Já ouviu falar na história da Cortesã do Inferno? A lenda de Jigoku Tayū (地獄太夫), ou Jigoku Dayū, fala sobre uma mulher que viveu durante o período Muromachi (1135 – 1573) em Sakia, província de Osaka.

Sua presença na literatura e nas artes foram particularmente maiores durante todo o período Edo (1603 – 1868) com romances e imagens que retratavam a vida dos Yūkaku, os distritos da luz vermelha no Japão.
A figura de Jigoku Tayū normalmente está associada ao monge Ikkyū Sōjun, um dos principais nomes do budismo Zen e, de acordo com a tradição, filho bastardo do Imperador Go-Komatsu, algo bastante explicável.
Jigoku Tayu: a Cortesã do Inferno e o monge iluminado
Ikkyū Sōjun foi uma figura irreverente. Além de monge era calígrafo, músico e poeta respeitado.
Seu senso de humor era ácido e era um aberto crítico ao que ele chamava de autoritarismo hipócrita das instituições religiosas.
O monge fazia questão de afrontar e transgredir as regras impostas pela religião. Adorava álcool e frequentava os distritos da luz vermelha.
Mesmo sendo um monge atípico e excêntrico que viveu o Zen a sua maneira, tinha muitos discípulos.

Andarilho durante boa parte de sua vida, conta a lenda que Ikkyū Sōjun viveu com Mori, uma cantora cega que era o amor de sua vida. Apesar de sua vida considerada errática para a religião, Ikkyū atingiu a iluminação.
Esse parêntese é importante para entrar na história de Jigoku Tayū e a razão dela estar sempre associada ao monge Ikkyū Sōjun – que é uma figura extraordinária que merece um artigo próprio.
A lenda de Jigoku Tayū, a Cortesão do Inferno
Há muito tempo atrás existia uma garota chamada Otoboshi filha de um samurai. Um dia seu pai foi morto e ela teve de fugir com sua família para o Monte Nyoi.
Infelizmente para a jovem, ela e sua família não conseguiram chegar ao seu destino.
Durante o trajeto eles foram emboscados por bandidos que sequestraram a jovem Otoboshi e a venderam para um rico bordel em Sakai chamado Tamana.

Conforme treinava para se tornar uma Yūjo, cortesã de alta classe, Otoboshi cresceu e se tornou uma bela jovem inteligente e perspicaz.
Otoboshi atribuía os incontáveis infortúnios de sua vida a ação do karma de suas vidas passadas.
Quando ela finalmente se tornou uma cortesã se batizou como Jigoku (“地獄”, Inferno) para fazer troça de suas desgraças, além de vestir um kimono decorado com esqueletos, fogo e cenários infernais.
A cortesã Jigoku falava com elegância e sagacidade. Ela recitava poesia com tamanha graça que não importava quem a ouvisse caia em seu charme.
A beleza, graciosidade e inteligência de Jigoku a distinguia muito das outras cortesãs. Até mesmo seu nome a afastava da competição com outras cortesãs com nomes como Hotoke Gozen (“仏御前”, Lady Buddha).

Em pouco tempo Jigoku chegou ao status de Tayū, o mais alto possível para uma cortesã.
Mas em seu coração, Otoboshi recitava constantemente o nome de Buddha na esperança se conseguir se salvar de seus pecados.
Ikkyū, um monge Zen que frequentava Takasu, o distrito dos prazeres de Sakai, ficou curioso sobre a cortesã com nome tão peculiar e decidiu visitar o bordel Tamana para procurar a cortesã de que tanto tinha ouvido falar.
Quando o monge Ikkyū apareceu diante de Jigoku, a jovem cortesão recitou um poema para o errático monge:
Sankyo seba (Se você vive nas montanhas)
Miyama no ok uni (É melhor permanecer)
Sumeyokashi (Nas profundezas das montanhas)
Koko ha ukiyo no (Esse lugar está perto da fronteira)
Sakai chikai ni (Do mundo flutuante)
Esse não era um poema qualquer, era cheio de metáforas e duplos sentidos como a palavra Sakai (borda) e a própria cidade de Sakai. O monge entendeu perfeitamente o que ela quis dizer.

O poema de Jigoku, perguntava o que um monge como ele que normalmente não sai dos templos das montanhas estava fazendo na fronteira do distrito dos prazeres, o mundo flutuante de lamento e luto que os budistas buscam fugir.
Intrigado com o poema da jovem, Ikkyū respondeu com outro poema:
Ikkyū ga (Quanto a mim)
Mi w oba mi hodo ni (Esse corpo que tenho)
Omowaneba (Significada nada para mim)
Ichi mo yamaga mo (Uma cidade e um retiro na montanha)
Onaji jūsho yo (São ambos o mesmo lugar)
Ikkyū disse com esse poema que ele não estava aprisionado por seu corpo, portanto não fazia diferença estar ou não estar em um bordel. Para atingir a iluminação, o corpo não pode existir verdadeiramente.

Em suma, não há diferenças intrínsecas entre um bordel e um templo, eles são um e o mesmo. Depois do primeiro poema, Ikkyū continuou com outro poema.
Kikishi Yori (Ver o inferno em pessoa)
Mite otoroshiki (É muito mais aterrorizante)
Jigoku ka na (Do que ouvir falar)
Otoboshi entendeu o que o monge estava explicando para a jovem. Ikkyū tinha ido lá especificamente para contemplar sua aterrorizante beleza e sagacidade. Jigoku concluiu o poema do monge:
Shi ni kuru hito no (Não há quem morra)
Ochizaru ha nashi (Que não caia no inferno)
O poema de Jigoku brincava com temáticas budistas e ao mesmo tempo dizia que todos os que a viram se apaixonaram por ela. Mas a cortesã admitiu o monge na sua presença.
Ela sempre oferecia a ele uma refeição vegetariana própria aos monges. Ikkyū recusava e pedia por sake e carpa. Jigoku começou a desconfiar, afinal, monges eram proibidos de consumirem álcool, carne e sexo.

Jigoku achou que aquele homem não era um monge. A cortesã enviou suas Shinzō (aprendiz de cortesã entre 12 e 17 anos) para testar o verdadeiro caráter do monge.
As Shinzō cantaram, tocaram tambor e flauta para o monge e também dançaram. Ikkyū apreciou a performance e se juntou a elas para celebrar. A cortesão ouvia tudo em segredo no quarto ao lado.
De repente, Jigoku, percebeu uma presença estranha atrás das portas de papel. Ela espirrou dentro do quarto e viu que quem estava dançando com a música eram esqueletos. Quando ela entrou no quarto todos voltaram ao normal.
Ikkyū bebeu até desmaiar naquela celebração. No meio da noite ele levantou e foi até a varanda onde vomitou em um lago.
Quando seu vômito tocou a água, a carpa que ele tinha comido tinha se transformado em um peixe vivo e Jigoku testemunhou o fato.

Na manhã seguinte a cortesã contou ao monge o que ela tinha visto naquela noite e perguntou se aquilo tudo não tinha sido um sonho. O monge explicou para ela sobre o paraíso e o inferno e como as aparências enganam. Ele disse a ela:
Quando não estamos sonhando? Quando não somos esqueletos? Todos somos apenas esqueletos vestidos com carne padronizada como masculino ou feminino. Quando deixamos de respirar nossa pele rompe, nosso gênero desaparece, o superior e o inferior são indistinguíveis. Embaixo da pele que alguém acaricia hoje não há nada além de um esqueleto vestido de carne. Pense sobre isso! Alto e baixo, jovem e velho, masculino e feminino: é tudo a mesma coisa. Se você despertar para essa verdade básica você entenderá.
Jigoku decidiu renunciar a sua profissão e se tornar uma freira ao ouvir as palavras do monge, mas Ikkyū a aconselhou a continuar como uma cortesã.
Ele disse que ela deveria encontrar seu próprio caminho para a iluminação, que a religião é uma hipocrisia e uma prostitua é mais valorosa do que uma freira.
A partir desse momento Jigoku se tornou discípula de Ikkyū. Ela permaneceu como cortesã e contribuía generosamente com a caridade. O monge passava de tempos em tempos no bordel para meditar e orar com ela.

Ela entendeu que todas as pessoas são esqueletos em sacos de carne e encontrou paz. Meditava e rezava todos os dias. Eventualmente foi capaz de atingir a iluminação.
Como a maioria das cortesãs de seu tempo, Jigoku ficou doente e morreu jovem. O monge Ikkyū estava ao seu lado no momento de sua morte. Suas últimas palavras foram um poema que expressaram seu último ato de compaixão:
Ware shinaba (Quando eu morrer)
Yakuna uzumuna (Não me queime ou me enterre)
No ni sutete (Jogue-me no campo)
Uetaru inu no (Para que eu possa alimentar)
Hara wo koyase yo (Os cães famintos)
O monge Ikkyū deixou seu corpo no campo como ela tinha pedido, depois fez um túmulo para ela no templo Kumeda-ji.
A importância da figura de Jigoku Tayu
A lenda de Jigoku Tayū tem uma importância singular na cultura japonesa e no budismo Zen.
Tanto a figura da cortesã Jigoku Tayū quanto a do monge Ikkyū trazem questões sobre a moralidade confucionista.
Tanto a sociedade japonesa e a religiosidade do país estão fortemente alicerçadas dentro dos parâmetros estéticos confucionistas. Das quatro éticas confucionistas, duas se destacam na lenda de Jigoku Tayū.

Um deles é a ética Lǐ (禮) que fala sobre um sistema de normais, rituais e propriedades que determinam como uma pessoa deve agir corretamente na vida cotidiana é um exemplo disso.
O outro é a ética Zhì (智), a capacidade de ver o que é certo e justo no comportamento exibido pelos outros.
Essas estruturas que norteiam a cultura japonesa foram frontalmente atacadas pelo monge Ikkyū. Mesmo assim ele é um dos principais nomes do budismo Zen.
A própria história de Jigoku Tayū também é afrontosa para o que é compreendido como comportamento ético e aceitáveis na sociedade japonesa. Ela representa a existência simultânea do corpo pecaminoso e a iluminação espiritual.
Para além da discussão espiritual e moral que pode se estender ao infinito, Jigoku Tayū foi muito explorada no mundo das artes por artistas como Kawanabe Kyosai (1831 – 1889) e Utagawa Kuniyoshi (1798 – 1861).
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