Amaterasu-ōmikami, a A Grande Deusa Augusta que ilumina o céu e principal deidade da religião shintō
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Amaterasu: a Grande Deusa que ilumina o céu

Entenda mais sobre a kami Amaterasu, lenda completa, influência e presença dentro de ritos da família Imperial japonesa.

A Grande Deusa Augusta que ilumina o céu, Amaterasu (天照) ou Amaterasu-ōmikami (天照大神), entre os 8 milhões de kami, é a deidade mais adorada no Japão, apesar de não ser a primeira deusa a surgir no panteão japonês.

Seu nome, Amaterasu, indica quem ela é: Ama (“天”, céu); Terasu (“照”, reluzente).

A deusa do Sol. Mas não é um Sol qualquer, o Sol da Via Láctea, nosso sistema solar, Amaterasu é o Sol que ilumina o Universo.

A kami do Sol não só ilumina o planeta e o reino dos homens, Amaterasu é a luz que ilumina todo o Universo
A kami do Sol não só ilumina o planeta e o reino dos homens, Amaterasu é a luz que ilumina todo o Universo

Há muitos santuários dedicados a kami do Sol, mas o mais importante é o Ise Jingu na província de Mie fundado em meados do ano 4 a.C e considerado como o local mais sagrado do Japão, além de sérum Tesouro Nacional do Japão.

Tal qual os muçulmanos tentam peregrinar pelo menos uma vez na vida para Mecca, local mais sagrado do Islã (considerado como o centro do mundo na cultura islâmica), os japoneses também tentam peregrinar ao menos uma vez na vida no santuário Ise Jingu.

O Ise Jingu é o santuário mais importante do Japão. Conta com 125 jinja (o termo “Jinja” indica santuário, já o termo “Jingu” se refere a santuários ligados à família Imperial) e tem o tamanho do centro de Paris. Cerca de 1.500 rituais são conduzidos anualmente no santuário pela prosperidade da família Imperial, pela paz no mundo, e por fartas colheitas

Embora o Japão tenha sido criado pelo kami Izanagi (イザナギ) e pela kami Izanami (イザナミ) a família real japonesa descende diretamente de Amaterasu-ōmikami.

Acompanhe para entender a dimensão da Grande Deusa Augusta que ilumina o céu.

A origem de Amaterasu-ōmikami

Na cosmologia japonesa, Izanagi, deidade primordial da criação da vida, e sua irmã-esposa Izanami, deidade primordial da criação da vida e da morte, criaram o arquipélago do Japão no reino Ashihara no Nakatsu Kuni (葦原中国), o mundo material dos seres vivos.

Izanagi (aquele que é convidado) e Izanami (aquela que convida), deidades criadoras do mundo e dos outros kami
Izanami (aquela que convida), deidades criadoras do mundo e dos outros kami

De acordo com o Kojiki (“古事記”), livro escrito no ano 712, Izanami, kami feminina, deu à luz a diversas deidades da natureza: os kami dos mares, das montanhas, da grama, dos ventos, das comidas e até mesmo dos barcos (embarcações) nasceram de seu ventre.

Porém, ao dar à luz a Kagutsuchi (カグツチ), deidade do fogo, Izanami foi gravemente ferida pelo fogo e morreu.

Izanagi ficou inconsolável. Sozinho e de luto, Izanagi decidiu procurar sua amada no reino dos mortos, Yomi (黄泉).

A visita de Izanagi a Izanami no reino dos mortos, Yomi
A visita de Izanagi a Izanami no reino dos mortos, Yomi

Izanami, no entanto, advertiu a Izanagi que ele não deveria olhar para ela.

Como é de se esperar de um ser masculino, Izanagi ignorou as advertências de sua amada e descobriu que sua esposa agora era um corpo em decomposição cheio de vermes.

O surgimento de Amaterasu-ōmikami

Ao ver sua amada naquela forma, Izanagi fugiu do Yomi aterrorizado e trêmulo por muito tempo.

Quando retornou ao reino Ashihara no Nakatsu Kuni realizou um ritual de purificação em si na nascente do rio Tachibana em Himuka.

Ao lavar seu rosto nas águas do Tachibana, três deidades surgiram: Amaterasu, deusa do Sol surgiu quando ele colocou água em seu olho esquerdo.

Ritual de purificação de Izanagi no lendário rio Tachibana após visitar sua amada esposa, Izanami, o reino dos mortos, Yomi
Ritual de purificação de Izanagi no lendário rio Tachibana após visitar sua amada esposa, Izanami no reino dos mortos Yomi

Tsukuyomi (月讀), deus da Lua quando ele colocou água em seu olho direito.

Susanoo (須佐之男命), deus do mar, das tempestades, do trovão e dos raios quando colocou água em seu nariz.

Izanagi se alegrou profundamente com o surgimento de seus filhos e dividiu o mundo entre os três.

A Amaterasu foi confiada a tarefa de governar Takamagahara (“高天原”, Planície do Alto Céu) o reino dos céus – local onde vivem as deidades.

Susanoo (esquerda), Amaterasu (centro) e Tsukuyomi (direita), as deidades que surgem a partir de Izanagi (algumas versões afirmam que são kamis criados de Izanagi e Izanami) e as mais importantes do panteão shintō
Susanoo (esquerda), Amaterasu (centro) e Tsukuyomi (direita), as deidades que surgem a partir de Izanagi (algumas versões afirmam que são kamis criados de Izanagi e Izanami) e as mais importantes do panteão shintō

A Tsukyomi foi confiada a regência da noite, e a Susanoo foi dada a tarefa de governar os mares, mas ele não o fez por querer se juntar a sua mãe, Izanami, no Ne no Katasu Kuni (“根堅州国”, Terra das raízes), um submundo semelhante ao reino Yomi.

Disrupção de Susanoo contra Amaterasu

O Nihon Shoki (“日本書紀”, Crônicas do Japão), livro lançado no ano 720 que oferece uma versão diferente da cosmologia japonesa.

O texto afirma que Izanagi e Izanami decidiram criar uma deidade para governar o reino Takamagahara e liderasse o panteão dos kami: Amaterasu.

Susanoo no Mikoto, irmão caçula de Amaterasu, deidade dos mares e tempestades, um kami irascível e caótico
Susanoo no Mikoto, irmão caçula de Amaterasu, deidade dos mares e tempestades, um kami irascível e caótico

Assim como no Kojiki, seu irmão mais novo, Susanoo, é banido do Takamagahara também por não cumprir suas funções, além de realizar atos hediondos e constantemente desafiar a autoridade de Amaterasu.

Com as contantes ameaças que Susanoo causava à Planície do Alto Céu, Amaterasu baniu seu irmão de seu reino.

Expulso do Takamagahara, Amaterasu se armou para lutar contra seu irmão.

Porém, Susanoo garantiu que não tinha intenções maliciosas contra sua irmã.

Amaterasu, Susanoo e o ritual Ukei

Após fazer juramentos para provar sua sinceridade, Susanoo propôs a Amaterasu o ritual Ukehi (誓占).

Esse ritual é realizado dentro da religião shintō, mas tem uma dimensão completamente diferente dentro da cosmologia e mitologia japonesa.

Nascimento de 8 deidades após ritual Ukehi entre Amaterasu e Susanoo
Nascimento de 8 deidades após ritual Ukehi entre Amaterasu e Susanoo

Neste ritual envolvendo dois kami, cada um mastiga um objeto carregado pelo outro para produzir novas deidades.

Da Totsuka no Tsurugi (十拳剣), a espada de Susanoo, Amaterasu gerou três deidades femininas Munakata Sanjoshin (“宗像三女神”, Três Deusas Munakata):

  • Takiribime ou Tagorihime (“多紀理毘売命” ou “田心姫”), deidade das neblinas;
  • Ichikishimahime ou Itsukishimahime (“市寸島比売命” ou “市杵嶋姫命”), deidade das águas;
  • Tagitsuhime ou Takitushime (“多岐都比売命” ou “湍津姫”), deidade protetora dos mares e do tráfego das embarcações.
Munakata Sanjoshin, as três deidades femininas geradas através do ritual Ukehi entre Amaterasu e Susanoo
Munakata Sanjoshin, as três deidades femininas geradas através do ritual Ukehi entre Amaterasu e Susanoo

Da Magatama (“勾玉” ou “曲玉”), joias utilizadas por Amaterasu, Susanoo gerou cinco deidades masculinas:

  • Ame-no-Oshihomimi ou somente Oshihomimi (“天忍穗耳尊” ou “天之忍穂耳命”), kami relacionado a espiga de arroz celestial e a agricultura;
  • Ame-no-Hohi (“天之菩卑能命”, “天穂日命” ou “天菩比神”), kami relacionada ao arroz, agricultura, sericultura, algodão e manufatura;
  • Amatsuhikone (“天津日子根命” ou “天津彦根命”), considerado como Mikogami (御子神), deus filho ou divindade descendente. É adorado como deus do Sol, dos mares, dos ventos entre outros sincretismos com outros kami;
  • Ikutsuhikone (“活津日子命” ou “活津彦根命”), há poucas informações sobre esse kami, mas de acordo com o Engishiki Jinmyōchō (“延喜式神名帳”, Registros de santuários do Japão), ele é a mesma deidade (Ikushima ou Ashijima) santificada no santuário Ikukunitama-jinja, Osaka;
  • Kumano-no-Kusubi (“熊野久须毘命” ou “熊野櫲樟日命”), kami relacionado ou ao mistério do espírito ou ao mistério do fogo.

Após o ritual, Susanoo declarou vitória por ter gerado deidades graciosas e começou a violentar a Planície do Alto Céu (Takamagahara) destruindo os campos de arroz celestial e causando disrupção.

A lenda da caverna em que Amaterasu se recolheu

Inicialmente Amaterasu tolerou os atos hediondos de seu irmão, porém, ele esfolou Ame no Fuchikoma (“天斑駒”, Cavalo Malhado Celestial) e o arremessou no telhado da sala de tecelagem abrindo um buraco no telhado.

Em um de seus atos disruptivos, Susanoo esfolou Ame no Fuchikoma, o Cavalo Malhado Celestial e o arremessou no telhado da sala de tecelagem da Planície do Alto Céu
Em um de seus atos disruptivos, Susanoo esfolou Ame no Fuchikoma, o Cavalo Malhado Celestial e o arremessou no telhado da sala de tecelagem da Planície do Alto Céu. Arte criada pelo portal Nippon

O susto que o buraco e a imagem de Ame no Fuchikoma causou em uma das tecelãs de Amaterasu fez com que ela batesse seu ventre em uma lançadeira e morresse. Mas, é possível encontrar ao menos duas versões sobre esse evento.

Em uma delas foi a própria Amaterasu que acabou ferida em uma lançadeira, e em uma de suas variantes, a kami Wakahirume no Mikoto (稚日女尊), deusa do Sol nascente foi ferida e morreu.

Há versões que apontam que foi a própria Amaterasu a se ferir na lançadeira, outras versões indicam que foi Wakahirume no Mikoto, deusa do Sol nascente que se feriu e morreu
Há versões que apontam que foi a própria Amaterasu a se ferir na lançadeira, outras versões indicam que foi Wakahirume no Mikoto, deusa do Sol nascente que se feriu e morreu

Por se tratar de uma mitologia, há diversas versões sobre o ocorrido em Takamagahara.

No Nihongi, ou Nihon Shoki, traduzido por William George Aston, na página 47 do Livro I “A Era dos Deuses”, narra em detalhes a gota d’água para Amaterasu contra seu irmão. Confira:

“A Deusa Augusta do Sol pegou um campo de arroz e fez dele seu arrozal Imperial. Na primavera, Sosa no wo no Mikoto (“須佐之男命”, Susanoo), inundou os canais e destruiu as divisas.

No outono, quando os grãos estavam se formando, ele esticou em torno deles uma corda de divisão. Quando a Deusa do Sol estava em seu Salão de Tecelagem, ele [Susanoo] esfolou vivo um potro malhado [Ame no Fuchikoma] e o jogou no Salão.

Apesar de tudo, a Deusa do Sol, por sua consideração para com o irmão, não ficou indignada nem ressentida, encarou tudo com calma e paciência.

Quando chegou o momento da Deusa do Sol celebrar o banquete das primeiras frutas, Sosa no wo no Mikoto, em segredo, despejou excremento em seu trono augusto do Novo Palácio.

Sem saber, a Deusa do Sol foi direto sentar em seu trono. A Deusa do Sol se levantou e sentiu-se enjoada. Enfurecida, ela imediatamente fixou residência em Ama no Iwato (“天の岩戸”, Caverna Celestial).”

O recolhimento de Amaterasu na caverna Ama no Iwato

Irada com as patifarias do irmão, Amaterasu se recolheu na caverna Ama no Iwato.

Esse ato fez com que tanto o mundo material (Ashihara no Nakatsu Kuni), quanto a Planície do Alto Céu (Takamagahara) mergulhassem em escuridão e caos.

Após as provocações de seu irmão, Susanoo no Mikoto, Amaterasu perdeu a paciência e se trancou na Ame no Iwato, Caverna Celestial, e com isso levou o mundo e o Universo ao caos
Após as provocações de seu irmão, Susanoo no Mikoto, Amaterasu perdeu a paciência e se trancou na Ame no Iwato, Caverna Celestial, e com isso levou o mundo e o Universo ao caos

Com isso, a confusão e a tristeza imperaram nas outras deidades.

Omoikane (“思兼” ou “思金”), kami da sabedoria e da inteligência arquitetou um plano para convencer a Deusa do Sol a sair da caverna e trazer de volta à luz aos mundos com ajuda de outras deidades.

Reunidos no Ama no Yasukawa (天安河原), Omoikane pediu a Toyotamahime no Mikoto (“豊玉姫” ou “豊玉姫命”) que produzisse a joia curva Yasaka no Magatama (“勾玉” ou “まがたま”).

Ama no Yasukawa, local próximo a Ama no Iwato, a Caverna Celestial onde a kami Amaterasu se recolheu após o caos gerado por seu irmão, Susanoo
Ama no Yasukawa, local próximo a Ama no Iwato, a Caverna Celestial onde a kami Amaterasu se recolheu após o caos gerado por seu irmão, Susanoo

A Ame no Koyane (“天児屋命” ou “天児屋命”, ou Ame no Koyane no Mikoto), deidade do espelho divino, da grande divinação e dos assuntos celestiais, além de ancestral dos clãs Nakatomi e Fujiwara, foi confiada a tarefa de produzir Yata no Kagami (八咫鏡), um espelho celestial sagrado para Amaterasu.

A Futodoma (“布刀玉命”, “天太玉命” ou “太玉”, ou Ame no Futodama no Mikoto), kami dos rituais e ancestral do clã Inbe, foi confiada a tarefa de fazer a oferenda do Yata no Kagami e do Yasaka no Magatama a Deusa do Sol.

Futodama, deidade responsável pela realizações de rituais dos kami na Planície do Alto Céu. Arte por Daisuke Mochida
Futodama, deidade responsável pela realizações de rituais dos kami na Planície do Alto Céu. Arte por Daisuke Mochida

Omoikane também solicitou ao kami das montanhas, Yama-tsuchi, que encontrasse oitenta favos de sakaki de 500 ramos, e a Nozuchi (野槌) ou Kaya no Hime (草祖草野), deusa das vegetações, gramas e campos para que juntasse oitenta favos de eulália de 500 ramos.

Ritual para atrair Amaterasu para fora da caverna

Com todas as oferendas prontas, chegara o momento de atrair Amaterasu-ōmikami para fora da caverna Ama no Iwato.

Primeiro, Ame no Koyane recitou uma liturgia na entrada da caverna para honrar a Grande Deusa Augusta que ilumina o céu.

Com o espelho celestial Yata no Kagami posto à frente da caverna, Ame no Uzume (“天宇受売命” ou “天鈿女命”), deidade das artes, alegria, meditação e a dançarina mais antiga do Japão e percursora da performance cômica iniciou uma poderosa e sensual dança.

Ame no Uzume, deidade das artes, alegria, meditação e a considerada como a dançarina mais antiga do Japão realizando ritual para atrair Amaterasu para fora da caverna Ama no Iwato
Ame no Uzume, deidade das artes, alegria, meditação e a considerada como a dançarina mais antiga do Japão realizando ritual para atrair Amaterasu para fora da caverna Ama no Iwato

Em meio a dança com os seios à mostra e deixando um cordão a mostra na virilha em uma clara referência a seu ventre, Ame no Uzume disse em meio a risos: “Uma kami mais nobre e poderosa que você acabou de nascer”.

De acordo com o professor da Waseda University, Matsumoto Naoki, PhD em literatura e especialista em literatura japonesa, a dança sensual de Ame no Uzume, a referência a seus seios e ventre é uma referência direta ao culto da força vital feminina de procriação, força essa que é capaz de trazer o mundo de volta à normalidade.

Ame no Uzume dança em cima de uma tigela virada para baixo dizendo que uma deidade mais poderosa e nobre do que Amaterasu nasceu, após a fala, uma miríade de 800 kami caiu na gargalhada
Ame no Uzume dança em cima de uma tigela virada para baixo dizendo que uma deidade mais poderosa e nobre do que Amaterasu nasceu, após a fala, uma miríade de 800 kami caiu na gargalhada

Após declarar enquanto dançava em cima de uma tigela virada para baixo, uma miríade de 800 deuses caiu na gargalhada dizendo a Amaterasu que agora existia uma deusa mais poderosa do que ela.

Amaterasu então abriu a porta da caverna – Yata no Kagami foi danificado pela rocha da caverna quando esta se abriu – curiosa para saber qual era a deusa mais poderosa que ela.

Curiosa, Amaterasu saiu da Caverna Celestial para ver quem era essa deidade mais poderosa e nobre que ela. Amaterasu então se vê no espelho e achou que o reflexo era a kami descrita por Ame no Uzume. Ao se dar conta de que o reflexo era dela, Amaterasu ficou surpresa com a quantidade de deuses que estavam presentes
Curiosa, Amaterasu saiu da Caverna Celestial para ver quem era essa deidade mais poderosa e nobre que ela. Amaterasu então se vê no espelho e achou que o reflexo era a kami descrita por Ame no Uzume. Ao se dar conta de que o reflexo era dela, Amaterasu ficou surpresa com a quantidade de deuses que estavam presentes

Quando saiu da caverna, a Deusa do Sol viu seu reflexo no espelho celestial Yata no Kagami e imaginou se tratar da divindade que Ame no Uzume tinha dito.

Neste momento, Ame no Tajikarao (“天手力男神” ou “天手力雄神”), deus dos esportes, da força e do poder físico que estava de guarda esperando por esse momento agarrou a mão de Amaterasu e a tirou a caverna trazendo de volta a luz para o mundo e para o Universo.

Finalmente Amaterasu abandona a Caverna Celestial trazendo de volta a luz e a harmonia ao mundo e ao Universo
Finalmente Amaterasu abandona a Caverna Celestial trazendo de volta a luz e a harmonia ao mundo e ao Universo

Deusa do Sol

Amaterasu-ōmikami também é conhecida como Ōhirume (“大日孁貴神”, Ōhirume no Muchi no Kami), o que leva alguns a sustentar que é possível ler Ōhirume como “miko”, descrevendo a Deusa do Sol como uma adoradora de um deus do Sol, uma donzela do santuário.

Amaterasu é uma das poucas deidades femininas do Sol, e não de aspectos do Sol como o amanhecer ou entardecer, por exemplo
Amaterasu é uma das poucas deidades femininas do Sol, e não de aspectos do Sol como o amanhecer ou entardecer, por exemplo

Porém, os mesmos estudiosos que sustentam essa tese, também apontam que posteriormente Amaterasu foi elevada a condição de deidade do Sol do qual a família Imperial do Japão é descendente direta.

Também é interessante observar que Amaterasu é uma das poucas deidades femininas associadas ao sol ao lado de Shams e Nuha, deusas da cosmologia árabe pré-islâmica, Xihe deusa do Sol e mãe de 10 sóis na mitologia chinesa, Siqiniq, deusa do Sol inuíte, Arinna deusa do Sol da mitologia Hitita e Shapshu, deusa do Sol da cosmologia de Cananeia.

Estátua da deusa Xihe em sua carruagem puxada por um dragão em Hangzhou, capital da província de  Zhejiang
Estátua da deusa Xihe em sua carruagem puxada por um dragão em Hangzhou, capital da província de Zhejiang

Há também outras deusas que são associadas à qualidade do Sol, como Saranyu (सरण्यु), deusa da aurora e esposa do deus Sol, Suria (सूर्य), e Aya, deusa acadiana do amanhecer, da luz da manhã e esposa de Šamaš, o deus Sol. Porém, não são o Sol propriamente dito.

Amaterasu-ōmikami e sua descendência

De acordo com a história, mitologia, cosmologia e tradição do Japão, a família imperial descende diretamente da deusa do Sol, Amaterasu. O primeiro Imperador do Japão foi Hikohohodemi (彦火火出見), o Imperador Jimmu, ou Jinmu-tennō (神武天皇).

A Casa Yamato, ou família Imperial do Japão, descende diretamente da Deusa Augusta que ilumina o céu, Amaterasu
A Casa Yamato, ou família Imperial do Japão, descende diretamente da Deusa Augusta que ilumina o céu, Amaterasu

O Imperador lendário Jinmu-tennō, de acordo com o Nihon Shoki era filho de Tamayori Hime (“玉依毘売命” ou “玉依姫”), kami filha do deus dragão do mar Watatsumi (“海神” ou “綿津見”), e de Hiko Nagisatake Ugayafukiaezu no Mikoto (彦波瀲武鸕鶿草葺不合尊).

Hiko Nagisatake Ugayafukiaezu no Mikoto, ou somente Ugayafukiaezu no Mikoto, é filho de Hikohohodemi no Mikoto (“彦火火出見尊”) ou somente Hoori (火折尊) deidade da caça e filho caçula de Ninigi no Mikoto (瓊瓊杵尊), neto de Amaterasu-ōmikami.

O lendário Imperador Jinmu-tennō, o primeiro Imperador mortal da Casa Yamato
O lendário Imperador Jinmu-tennō, o primeiro Imperador mortal da Casa Yamato

Ninigi No Mikoto foi enviado por sua avó, Amaterasu ao reino Ashihara no Nakatsu Kuni (mundo material) para governá-lo após seu pai, Ame no Oshihomimi declinar do pedido de sua mãe (Amaterasu) para governar o mundo.

Além disso, Ninigi no Mikoto recebeu diretamente de sua avó Amaterasu a espada Kusanagi (草薙の剣), o espelho Yata no Kagami e as joias Yasakani no Magatama.

De forma resumida, essa é a árvore genealógica entre Amaterasu e a família Imperial do Japão.

Arvore genealógica da Casa Yamato e sua origem divina segundo o shintō
Arvore genealógica da Casa Yamato e sua origem divina segundo o shintō

Nisshōki: a bandeira nacional japonesa

A bandeira japonesa tem um nome oficial: Nisshōki (“日章旗”, bandeira do Sol).

Também conhecida como Hinomaru (“日の丸”, disco solar), a bandeira é uma referência inequívoca a deusa do Sol Amaterasu.

A controversa bandeira do Imério do Sol Nascente nunca foi uma bandeira nacional, era a bandeira das forças armadas imperiais. Atualmente é uma das bandeiras das Forças Navais de Autodefesa do Japão
A controversa bandeira do Imério do Sol Nascente nunca foi uma bandeira nacional, era a bandeira das forças armadas imperiais. Atualmente é uma das bandeiras das Forças Navais de Autodefesa do Japão

Mas, mais do que uma referência a kami do Sol, também diz respeito a família Imperial, mais especificamente ao Imperador e ao próprio país, que ficou conhecido ao longo da história como o País do Sol Nascente surgido por intermédio dos deuses do shintō.

Em tempos de paz, por exemplo, era comum encontrar nas mensagens trocadas entre as diplomacias do Japão e da China a referência da Terra do Sol Nascente (Japão) para a Terra do Sol Poente (China), ou vice-versa.

Linha do tempo das bandeiras nacionais do Japão

A primeira bandeira japonesa Nisshōki de 701 foi devidamente documentada foi em 1184, contudo, a tradição oral remonta o uso da bandeira ao século VII a.C. utilizada desde o então pelo lendário Imperador Jinmu.

Daijosai: o ritual do Imperador com a kami Amaterasu

Quando um novo Imperador ascende ao trono crisântemo é realizado em novembro o ritual mais secreto de toda a religião shintō, o Daijosai ou Daijō-sai (“大嘗祭”, Grande Ritual de Oferenda de Comida).

Esse ritual só é realizado na ocasião de um novo Imperador e acontece após as cerimônias Sokui no Rei (“即位の礼”, Entronização do Imperador do Japão) e Kenji to Shokei no Gi (“剣璽等承継の儀”, Cerimônia de Herança das Insígnias e Selos Imperiais) em maio.

Apesar das semelhanças entre os rituais Niiname-sai e Daijō-sai o qual ambos oferecem os primeiros alimentos a Amaterasu, o Daijō-sai é um ritual privado entre o novo Imperador tem com Amaterasu e os kami
Apesar das semelhanças entre os rituais Niiname-sai e Daijō-sai o qual ambos oferecem os primeiros alimentos a Amaterasu, o Daijō-sai é um ritual privado entre o novo Imperador tem com Amaterasu e os kami

O ritual é mencionado no Kojiki, ou seja, registrado por escrito no ano 712.

Contudo, foi o lendário Imperador Jinmu que diferenciou o Daijō-sai do ritual Niiname-sai (新嘗祭) que é realizado anualmente durante o feriado Kinrō Kansha no Hi (“勤労感謝の日”, Dia da Ação de Graças ao Trabalho) no dia 23 de novembro.

O Daijō-sai começa às 17:00 e se encerra às 03:00.

O Imperador recém entronado oferece arroz da nova colheita, peixe, abalone, frutas, castanhas, sake e outros alimentos de todo o Japão em pratos de madeira no salão principal do santuário provisório Yuki Hall para Amaterasu.

Santuários provisórios de madeira Yuki Hall e Suki Hall montados para o ritual Daijosai
Santuários provisórios de madeira Yuki Hall e Suki Hall montados para o ritual Daijosai

Segundo o shintō, Amaterasu e outras deidades se fazem presentes e aceitam as oferendas do Imperador.

O Imperador lê uma oração de gratidão pela paz, pela colheita, pede pela paz e prosperidade da nação.

A única iluminação permitida dentro do santuário é a das clássicas lamparinas a óleo e lá o Imperador banqueteia junto a Amaterasu e os outros kami.

O mesmo ritual é repetido em um outro santuário provisório, o Suki Hall, e termina às 03:00.

Ritual Daijosai do Imperador Naruhito que abriu a era Reiwa
Ritual Daijosai do Imperador Naruhito que abriu a era Reiwa

O ritual é Daijō-sai é realizado no Palácio Imperial de Tokyo e só é realizado com a ascensão de um novo Imperador.

E, apesar das semelhanças com o Niiname-sai, são cerimônias distintas: Niiname-sai é um agradecimento aos deuses; Daijō-sai transforma o Imperador no Filho do Sol.

Família Imperial do Japão

A família Imperial do Japão é detentora do Sanshu no Jingi (“三種の神器”, Tesouro Imperial do Japão) que consiste na espada Kusanagi, o espelho Yata no Kagami e as joias Yasakani no Magatama que foi transmitido de Amaterasu para seu neto Ninigi no Mikoto.

Sanshu no Jingi, os tesouros Imperais da Casa Yamato: a espada Kusanagi, o espelho Yata no Kagami e as joias Yasakani no Magatama
Sanshu no Jingi, os tesouros Imperais da Casa Yamato: a espada Kusanagi, o espelho Yata no Kagami e as joias Yasakani no Magatama

Ninigi no Mikoto, fundador da Casa Yamato (ou família Imperial) transmitiu
esses tesouros ao lendário Imperador Jinmu.

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