Hozoin In’ei: o lendário monge lanceiro do templo Kofuku-ji

Hozoin In’ei: o lendário monge lanceiro do Musashi

hozoin-inei foi um lendário monge lanceiro apareceu no romance Musashi e existiu de verdade no Japão. Conheça sua interessante história.

Se você teve o prazer de ler Musashi, obra-prima de Eiji Yoshikawa, provavelmente lembrará do mestre Hozoin In’ei, o lendário monge lanceiro de Musashi do templo budista de Nara Kofuku-ji inaugurado em 669.

Monge lanceiro do Musashi

Seu nome verdadeiro era Kakuzenbo In’ei, ficou conhecido como Hozoin In’ei por ser monge do templo Hozoin, escola de artes marciais vinculada ao templo Kofuku-ji, e por ter desenvolvido a técnica batizada de Hozoin-ryu.

Templo Fofuku-ji em Nara, templo onde funciona a escola de lança (Sojutsu) Hozoin
Templo Fofuku-ji em Nara, templo onde funciona a escola de lança (Sojutsu) Hozoin

No romance, Musashi não teve a oportunidade de conhecer Kakuzenbo In’ei por já ter idade avançada, 84 anos, além de estar supostamente senil e ter indisposição para encontrar pessoas novas, especialmente jovens guerreiros.

No lugar do lendário guerreiro budista, Hozoin In’ei, Musashi conheceu Nikkan, monge superior do templo Ozoin, que lhe deu ensinamentos preciosos e lutou contra o mais graduado do grupo chamado Os Sete Pilares do Templo, Agon, e o derrotou.

Essa passagem de Musashi pelo templo Hozoin (Kofuku-ji) no romance de Eiji Yoshikawa é magnífica, fica a dica para uma leitura best-seller.

Romance e literatura à parte, Hozoin In’ei deixou um legado para a história das artes marciais que saem das páginas do livro para ser um retrato histórico.

Hozoin In’ei: a história de Kakuzenbo In’ei

Hozoin In’ei nasceu como Kakuzenbo In’ei no primeiro ano Daiei (1521) e era o segundo filho de Nakamikado Tajima In’ei, um monge budista guerreiro Sōhei (僧兵) do templo Kofuku-ji.

Kakuzenbo iniciou nas artes marciais pela espada pelo estilo Nen-ryu sob supervisão de Toda Yosaemon e pelo estilo Tenshin Shoden Katori Shinto-ryu sob supervisão de Izasa Ieano, fundador do estilo.

Hozoin In'ei nasceu em 1521 e teve mais de 40 instrutores de artes marciais ao longo de seus estudos
Hozoin In’ei nasceu em 1521 e teve mais de 40 instrutores de artes marciais ao longo de seus estudos

O jovem monge também recebeu instruções sobre a arte da lança com um mestre da arma, Daizendayu Moritada.

Ao longo de sua vida como Sōhei, um monge budista guerreiro, Kakuzenbo teve mais de 40 professores de artes marciais.

Mas foi sob a orientação de Daizendayu Moritada que Kakuzenbo se tornou verdadeiramente hábil com a lança.

De acordo com a lenda, o jovem monge lanceiro de Musashi foi iniciado por Moritada em técnicas secretas em 1553.

Honzei In’ei aprende as técnicas de Marishiten

Kakuzenbo aprendeu aos 33 anos de idade duas técnicas de lança com seu mestre e que se acreditava ser uma técnica oriunda de Marishiten (摩利支天), bodhisattva associado a luminosidade, ao Sol, e também a classe guerreira.

Marishiten (摩利支天), bodhisattva associado a luminosidade, ao Sol, e também a classe guerreira
Marishiten (摩利支天), bodhisattva associado a luminosidade, ao Sol, e também a classe guerreira

Depois de ser confiado com as técnicas secretas passadas por seu mestre Daizendayu Moritada, algo interessante aconteceu na vida desse jovem monge guerreiro enquanto ele treinava a arte da lança, Sojutsu (槍術).

Honzei In’ei e sua nova arma

Conta a lenda que durante um treinamento noturno próximo da lagoa Sarusawa, local onde foram expostas a cabeça de 60 samurais derrotados pelos monges Sōhei do templo Kofuku-ji, a Lua crescente refletiu na lagoa.

Ao ver a Lua refletida na ponta de sua lança, Kakuzenbo teve a ideia de aprimorar sua arma com uma espécie de Lua minguante na ponta da lança.

Ukiyo-e 100 Aspectos da Lua de Tsukioka Yoshitoshi representando o monge guerreiro Hozoin Inei observando o reflexo da lua na lagoa Sarusawa onde teve a ideia para uma nova arma
Ukiyo-e 100 Aspectos da Lua de Tsukioka Yoshitoshi representando o monge guerreiro Hozoin Inei observando o reflexo da lua na lagoa Sarusawa onde teve a ideia para uma nova arma

Foi assim que nasceu as lanças Kamayari (鎌槍), também conhecidas como Jumonji Yari (十文字槍).

As lanças foram uma das armas mais utilizadas pelas facções que buscavam o controle do Japão durante o período Sengoku (1477 – 1573). Essas armas eram baratas e fáceis de serem produzidas.

A centralidade das lanças no período Sengoku

Antes de serem adotadas pelos samurais (que já praticavam Sojutsu), as lanças eram utilizadas pelos Ashigaru (足軽), soldados de infantaria leve e eram extremamente efetiva em combates em larga escala.

Ukiyo-e de Utagawa Yoshitora representando a batalha de Shizugatake
Ukiyo-e de Utagawa Yoshitora representando a batalha de Shizugatake

Com o sucesso das lanças nas batalhas do período dos estados combatentes, a pratica do Sojutsu se espalhou pelo país. Ao final da batalha de Shizugatake que aconteceu entre 10 e 11 de junho de 1583 sete heróis emergiram dela.

Nessa decisiva batalha para Toyotomi Hideyoshi, sete de seus vassalos, Wakizaka Yasuharu, Katagiri Katsumoto, Hirano Nagayasu, Fukushima Masanori, Kasuya Takenori, Kato Kiyomasa e Kato Yoshiaki, ficaram conhecidos como Shizugatake no Shichi Hon Yari (賤ヶ岳の七本槍).

As Sete Lanças de Shizugatake, Shizugatake no Shichi Hon Yari, eram generais da mais alta confiança de Toyotomi Hideyoshi e foram recompensados – com exceção de Hirano Nagayasu e KasuyaTakenori, todos se tornaram daimyos.

Representação dos Shizugatake no Shichi Hon Yari, As Sete Lanças de Shizugatake
Representação dos Shizugatake no Shichi Hon Yari, As Sete Lanças de Shizugatake

E com exceção de Kasuya Takenori, todos os Shichi Hon Yari traíram o filho de Toyotomi Hideyoshi, Toyotomi Hideyori na batalha de Sekigahara.

Takenori foi perdoado por Tokugawa e com exceção de Hirano Nagayasu todos foram realocados de seus territórios originais.

A lança crescente

Anedotas históricas à parte, as lanças desenvolvidas por Kakuzenbo In’ei foram utilizadas nos campos de batalha de seu tempo (Senguko). As lanças crescentes eram muito efetivas.

Sua lança vertical e horizontal eram eficientes para derrubar os cavaleiros de seus cavalos de uma distância segura, além de permitir que essa arma perfurasse, cortasse e também empurrasse o inimigo.

Lança crescente criada pelo monge guerreiro Hozoin In'ei inspirado pelo reflexo da Lua crescente na lagoa Sarusawa
Lança crescente criada pelo monge guerreiro Hozoin In’ei inspirado pelo reflexo da Lua crescente na lagoa Sarusawa

Consta que as lanças também podem ter sido utilizadas fora do campo de batalha após a morte de Hozoin In’ei por bombeiros que utilizaram as lanças crescentes para derrubar telhados e impedir o fogo de se alastrar.

Consta que a lança crescente do monge Hozoin In’ei, a Kamayari, era tão impressionante que ganhou até mesmo um poema. Confira:

Uma lança quando você ataca

Uma naginata quando você abre o caminho

Uma foice quando você corta

Em qualquer caso

Ela nunca erra seu alvo

O estilo Hozoin-ryu

Foi com sua lança crescente, Jumonji Yari, que Hozoin Kakuzenbo In’ei desenvolveu o lendário estilo Hozoin-ryu com base nos ensinamentos do Shinto-ryu, mesmo nunca tendo a utilizado em uma batalha real.

Quando Hashiba Hidenaga, meio irmão de Toyotomi Hideyoshi, assumiu o castelo de Koriyama em 1585, ordenou que as pessoas comuns da província de Yamato abandonassem as suas armas.

Hozoin In'ei era um entusiasta das artes marciais, mas nunca lutou em um campo de batalha e consta que era avesso a violência
Hozoin In’ei era um entusiasta das artes marciais, mas nunca lutou em um campo de batalha e consta que era avesso a violência

Além das armas, Hidenaga editou um decreto proibindo a prática das artes marciais.

Hozoin In’ei acatou ambas ordens do daimyo. Esse quase foi o fim do estilo Hozoin-ryu.

Porém, o estilo era muito conhecido e muitos samurais influentes conseguiram ter aulas de Sojutsu com o filho do monge Hozoin’ In’ei. Mas foi graças a Hozoin Inshun, sobrinho de Hozoin In’ei que o estilo Hozoin-ryu retornou.

Últimos atos do monge Hozoin’ In’ei

Hozoin Kakuzenbo In’ei morreu aos 86 anos em 1607. Um ano antes de sua morte, Hozoin In’ei proibiu que treinassem Sojutsu, especialmente o estilo que ele desenvolvera, o Hozoin-ryu.

Apresentação de Sojutsu em frente ao templo Kofuku-ji
Apresentação de Sojutsu em frente ao templo Kofuku-ji

Não há muita explicação da decisão que ele tenha tomado. Provavelmente decidiu proibir a prática da arte marcial para que os monges não desviassem do real propósito que monges budistas têm: a iluminação espiritual através do Dharma.

Hoje, a técnica do lendário monge guerreiro sobrevive graças a seu sucessor, Hozoin Inshun, que reviveu o ensino de Sojutsu na escola de artes marciais Hozoin do templo Kofuku-ji.

Ao longo de sua longa história, a escola de Sojutsu do templo Kofuki-ij só aceitava homens como discípulos. Felizmente isso mudou e desde 2018 a escola aceita mulheres.

A primeira mulher (de preto) promovida ao nível iniciante do estilo Hozoin-ryu na história

Essa medida foi importante tanto para atender as demandas da sociedade moderna do Japão, quanto para preservar essa herança cultural do que já foi um dos maiores celeiros de guerreiros no mundo.

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