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Imunização contra COVID-19 impulsionará vacinação contra HPV no Japão

Com o êxito de 80% da população vacinada com duas doses contra a COVID-19, a expectativa é que a imunização contra HPV seja melhor aceita pela sociedade

O Japão vem lutando nos últimos oito anos para conseguir impulsionar a vacinação contra HPV nas adolescentes. Mas graças a extensiva campanha de imunização contra a COVID-19, agora será a vez de proteger as jovens contra o câncer do colo do útero.

Em 2013 foi lançada uma campanha para vacinar jovens contra o HPV, mas a política fracassou em explicar para a população que o risco de contrair o papilomavírus era praticamente zero, e, em vez da confiança, espalhou-se o medo das vacinas.

Com alta adesão a campanha de vacinação contra a COVID-19, a expectativa é que a adesão a imunização contra o HPV no Japão avance com campanhas semelhantes às da pandemia
Com alta adesão a campanha de vacinação contra a COVID-19, a expectativa é que a adesão a imunização contra o HPV no Japão avance com ações semelhantes às da pandemia

Agora, a partir da sexta-feira, 01 de março de 2022, as autoridades de saúde farão uma campanha de informação e incentivo a vacinação contra o HPV na esteira do sucesso da vacinação contra o SARS-CoV-2.

Junko Mihara, parlamentar do LDP (Liberal Democratic Party) e sobrevivente de câncer de colo do útero comemorou a decisão do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar: “Finalmente conseguiremos proteger nossas garotas”, disse em coletiva de imprensa.

Mortes evitáveis com vacinas

Dados do INCA (Instituto Nacional de Câncer) e a Fundação Osvaldo Cruz apontam que cerca de 570 mulheres são diagnosticadas com câncer de colo no útero por ano, destas, 265 mil morrem em decorrência da doença.

Estima-se que cerca de 10 mil mulheres japonesas desenvolvem este que é o quarto tipo de câncer mais comum em mulheres anualmente. Aproximadamente 3 mil delas morrem, ou seja, uma assombrosa taxa de letalidade de 30%.

Cerca de 3 mil mulheres japonas morrem todos os anos vítimas de câncer de colo do útero, doença prevenível com vacinação contra o HPV
Cerca de 3 mil mulheres japonas morrem todos os anos vítimas de câncer de colo do útero, doença prevenível com vacinação contra o HPV

A OMS (Organização Mundial da Saúde) desenvolveu uma política nos últimos anos para que 90% das meninas de até 15 estejam imunizadas contra o HPV até 2030, uma meta ambiciosa, mas essencial para salvar milhões de vidas com baixo custo.

Junko Mihara relembra a situação da cobertura vacinal contra o HPV no Japão: “Mesmo assim, perderemos muitas vidas por causa dos último oito anos”. Desde 2013, apenas 1% das garotas de 12 a 16 foram imunizadas.

Política falida

Poucos países têm uma cultura vacinal dentro de suas políticas de saúde pública, inclusive, o Japão. Portanto, há muita desconfiança da sociedade em relação a segurança dos imunizantes.

Quando a campanha vacinal contra o HPV no Japão teve início em 2013, foi abandonada dois meses depois após uma série de fake news e relatos sensacionalistas sobre efeitos colaterais das vacinas aterrorizaram a população.

Desde a malfadada campanha de vacinação contra o HPV em 2013, o número de jovens de 12 a 16 que buscam o imunizante é pouco mais de 1%
Desde a malfadada campanha de vacinação contra o HPV em 2013, o número de jovens de 12 a 16 que buscam o imunizante é pouco mais de 1%

Desde então, mesmo com as vacinas gratuitas e disponíveis no sistema de saúde do país, o número de garotas que buscaram pelos imunizantes em percentagem foi pouco mais de zero anualmente.

A ginecologista e diretora de uma organização que veicula informações sobre o HPV para a sociedade, Kanako Inaba, criticou a política de 2013: “O Ministério da Saúde deu mais ênfase a opinião popular do que as evidências científicas”.

Combatendo as fake news

Antes de se tornar parlamentar, Junko Mihara era conhecida por carreira musical e pelos papeis que interpretou nas telas japonesas. Após sobreviver ao câncer de colo no útero, decidiu entrar na política para ser uma voz para as mulheres no parlamento do Japão.

Ela esteve na linha de frente no combate as fake news que surgiam em periódicos sensacionalistas, com histórias falsas.

Em 2013, uma série de reportagens sensacionalistas sobre casos de garotas que perderam o movimento das pernas, por exemplo, abalaram a confiança da população em relação a imunização contra o HPV. Embora a probabilidade de uma reação dessa acontecer ser próximo de zero, ela existe, mas supera e muito a letalidade de 30% do câncer de colo do útero
Em 2013, uma série de reportagens sensacionalistas sobre casos de garotas que perderam o movimento das pernas, por exemplo, abalaram a confiança da população em relação a imunização contra o HPV. Embora a probabilidade de uma reação dessa acontecer ser próximo de zero, ela existe, mas supera e muito a letalidade de 30% do câncer de colo do útero

Assim como especialistas, epidemiologistas e profissionais de saúde que advogam pela vacinação, Mihara sofreu ataques de pessoas anti vacina até mesmo em seu escritório na Dieta.

Agora, com 80% da população vacinada com duas doses de imunizantes contra a COVID-19, a expectativa é que as dúvidas acerca das vacinas contra HPV sejam esclarecidas com campanhas semelhantes às da pandemia.

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Novos rumos na saúde feminina no Japão

Embora o público alvo da vacinação contra HPV sejam garotas entre 12 a 16 anos, o Japão aplicará o imunizante para todas as mulheres que não receberam nenhuma das duas ou três doses (a depender da idade) necessárias para proteger contra o câncer do colo do útero.

Utako Kawakami, estudante universitária de 20 anos contou em entrevista à AFP que gostaria de ter sido vacinada antes do início de sua vida sexual, mas sua mãe teve medo por causa das publicações sensacionalistas de 2013 e não a levou.

Junko Mihara, parlamentar que atua na Dieta, entre outras coisas, em prol da saúde feminina
Junko Mihara, vítima do câncer de colo do útero e parlamentar que atua especialmente na Dieta em prol da saúde feminina

Kawakami completou seu esquema vacinal ainda em 2021, contudo, ainda há resistência a vacinação contra o HPV, e surpreendentemente, por mulheres que alegam eventuais e possível reações a vacina como fadiga ou dores.

Ainda há uma batalha até que o público estabelecido em 2013 de 70% das garotas vacinadas aconteça. Mihara, teve que retirar o útero, mas espera que nenhuma garota do país tenha que passar pelo que ela teve que passar.

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