Quando se procura na internet sobre as Onna-musha (女武者), a versão feminina dos samurais por vezes erroneamente chamadas de Onna-bugeisha (女武芸者), o nome de Tomoe Gozen inevitavelmente aparecerá nos primeiros resultados.
São muitas as razões pelo qual essa bushi (武士) é tão famosa.
Confira abaixo em nosso artigo seus feitos mais famosos, fatos de sua vida e representações no tradicional teatro Noh e na cultura pop devido a sua fama.
Tomoe Gozen
A primeira e talvez mais importante é porque Tomoe Gozen é uma personagem muito marcante em uma das peças de literatura mais importantes do Japão: Heike Monogatari (平家物語).
Embora o Heike Monogatari conte a luta entre os clãs Taira e Minamoto na Genpei Gassen (Guerra Genpei, 1180 a 1185) pelo controle do Japão misturando fatos com literatura, há muitas lacunas sobre quem foi Tomoe Gozen na vida real.
Não se sabe ao certo quando ela nasceu, nem quando ou onde morreu.
Também não se sabe de qual clã ela pertencia, só se sabe que era de família de samurais e aprendeu as artes marciais e da guerra, mas não há informações sobre sua vida antes da Guerra Genpei.

Habilidosa e linda
Tomoe Gozen, no entanto, se imortalizou na história do Japão como uma Onna-musha de força física e beleza sem paralelos.
Possuía grande habilidade com espada longa, arquearia montada, preparada para combater deuses e demônios, uma guerreira que valia por mil homens.
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Os feitos militares de Tomoe Gozen
Há quatro grandes feitos militares de Tomoe Gozen durante a Guerra Genpei.
Derrotou sete guerreiros
O primeiro aconteceu no sexto mês do ano de 1181 na batalha de Yokotagawara, a primeira batalha da Onna-musha onde ela derrotou sete guerreiros montados e os decapitou como troféu.

Liderou mil homens
No quinto mês do ano de 1183 Tomoe Gozen já surge como uma das principais comandantes do exército de Kiso sob o comando de Minamoto no Yoshinaka liderando mil homens da cavalaria na decisiva batalha de Kurikara, também conhecida como batalha de Tonamiyama (砺波山).
Deu vitória ao clã Minamoto
A batalha acabou com a vitória do clã Minamoto e foi um ponto de virada na Guerra Genpei em favor do clã Minamoto.
O clã Taira sofreu severas baixas, além de gerar o caos entre suas fileiras, desmoralização e obrigou o clã Taira a abandonar Kyoto.
Sobreviveu em batalha com sete mil homens
Sua penúltima façanha aconteceu no primeiro mês de 1184 na batalha de Uchide no Hama ao sobreviver numa batalha contra seis mil homens da cavalaria lutando com apenas 300 guerreiros a cavalo.
Ela foi uma entre os cinco sobreviventes.

Sua última aparição no campo de batalha foi a Awazugahara aonde ela derrotou Uchida Ieyoshi e Hatakeyama Shigetada.
Foi nessa batalha que Yoshinaka, seu suserano e também seu amor morreu.
O final misterioso de Tomoe Gozen
A última menção a Tomoe Gozen acontece no 9º capítulo do clássico Heike Monogatari na versão de Kakuchi-bon e narra a última batalha da Onna-musha antes dela tirar sua armadura e desaparecer. Confira:

“Como sempre, Tomoe não fugiria, mas depois de ouvir repetidamente [de Yoshinaka] ela recuou o pensou ‘Oh, como eu gostaria de ter um inimigo digno para travar minha última batalha diante dele [Yoshinaka].
Enquanto ela observava aguardando por uma oportunidade, Onda no Hachiro Moroshige, conhecido na província de Musashi por sua incrível força, surgiu acompanhada de aproximadamente trinta guerreiros montados.
Tomoe cavalgou velozmente próxima dele, o agarrou com todas as suas forças e o empurrou para baixo de seu cavalo pressionando-o contra o arção de sua cela sem permitir que ele fizesse o menor movimento que fosse.
Por fim, se contorceu, o decapitou e descartou a cabeça. Depois disso ela desceu do cavalo, descartou sua armadura e equipamentos e fugiu em direção as províncias orientais.”

A biografia de Tomoe Gozen é repleta de lendas que quando confrontadas com a realidade traz muitas contradições.
É, portanto, impossível dizer com precisão onde que a realidade histórica termina e onde a construção literária começa.
As lacunas biográficas de Tomoe Gozen
Como dito na introdução deste artigo, há muitas incertezas sobre a história e genealogia de Tomoe Gozen: onde nasceu, onde morreu, quem eram seus pais, se ela teve ou não teve filhos e assim por diante.
Há também muitas versões sobre a idade da Onna-musha na batalha Awazugahara, por exemplo.
Nos escritos Hyakunijūkubon (百二十可本), uma variante do Heike Monogatari da tradição da escola Yasaka de performance, Tomoe tinha 22 anos.

Já na versão Genpei Seisuiki (源平盛衰記), versão estendida do Heike Monogatari, ela tem 28 anos.
No Enkeibōn, considerado um dos textos mais antigos, Tomoe Gozen é descrita como uma mulher de 30 anos.
No Genpei Seisuiki é dito que Tomoe é filha de Nakahara Kanetō, irmão de Higuchi no Jirō Kanemitsu, Imai no Shirō Kanehira e Ochiai no Gorō Kaneyuki, além de irmã adotiva e amante de Kiso no Yoshinaka (Kiso era um ramo do clã Minamoto).

Porém, no Genpei Tōjōroku (源平闘諍錄) Tomoe é apresentada como amante Higuchi no Jirō Kanemitsu e não como sua irmã. Há versões que dizem que ela era filha de Higuchi no Jirō Kanemitsu.
A versão Genpei Tōjōroku também diz que após fugir da batalha Awazugahara, a Onna-musha foi convocada por Minamoto no Yorimoto em Kamakura.
Lá ela conhece Wada Yoshimori, bettō (diretor) do Samurai-dokoro (Conselho de Retentores do shogunato Kamura), e se casou com ele.

O casamento entre os dois supostamente gerou o lendário guerreiro Asahina Saburō Yoshihide com poderes sobrehumanos herdados por sua mãe. Porém, no texto Azuma Kagami (吾妻鏡) Asahina Saburō Yoshihide tinha nove anos quando a batalha Awazugahara aconteceu.
O paradeiro de Tomoe Gozen
Também não é conhecido o local onde Tomoe teria vivido até seus últimos dias.
Há suposições de que ela tenha vivido nas cidades de Tomioka na província de Echigo, atual província de Niigata, e Ishiguro na província de Etchū, atual província de Toyama.

Há também alegações de que ela foi enterrada em três lugares diferentes na província e Shinano, atual província de Nagano e elevada a condição de deidade em um santuário na vila Kokubu na província de Ōmi, atual província de Shiga.
Há também uma questão importante: o nome “Tomoe” aparece escrito de sete formas diferentes em diferentes manuscritos como o Kakuichibon, Hiramatsukebon, Nagatobon e Nantobon, são elas: “ともゑ”, “巴”, “鞆画”, “鞆”, “鞆絵”, “艫絵” e “伴絵”.

Hipótese
Para Tomikura Tokujiro (1900 – 1986), professor emérito da Komazawa University, doutor de literatura medieval, os textos apócrifos do Heike Monogatari citados acima fornecem evidências para levantar a hipótese de que Tomoe tenha viajado consideravelmente pelas províncias ocidentais.
Representações de Tomoe Gozen
Seus feitos e seu nome sobreviveram ao tempo e Tomoe Gozen se tornou uma figura muito retratada na cultura japonesa e ocidental.
Confira algumas das mais interessantes abaixo.
O teatro Noh de Tomoe Gozen
A Guerra Genpei encerrou o período Heian (794 – 1185) e iniciou o shogunato Kamakura (1185 – 1333).
O Heike Monogatari foi compilado em meados de 1330, 145 anos após o confronto entre os clãs Taira e Minamoto pelo controle do Japão.
Tomoe Gozen se tornou uma peça de teatro Noh durante o século XIV.
Criada por Zeami Motokiyo (1363 – 1443), também conhecido Kanze Motokiyo (観世 元清), a obra conta a história de um monge que encontra o espírito da Onna-musha no Lago Biwa.

A peça do estilo segundo estilo Shura-mono (修羅物), o Nibanme-moto (二番目物), obedece ao ritmo Jo-ha-kyū (序破急), e como tal, começa silenciosa e calma acompanhada por uma composição de Yowagin (ヨワ吟).
O drama aumenta à medida que os ritmos musicais Yowagin, calmo e lento, e Tsuyogin (ツヨ吟), alto e rápido, se misturam.
Os gestos, danças e movimentos transmitem o sofrimento pelo qual Tomoe Gozen vem passando no reino dos Ashura (saiba mais no nosso artigo Samsara: um guia sobre os seis reinos do Rokudō).
Um resumo da peça
Um monge natural de Kiso passava por onde aconteceu a batalha Awazugahara no lago Biwa em seu caminho para Kyoto quando encontrou uma mulher orando aos prantos em um santuário.
O monge acho estranho e perguntou a razão de seu choro.
Ela citou um antigo poema explicando que não é comum derramar lagrimas em frente a deidades.
Quando soube que o monge era de Kiso, explicou que a deidade santificada era Kiso Yoshinaka.

A mulher pediu o monge orasse pela alma de Yoshinaka e revelou ser na verdade um fantasma e desapareceu no ar.
Mais tarde, o monge descobriu dos locais que oravam no santuário as histórias sobre Lady Tomoe.
As histórias reforçaram a crença do monge, de que aquela mulher que ele conheceu era o espírito de Lady Tomoe. Naquela noite, o monge entoou um sutra para os mortos e o espírito da mulher apareceu com uma armadura completa.
Ela disse a ele que era o espírito de Tomoe Gozen e estava profundamente ressentida por não poder ter morrido com seu mestre Yoshinaka. Ela descreveu vividamente os últimos momentos de Yoshinaka e como ela viveu depois de sua morte.
O espírito de Lady Tomoe desaparece depois de solicitar ao monge que ele orasse para salvá-la de sua obsessão. O monge ora pela alma dela, mas não se sabe qual é o resultado das orações.
Nessa obra, apesar de suas incríveis virtudes, a peça revela uma Tomoe Gozen fragilizada, chorosa e sofredora, que não encontra paz após sua morte e que precisa da boa vontade de um monge para acalmar sua alma.
Tomoe Gozen na literatura
A história da Onna-musha também inspirou a série literária The Tomoe Gozen Saga, trilogia escrita por Jessica Amanda Salmonson com o primeiro livro publicado em 1981, o segundo, The Golden Naginata em 1982, e o terceiro, Thousand Shrine Warrior em 1984.

Embora a autora utilize a famosa guerreira como inspiração para sua trilogia, a saga é uma obra de ficção que incluem criaturas lendárias do folclore japonês, deuses e demônios, além de poderes mágicos.
Apesar disso, Jessica fez uma profunda pesquisa sobre o universo samurai e inclinou a história para o lado feminino.
A obra teve uma boa recepção durante a década de 80. Infelizmente a saga não está disponível no idioma português.
Maijo Taisen
A Onna-musha também está presente na série de mangá Maijo Taisen lançada em 2020, escrita por Horuma Kawamoto e ilustrada por Makoto Shiozuka.
Na história, 32 mulheres da história mundial são selecionadas por um demônio chamado Agrat Bat Mahlat.

As 32 mulheres devem lutar entre si em um torneio chamado Walpurgis para receberem como recompensa a realização de seu maior desejo.
Entre as participantes estão Tomoe Gozen, Joana D’arc, Cleopatra, Maria Antonieta e Catarina a Grande.
Usagi Yojimbo
No mangá Usahi Yojimbo de 1987, criado pelo nipo-americano Stan Sakai, Tomoe Gozen é a inspiração para a personagem antropomórfica felina Tomoe Ame, uma Onna-musha do clã Geisgu e guarda-costas e conselheira de Lord Noriyukii, daimyo antropomórfico panda.

O personagem principal do quadrinho é Miyamoto Usagi, um samurai antropomórfico coelho inspirado no ronin Miyamoto Musashi.
A história acontece durante o início do período Edo. A Netflix criou uma adaptação chamada As Crônicas de Usagi – O Coelho Samurai.
Samurai Deeper Kyo
Na série de mangá Samurai Depper Kyo, a personagem Saisei é uma espécie de ressureição ou versão zumbi de Tomoe Gozen. Contudo, não há nenhuma conexão com entre a personagem e a Onna-musha descrita no Heike Monogatari.
No mangá que depois também foi transformado em anime game, a personagem não tem personalidade ou vontade própria, é apenas uma figura controlada por outro personagem. Além disso, ela utiliza uma naginata, enquanto que Tomoe Gozen utilizava espada longa e arco.
No mundo dos games
É possível que Tomoe Gozen esteja presente em muitos jogos ou ao menos sendo inspiração para personagens de games.
Em Persona 4 ela inspira a personagem Chie Satanoka. Já em Ronin: The Last Samurai ela é uma personagem jogável.

No aclamado Ghosts of Tsushima, o personagem principal, Jin Sakai, ajuda Sensei Ishikawa a caçar sua antiga discípula, Tomoe, uma arqueira prodígio que traiu Tsushima ao ensinar as técnicas do Caminho da Arqueada de Ishikawa aos invasores mongóis.
Em Sekiro: Shadows Die Twice, Lord Genichiro, membro do clã Ashina foi aprendiz de uma misteriosa mulher chamada Tomoe.
Embora essa personagem nunca apareça no game, ela ensina a Genichiro a utilizar os poderes dos raios.


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