ainda que na subjetividade poética.

Embora seja um ponto de grande especulação sobre a liderança de Akechi Mitsuhide no ataque ao templo Honnō-ji ou se ele ficou no distrito de Toba em Kyoto, uma força militar de 13 mil homens cercou o templo.
Às 06:00 do 2º dia do 6º mês do 10º ano da era Tenshō o ataque ao templo começou por todas as direções. O templo Honnō-ji era bem fortificado e foi alvejado com flechas de fogo.
Nobunaga teria perguntado: “Quem planejou esse ataque?”. Mori Ranmaru, leal vassalo teria respondido: “Parece que é Mitsuhide.”. Nobunaga então respondeu: “Zehi ni oyobazu” (“是非に及ばず”, “Não há porque discutir os prós e os contras. Não há escolha”).

Nobunaga e seus guerreiros, incluindo Yasuke, lutaram com bravura. Nobunaga lutou com arco até ele quebrar, depois até as flechas acabarem, por fim lutou com uma lança. Quando foi ferido e não pôde mais lutar, quis garantir que as mulheres que o acompanhavam fugissem.
Yasuke e a morte de Oda Nobunaga
Esse é mais um ponto nebuloso sobre o papel de Yasuke nos últimos momentos de seu suserano. Encurralado, Oda Nobunaga fez o que a honra de um bushi demanda: um ritual de seppuku.

Como o ritual do seppuku exige um Kaishakunin (介错人), um auxiliar para a decapitação, há quem defenda que Yasuke foi o Kaishakunin de Oda Nobunaga. Não há nada confirmando nem negando a versão.
Nessa versão, Yasuke teria decapitado Oda Nobunaga e levado sua cabeça para Oda Nobutada, herdeiro de Nobunaga, privando Akechi Mitsuhide de se apoderar de sua cabeça como um símbolo de sua legitimidade política e militar.
Outros creem que o mais provável é que Mori Ranmaru, vassalo e possível amante de Nobunaga tivesse ficado responsável por auxiliar seu suserano e que Yasuke teria fugido do cerco para avisar Oda Nobutada.

Nessa possibilidade, Yasuke teria combatido as forças de Mitsuhide no castelo Nijō, local onde Nobutada estava, mas eventualmente teria se rendido e sido poupado por não ser considerado nem samurai, nem japonês e nem humano.
O paradeiro de Yasuke
Após a morte de Oda Nobunaga no Incidente de Honnō-ji, o paradeiro de Yasuke é desconhecido e não há nada que possa confirmar o que aconteceu com o samurai moçambicano muçulmano.

O que se sabe com certeza é que ele não morreu no ataque das forças de Mitsuhide.
Isso é confirmado pelos escritos do missionário português, Luís Fróis (1532 – 1597), sobre o Incidente de Honnō-ji cinco meses após o fato dando “graças a Deus que Yasuke não morreu”.
Ao que tudo indica, após a morte de seu suserano e de ser rendido no castelo de Nijō, Yasuke que estava ferido pela batalha, foi conduzido pelos homens de Mitsuhide aos jesuítas em uma Nanban-ji (igreja), onde foi tratado pelos missionários.
Depois disso, tudo é um mistério. Há quem defenda que a teoria de que Yasuke teria se tornado um lutador de sumô baseado em uma pintura chamada Sumō Yūrakuzu Byōbu feita por um artista anônimo e exposta na Sakai City Museum.

Porém, essa é apenas uma especulação sem nenhuma evidência histórica que dê suporte.
Apesar da ausência de pistas que indiquem o paradeiro de Yasuke, sua história extraordinária inspirou quase 20 obras da cultura pop no Japão e mundo afora.


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