Ma: a vacuidade existente entre o tempo e o espaço
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Ma: a vacuidade existente entre o tempo e o espaço

Confira neste artigo completo sobre Ma, definições, aplicações na cultura, no modo de pensar, na arquitetura japonesa, design e na vida.

Talvez você, caro leitor e cara leitora, não esteja familiarizado com o conceito estético japonês chamado Ma (“間”, intervalo, espaço, pausa).

Uma das mais fascinantes que o país produziu, mas muito provavelmente você já a viu, viveu e experienciou.

Se você é fã do trabalho de Hayao Miyazaki e do Studio Ghibli, então definitivamente você já foi exposto à estética Ma.

Um dos exemplos mais conhecidos é a cena da animação A Viagem de Chihiro quando a protagonista, Chihiro Ogino, faz uma viagem de trem com Kaonashi (Sem Face).

Para alguns especialistas, essa é a melhor cena do longa de Hayao Miyazaki, e, para Hayao Miyazaki, conceitualmente o filme A Viagem de Chihiro termina nessa mesma cena

Ainda nos exemplos das animações do Studio Ghibli, há muitas cenas da estética Ma aonde “nada acontece”.

Cenas sem desenvolvimento de história, apenas um vazio flutuando entre o tempo e o espaço.

Vazio, porém, é um nome que pode causar mais confusão do que esclarecimento, afinal, o “vazio” pressupõe o “nada”.

Só que não existe o nada ou o vazio no universo.

Nada e vazio são conceitos abstratos, pois todo espaço é ocupado por alguma coisa, seja ela visível ou não.

Ma também é conceitualizado como espaço negativo, especialmente na arquitetura
Ma também é conceitualizado como espaço negativo, especialmente na arquitetura

Por isso, tal como afirma o título deste artigo, Ma é a vacuidade que existe entre o tempo e o espaço.

O que é vacuidade

E o que é “vacuidade”? De forma muito resumida, é o espaço onde todas as possibilidades surgem e desaparecem. De forma mais completa, continue acompanhando.

Entendendo o conceito de Ma

Ma é um conceito artístico muito próprio do Japão, especialmente na arquitetura e no design.

Em suma, Ma é um intervalo entre dois ou mais espaços ou tempo e um mesmo evento.

A explicação do kanji de Ma “間”: um portal “門” e o Sol no meio (日)
A explicação do kanji de Ma “間”: um portal “門” e o Sol no meio (日)

Também chamado de espaço negativo, o próprio kanji de Ma “間” dá algumas dicas sobre o que Ma quer dizer: um portal “門” e o Sol no meio (日).

Espaço vazio, mas não vazio

Então, esse espaço vazio, ou negativo, não está vazio.

Além disso, ao mesmo tempo, o Sol não está entre o portal. É apenas sua percepção.

Pense em uma sala

Para ilustrar o que isso quer dizer, considere ma como um quarto ou uma sala.

Ou seja, o espaço vazio que existe entre as paredes e pode ser preenchido de infinitas formas e possibilidades.

As pausas na música

Outro exemplo interessante é pensar em música, uma forma de arte em que a pausa entre uma nota e outra é essencial para o ritmo e a dinâmica.

Não à toa, as pausas são consideradas a alma da música.

Embora não exista nenhuma vinculaçã com o conceito e a filosofia Ma, o Portão do Céu no templo hindi Pura Penataran Agung Lempuyang no Bali é um excelente exemplo de Ma. Considere a contemplação diante dessa obra de arte, imagine a quantidade de fenômenos que surgem e desaparecem nessa abertura através do tempo
Embora não exista nenhuma vinculaçã com o conceito e a filosofia Ma, o Portão do Céu no templo hindi Pura Penataran Agung Lempuyang no Bali é um excelente exemplo de Ma. Considere a contemplação diante dessa obra de arte, imagine a quantidade de fenômenos que surgem e desaparecem nessa abertura através do tempo

Porém, nem a música, nem o exemplo do quarto ou da sala definem Ma.

São apenas exemplos para ilustrar algo muito abstrato e por muitas vezes de difícil compreensão.

É como o oxímoro “o som do silêncio”. Ouça e observe o silêncio. Qual é o som do silêncio?

Ma nas relações interpessoais

Entre as muitas possibilidades de traduções possíveis para Ma, está a palavra “entre”.

A preposição utilizada para determinar espaço, tempo ou situação.

Portanto, Ma não é um conceito que se limita a arte e a arquitetura.

Magawarui (“間が悪い” ou “まがわるい”), um sentimento que todos estão fadados a passar ao longo da vida, um desconforto espacial que alonga o tempo exponencialmente
Magawarui (“間が悪い” ou “まがわるい”), um sentimento que todos estão fadados a passar ao longo da vida, um desconforto espacial que alonga o tempo exponencialmente

O que acontece entre duas pessoas

Aquilo que acontece entre duas ou mais pessoas durante um tempo e espaço, também pode ser considerado uma forma de ma.

Magawarui

Há até uma expressão japonesa: Magawarui (“間が悪い” ou “まがわるい”) que pode ser traduzida como “esse é um mal ma”.

Essa é uma expressão muito utilizada para ilustrar uma situação constrangedora ou uma incompatibilidade de energias entre duas pessoas ou mais.

O ma interpessoal não se limita ao magawarui.

Na verdade, excelentes ma podem emergir entre duas ou mais pessoas.

A contemplação do jardim zen do templo Ryoan-ji em Kyoto em agradável companhia é uma prática meditativa de um bom Ma
A contemplação do jardim zen do templo Ryoan-ji em Kyoto em agradável companhia é uma prática meditativa de um bom Ma

Isso revela que o conceito de Ma não está limitado a alguma coisa entre ou dentre objetos inanimados.

Espaço e tempo nunca se separam

É muito maior do que isso. Ma está ligado a formas particulares de experiência em quatro dimensões, isto é, o espaço-tempo tetradimensional.

“Enquanto no ocidente o conceito de espaço-tempo deu origem a uma imagem absoluta e fixa, de um infinito contínuo homogêneo como apresentado por Descartes, no Japão, o espaço e tempo nunca se separaram por completo.

Eles são concebidos como correlativos e omnipresentes.

O espaço não pode ser percebido como um elemento independente do tempo, e o tempo, por sua vez, não é uma abstração com medida regulada ou um fluxo homogêneo, sua existência é creditada somente em relação aos movimentos ou ao espaço.

Por isso o espaço é percebido de forma idêntica com os eventos ou fenômenos que ocorrem dentro dele, isto é, o espaço só é reconhecido em relação ao fluxo do tempo” – Arata Isozaki

Isozaki Arata (1931 – 2022), arquiteto e urbanista japonês, considerado o primeiro a desenvolver seu trabalho em escala global
Arata Isozaki (1931 – 2022), arquiteto e urbanista japonês, considerado o primeiro a desenvolver seu trabalho em escala global

Tempo e espaço como entidades

Colocando em outros termos, Ma é o colapso do entendimento de tempo e espaço como entidades distintas e abstratas.

Só pode tomar forma em um modo particular de experienciar o vazio ou a vacuidade de um objeto ou de um mundo subjetivo.

E embora possar ser compreendido objetivamente como “intervalos no tempo e no espaço”, Ma transcende e expressa algo mais profundo.

Aonde os sujeitos são levados na fronteira do pensamento e no limite dos processos de localizar coisas nomeando-as e distinguindo-as.

Adicionando complexidades a compreensão de Ma

Então, agora que há mais familiaridade com o conceito de Ma, é preciso adicionar um pouco de complexidade.

Complexidade em uma substância abstrata, que existe de forma cruzada com potencial de desconstrução de uma série de limites e fronteiras.

A princípio a imagem causa estranheza e certa confusão. Porém, ao observar, contemplar e imaginar, você poderá chegar a conclusão de que a imagem se trata de um local onde é realizada a cerimônia do chá. Trata-se de um espaço ("間", Ma) dedicado a arte, ao artesanato, a cultura tradicional e contemporânea, ao design, isto é, o tempo, o espaço, o sabor, o aroma, o som e o conceito visual, além da experiência com o chá
A princípio a imagem causa estranheza e certa confusão. Porém, ao observar, contemplar e imaginar, você poderá chegar a conclusão de que a imagem se trata de um local onde é realizada a cerimônia do chá. Trata-se de um espaço (“間”, Ma) dedicado a arte, ao artesanato, a cultura tradicional e contemporânea, ao design, isto é, o tempo, o espaço, o sabor, o aroma, o som e o conceito visual, além da experiência com o chá

Essa complexidade adicional se dá por algumas razões.

Uma palavra que não é discutida racionalmente

Uma delas é que muitos japoneses entendem Ma como uma palavra viva e profunda que não pode sequer ser discutida.

Não pode ser analisada ou interpretada

Muito menos analisada ou interpretada através dos limites da cultura e da linguagem.

É um argumento razoável, afinal, a mania de ter explicações cartesianas para tudo é ocidental.

Outra razão importante: Ma é a ponte e o limite entre arte tradicional e contemporânea, entre arte e religião, entre religiões distintas e entre religião e cultura.

Qual é o limite de interpretação dessa imagem? É cultural? Arquitetônico? Espiritual? Tradição? Design contemporâneo? Ou um pouco de tudo e tudo de nada?
Qual é o limite de interpretação dessa imagem? É cultural? Arquitetônico? Espiritual? Tradição? Design contemporâneo? Ou um pouco de tudo e tudo de nada?

Elementos estão dentro da lógica e da ordem

Por fim, o argumento mais interessante: apesar de Ma dissolver aquilo que o pensamento nomeia e distingue para que a mente se organize e não seja arremessada no caos, muitos de seus elementos se apresentam dentro da ordem e da construção lógica.

Um paradoxo

Ma é, portanto, um paradoxo. “O incognoscível não pode ser compreendido pelo cognoscível”.

Essa afirmação é logicamente verdadeira. O que foge aos limites da mente humana, não pode ser compreendida pela mesma mente limitada.

Existe uma consciência por trás do pensamento que transcende a mente humana, um sentido mais profundo e aguçado que se comunica com o indivíduo de forma misteriosa, uma voz silenciosa que indica um caminho a ser seguido, uma ação a ser tomada, um conselho a ser ouvido, uma consciência que está por trás e que governa a mente, ainda que a mente pareça ser a "consciência" dominante na maior parte do tempo
Existe uma consciência por trás do pensamento que transcende a mente humana, um sentido mais profundo e aguçado que se comunica com o indivíduo de forma misteriosa, uma voz silenciosa que indica um caminho a ser seguido, uma ação a ser tomada, um conselho a ser ouvido, uma consciência que está por trás e que governa a mente, ainda que a mente pareça ser a “consciência” dominante na maior parte do tempo

Porém, se a única ferramenta que a humanidade possui para encontrar explicação e sentido as coisas é a mente cognoscível, como seria possível reconhecer aquilo que que a própria mente não consegue atingir?

Ma: uma estética-religiosa japonesa

“Era a 15ª noite do 8º mês. A luz de uma lua cheia nublada brilhou entre as pranchas mal ajustadas do telhado e inundou o quarto.

Que estranho lugar para estar deitado, pensou Genji olhando ao redor do sótão que era tão diferente de qualquer outro quarto que ele conhecera antes” – Genji Monogatari

Oito VIsões de Genji Monogatari. Obra de Ishiyama Moroka (1669 - 1734) inspirada na venerada obra de Li Shi, Oito Visões de Xiaoxiang
Oito VIsões de Genji Monogatari. Obra de Ishiyama Moroka (1669 – 1734) inspirada na venerada obra de Li Shi, Oito Visões de Xiaoxiang

O pequeno trecho do Genji Monogatari revela a natureza do sentido do kanji “間” de Ma: um portal ou uma abertura com um intervalo entre as coisas.

Fenômenos e eventos deste mundo, mas que não são um mero vazio ou mera abertura – a exemplo da luz da lua cheia entre as telhas.

Há muito mais coisas acontecendo no mundo interno de Genji do que meramente a imagem do mundo exterior transparece desse recorte do conto.

Porém, é preciso que o observador seja capaz de ir além desse vazio, dessa abertura, dessa vacuidade.

É nesse sentido que Ma só pode ser compreendido como uma estética-religiosa japonesa.

Mas, religião aqui não está diretamente ligada aos preceitos litúrgicos ou doutrina que um adepto deve fazer, mas sua essência última, isto é, o que chamamos de espiritualidade.

Embora nada esteja acontecendo nessa cena do longa A Viagem de Chihiro, a sensibilidade da consciência por trás da mente racional sabe que há um universo de coisas acontecendo nesse curto instante em que Chihiro observa o caminho do trem
Embora nada esteja acontecendo nessa cena do longa A Viagem de Chihiro, a sensibilidade da consciência por trás da mente racional sabe que há um universo de coisas acontecendo nesse curto instante em que Chihiro observa o caminho do trem

Esse senso estético-religioso está diretamente ligado a uma série de expressões artísticas tradicionais como o teatro Nō (能) e os poemas colaborativos Renga (連歌), e contemporâneas como as animações de Hayao Miyazaki e do Studio Ghibli.

Ma, cultura, espiritualidade e shintō

Cultura e espiritualidade andam de mãos dadas. É praticamente impossível dissociar uma coisa da outra.

No universo da espiritualidade, Ma é mais perceptível dentro do shintō do que no budismo – apesar de também ser muito presente nela.

Papel na religião

Como dito no tópico acima, Ma não tem um papel explícito na religião como forma de preceitos ou dogmas.

Mas ao observar sua arte, estética e locais sagrados, a presença desses “espaços” fica muito evidente.

Os próprios Torii que são o portal entre o mundano e o sagrado lembram o kani de Ma "間"
Os próprios Torii que são o portal entre o mundano e o sagrado lembram o kani de Ma “間”

Nos santuários do shintō, Ma é quase onipresente.

Está no torii

A começar pelo Torii (鳥居) que é um portal onde o mundano e o sagrado se separam.

O espaço que separam esses dois mundos é um Ma que dura o tempo que uma pessoa leva para cruzá-lo.

Não se trata apenas de um movimento físico ao cruzar um torii, mas uma intenção interior que reside dentro do indivíduo e que está oculta para o mundo exterior.

Portanto, restando ao espectador apenas imaginar o que levou aquele fiel ir até o santuário.

Há mais do que gestos em uma oração, há uma motivação oculta de todos e que é desconhecida para os observadores
Há mais do que gestos em uma oração, há uma motivação oculta de todos e que é desconhecida para os observadores

Dentro de cada Jinja (“神社”, santuário) há muitas possibilidades de moradas (espaços vazios) para a visita das deidades ao reino humano.

Está nos mikoshi e Hokora

Um dos mais famosos são os Mikoshi (神輿) utilizado nas procissões em homenagens a um kami específico.

Há também os Hokora (神庫), pequenos santuários para deidades que não estão sob a jurisdição de um grande santuário e são encontrados nas ruas, estradas, encruzilhadas ou integradas a paisagem.

Hokora são pequenos santuários fora de um Jinja, nas ruas, em meio a natureza e outros locais, e que são ocupados por deidades que afastam o mal e os maus espíritos
Hokora são pequenos santuários fora de um Jinja, nas ruas, em meio a natureza e outros locais, e que são ocupados por deidades que afastam o mal e os maus espíritos

Himogori (“神籬”, cerca divina) são utilizadas para demarcar as áreas sagradas que podem ser um Kekkai (“結界”, mundo fixado).

Espaço aberto e devem ser purificadas para a chegada de um kami, e até mesmo um altar, por exemplo.

Todos esses espaços vazios que são zelados, limpos e reverenciado pelos adeptos do shintō são uma expressão concreta de Ma.

Um espaço que por um período de tempo será ocupado por uma divindade, até ela retornar para Takamagahara (“高天原”, Planície do Alto Céu).

Meoto Iwa ("夫婦岩", rochas casadas) do santuário Futami Okitama Jinja. As rochas representam o masculino e o feminino, bem como os kami criadores do Japão Izanagi e Izanami, e em última análise, Yin-Yang
Meoto Iwa (“夫婦岩”, rochas casadas) do santuário Futami Okitama Jinja. As rochas representam o masculino e o feminino, bem como os kami criadores do Japão Izanagi e Izanami, e em última análise, Yin-Yang

Há também os grandes espaços como montanhas, rios e mares que não deixam de ser um Ma para o shintō.

Essas regiões compreendidas como “regiões inabitáveis” são uma fenda entre mundos, um Ma sagrado sem forma energética que é preenchida pelos próprios Kami.

Kamis são Ma

O próprio conceito de Kami é também um Ma.

As deidades não tem uma forma ou um corpo físico, sua manifestação existe através do Kehai (気配), uma atmosfera energética intangível e invisível que preenche a vacuidade.

Ma na cultura japonesa

Você pode observar Ma na cultura japonesa tanto a nível pessoal como coletivo.

Está no hábito de se curvar

Quando uma pessoa japonesa performa Ojigi (お辞儀) curvando-se em sinal de respeito, saudação, reverência, desculpas ou admiração, é uma forma de Ma.

Ojigi, uma manifestação de Ma na cultura cotidiana do Japão
Ojigi, uma manifestação de Ma na cultura cotidiana do Japão

A reflexão silenciosa através da observação dos pensamentos, o silêncio confortável que se expressa por gestos e expressões silenciosas também são.

Restringindo ações

Já em sua expressão comunal, Ma desempenha o papel de restringir as ações individuais em prol do bem-estar coletivo.

Influenciando decisões

Isso influencia as decisões do indivíduo dentro dos aspectos de sua vida e seus círculos sociais.

Uchi

Isto é, Uchi (内), o círculo interno onde está a família, os amigos e os colegas.

Seken

Seken (世間), a sociedade e as conexões com o mundo exterior.

Soto

Soto (外) são os estranhos ou estrangeiro.

Uma das mais populares formas de Giri são os presentes de São Valentino (dia dos namorados), geralmente chocolates para colegas de trabalho especialmente
Uma das mais populares formas de Giri são os presentes de São Valentino (dia dos namorados), geralmente chocolates, principalmente para colegas de trabalho. Para a maioria das pessoas (mulheres em especial) essa obrigação é um fardo

Nesse sentido, Ma impõe ao indivíduo o valor Giri (義理), obrigações sociais que evitarão que o indivíduo caia em desgraça com o círculo social Seken.

Muitas vezes essa obrigação são mais do que um senso de responsabilidade social, são um fardo para o indivíduo.

Ma no universo artístico japonês

Dentro do universo artístico, o teatro Nō é sem dúvidas o mais importante a utilizar a estética Ma.

Uma sinfonia que tem como objetivo equilibrar e harmonizar a dinâmica entre objeto e espaço, ação e inação, som e quietude, movimento e repouso.

Teatro Nō é uma das expressões artísticas que mais bebe da fonte de Ma
Teatro Nō é uma das expressões artísticas que mais bebe da fonte de Ma

Uma afirmação do criador do teatro Nō, Zeami Motokiyo (1363 – 1443), presente no livro Zeami Jūrokubu Shū Hyōshakude de Asaji Nose (1894 – 1955), pesquisador de teatro Nō e especialista em literatura japonesa é reveladora nesse sentido:

“Às vezes, os espectadores de Nō dizem que ‘os momentos Senu Tokoro (não-ação) são os mais agradáveis.’

É uma arte que o ator mantém em segredo. Dançando e cantando, movimentos e diferentes tipos de mímicas são todos atos performados pelo corpo.

Os momentos de Senu Tokoro ocorrem entre eles. Quando analisamos o motivo porque tais movimentos sem ação são mais agradáveis, descobrimos que é por causa da força espiritual subjacente [o que os japoneses chamam de “心”, Kokoro] do ator que prende incessantemente a atenção do público.

Ele não relaxa a tensão quando a dança ou o canto chega ao fim ou no intervalo entre os diálogos e os diferentes tipos de mimica.

Sem abandonar seu Kokoro ele mantém seu Naishin (“内心”, a real intenção, força interior inabalável).

A sensação dessa força interna se revela vagamente e gera satisfação. Porém, não é desejável que o ator permita que seu Naishin se torne óbvio para a audiência.

Se for óbvio se torna uma atuação e não uma não-ação. As ações antes e depois do intervalo da não-ação deve estar conectada pelo Mushin (“無心”, não-mente, estado de vacuidade mental) o qual cada um esconde até de si mesmo suas reais intenções”.

Zeami Motokiyo (1363 – 1443)
Zeami Motokiyo (1363 – 1443)

Lendo atentamente a afirmação de Zeami Motokiyo você encontrará todos os elementos do conceito de Ma.

Está na caligrafia

Outra forma de arte onde Ma está presente de maneira intencional é na caligrafia com sumi-e (墨絵).

Há certos espaços que não são preenchidos ou pintados propositalmente, isso porque na arte da caligrafia a proficiência não está só nas formas dos caracteres, mas principalmente na compreensão entre a forma e a não-forma.

Tempo de execução, precisão, intensidade e espaço são fundamentais na arte da caligrafia com sumi-e
Tempo de execução, precisão, intensidade e espaço são fundamentais na arte da caligrafia com sumi-e

Tempo é crucial quando se trata da arte da caligrafia sumi-e.

Portanto, cada traço de tinta feito pelo rápido movimento do pincel é apreciado principalmente por seu ritmo – do pincel – no tempo de execução.

Não obstante, o estado de espírito do artista fica marcado pela energia que cada pincelada imprime na tela.

A onde grandes porções de espaço vazio é intencionalmente criado pelo artista entre as batidas do pincel.

Shōrin-zu Byōbu ("松林図 屏風",  Tela de Pinheiros), uma obra classificada como Tesouro Nacional do Japão de Hasegawa Tōhaku (1539 - 1610), fundador da escola Hasegawa. A tela é profundamente inspirada no conceito Ma com ocultação por uma neblina não, espaço entre os pinheiros e espaço para o observador criar com a mente
Shōrin-zu Byōbu (“松林図 屏風”, Tela de Pinheiros), uma obra classificada como Tesouro Nacional do Japão de Hasegawa Tōhaku (1539 – 1610), fundador da escola Hasegawa. A tela é profundamente inspirada no conceito Ma com ocultação por uma neblina não, espaço entre os pinheiros e espaço para o observador criar com a mente

Exemplos do cinema

Já no cinema, além do trabalho de Hayao Miyazaki e do Studio Ghibli, grandes diretores como Akira Kurasawa, Kenji Mizoguchi e Yasujiro Ozu entre outros diretores modernos utilizam o Ma como uma força invisível de momentos cinematográficos definidores.

Nesse ramo da arte, Ma se revela reforçando a história da personagem com silêncio, pausa entre personagens e a câmera sem movimento.

Um dos principais diretores ocidentais fortemente influenciado pelos gigantes japoneses foi Stanley Kubrick.

Akira Kurosawa (1910 - 1998), considerado por muitos críticos e especialistas como o maior diretor de cinema do Japão e um dos maiores do mundo. Kurosawa foi uma das maiores e mais importantes influências para o também gigante estadunidense, Stanley Kubrick (1928 - 1999)
Akira Kurosawa (1910 – 1998), considerado por muitos críticos e especialistas como o maior diretor de cinema do Japão e um dos maiores do mundo. Kurosawa foi uma das maiores e mais importantes influências para o também gigante estadunidense, Stanley Kubrick (1928 – 1999)

Ma na arquitetura japonesa

Dentre todas as formas de aplicação de Ma, o mais importante sem dúvidas é na arquitetura.

Tanto na tradicional quanto na moderna, pode-se dizer é a pedra angular na medida em que as estruturas interiores.

O espaço vazio transborda possibilidades de uso e fluxo.

Minimalismo

O minimalismo é uma das expressões possíveis de Ma na arquitetura japonesa.

Um dos exemplos de arquitetura tradicional que melhor exemplifica as inúmeras possibilidades que a vacuidade proporciona são as casas de chá.

Maquete de um escritório com a arquitetura moderna voltada para o conceito de Ma
Maquete de um escritório com a arquitetura moderna voltada para o conceito de Ma

Apenas o essencial para o conforto

Não há decoração fixa e não há separação de ambientes, há apenas o essencial para que os convidados fiquem confortáveis para apreciar a cerimônia do chá.

Para estar no presente

Para que sua atenção não seja levada para nada além do momento presente.

Apesar do “vazio” desse ambiente, ele está circundado por pequenos detalhes que o artista escolheu para que eles integrem harmonicamente o objetivo de contemplar a reunião e a importância das relações interpessoais.

O estilo de arquitetura Shoin-zukuri (書院造) foi muito famosa entre mansões de daiymos, residências de samurais e templos budistas zen. A estética Ma está presente em cada detalhe dessa arquitetura tradicional e muito comum da metade do período Muromachi até o final do período Edo
O estilo de arquitetura Shoin-zukuri (書院造) foi muito famosa entre mansões de daiymos, residências de samurais e templos budistas zen. A estética Ma está presente em cada detalhe dessa arquitetura tradicional e muito comum da metade do período Muromachi até o final do período Edo

Dentro da arquitetura japonesa, Ma também pode se manifestar de forma multidimensional tal como descrito nas quatro dimensões: Hari-ma (梁間); Roku Jo No Ma (六畳の間); Ku-kan (空間); Ji-kan (時間).

Hari-ma: Ma no reino da primeira dimensão

No reino da primeira dimensão, Ma tem a forma de Hari-ma (“梁間”, extensão do feixe).

Uma linha no espaço que pode indicar comprimento ou distância.

Isso remonta a arquitetura japonesa ancestral baseada em colunas e vigas de madeira.

Hari-ma (梁間), em termos práticos, é a distância entre a linha central e as demais colunas e vigas
Hari-ma (梁間), em termos práticos, é a distância entre a linha central e as demais colunas e vigas

A distância entre as linhas centrais e as colunas evoluiu para o que se tornar a unidade estrutural básica ken (“けん” ou o mesmo kanji de Ma “間” que variava de região para região, geralmente 1,82 metros podendo ir até 3,04 metros) para as casas tradicionais de madeira.

A partir do século XVI, todas as colunas bem como as dimensões da madeira passaram a ter o tamanho expresso por frações ou múltiplos de “ken”.

Além disso, o tamanho das tradicionais esteiras de junco que evoluíram para os tatames também são originários das medidas ken.

Estrutura arquitetônica baseado no reino da primeira dimensão de Ma na arquitetura, Hari-ma (梁間)
Estrutura arquitetônica baseado no reino da primeira dimensão de Ma na arquitetura, Hari-ma (梁間)

Importante ressaltar que hari-ma não significa apenas uma linha reta que marca a distância entre dois pontos no espaço.

Consciência simultânea dos pólos

Significa principalmente a consciência simultânea de pólos de uma única unidade.

Polaridade e relacionamentos

Pode parecer uma simples linha de uma dimensão, mas mais do que distância ou interstício (intervalo de espaço ou de tempo), essa dimensão de Ma está intimamente associada com “polaridade” e “relacionamento”.

Roku Jo No Ma: Ma no reino da segunda dimensão

No reino da segunda dimensão, Ma surge como Roku Jo No Ma (“六畳の間”, área de seis tatames).

Está no número dos tatames

Ou seja, o número de tatames que completam uma área.

Para tanto eram utilizadas duas formas de medidas, Tsubo (坪) que calculava o Ken, e Jo (帖) para a área que cobriam os tatames.

Arquitetura tradicional baseada no reino da terceira dimensão de Ma, Roku Jo No Ma (六畳の間). Observe como cada cômodo possui seis tatames, além da área interna possuir seis cômodos
Arquitetura tradicional baseada no reino da terceira dimensão de Ma, Roku Jo No Ma (六畳の間). Observe como cada cômodo possui seis tatames, além da área interna possuir seis cômodos

Desde meados do fim do século XV, início do século XVI quando o tatame foi adotado na arquitetura doméstica-residencial.

Para os japoneses, a referência do número de tatames direciona o pensamento para o uso do espaço, composição, decoração e altura.

Ku-kan: Ma no reino da terceira dimensão

No reino da terceira dimensão, Ma assume a forma de Ku-kan (“空間”, espaço vazio).

O primeiro kanji da palavra é “空” (sora) e significa céu ou buraco no universo, relevando a ausência de conteúdo.

Hotel Sumu Yakushima na ilha de Yakushima, província de Kagoshima com arquitetura e design baseado no reino da terceira dimensão de Ma, Ku-kan (空間) premiada em 2023 pela Japan Space Design Award como Kukan do ano
Hotel Sumu Yakushima na ilha de Yakushima, província de Kagoshima com arquitetura e design baseado no reino da terceira dimensão de Ma, Ku-kan (空間) premiada em 2023 pela Japan Space Design Award como Kukan do ano

Em sentido físico representa o vazio, em sentido metafísico – budista – significa vacuidade, mas Ku-kan é uma expressão recente para a concepção de espaço em três dimensões e que foi importada – conceitualmente – do ocidente.

Planta de parte do hotel Sumu Yakushima
Planta de parte do hotel Sumu Yakushima

A arquitetura Ku-kan tem termos próprios e gramáticas para designar seus espaços, sempre com variações que incluem o kanji de Ma “間”, mas nem sempre eles coexistirão na mesma construção. Confira:

Do-ma (“土間”, local da terra): Espaço de trabalho, principalmente em casas de fazenda que tem piso de terra batida;

Do-ma (土間), espaço de terra batida para trabalho relacionado a terra como fazendas e propriedades rurais
Do-ma (土間), espaço de terra batida para trabalho relacionado a terra como fazendas e propriedades rurais

Ma-biku (“間引く”, espaço de puxar): área descoberta para plantação;

Ma-biku (間引く), espaços externos dedicados a plantação, seja ornamentais, seja alimentícia ou ambas. Esse espaço pode ser replicado desde as residências mais pobres até as mais ricas. Repare na imagem o uso do estilo Roku Jo No Ma - área de seis tatames
Ma-biku (間引く), espaços externos dedicados a plantação, seja ornamentais, seja alimentícia ou ambas. Esse espaço pode ser replicado desde as residências mais pobres até as mais ricas. Repare na imagem o uso do estilo Roku Jo No Ma – área de seis tatames

Kashi-ma (貸間): quarto de descanso;

Kashi-ma (貸間), espaços dedicados ao descanso e ao repouso. Podem, inclusive, dispor de futon e outros itens para aumentar o conforto
Kashi-ma (貸間), espaços dedicados ao descanso e ao repouso. Podem, inclusive, dispor de futon e outros itens para aumentar o conforto

Chano-ma (茶の間): Sala de chá, um espaço dentro da casa para entreter convidados ou reuniões familiares;

Chano-ma (茶の間), um espaço que presente em muitas residências japonesas e que variam de acordo com o tamanho e a condição financeira de cada proprietário
Chano-ma (茶の間), um espaço que presente em muitas residências japonesas e que variam de acordo com o tamanho e a condição financeira de cada proprietário

Tokonoma (床の間): espaço embutido, geralmente na recepção, onde ficam obras de arte como ikebana, bonsai, pinturas e outras peças de arte.

Influência na vida social

Esse local conceitual estético-espacial tem uma forte influência social dentro da vida dos japoneses.

Em termos clássicos, constitui a unificação do foco entre hóspedes e anfitriões em um ato de apreciação de uma obra de arte.

Apesar das muitas possibilidades do espaço Tokonoma (床の間) para a apreciação das artes, cultura e religião tradicionais do Japão, todos eles tem o espaço negativo  em comum
Apesar das muitas possibilidades do espaço Tokonoma (床の間) para a apreciação das artes, cultura e religião tradicionais do Japão, todos eles tem o espaço negativo em comum

Toranoma (“虎の間”, espaço do tigre): a decoração dominante desses espaços que são comuns em mansões, castelos, templos e hotéis modernos, são as portas de correr.

Toranoma (虎の間), o espaço do tigre era comum no Japão feudal para a projeção de poder do shogun, daiymo e o Imperador
Toranoma (虎の間), o espaço do tigre era comum no Japão feudal para a projeção de poder do shogun, daiymo e o Imperador

Como o próprio nome sugere, são espaços com portas e paredes com pinturas de tigres e outros elementos da natureza que passam sensação de poder e são dedicados a hóspedes muito especiais.

O espaço Toranoma revela a projeção de poder e hierarquia dentro da aristocracia japonesa durante o período feudal
O espaço Toranoma revela a projeção de poder e hierarquia dentro da aristocracia japonesa durante o período feudal

Kagami-no-ma (“鏡の間”, sala do espelho): esse é um espaço reservado para a trupe do teatro Nō que fica separado pela Agemaku (“揚幕”, cortina) e dá acesso a Hashigakari (“橋掛り”, ponte) que leva ao do palco do teatro.

Mapa do palco do teatro Nō. O espaço Kagami-no-ma fica atrás da Agemaku (“揚幕”, cortina)
Mapa do palco do teatro Nō. O espaço Kagami-no-ma fica atrás da Agemaku (“揚幕”, cortina)

Nesse quarto os atores se preparam para receber e carregar a carga espiritual que a máscara assume e conferirem seu figurino nos espelhos.

Além disso, também é utilizado pelos músicos para afinarem seus instrumentos antes de assumirem suas posições.

Kagami-no-ma (鏡の間), a sala de espelho para a preparação da trupe do teatro Nō
Kagami-no-ma (鏡の間), a sala de espelho para a preparação da trupe do teatro Nō

Ji-kan: Ma no reino da quarta dimensão

No reino da quarta dimensão, Ma assume a forma Ji-kan (“時間”, tempo-espaço), um conceito de tempo sem uma extensão clara de onde começa ou termina, profundamente conectado com o antigo sistema de tempo do Japão.

Hatsuhinode ("初日の出", primeiro amanhecer), o primeior nascer do Sol do ano no Japão. No Japão contemporâneo, a palavra Ji-kan está associada ao tempo cronológico, porém, dentro do universo Ma, Ji-kan está ligado ao céu (espaço) e tempo (movimento do Sol)
Hatsuhinode (“初日の出”, primeiro amanhecer), o primeior nascer do Sol do ano no Japão. No Japão contemporâneo, a palavra Ji-kan está associada ao tempo cronológico, porém, dentro do universo Ma, Ji-kan está ligado ao céu (espaço) e tempo (movimento do Sol)

No antigo sistema não existia o conceito de horas ou minutos, o tempo era medido junto ao curso da natureza.

Por isso, o horário mudava de acordo com a estação do ano e as pessoas eram guiadas através do tempo pelas badaladas dos sinos nas cidades e vilarejos.

“Ji” (時), também pronunciado como “Toki” (とき) indica o movimento direto do Sol, por isso no Japão tempo é compreendido como “espaço em fluxo”, o que dá um sentido menos cartesiano e mais sensorial a experiência humana.

O conceito Ji-kan (時間) está intimamente ligada ao céu (espaço) e o tempo. Nesse sentido, o tempo remonta ao Japão feudal quando o conceito de horas e minutos não existiam, o tempo era mensurado através do movimento do Sol, duração do dia e duração da noite
O conceito Ji-kan (時間) está intimamente ligada ao céu (espaço) e o tempo. Nesse sentido, o tempo remonta ao Japão feudal quando o conceito de horas e minutos não existiam, o tempo era mensurado através do movimento do Sol, duração do dia e duração da noite

Esse é um dos mais sofisticados e complexos métodos arquitetônicos multidimensionais de Ma, seu exemplo são os Kaiyūshiki Teien (“廻遊式庭園”, jardins de passeio da era Edo), sejam eles em grande ou pequena escala

Em jardins públicos, a travessia de um espaço para o outro pode ser retardado ou acelerado de acordo com a intenção do arquiteto que utiliza, além de matérias-primas como pedras e pontes, a geografia.

Kaiyūshiki Teien (“廻遊式庭園”, jardins de passeio da era Edo) são uma manifestação macro do conceito de Ma no reino da quarta dimensão. Imagem do Nakajima Park, Sapporo, capital da província de Hokkaido
Kaiyūshiki Teien (“廻遊式庭園”, jardins de passeio da era Edo) são uma manifestação macro do conceito de Ma no reino da quarta dimensão. Imagem do Nakajima Park, Sapporo, capital da província de Hokkaido

Isso faz com que tanto as pernas como os olhos dos visitantes sejam manipuladas para que o contato visual com o fenômeno espacial seja ordenado pela estrutura do tempo.

Ma na literatura e poesia

Tal como na tradicional música, dança e teatro japonês, a literatura e a poesia também possuem pausas entre diálogos e intervalos (Ma) entre fases ou eventos.

Muitas vezes esse recurso é utilizado intencionalmente para reduzir ou abandonar a velocidade e o ritmo.

Poema Waka sobre crisântemos entre o príncipe Sonchō e Hon'ami Kōetsu
Poema Waka sobre crisântemos entre o príncipe Sonchō e Hon’ami Kōetsu

Se você já teve o prazer de entrar em contato com a literatura japonesa deve ter notado que às vezes, palavras, pensamentos e fatos são simplesmente deixadas aberto sem uma conclusão.

Para se envolver de forma ativa

O que leva o leitor a se envolver de forma ativa no trabalho do autor ou autora.

A partir do século XII, o budismo japonês adotou o Ma (間) como expressão do que outras escolas budistas e o Tao entendem como vacuidade.

Tae-ma

Saigyō (1118 – 1190), monge budista e um dos principais poetas waka do Japão incorporou na poesia o que se chama de Tae-ma (絶え間).

Monge Saigyō Hōshi (1118 - 1190), um dos principais poetas do Japão e importante figura a incorporar o conceito de Ma na poesia tradicional japonesa
Monge Saigyō Hōshi (1118 – 1190), um dos principais poetas do Japão e importante figura a incorporar o conceito de Ma na poesia tradicional japonesa

Tae-ma significa “lugar descontinuo”, então, Saigyō utilizava dessa ferramenta como uma metáfora espacial, e aludia seus poemas ao conceito budista de “Ku (空), ou vazio como uma expressão temporal entre o poeta, seu coautor, mediador ou apreciador.

A estrutura da poesia Haiku consiste há três frases com Kireji (“切れ字”, palavra de corte, semelhante a sílabas) de 5, 7 e 5, respectivamente, além de um Kigo (“季語”, palavra sazonal), uma palavra que faça alusão a uma estação do ano específica.

Poema de Matsuo Bashō (1644 - 1694), o poeta mais famoso do Japão durante o período Edo (1603 - 1868)
Poema de Matsuo Bashō (1644 – 1694), o poeta mais famoso do Japão durante o período Edo (1603 – 1868)

De acordo com Hasegawa Kai, professor, autor, e premiado poeta japonês, “O propósito do corte (kire) no Haiku é gerar um Ma, algo mais eloquente que uma palavra.

Enquanto um bom Haiku possa aparentar apenas descrever um objeto, Ma transmite o Kokoro (心).

Inspirado pelo teatro Nō, o irlandês William Butler Yeats (1865 – 1939), senador, poeta e dramaturgo, recebeu em 1923 o prêmio Nobel de literatura por seu trabalho de poesia e ensaios.

Ma no design

Ma desempenha um papel muito importante no conceito de design japonês moderno.

Seja em produtos físicos, sistemas de soluções ou experiências digitas, os designers que utilizam o conceito de Ma são levados a pensar no processo com disciplina espiritual.

Galeira de design Ma (間)
Galeira de design Ma (間)

Isso significa que é preciso estar ativamente observando e ouvindo para que sejam levados a produtos e soluções criativas que sejam inovadoras e empáticas aos consumidores e usuários.

Objetivamente, o design com Ma cria oportunidades para o desenvolvimento de Wa (“和”, harmonia, unidade pacífica e conformidade dentro de um grupo social), Ba (“場”, espaço compartilhado que existem como uma fundação para a criação de novos saberes e conhecimento), e conecta com o mundo ao redor.

Escritório de arquitetura vietnamita com design inspirado no conceito Ma
Escritório de arquitetura vietnamita com design inspirado no conceito Ma

É a soma desses fatores que permitem momentos de silêncio e integração que são a expressão concreta de Ma na experiência humana.

Esse tipo de experiência enriquece tanto o mundo interior quanto o mundo exterior.

Yoko Akama, uma premiada pesquisadora de design (Victorian Premier Design Award em 2012 e Good Design Award em 2014) e professora associada da RMIT University, Australia, é uma das principais designers japonesa com foco no conceito de Ma – com um extenso trabalho.

Pequeno e resumido diagrama sobre a Teoria Ator-Rede
Pequeno e resumido diagrama sobre a Teoria Ator-Rede

Akama entrelaçou o conceito de Ma a ANT (Actor-network Theory), uma teoria da década de 80 que defende que o mundo social e mundo natural estão em constante mudança em suas conexões e relações, e que nada existe fora dessas mesas relações.

Essa fusão levou Yoko a desenvolver um novo paradigma para o design que ela nomeou como “between-ness”.

Embora não seja possível traduzir essa palavra ao pé da letra, a ideia é dar uma qualidade (feliz = felicidade, por exemplo) “entre” (espaço, pausa, intervalo) coisas.

Yoko Akama, professora associada da Royal Melbourne Institute of Technology, vencedora do Victorian Premier Design Award em 2012 e Good Design Award em 2014
Yoko Akama, professora associada da Royal Melbourne Institute of Technology, vencedora do Victorian Premier Design Award em 2012 e Good Design Award em 2014

“As atmosferas está perpetuamente se formando e se deformando, aparecendo e desaparecendo quando corpos entram em relação uns com os outros, mas elas (atmosferas) são impessoais por pertencerem a situações coletivas e ainda assim podem ser sentidas como intensamente pessoais”.

Ma na vida cotidiana

Em muitas ocasiões, Ma está presente no cotidiano de muita gente.

Porém, é forçoso reconhecer que para uma pequena minoria, mesmo que essa pequena minoria não tenha tido nenhum contato com o conceito de Ma ao longo da vida.

Pequenas atitudes como a contemplação de peixes nadando em um lago é uma forma de Ma, ainda que inconsciente
Pequenas atitudes como a contemplação de peixes nadando em um lago é uma forma de Ma, ainda que inconsciente

Apesar de toda a filosofia por trás de Ma, incorporar ela no seu dia a dia é, provavelmente, mais fácil do que compreendê-la em todas suas dimensões.

Ma é o espaço, intervalo ou a pausa entre uma coisa e outra. O que isso significa no cotidiano?

É o momento final que antecede o momento posterior.

Espaço entre os pensamentos

Um exemplo clássico é a pausa entre o raciocínio e a ação que dele resultará, o inspirar e expirar profundamente consciente de cada movimento para trazer abertura e claridade para a mente – o espaço entre pensamentos.

Tomar espaço para si (Ma) e pausar o fluxo de pensamentos (Ma) para que as ações e atitudes tomadas sejam as mais conscientes possíveis, essa é uma formade adotar Ma na vida cotidiana
Tomar espaço para si (Ma) e pausar o fluxo de pensamentos (Ma) para que as ações e atitudes tomadas sejam as mais conscientes possíveis, essa é uma formade adotar Ma na vida cotidiana

Ma é o ambiente em que todos estão envoltos e imersos, um ambiente que inicialmente não tem sentido algum ou propósito, uma finita que não leva nada a lugar nenhum.

É preciso preencher esse “vazio” a nível individual e coletivo.

Por isso, adotar Ma como uma filosofia de vida significa necessariamente adotar para um propósito maior que preencha o inevitável caminho para a finitude da vida material, e torne esse espaço entre o início e o fim algo belo de ser admirado.

Tadaoshi Endo, um dos maiores nomes da dança contemporânea Butō
Tadaoshi Endo, um dos maiores nomes da dança contemporânea Butō

Tadashi Endo, coreógrafo, bailarino e mestre em Butō, e diretor do Butoh-Centre MAMU, definiu Ma com a seguinte afirmação:

“Sua alma está aguardando por seu último passo, completamente calma, sem respirar, completamente silenciosas, nem morta e nem viva. Isso é Ma.”

Banhos de floresta, a imersão em uma espécie de labirinto aberto observando todos os fenômenos que surgem e desaparecem ao olhar do caminhante também é uma forma de contemplação de Ma
Shinrin-yoku (banhos de floresta), a imersão em uma espécie de labirinto aberto observando todos os fenômenos que surgem e desaparecem ao olhar do caminhante também é uma forma de contemplação de Ma

Por isso, quem adota Ma para sua vida pessoal deve se esforçar para interromper os impulsos da mente e das emoções transitórias que ocupam a mente e geram o caos.

Tomar pausas para impulsionar uma vida desprovida de distrações, mas cheia de experiências intencionais.

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Neste artigo especial do Japão Real, você aprendeu de forma profunda e completa sobre a filosofia Ma, que permeia tudo no Japão.

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