Ikebana é a arte de fazer arranjos florais no Japão com mais de 600 anos de história com origens no período Asuka (538-710).
O caminho das flores é uma jornada que passou por inúmeras transformações ao longo dos muitos anos, se adequando ao período e necessidades da sociedade japonesa.
Aprender Ikebana é se conectar com a natureza ao manipular plantas e desenvolver a sua criatividade com expressão artística para ter um hobbie ou terapia.
Ao mesmo tempo será uma imersão na cultura japonesa com destaque para filosofia, uma forma de existir mais equilibrada e refinamento de senso estético e da noção do que é bonito indo de forma contrária ao perfeccionismo e da geometria calculada do ocidente.

Tachibana e Ikebana
Os arranjos de flores chegaram ao Japão junto com o budismo da China, segundo o autor Shozo Sato do livro A Arte dos Arranjos Florais.
Na época arrumar flores de forma simples era uma forma de honrar Buddha. Além disso, flores e galhos eram ligados diretamente aos deuses e por isso os arranjos eram deixados dentro de casa para atraí-los e ter bons auspícios em rito chamado yorishiro.
Dali para frente foi se transformando até virar Ikebana. No período Heian os sacerdotes que arranjavam flores no altar eram chamados de Ikebono e muito dos fundamentos praticados são atribuídos a eles.
Na época feudal, os samurais tinham que aprender essa habilidade como parte de seus ensinamentos bushi. Nos tempos modernos, as maiores praticantes são as mulheres, que desejam ter habilidosas elegantes.
Portanto, muito ligado ao zen, da consciência do presente, apreciação do tempo e das mudanças. Apesar das origens espirituais, qualquer pessoa pode aprender a fazer o arranjo de flores japonesas, sendo um hobbie comum no Japão.
Essa habilidade é ampla e praticada aonde tem variedades de escolas com diferentes técnicas e fundamentos.
Simplicidade, respeito e elegância

Ikebana é um assunto bem complexo com vários estilos e dependendo da época ganha objetivos e estética diferentes.
De forma contemporânea, os arranjos florais japoneses devem ser simples, mas elegantes mostrando respeito a natureza com estética para demonstrar harmonia e equilíbrio com os elementos naturais e o ambiente.
A harmonia se refere em como todos os elementos unidos são agradáveis ao olhar, mas não em questão de simetria, mas de coletividade.
A composição é pensada para que a flor esteja arranjada de forma harmoniosa com o galho, folhas, vaso e o seu entorno, por exemplo. Não de forma individual, mas como um todo.
Então, cores, formas e linhas são integrados com unidade com diferentes elementos colocados juntos de forma pacífica e colocados em um ambiente.

Impermanência
Pare para pensar que na natureza sem ação humana, as flores, árvores, musgos, pedras e todos os elementos são arranjados de uma forma não organizada, mas que é lindo ao se observar.
Na hora de fazer ikebana a intenção é conseguir esse mesmo efeito natural e belo. Não é apenas criar algo esteticamente agradável, mas se atentar a balanço, harmonia e o principal: a beleza da impermanência.

Espaços
O espaço é deixado de forma proposital. Eles são muito importantes, pois darão a sensação de dinamismo e profundidade.
Já ouviu falar em Ma? É sobre a beleza das pequenas pausas e do espaço que preenche.
Estilos
Existem muitas escolas de Ikebana no Japão que terá fundamentos diferentes na hora de compor. Por isso, a arte de fazer o arranjo pode mudar e todas são válidas.
A nível de interesse vamos deixar alguns tipos abaixo, desde o mais tradicional até o mais moderno para você entender o motivo de ver Ikebanas tão diferentes.
Tradicional: Rikka

Rikka é do período Muromachi e o objetivo é replicar um resultado mais natural de paisagem com uma composição elaborada.
Essa forma tradicional era mais suntuosa com escolhas de flores exuberantes. Era usado em espaços amplos como decoração ou em altares de templos e santuários.
Dentro desse estilo existe duas variações: seifutai e shinfutai.
Ela tem uma estética tradicional com sete ou nove galhos principais modelados com composição variada que faça juz a natureza. Elas tem bastante elementos e replicam uma paisagem completa.

Já a mais moderna leva em consideração mais o movimento e é adequada aos espaços internos pequenos.
Tem muito mais ligação com o contexto do que com a forma. É conectada com liberdade, frescor com combinação de diferentes espécies de flores.
Contemporânea – Soi, shi, tai
A beleza do nascimento para expressar a vida no vaso usando poucos elementos. O estilo minimalista combina com os espaços pequenos dentro de casa comuns do período Meiji.
Nela, são usados 3 elementos shi, soi e tai. A principal, a secundária e a outra para ornamentar. A estrutura básica deste fundamento do Ikebana é a de um triângulo escaleno com três pontos principais que significam céu, terra e humanidade. Já que é ligado a vida, coloca-se água para nutrir as plantas.
A versão contemporânea leva em consideração mais aspectos na hora de montar o arranjo como cores, textura, forma, volume e balanço para descobrir novos formatos.
A simplicidade facilitou a composição dos arranjos por mais pessoas e comum para se ter em casa e virar hobbie.
Freestyle
A forma mais liberal não tem formato ao colocar intuito nas texturas e formas com expressões mais variadas.
Essa forma além de poder decorar as casas, é ideal para colocar em exposições, na vitrine de lojas, mesas de restaurantes e mais.
Nesse estilo mais livre dá para descobrir a beleza das plantas de várias perspectivas em qualquer formato inclusive dispensando vasos tradicionais e usando outros suportes disponíveis como bowls e pratos.
Vasos
São dois tipos de vasos tradicionais, um largo e baixo moribana com água e outro mais alto e esguio chamado nageire. Sua escolha é pensada também, de acordo com a composição escolhida. Já em relação aos materiais eles são diversos.
Acessórios
O vaso moribana que é baixo não tem uma estrutura para conseguir segurar os elementos. Por isso, tem o acessório Kenzan com dentes firmes para conseguir deixar tudo no lugar desejado.

Também é comum usar uma pequena tesoura para conseguir cortar galhos e deixá-los no tamanho adequado e pedaços de arame para dar formas curvadas.

Técnicas
Não se engane ao ver um Ikebana minimalista e achar que a simplicidade foi conseguida sem esforço. Existem muitas técnicas japonesas para conseguir um resultado elegante.
Além dos acessórios, terá que saber lidar com os materias e isso conseguirá com a prática e com a dica dos mestres kado se possui interesse nos estilos tradicionais.
Tem galhos que serão mais fáceis de lidar, outros mais desafiadores que demandarão cortes no ângulo ou mesmo montar de uma forma que um elemento dê suporte ao outro, bem mesmo fazendo encaixes. Literalmente buscando equilibrar todos os elementos.
Hobbie ou terapia

No Japão é um hobbie muito comum, sendo praticado por pessoas de todas as idades e gênero para relaxar.
As raízes no budismo também faz ser uma boa terapia ao praticar em estado de contemplação e paz de espírito.
Afinal, na ansiedade e na pressa não conseguirá lidar com as flores delicadas, galhos e folhas, que muitas vezes são pequenos e dependem de esforço para ficarem ali do jeito que projetou, conforme a escola escolhida.
Ou mesmo para manejar as grandiosas e precisarão receber suportes para conseguir a angulação.
Materiais e significados
Originalmente os materiais de trabalho são flores e elementos da natureza comuns da flora japonesa.
No entanto, de forma contemporânea é comum usar plantas tropicais ou comuns de outros países fazendo uma interculturalidade, de acordo com os significados.
Na hora de compor, cada planta tem um significado, de acordo com a linguagem das flores, que devem dar uma profundidade na composição.
Bem como ficar atento a psicologia das cores para poder passar uma mensagem com intuito. Sazonalidade deve ser levado em consideração também respeitando os ciclos e vivendo cada passagem de forma integrada e respeitosa.
É legal estudar também origens, histórias e características botânicas para dar mais significados ao Ikebana para contar histórias e evocar emoções.
Conexão
Uma flor e um galho na natureza crescem de forma orgânica, misturadas com várias espécies, cores e formas. Influenciadas pela incidência solar, quantidade de água, do vento, de insetos e animais.
Se conectar consigo é conseguir observar os elementos internos, assim como acontece na natureza. Por isso, fazer Ikebana focado pode levar a reflexões internas para terapia.
Tokonoma

Antigamente nas casas japonesas era muito comum ter um espaço chamado tokonoma aonde o Ikebana ficava, junto com pintura, caligrafia ou outros elementos decorativos na sala de chá.
Erros comuns no Ikebana
Agora que você tem todos os conceitos de como um Ikebana deve ser, saiba que é uma arte que necessitará estudo e prática nos estilos tradicionais.
Escolha uma escola que mais agrade e pratique os princípios até que a forma de pensar sobre o arranjo fique mais fluída e natural nas composições para que possa deixar a criatividade aflorar.
A criatividade guiada ajudará a conseguir arranjos lindos e dentro dos conceitos citados nesse artigo respeitando os fundamentos de forma equilibrada e harmônica.
Para ajudar, vamos deixar alguns erros comuns cometidos, que foram citados no canal de YouTube do mestre de Ikebana Rijo Miyamoto.
Ele ensina de uma forma simples conceitos básicos e monta um arranjo explicando todas as suas escolhas para quem tem interesse em aprender Ikebana.
Deixar folhas do galho dentro do vaso
A estética de ter um galho cheio de folhas e ele estar dentro do vaso acabará sendo não harmonioso esteticamente, além de correr o risco de ter mofo no arranjo com a umidade abafada. A dica é fazer a poda do galho que ficará na parte de dentro.
Sobrepor muitos elementos
Colocar flores e galhos amontoados vai ao contrário da estética harmoniosa, além de confundir a visão ao não destacar as formas naturais e beleza de cada um.
Não ter olhar 360
O arranjo deve ser colocado para funcionar em visão 360 graus. Apesar dele poder ficar em um altar em que as pessoas apenas terão visão da frente, é importante deixar todo o resultado harmônico.
Deixar galhos caídos
Sabe quando um galho fica apontado para o chão com a impressão de que está caído? Isso é um erro de Ikebana. Não quer dizer que possam fazer uma composição com o galho apontado para baixo, mas isso deve ser conseguido de forma harmônia.
O arranjo ficar com janelas
Quando um galho fica sobreposto ao outro e forma um buraco ao meio como se fosse uma janela é considerado um erro de Ikebana. Apesar dos espaços Ma serem importantes, eles devem ser arranjados de outra forma.
Deixar tudo nivelado na mesma altura
O intuito da estética do Ikebana é não seguir uma simetria geométrica. Então, deixar flores na mesma altura sem colocar diferenças de ângulo é um erro do Ikebana. Use a tesoura para cortar os galhos e fazer os ajustes.
Este é um assunto bem completo e que dá muito assunto. No entanto, vamos encerrar aqui com os aspectos gerais sem focar em origens para você guiar seu interesse no caminho dos arranjos florais japoneses.
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