Canais d'água do Japão, Gujo Hachiman
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Canais d’água do Japão: conheça 3 locais incríveis para visitar

Os canais d’água do Japão são sistemas sustentáveis de distribuição de água no interior das casas fantásticos datados do período Edo.

O período Edo criou inovações tão surpreendentes que é uma pena elas não sejam utilizadas hoje em dia, aliás, certas engenhosidades podem responder a alguns dos desafios do mundo no século XXI. Uma delas que merecem destaque são os canais d’água do Japão.

Canal d'água do sistema Aibagawa em Hagi, província de Yamaguchi
Canal d’água do sistema Aibagawa em Hagi, província de Yamaguchi
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Canais d’água do Japão

Esses não são simples canais d’água, eles são capazes de conectar as necessidades humanas com as outras partes da natureza em um ecossistema mutualista que, ademais, tem a capacidade até mesmo de prevenir potenciais riscos naturais como incêndios e cheias.

Neste artigo abordaremos três diferentes, e ainda assim, similares projetos de canais d’água do Japão que persistiram no tempo apesar modernas infraestruturas de distribuição e coleta de água do país.

Canal d'água do distrito de Harie, conhecido como Shozu no Sato (vilarejo das águas) em Takashima, província de Shiga
Canal d’água do distrito de Harie, conhecido como Shozu no Sato (vilarejo das águas) em Takashima, província de Shiga

Um deles na cidade de Hagi, província de Yamagushi, conhecida por sua cerâmica de alta qualidade, edifícios e residências de comerciantes e samurais bem preservadas, natureza exuberante, além de templos e santuários de beleza ímpar.

Outro na cidade de Takashima, província de Shiga, um lugar próximo as margens do lago Biwa e das montanhas de Harie.

A pequena cidade tem muitos locais interessantes para visitar, seja em relação a natureza ou preservadas construções como o castelo de Takashima.

Canal d'água em Gujo Hachiman, província de Gifu
Canal d’água em Gujo Hachiman, província de Gifu

Por fim, a cidade Gujo Hachiman, província de Gifu, apelidada como a pequena Kyoto, um lugar singular com locais realmente impressionantes como o santuário Sogi Sui, o encontro dos rios Yoshida e Kodara, e é claro, o castelo da cidade.

1) Aibagawa: o engenhoso canal de Aiba em Hagi

No começo do século XVIII na cidade de Hagi, província de Yamaguchi, uma engenhosa construção de infraestrutura foi desenhada a partir do delta no rio Abu nas dependências do castelo de Hagi: o canal de Aiba, ou Aibagawa (藍場川).

As carpas nadam livremente nos canais d'água que compõe o sistema Aibagawa em Hagi
As carpas nadam livremente nos canais d’água que compõe o sistema Aibagawa em Hagi

O canal de Aiba, ou Aibagawa, foi implementado em 1717 com o objetivo de conter cheias, levar água para irrigar plantios e combater incêndios.

Mais tarde, em meados de 1744, os canais já contavam com o uso de pequenos barcos para transportar alimentos e mercadorias.

Porém, o uso mais interessante do canal de Aiba na cidade de Hagi era, sem sombra de dúvidas, o que era conhecido como Hatoba, um sistema que abastecia as cozinhas e os banheiros das casas, além do trânsito de carpas pelo canal.

Vídeo promocional da província de Yamaguchi sobre os canais d’água do sistema Aibagawa para o turismo em Hagi

Infelizmente restam apenas algumas residências que ainda possuem o sistema Hatoba, mas apenas duas no distrito de Kawashima ao norte de Hachi podem ser visitadas por um valor simbólico de JP¥ 100,00 (US$ 0,69).

Residência Yukawa

A residência da família Yukawa é bastante curiosa. Considerando que os Yukawa eram uma família de samurais de baixa patente, a casa é realmente muito maior do que a de seus pares. Essa discrepância é explicada pela posição de zeladores do canal de Aiba.

Pequeno tour virtual dentro da antiga residência da família Yukawa e o funcionamento dos canais d’água que abastecem o sistema Aibagawa

Na cozinha a água era retirada para cozinhar e limpar. A água do canal também movia uma roda d’água para acionar um almofariz e um pilão.

No banheiro há um acesso embaixo do tatame de madeira (que fornece privacidade) para o local de banho.

Residência de Taro Katsura

A residência de Taro Katsura, primeiro-ministro por três mandatos (1901 a 1906, 1908 a 1911 e por alguns meses entre 1912 a 1913), o segundo primeiro-ministro mais longevo, atrás somente de Shinzō Abe, também possui o sistema Hatoba.

Entrada da antiga residência do ex primeiro-ministro Katsura Taro, uma propriedade consideravelmente menor do que a residência Yukawa e que proporciona uma ideia de como os canais d'água do sistema Aibagawa nas casas mais comuns
Entrada da antiga residência do ex primeiro-ministro Katsura Taro, uma propriedade consideravelmente menor do que a residência Yukawa e que proporciona uma ideia de como os canais d’água do sistema Aibagawa nas casas mais comuns

Embora muito mais modesta do que a residência Yukawa, a residência do ex primeiro-ministro Taro Katsura fornece a perspectiva de como residências menores também funcionavam em seu dia-a-dia com o benefício do canal de Aiba.

2) Kabata: os canais d’água de Harie

Conhecida como Shozu no Sato (vilarejo da água viva), o distrito de Harie na cidade de Takashima, província de Shiga, é abençoado com muitos lençóis freáticos, a maioria deles tem origem nas montanhas Hira – além da proximidade de 1,5 km do lago Biwa.

Fluxo de água cristalina nos canais d'água do distrito Harie, mais conhecido como Shozu no Sato, o vilarejo das águas em Takashima, província de Shiga
Fluxo de água cristalina nos canais d’água do distrito Harie, mais conhecido como Shozu no Sato, o vilarejo das águas em Takashima, província de Shiga

A cultura Kabata, isto é, utilizar a água dos lençóis freáticos para as necessidades do dia-a-dia, tem prosperado entre os residentes do distrito de Harie por mais de 300 anos. Para isso, as residências perfuram o chão entre 10 metros a 20 metros de profundidade.

Quando o lençol freático é encontrado, um cano é instalado para o abastecimento de água das residências e ela cai em uma espécie de bacia chamada Motoike, a água que flui pelos canos já está pronta para ser consumida ou para a preparação de alimentos.

Os peixes são parte fundamental desse ecossista mutualista chamado Kabata e eles tem livre acesso aos canais d'água do distrito e das outas residências que ainda mantém o sistema funcionando
Os peixes são parte fundamental desse ecossista mutualista chamado Kabata e eles tem livre acesso aos canais d’água do distrito e das outas residências que ainda mantém o sistema funcionando

Bacia Motoike

A água que cai na bacia Motoike vaza para outro compartimento maior chamado Tsuboike.

Tsuboike: temperaturas baixas para conservar

O Tsuboike é utilizado para lavar e refrigerar vegetais, isso porque a água que sai do subterrâneo tem temperatura de aproximadamente 13°C sem oscilações durante o ano.

Hataike: para alimentar peixes

Por fim, a água que flui do Tsuboike vai para um outro compartilhamento ainda maior chamado Hataike.

É no Hataike que a louça e os restos de comida são despejados, e dessa forma, alimentando os peixes – carpas principalmente – que habitam essas águas.

Cada propriedade tem seu próprio estilo e formato do sistema Kabata, mesmo assim, tudo volta para os canais d'água do distrito
Cada propriedade tem seu próprio estilo e formato do sistema Kabata, mesmo assim, tudo volta para os canais d’água do distrito

As águas do Haitake vão para os canais do distrito e que conectam outras casas, e essas águas dos canais serão desaguadas no lago Biwa.

A água que é extraída do subsolo, vai para a bacia Motoike, depois para o Tsuboike e finalmente para o Hataike são as partes que compõe o sistema Kabata.

Hoje em dia, menos da metade dos habitantes do distrito de Harie utilizam o sistema Kabata.

Embora os canais sejam acessíveis, para visitar o sistema Kabata só é possível com guias vinculados ao comitê local por se tratar de visitas a propriedades particulares.

Ilustração do sistema Kabata: extração d'água do subsolo para os recipientes Motoike, Tsuboike e Hataike
Ilustração do sistema Kabata: extração d’água do subsolo para os recipientes Motoike, Tsuboike e Hataike

As visitas só não são realizadas nas segundas-feiras, feriados de fim de ano e ano novo.

Elas podem ser realizadas individualmente ou em grupos de até 10 pessoas. Os idiomas disponíveis são o japonês e o inglês. Aos interessados, clique aqui para acessar uma das agências.

Tour virtual pelo distrito de Harie Shozu no Sato em Takashima, distrito de Shiga. Clique aqui para assistir ao pequeno documentário produzido pela NHK (com legendas apenas em inglês)

3) Gujo Hachiman: a cidade das águas do Japão

Em 1652, um incêndio de grandes proporções destruiu a maior parte da cidade de Gujo Hachiman, atual província de Gifu. Para lidar com futuros desastres semelhantes, em 1660 foi criado um vasto sistema de canais d’água.

Esse sistema atravessou os séculos e mesmo hoje permanece como parte essencial da cidade, afinal, além prevenir contra incêndios, o sistema tem várias outras utilidades para seus cidadãos, além de sua beleza única.

Pequeno tour virtual pela cidade de Gujo Hachiman, também conhecida como pequena Kyoto

Os canais d’água que passam em frente as propriedades da cidade possuem uma placa de madeira chamada de Seki Ita.

Essas placas de madeira são utilizadas para que os residentes represem a água para lavar alimentos, regar os jardins entre outras utilidades.

Mizu Fune

Por toda a cidade o visitante encontrará um sistema único chamado Mizu Fune: são bacias escalonadas feitas de madeira ou de pedra com água abastecida através de bambus onde a água flui da bacia mais alta para as mais baixas.

Há vários formatos diferentes de Mizu Fune espalhados pela cidade, todos obedecendo a mesma lógica de bacias escalonadas
Há vários formatos diferentes de Mizu Fune espalhados pela cidade, todos obedecendo a mesma lógica de bacias escalonadas

As bacias superiores são destinadas ao consumo direto, já as inferiores são destinadas para a lavagem de alimentos como legumes.

Antigamente os níveis inferiores eram utilizados até mesmo para lavar roupas. O sistema Mizu Fune só é encontrado em Gifu Hachiman.

Os rios Yoshida, Nagara e Kodara são fundamentais tanto para o abastecimento das fontes, canais e lençóis freáticos, culinária através da pesca de peixes como ayu (truta japonesa de água doce) no verão e refrescando a população em suas águas durante os dias de calor.

Santuário Sogi Sui, o 45º local de conservação natural de água na lista “As 100 Águas Mais Notáveis do Japão” pelo Ministério do Meio Ambiente
Santuário Sogi Sui, o 45º local de conservação natural de água na lista “As 100 Águas Mais Notáveis do Japão” pelo Ministério do Meio-Ambiente

O emblemático santuário Sogi Sui é listado como o 45º local de conservação natural de água na lista “As 100 Águas Mais Notáveis do Japão” pelo Ministério do Meio-Ambiente.

A cidade por si só é um verdadeiro espetáculo. Aliás, o castelo de Gujo Hachiman é o castelo de madeira mais antigo do Japão.

Há muitos outros locais com canais d’água incríveis como a rua Igawa Ko Michi, além de outros pontos turísticos e gastronômicos.

Tour mais completo pelas ruas de Gujo Hachiman, a cidade das águas

Esses três locais citados definitivamente merecem entrar no roteiro de turismo de qualquer um, seja pela engenhosidade, culinária, natureza ou arquitetura.

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