O mundo corporativo japonês é bastante hierárquico, ultracompetitivo e extremamente protocolar. Muito dessa cultura corporativa é a sombra da herança da cultura samurai.

Um exemplo ilustrativo é a regra Sekiji (席次), a ordem de lugares para sentar. Quanto maior for a hierarquia, mais longe da porta na sala, e quanto menor for a hierarquia, mais próximo da porta.
Essa regra de etiqueta parece apenas um protocolo de respeito hierárquico à primeira vista. Mas, não é.
Esse protocolo vem da cultura samurai e é uma tática defensiva do período Edo quando muitos samurais perderam seu posto.
Em caso de um invasor, um assassino, os samurais mais importantes ganhariam tempo para se defender de um eventual agressor.

Esse é apenas um exemplo entre muitos outros. Mas, antes de mais nada, é preciso revisitar brevemente a história do Japão.
A cultura samurai ao longo da história
A cultura samurai permeia toda a sociedade japonesa com particular ênfase no mundo corporativo do país. Quer goste quer não, a influência da classe guerreira no Japão é muito antiga.
O poder político e militar se confundem há muito tempo. No período Heian (794 – 1185), o Imperador era o centro do poder político. Mesmo quando o clã Fujiwara de fato governava.

Já no período Kamakura (1185 – 1333) o Japão viveu sob seu primeiro shogun, uma ordem política dominada pela classe guerreira. Houve uma tentativa de devolver o poder político ao Imperador entre 1333 a 1336, mas deu errado.
A tentativa acabou colocando o shogunato Ashikaga no poder, que se manteve no de 1336 até 1573. Depois vieram Oda Nobunaga e Toyotomi Hideyoshi até chegar em Tokugawa Ieyasu.

Antes do shogunato Tokugawa (1603 – 1868) o Japão viveu o período Sengoku (1467 – 1573), mais de 100 anos de guerra, além das guerras que aconteceram antes. Mas ,durante o período Edo, o Japão viveu 263 anos de paz.
Esse período de paz gerou grandes avanços jurídicos, institucionais, culturais e sociais no Japão.
No entanto, uma das principais características desse longo período de paz foi a transformação da classe guerreira em um corpo burocrático.

Com o fim das guerras, a arte marcial perdeu espaço para o trabalho da gestão pública do país.
A estética, a disciplina, o respeito a hierarquia, a lealdade e todos os valores bushi se mantiveram na nova realidade do Japão.
A cultura samurai no mundo contemporâneo
Naturalmente muita coisa mudou da cultura samurai a partir do fim do período Edo em 1868, mas naturalmente muita coisa ficou e, talvez, leve séculos até se dissolva dentro da sociedade japonesa.

Acultura samurai é uma característica nacional do Japão. Não à toa o romance Musashi do escritor Eiji Yoshikawa de 1939 foi o livro mais vendido da história do Japão.
A mentalidade do samurai, o bushido, segue muito presente dentro do inconsciente coletivo.

No mundo contemporâneo, especificamente no mundo corporativo, não existe rituais de seppuku entre subordinados por desonrarem seus superiores, mas a devoção e a lealdade hierárquica são visíveis.
A cultura samurai no mundo corporativo
Essa cultura samurai geralmente não está muito presente em novas formas corporativas como a economia criativa e as startups.
A cultura samurai está principalmente enraizada nas empresas tradicionais.

As relações entre superiores e subordinados, Senpai (先辈) Kohai (後輩), refletem e muito a estrutura hierárquica dos samurais durante o período Edo. Nos primeiros episódios da série Tokyo Vice esse tipo de relação é abordada.
O sistema de mentoria da Toyota, por exemplo, reflete os princípios da cultura samurai e consegue aumentar a dinâmica dos grupos, aumentar a inovação e a eficiência.

No mundo corporativo japonês, até mesmo a simples troca de cartões de visitas, o Meishi Koukan (名刺交換), também é uma cultura samurai em entregar com as duas mãos com a face voltada para o Meishi Koukan.
Para receber o Meishi Koukan também é necessário receber com as duas mãos, observar o cartão por alguns instantes e guardar o cartão, um tratamento de respeito ao outro e também é parte da cultura samurai no mundo corporativo japonês.

A tradição dos happy hours, Nomikai (飲み会), também é uma cultura samurai, que acontecia entre os guerreiros após batalhas ou treinamentos intensos.
Por mais que o Nomikai esteja em declínio, é uma das formas de construir capital social tão importante para o mundo corporativo. Esse ato de beber junto simboliza confiança e fortalecimento das relações.
O lado sombrio da cultura samurai no mundo corporativo
Como dito acima, seppuku não é mais uma realidade. Por outro lado, suicídios e mortes relacionados a problemas de trabalho são reflexo dessa cultura samurai tão rígida e exigente.

Karoshi é a morte por excesso de trabalho e Karojisatsu o suicídio por causa de excesso de trabalho.
Juntos foram registrados mais de 2.900 casos no Japão em 2023. Há um sentimento real de não desapontar os superiores e os colegas.
Tal como os samurais durante o período Edo, muitos profissionais do mundo corporativo japonês trabalham longas horas a fio e com extrema fidelidade a empresa, aos superiores e aos colegas de trabalho.

As mudanças nas grandes corporações acontecem a um passo muito lento, basicamente geracional. Raramente você verá uma pessoa mais jovem sendo chefe de uma pessoa mais velha.
Então, mesmo que a nova geração assuma o cargo de seus superiores, muito da cultura da geração anterior já foi introjetada na geração sucessora. Então, as raízes da cultura samurai sempre estarão presentes, para o bem e para o mal.
Para concluir você aprendeu aspectos importantes da cultura organizacional do mundo corporativo japonês.
Deixe sua visita em nosso site em dia. Temos sempre conteúdos sobre o Japão.


0 comentário em “A cultura samurai no mundo corporativo japonês”