Talvez você, caro leitor e cara leitora, não esteja familiarizado com o conceito estético japonês chamado Ma (“間”, intervalo, espaço, pausa).
Uma das mais fascinantes que o país produziu, mas muito provavelmente você já a viu, viveu e experienciou.
Se você é fã do trabalho de Hayao Miyazaki e do Studio Ghibli, então definitivamente você já foi exposto à estética Ma.
Um dos exemplos mais conhecidos é a cena da animação A Viagem de Chihiro quando a protagonista, Chihiro Ogino, faz uma viagem de trem com Kaonashi (Sem Face).
Ainda nos exemplos das animações do Studio Ghibli, há muitas cenas da estética Ma aonde “nada acontece”.
Cenas sem desenvolvimento de história, apenas um vazio flutuando entre o tempo e o espaço.
Vazio, porém, é um nome que pode causar mais confusão do que esclarecimento, afinal, o “vazio” pressupõe o “nada”.
Só que não existe o nada ou o vazio no universo.
Nada e vazio são conceitos abstratos, pois todo espaço é ocupado por alguma coisa, seja ela visível ou não.

Por isso, tal como afirma o título deste artigo, Ma é a vacuidade que existe entre o tempo e o espaço.
O que é vacuidade
E o que é “vacuidade”? De forma muito resumida, é o espaço onde todas as possibilidades surgem e desaparecem. De forma mais completa, continue acompanhando.
Entendendo o conceito de Ma
Ma é um conceito artístico muito próprio do Japão, especialmente na arquitetura e no design.
Em suma, Ma é um intervalo entre dois ou mais espaços ou tempo e um mesmo evento.

Também chamado de espaço negativo, o próprio kanji de Ma “間” dá algumas dicas sobre o que Ma quer dizer: um portal “門” e o Sol no meio (日).
Espaço vazio, mas não vazio
Então, esse espaço vazio, ou negativo, não está vazio.
Além disso, ao mesmo tempo, o Sol não está entre o portal. É apenas sua percepção.
Pense em uma sala
Para ilustrar o que isso quer dizer, considere ma como um quarto ou uma sala.
Ou seja, o espaço vazio que existe entre as paredes e pode ser preenchido de infinitas formas e possibilidades.
As pausas na música
Outro exemplo interessante é pensar em música, uma forma de arte em que a pausa entre uma nota e outra é essencial para o ritmo e a dinâmica.
Não à toa, as pausas são consideradas a alma da música.

Porém, nem a música, nem o exemplo do quarto ou da sala definem Ma.
São apenas exemplos para ilustrar algo muito abstrato e por muitas vezes de difícil compreensão.
É como o oxímoro “o som do silêncio”. Ouça e observe o silêncio. Qual é o som do silêncio?
Ma nas relações interpessoais
Entre as muitas possibilidades de traduções possíveis para Ma, está a palavra “entre”.
A preposição utilizada para determinar espaço, tempo ou situação.
Portanto, Ma não é um conceito que se limita a arte e a arquitetura.

O que acontece entre duas pessoas
Aquilo que acontece entre duas ou mais pessoas durante um tempo e espaço, também pode ser considerado uma forma de ma.
Magawarui
Há até uma expressão japonesa: Magawarui (“間が悪い” ou “まがわるい”) que pode ser traduzida como “esse é um mal ma”.
Essa é uma expressão muito utilizada para ilustrar uma situação constrangedora ou uma incompatibilidade de energias entre duas pessoas ou mais.
O ma interpessoal não se limita ao magawarui.
Na verdade, excelentes ma podem emergir entre duas ou mais pessoas.

Isso revela que o conceito de Ma não está limitado a alguma coisa entre ou dentre objetos inanimados.
Espaço e tempo nunca se separam
É muito maior do que isso. Ma está ligado a formas particulares de experiência em quatro dimensões, isto é, o espaço-tempo tetradimensional.
“Enquanto no ocidente o conceito de espaço-tempo deu origem a uma imagem absoluta e fixa, de um infinito contínuo homogêneo como apresentado por Descartes, no Japão, o espaço e tempo nunca se separaram por completo.
Eles são concebidos como correlativos e omnipresentes.
O espaço não pode ser percebido como um elemento independente do tempo, e o tempo, por sua vez, não é uma abstração com medida regulada ou um fluxo homogêneo, sua existência é creditada somente em relação aos movimentos ou ao espaço.
Por isso o espaço é percebido de forma idêntica com os eventos ou fenômenos que ocorrem dentro dele, isto é, o espaço só é reconhecido em relação ao fluxo do tempo” – Arata Isozaki

Tempo e espaço como entidades
Colocando em outros termos, Ma é o colapso do entendimento de tempo e espaço como entidades distintas e abstratas.
Só pode tomar forma em um modo particular de experienciar o vazio ou a vacuidade de um objeto ou de um mundo subjetivo.
E embora possar ser compreendido objetivamente como “intervalos no tempo e no espaço”, Ma transcende e expressa algo mais profundo.
Aonde os sujeitos são levados na fronteira do pensamento e no limite dos processos de localizar coisas nomeando-as e distinguindo-as.
Adicionando complexidades a compreensão de Ma
Então, agora que há mais familiaridade com o conceito de Ma, é preciso adicionar um pouco de complexidade.
Complexidade em uma substância abstrata, que existe de forma cruzada com potencial de desconstrução de uma série de limites e fronteiras.

Essa complexidade adicional se dá por algumas razões.
Uma palavra que não é discutida racionalmente
Uma delas é que muitos japoneses entendem Ma como uma palavra viva e profunda que não pode sequer ser discutida.
Não pode ser analisada ou interpretada
Muito menos analisada ou interpretada através dos limites da cultura e da linguagem.
É um argumento razoável, afinal, a mania de ter explicações cartesianas para tudo é ocidental.
Outra razão importante: Ma é a ponte e o limite entre arte tradicional e contemporânea, entre arte e religião, entre religiões distintas e entre religião e cultura.

Elementos estão dentro da lógica e da ordem
Por fim, o argumento mais interessante: apesar de Ma dissolver aquilo que o pensamento nomeia e distingue para que a mente se organize e não seja arremessada no caos, muitos de seus elementos se apresentam dentro da ordem e da construção lógica.
Um paradoxo
Ma é, portanto, um paradoxo. “O incognoscível não pode ser compreendido pelo cognoscível”.
Essa afirmação é logicamente verdadeira. O que foge aos limites da mente humana, não pode ser compreendida pela mesma mente limitada.

Porém, se a única ferramenta que a humanidade possui para encontrar explicação e sentido as coisas é a mente cognoscível, como seria possível reconhecer aquilo que que a própria mente não consegue atingir?
Ma: uma estética-religiosa japonesa
“Era a 15ª noite do 8º mês. A luz de uma lua cheia nublada brilhou entre as pranchas mal ajustadas do telhado e inundou o quarto.
Que estranho lugar para estar deitado, pensou Genji olhando ao redor do sótão que era tão diferente de qualquer outro quarto que ele conhecera antes” – Genji Monogatari

O pequeno trecho do Genji Monogatari revela a natureza do sentido do kanji “間” de Ma: um portal ou uma abertura com um intervalo entre as coisas.
Fenômenos e eventos deste mundo, mas que não são um mero vazio ou mera abertura – a exemplo da luz da lua cheia entre as telhas.
Há muito mais coisas acontecendo no mundo interno de Genji do que meramente a imagem do mundo exterior transparece desse recorte do conto.
Porém, é preciso que o observador seja capaz de ir além desse vazio, dessa abertura, dessa vacuidade.
É nesse sentido que Ma só pode ser compreendido como uma estética-religiosa japonesa.
Mas, religião aqui não está diretamente ligada aos preceitos litúrgicos ou doutrina que um adepto deve fazer, mas sua essência última, isto é, o que chamamos de espiritualidade.

Esse senso estético-religioso está diretamente ligado a uma série de expressões artísticas tradicionais como o teatro Nō (能) e os poemas colaborativos Renga (連歌), e contemporâneas como as animações de Hayao Miyazaki e do Studio Ghibli.
Ma, cultura, espiritualidade e shintō
Cultura e espiritualidade andam de mãos dadas. É praticamente impossível dissociar uma coisa da outra.
No universo da espiritualidade, Ma é mais perceptível dentro do shintō do que no budismo – apesar de também ser muito presente nela.
Papel na religião
Como dito no tópico acima, Ma não tem um papel explícito na religião como forma de preceitos ou dogmas.
Mas ao observar sua arte, estética e locais sagrados, a presença desses “espaços” fica muito evidente.

Nos santuários do shintō, Ma é quase onipresente.
Está no torii
A começar pelo Torii (鳥居) que é um portal onde o mundano e o sagrado se separam.
O espaço que separam esses dois mundos é um Ma que dura o tempo que uma pessoa leva para cruzá-lo.
Não se trata apenas de um movimento físico ao cruzar um torii, mas uma intenção interior que reside dentro do indivíduo e que está oculta para o mundo exterior.
Portanto, restando ao espectador apenas imaginar o que levou aquele fiel ir até o santuário.

Dentro de cada Jinja (“神社”, santuário) há muitas possibilidades de moradas (espaços vazios) para a visita das deidades ao reino humano.
Está nos mikoshi e Hokora
Um dos mais famosos são os Mikoshi (神輿) utilizado nas procissões em homenagens a um kami específico.
Há também os Hokora (神庫), pequenos santuários para deidades que não estão sob a jurisdição de um grande santuário e são encontrados nas ruas, estradas, encruzilhadas ou integradas a paisagem.

Himogori (“神籬”, cerca divina) são utilizadas para demarcar as áreas sagradas que podem ser um Kekkai (“結界”, mundo fixado).
Espaço aberto e devem ser purificadas para a chegada de um kami, e até mesmo um altar, por exemplo.
Todos esses espaços vazios que são zelados, limpos e reverenciado pelos adeptos do shintō são uma expressão concreta de Ma.
Um espaço que por um período de tempo será ocupado por uma divindade, até ela retornar para Takamagahara (“高天原”, Planície do Alto Céu).

Há também os grandes espaços como montanhas, rios e mares que não deixam de ser um Ma para o shintō.
Essas regiões compreendidas como “regiões inabitáveis” são uma fenda entre mundos, um Ma sagrado sem forma energética que é preenchida pelos próprios Kami.
Kamis são Ma
O próprio conceito de Kami é também um Ma.
As deidades não tem uma forma ou um corpo físico, sua manifestação existe através do Kehai (気配), uma atmosfera energética intangível e invisível que preenche a vacuidade.
Ma na cultura japonesa
Você pode observar Ma na cultura japonesa tanto a nível pessoal como coletivo.
Está no hábito de se curvar
Quando uma pessoa japonesa performa Ojigi (お辞儀) curvando-se em sinal de respeito, saudação, reverência, desculpas ou admiração, é uma forma de Ma.

A reflexão silenciosa através da observação dos pensamentos, o silêncio confortável que se expressa por gestos e expressões silenciosas também são.
Restringindo ações
Já em sua expressão comunal, Ma desempenha o papel de restringir as ações individuais em prol do bem-estar coletivo.
Influenciando decisões
Isso influencia as decisões do indivíduo dentro dos aspectos de sua vida e seus círculos sociais.
Uchi
Isto é, Uchi (内), o círculo interno onde está a família, os amigos e os colegas.
Seken
Seken (世間), a sociedade e as conexões com o mundo exterior.
Soto
Soto (外) são os estranhos ou estrangeiro.

Nesse sentido, Ma impõe ao indivíduo o valor Giri (義理), obrigações sociais que evitarão que o indivíduo caia em desgraça com o círculo social Seken.
Muitas vezes essa obrigação são mais do que um senso de responsabilidade social, são um fardo para o indivíduo.
Ma no universo artístico japonês
Dentro do universo artístico, o teatro Nō é sem dúvidas o mais importante a utilizar a estética Ma.
Uma sinfonia que tem como objetivo equilibrar e harmonizar a dinâmica entre objeto e espaço, ação e inação, som e quietude, movimento e repouso.

Uma afirmação do criador do teatro Nō, Zeami Motokiyo (1363 – 1443), presente no livro Zeami Jūrokubu Shū Hyōshakude de Asaji Nose (1894 – 1955), pesquisador de teatro Nō e especialista em literatura japonesa é reveladora nesse sentido:
“Às vezes, os espectadores de Nō dizem que ‘os momentos Senu Tokoro (não-ação) são os mais agradáveis.’
É uma arte que o ator mantém em segredo. Dançando e cantando, movimentos e diferentes tipos de mímicas são todos atos performados pelo corpo.
Os momentos de Senu Tokoro ocorrem entre eles. Quando analisamos o motivo porque tais movimentos sem ação são mais agradáveis, descobrimos que é por causa da força espiritual subjacente [o que os japoneses chamam de “心”, Kokoro] do ator que prende incessantemente a atenção do público.
Ele não relaxa a tensão quando a dança ou o canto chega ao fim ou no intervalo entre os diálogos e os diferentes tipos de mimica.
Sem abandonar seu Kokoro ele mantém seu Naishin (“内心”, a real intenção, força interior inabalável).
A sensação dessa força interna se revela vagamente e gera satisfação. Porém, não é desejável que o ator permita que seu Naishin se torne óbvio para a audiência.
Se for óbvio se torna uma atuação e não uma não-ação. As ações antes e depois do intervalo da não-ação deve estar conectada pelo Mushin (“無心”, não-mente, estado de vacuidade mental) o qual cada um esconde até de si mesmo suas reais intenções”.

Lendo atentamente a afirmação de Zeami Motokiyo você encontrará todos os elementos do conceito de Ma.
Está na caligrafia
Outra forma de arte onde Ma está presente de maneira intencional é na caligrafia com sumi-e (墨絵).
Há certos espaços que não são preenchidos ou pintados propositalmente, isso porque na arte da caligrafia a proficiência não está só nas formas dos caracteres, mas principalmente na compreensão entre a forma e a não-forma.

Tempo é crucial quando se trata da arte da caligrafia sumi-e.
Portanto, cada traço de tinta feito pelo rápido movimento do pincel é apreciado principalmente por seu ritmo – do pincel – no tempo de execução.
Não obstante, o estado de espírito do artista fica marcado pela energia que cada pincelada imprime na tela.
A onde grandes porções de espaço vazio é intencionalmente criado pelo artista entre as batidas do pincel.

Exemplos do cinema
Já no cinema, além do trabalho de Hayao Miyazaki e do Studio Ghibli, grandes diretores como Akira Kurasawa, Kenji Mizoguchi e Yasujiro Ozu entre outros diretores modernos utilizam o Ma como uma força invisível de momentos cinematográficos definidores.
Nesse ramo da arte, Ma se revela reforçando a história da personagem com silêncio, pausa entre personagens e a câmera sem movimento.
Um dos principais diretores ocidentais fortemente influenciado pelos gigantes japoneses foi Stanley Kubrick.

Ma na arquitetura japonesa
Dentre todas as formas de aplicação de Ma, o mais importante sem dúvidas é na arquitetura.
Tanto na tradicional quanto na moderna, pode-se dizer é a pedra angular na medida em que as estruturas interiores.
O espaço vazio transborda possibilidades de uso e fluxo.
Minimalismo
O minimalismo é uma das expressões possíveis de Ma na arquitetura japonesa.
Um dos exemplos de arquitetura tradicional que melhor exemplifica as inúmeras possibilidades que a vacuidade proporciona são as casas de chá.

Apenas o essencial para o conforto
Não há decoração fixa e não há separação de ambientes, há apenas o essencial para que os convidados fiquem confortáveis para apreciar a cerimônia do chá.
Para estar no presente
Para que sua atenção não seja levada para nada além do momento presente.
Apesar do “vazio” desse ambiente, ele está circundado por pequenos detalhes que o artista escolheu para que eles integrem harmonicamente o objetivo de contemplar a reunião e a importância das relações interpessoais.

Dentro da arquitetura japonesa, Ma também pode se manifestar de forma multidimensional tal como descrito nas quatro dimensões: Hari-ma (梁間); Roku Jo No Ma (六畳の間); Ku-kan (空間); Ji-kan (時間).
Hari-ma: Ma no reino da primeira dimensão
No reino da primeira dimensão, Ma tem a forma de Hari-ma (“梁間”, extensão do feixe).
Uma linha no espaço que pode indicar comprimento ou distância.
Isso remonta a arquitetura japonesa ancestral baseada em colunas e vigas de madeira.

A distância entre as linhas centrais e as colunas evoluiu para o que se tornar a unidade estrutural básica ken (“けん” ou o mesmo kanji de Ma “間” que variava de região para região, geralmente 1,82 metros podendo ir até 3,04 metros) para as casas tradicionais de madeira.
A partir do século XVI, todas as colunas bem como as dimensões da madeira passaram a ter o tamanho expresso por frações ou múltiplos de “ken”.
Além disso, o tamanho das tradicionais esteiras de junco que evoluíram para os tatames também são originários das medidas ken.

Importante ressaltar que hari-ma não significa apenas uma linha reta que marca a distância entre dois pontos no espaço.
Consciência simultânea dos pólos
Significa principalmente a consciência simultânea de pólos de uma única unidade.
Polaridade e relacionamentos
Pode parecer uma simples linha de uma dimensão, mas mais do que distância ou interstício (intervalo de espaço ou de tempo), essa dimensão de Ma está intimamente associada com “polaridade” e “relacionamento”.
Roku Jo No Ma: Ma no reino da segunda dimensão
No reino da segunda dimensão, Ma surge como Roku Jo No Ma (“六畳の間”, área de seis tatames).
Está no número dos tatames
Ou seja, o número de tatames que completam uma área.
Para tanto eram utilizadas duas formas de medidas, Tsubo (坪) que calculava o Ken, e Jo (帖) para a área que cobriam os tatames.

Desde meados do fim do século XV, início do século XVI quando o tatame foi adotado na arquitetura doméstica-residencial.
Para os japoneses, a referência do número de tatames direciona o pensamento para o uso do espaço, composição, decoração e altura.
Ku-kan: Ma no reino da terceira dimensão
No reino da terceira dimensão, Ma assume a forma de Ku-kan (“空間”, espaço vazio).
O primeiro kanji da palavra é “空” (sora) e significa céu ou buraco no universo, relevando a ausência de conteúdo.

Em sentido físico representa o vazio, em sentido metafísico – budista – significa vacuidade, mas Ku-kan é uma expressão recente para a concepção de espaço em três dimensões e que foi importada – conceitualmente – do ocidente.

A arquitetura Ku-kan tem termos próprios e gramáticas para designar seus espaços, sempre com variações que incluem o kanji de Ma “間”, mas nem sempre eles coexistirão na mesma construção. Confira:
Do-ma (“土間”, local da terra): Espaço de trabalho, principalmente em casas de fazenda que tem piso de terra batida;

Ma-biku (“間引く”, espaço de puxar): área descoberta para plantação;

Kashi-ma (貸間): quarto de descanso;

Chano-ma (茶の間): Sala de chá, um espaço dentro da casa para entreter convidados ou reuniões familiares;

Tokonoma (床の間): espaço embutido, geralmente na recepção, onde ficam obras de arte como ikebana, bonsai, pinturas e outras peças de arte.
Influência na vida social
Esse local conceitual estético-espacial tem uma forte influência social dentro da vida dos japoneses.
Em termos clássicos, constitui a unificação do foco entre hóspedes e anfitriões em um ato de apreciação de uma obra de arte.

Toranoma (“虎の間”, espaço do tigre): a decoração dominante desses espaços que são comuns em mansões, castelos, templos e hotéis modernos, são as portas de correr.

Como o próprio nome sugere, são espaços com portas e paredes com pinturas de tigres e outros elementos da natureza que passam sensação de poder e são dedicados a hóspedes muito especiais.

Kagami-no-ma (“鏡の間”, sala do espelho): esse é um espaço reservado para a trupe do teatro Nō que fica separado pela Agemaku (“揚幕”, cortina) e dá acesso a Hashigakari (“橋掛り”, ponte) que leva ao do palco do teatro.

Nesse quarto os atores se preparam para receber e carregar a carga espiritual que a máscara assume e conferirem seu figurino nos espelhos.
Além disso, também é utilizado pelos músicos para afinarem seus instrumentos antes de assumirem suas posições.

Ji-kan: Ma no reino da quarta dimensão
No reino da quarta dimensão, Ma assume a forma Ji-kan (“時間”, tempo-espaço), um conceito de tempo sem uma extensão clara de onde começa ou termina, profundamente conectado com o antigo sistema de tempo do Japão.

No antigo sistema não existia o conceito de horas ou minutos, o tempo era medido junto ao curso da natureza.
Por isso, o horário mudava de acordo com a estação do ano e as pessoas eram guiadas através do tempo pelas badaladas dos sinos nas cidades e vilarejos.
“Ji” (時), também pronunciado como “Toki” (とき) indica o movimento direto do Sol, por isso no Japão tempo é compreendido como “espaço em fluxo”, o que dá um sentido menos cartesiano e mais sensorial a experiência humana.

Esse é um dos mais sofisticados e complexos métodos arquitetônicos multidimensionais de Ma, seu exemplo são os Kaiyūshiki Teien (“廻遊式庭園”, jardins de passeio da era Edo), sejam eles em grande ou pequena escala
Em jardins públicos, a travessia de um espaço para o outro pode ser retardado ou acelerado de acordo com a intenção do arquiteto que utiliza, além de matérias-primas como pedras e pontes, a geografia.

Isso faz com que tanto as pernas como os olhos dos visitantes sejam manipuladas para que o contato visual com o fenômeno espacial seja ordenado pela estrutura do tempo.
Ma na literatura e poesia
Tal como na tradicional música, dança e teatro japonês, a literatura e a poesia também possuem pausas entre diálogos e intervalos (Ma) entre fases ou eventos.
Muitas vezes esse recurso é utilizado intencionalmente para reduzir ou abandonar a velocidade e o ritmo.

Se você já teve o prazer de entrar em contato com a literatura japonesa deve ter notado que às vezes, palavras, pensamentos e fatos são simplesmente deixadas aberto sem uma conclusão.
Para se envolver de forma ativa
O que leva o leitor a se envolver de forma ativa no trabalho do autor ou autora.
A partir do século XII, o budismo japonês adotou o Ma (間) como expressão do que outras escolas budistas e o Tao entendem como vacuidade.
Tae-ma
Saigyō (1118 – 1190), monge budista e um dos principais poetas waka do Japão incorporou na poesia o que se chama de Tae-ma (絶え間).

Tae-ma significa “lugar descontinuo”, então, Saigyō utilizava dessa ferramenta como uma metáfora espacial, e aludia seus poemas ao conceito budista de “Ku (空), ou vazio como uma expressão temporal entre o poeta, seu coautor, mediador ou apreciador.
A estrutura da poesia Haiku consiste há três frases com Kireji (“切れ字”, palavra de corte, semelhante a sílabas) de 5, 7 e 5, respectivamente, além de um Kigo (“季語”, palavra sazonal), uma palavra que faça alusão a uma estação do ano específica.

De acordo com Hasegawa Kai, professor, autor, e premiado poeta japonês, “O propósito do corte (kire) no Haiku é gerar um Ma, algo mais eloquente que uma palavra.
Enquanto um bom Haiku possa aparentar apenas descrever um objeto, Ma transmite o Kokoro (心).
Inspirado pelo teatro Nō, o irlandês William Butler Yeats (1865 – 1939), senador, poeta e dramaturgo, recebeu em 1923 o prêmio Nobel de literatura por seu trabalho de poesia e ensaios.
Ma no design
Ma desempenha um papel muito importante no conceito de design japonês moderno.
Seja em produtos físicos, sistemas de soluções ou experiências digitas, os designers que utilizam o conceito de Ma são levados a pensar no processo com disciplina espiritual.

Isso significa que é preciso estar ativamente observando e ouvindo para que sejam levados a produtos e soluções criativas que sejam inovadoras e empáticas aos consumidores e usuários.
Objetivamente, o design com Ma cria oportunidades para o desenvolvimento de Wa (“和”, harmonia, unidade pacífica e conformidade dentro de um grupo social), Ba (“場”, espaço compartilhado que existem como uma fundação para a criação de novos saberes e conhecimento), e conecta com o mundo ao redor.

É a soma desses fatores que permitem momentos de silêncio e integração que são a expressão concreta de Ma na experiência humana.
Esse tipo de experiência enriquece tanto o mundo interior quanto o mundo exterior.
Yoko Akama, uma premiada pesquisadora de design (Victorian Premier Design Award em 2012 e Good Design Award em 2014) e professora associada da RMIT University, Australia, é uma das principais designers japonesa com foco no conceito de Ma – com um extenso trabalho.

Akama entrelaçou o conceito de Ma a ANT (Actor-network Theory), uma teoria da década de 80 que defende que o mundo social e mundo natural estão em constante mudança em suas conexões e relações, e que nada existe fora dessas mesas relações.
Essa fusão levou Yoko a desenvolver um novo paradigma para o design que ela nomeou como “between-ness”.
Embora não seja possível traduzir essa palavra ao pé da letra, a ideia é dar uma qualidade (feliz = felicidade, por exemplo) “entre” (espaço, pausa, intervalo) coisas.

“As atmosferas está perpetuamente se formando e se deformando, aparecendo e desaparecendo quando corpos entram em relação uns com os outros, mas elas (atmosferas) são impessoais por pertencerem a situações coletivas e ainda assim podem ser sentidas como intensamente pessoais”.
Ma na vida cotidiana
Em muitas ocasiões, Ma está presente no cotidiano de muita gente.
Porém, é forçoso reconhecer que para uma pequena minoria, mesmo que essa pequena minoria não tenha tido nenhum contato com o conceito de Ma ao longo da vida.

Apesar de toda a filosofia por trás de Ma, incorporar ela no seu dia a dia é, provavelmente, mais fácil do que compreendê-la em todas suas dimensões.
Ma é o espaço, intervalo ou a pausa entre uma coisa e outra. O que isso significa no cotidiano?
É o momento final que antecede o momento posterior.
Espaço entre os pensamentos
Um exemplo clássico é a pausa entre o raciocínio e a ação que dele resultará, o inspirar e expirar profundamente consciente de cada movimento para trazer abertura e claridade para a mente – o espaço entre pensamentos.

Ma é o ambiente em que todos estão envoltos e imersos, um ambiente que inicialmente não tem sentido algum ou propósito, uma finita que não leva nada a lugar nenhum.
É preciso preencher esse “vazio” a nível individual e coletivo.
Por isso, adotar Ma como uma filosofia de vida significa necessariamente adotar para um propósito maior que preencha o inevitável caminho para a finitude da vida material, e torne esse espaço entre o início e o fim algo belo de ser admirado.

Tadashi Endo, coreógrafo, bailarino e mestre em Butō, e diretor do Butoh-Centre MAMU, definiu Ma com a seguinte afirmação:
“Sua alma está aguardando por seu último passo, completamente calma, sem respirar, completamente silenciosas, nem morta e nem viva. Isso é Ma.”

Por isso, quem adota Ma para sua vida pessoal deve se esforçar para interromper os impulsos da mente e das emoções transitórias que ocupam a mente e geram o caos.
Tomar pausas para impulsionar uma vida desprovida de distrações, mas cheia de experiências intencionais.
Leia também
- Tempo no Japão: entenda a evolução do conceito do tempo e sua importância na sociedade moderna
- A Viagem de Chihiro: as dúvidas mais básicas pelo Hayao Miyazaki
- Amaterasu: a Grande Deusa que ilumina o céu
- Kamis do Japão: conheça 10 deuses japoneses
Neste artigo especial do Japão Real, você aprendeu de forma profunda e completa sobre a filosofia Ma, que permeia tudo no Japão.
Se você gostou deste material, curta e compartilha para continuarmos produzindo conteúdos de qualidade sobre o Japão a base de muita pesquisa, escrita e curadoria. Não usamos IA.


0 comentário em “Ma: a vacuidade existente entre o tempo e o espaço”