Há muitos “Do”s no Japão. Há, por exemplo, o caminho do chá (Sado, “茶道”), o caminho da caligrafia (Shodo, “書道”) e o caminho das flores (Kado, “華道”). Nesse artigo você conhecerá o Kodo (香道), a arte japonesa da apreciação dos incensos.

A história dos incensos no Japão é muito antiga. Os primeiros incensos do país chegaram ao país no reinado da Imperatriz Suiko em meados de 595.
Esses incensos, lascas de pau-de-águila, vieram da ilha de Awaji, província de Hyogo.
O Japão, mais especificamente a cidade de Nara, também era a ponta final de uma das rotas da antiga Rota da Seda, a rota marítima do oriente. Muitos incensos vieram pela mesma rota que o budismo fez para chegar ao país.

É possível afirmar que a pré-história do caminho das fragrâncias, o Kodo, foi um ritual de meados do século VI chamado Sonaekō.
Esse ritual ligado a liturgia budista consistia na queima de uma madeira aromática chamada de Kōboku misturada com outras ervas.
A pré história do Kodo e a apreciação das fragrâncias
A apreciação da fragrância dos incensos no Japão durante o período Nara (710 – 794) tinha o nome de Monkoh (聞香), que significa “ouvindo o cheiro”, uma ideia que surgiu da prática budista de realizar rituais com incensos.

A prática de apreciar as fragrâncias começaram a sair dos templos budistas para se tornar uma estética da aristocracia japonesa partir do período Heian (794 – 1185).
Os incensos deixaram de ser parte de um ritual ou oferecido aos mortos e começaram a transitar em outros ambientes. Com o passar do tempo a prática foi ficando mais sofisticada.
A aristocracia da corte Heian utilizava incensos para diversas ocasiões: perfumar um ambiente, perfumar as roupas ou simplesmente apreciar o aroma que os incensos liberavam no ambiente.

Os incensos começaram a se tornar objeto de superioridade intelectual e de sensibilidade ao se tornar uma forma de expressão estética ou símbolo de alguém.
Uma das melhores fontes sobre a prática da apreciação do incenso durante o período Heian é a obra Genji Monogatari de Lady Murasaki.
O surgimento do Kodo
Após o que foi considerado como a era de ouro do Japão, o período Heian, a apreciação da fragrância dos incensos se tornou bastante comum entre a classe guerreira para relaxar ou entre batalhas ferozes travadas no período Kamakura (1185 – 1333).

Com o gosto pela apreciação e pela estética e os incensos (o Monkoh mundano) a busca cresceu por mais madeiras aromáticas mais valiosas e fragrâncias cada vez mais particulares. Mas foi no período Muromachi (1336 – 1573) que o Kodo como se conhece hoje surgiu.
É atribuído a Ashikaga Yoshimasa, o oitavo Shogun do shogunato Ashikaga, a criação do Kodo em algum momento entre 1443 e 1474.
Apesar da natureza brutal desse período, muitas culturas floresceram durante sua regência de Yoshimasa.
Além do Kodo, arte que foi classificada por Sanjonishi Sanetaka a pedido do próprio Shogun, também se desenvolveram a cultura Bushi, o Sado, o Kado, o teatro Noh, o budismo Zen, a pintura sumi e a cultura Higashiyama que influenciou a arquitetura, as artes visuais e o teatro.

Com o estabelecimento do Kodo, o caminho das fragrâncias, surgiram duas grandes escolas de Kodo: a Oie-ryu fundada por Sanjonishi Sanetaka, voltada para a aristocracia, e a Shino-ryu fundada por Soushin Shino, voltada para a classe guerreira.
Rikkoku Gomi: a ciência do Kodo
A arte do Kodo tem sua ciência tal qual classificada por Sanjonishi Sanetaka. Essa ciência se chama Rikkoku Gomi (“六国五味”, Seis países e Cinco Sabores). Rikkoku são seis tipos de madeiras aromáticas: Kyara, Rakoku, Manaka, Manaban, Sumatora e Sasora.

Gomi, por sua vez, classifica o sabor que as madeiras aromáticas podem liberar quando queimadas: Amai (doce), Nigai (amargo), Karai (picante), Suppai (azedo) e Shio Karai (salgado). Importante deixar claro que o nome dos sabores não são literais.

O sabor doce (Amai) se assemelha a mel ou açúcar, amargo (Nikai) significa medicinal, picante (Karai) se assemelha a cravo, noz-moscada ou canela, azedo (Supai) se assemelha a frutas como ameixa e nectarina.
Já salgado (Shio Karai) é oceânico. Confira abaixo a classificação das madeiras aromáticas.
- Kyara: madeira de origem vietnamita com aroma picante (Karai) considerada gentil e elegante, um amargor elegante, gracioso como um cortesão;
- Rakoku: madeira de origem tailandesa e coreana com aroma doce (Amai) e as vezes picante (Karai). Com cheiro de sândalo, é considerada como o aroma de um guerreiro;
- Manaban: madeira de origem da indiana (Costa do Malabar) com aroma salgado. Há madeiras mais adocicadas e considerada mais agradável do que as madeiras Kyara;
- Manaka: madeira de origem malaia (Malacca) tem aroma curvo, luminoso e lustroso. Tem sabor neutro, mas há madeiras com sabor salgado (Shio Karai);
- Sumotara: madeira de origem sumatran tem aroma azedo (Supai) antes e depois. Semelhante ao Kyara, mas menos intenso. Seu aroma é considerado como um plebeu com uma coroa;
- Sasora: madeira de origem desconhecida tem aroma fresco e azedo (Supai). Tão elegante quando Kyara, mas mais luminoso e se mantém por mais tempo. Seu aroma é considerado como um monge.
Você poderá encontrar outras interpretações do Rikkoku Gomi com uma que sugere sete madeiras aromáticas e sete sabores. O Kodo foi evoluindo ao longo do tempo. A definição escolhida neste artigo foi a definição mais clássica.
Kōnojūtoku: as dez virtudes das fragrâncias
No final do século XVI, ficou estabelecido pelos mestres do Kodo no Palácio Imperial de Kyoto as dez virtudes que as fragrâncias possuem. Confira:
- Aguça os sentidos;
- Purifica o corpo e o espírito;
- Elimina o Kegare (impureza ou contaminação espiritual);
- Desperta o espírito;
- Cura a solidão;
- Traz calma para momentos turbulentos;
- Não é desagradável, mesmo em abundância;
- Mesmo uma pequena porção é o suficiente;
- Não desaparece mesmo depois de muito tempo;
- O uso comum não causa nenhum mal.
Incensos são parte intrínseca da cultura japonesa, seja no espaço público como templos e santuários, como na esfera particular, além de ser uma arte, Kodo, muito íntima da arte do chá (Sado) e da arte das flores (Kado ou Ikebana).
Kodo no período Edo e Meiji
Tanto incensos quanto o Kodo se tornaram muito populares entre a classe mercante e as pessoas comuns ao longo do período Edo (1603 – 1868).
As madeiras aromáticas Kyara se tornaram sinônimo de alta classe e produto de alta qualidade.

Foi no período Edo também que a produção de incensos em bastão no estilo Senko foram desenvolvidos e o produto começou a fazer parte da vida cotidiana, o que impulsionou a cultura Kodo durante dois séculos e meio.
Portanto, se tornou indispensável para cultura espiritual japonesa.
Durante a era Meiji (1868 – 1912) a arte da apreciação das fragrâncias, o Kodo, teve uma queda significativa por causa da modernização e da influência da cultura ocidental no Japão.
Felizmente o Kodo encontrou espaço no Japão contemporâneo com o interesse internacional pela cultura tradicional do país.
Kodo hoje em dia
Ao lado do Kado, ou Ikebana e o Sado, o Kodo são considerados o tripé da arte clássica japonesa entre os três caminhos. No entanto, o Kodo é o menos conhecido. Isso tem mudado com a popularidade da culinária e o interesse internacional.

Hoje em dia, há casas especializadas que oferecem experiências com cerimônias luxuosas e não luxuosas.
Também tem workshops para adeptos e interessados, além das casas de chá que também utilizam a apreciação das fragrâncias em suas cerimônias.
Com o interesse internacional e o grande volume de estrangeiros que vão ao Japão todos os anos, surge no país uma chamada “Nova Era do Kodo”.
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