No centro da Península de Shimokita, província de Aomori, está o Osorezan (“恐山”, Montanha do Medo).
É considerado um dos montes mais sagrados do Japão ao lado do Kōyasan (“高野山”, Monte Koya) e do Monte Hieizan (比叡山).
Continue por aqui e aprenda mais sobre este lugar interessantíssimo no Japão.
Ozorezan

É bastante comum encontrar informações dizendo que o Osorezan é a porta do inferno budista.
No entanto, não é bem assim. É muito mais preciso dizer que o Monte Osore é o portal para o mundo dos mortos e isso ficará mais claro conforme a leitura.
A geografia do local possui múltiplas atmosferas. Tecnicamente o Osorezan é uma região montanhosa com oito montes e no centro está o lago Usori.
Dentro de suas muitas curiosidades é um lugar que reúne tanto o paraíso quanto o inferno.

Esse é um lugar que parece fazer jus a sua própria mitologia. Acompanhe o artigo e entenda porque o Monte Osore é tão importante e sagrado para os japoneses.
O mito de Osorezan
O Osorazan está localizado em uma região bastante remota. Conta a lenda que o lugar foi descoberto pelo monge Ennin (“圓仁”, 793 – 864), o terceiro Zasu (“座主”, Chefe da Ordem Tendai) e figura muito importante da história do budismo japonês.

Jikaku Daishi (“慈覺大師”, nome póstumo do monge Ennin) fez parte da delegação japonesa liderada pelo diplomata Fujiwara no Tsunetsugu na missão diplomática do Japão para a corte Imperial da Dinastia Tang da China em 838.
Ennin estudou budismo durante anos em diversos templos na província de Shanxi.
O Imperador Tang Wuzong que assumiu o trono chinês em 840 lançou uma campanha anti budista que foi de 842 a 846.
O monge Jikaku Daishi foi deportado da China e retornou para o Japão em 847 como resultado dessa política.

Mas, durante seu tempo na China, Ennin teve um sonho com um monge sagrado que lhe disse que ele encontraria uma montanha sagrada quando voltasse ao Japão.
A descoberta do Osorezan
De acordo com a lenda, o monge Ennin saiu de Kyoto, a capital do Japão no século IX, em direção ao leste e caminhou por 30 dias conforme seu sonho divinatório recomentou.

Após 30 dias de caminhada e cerca de mil km percorridos, Ennin encontrou um lugar que se assemelhava com as descrições budistas do inferno.
O cheiro de enxofre, a acidez do solo e da água e os poços de água e lama fervente corroboram com a ideia infernal.

O Monte Osore é uma cadeia vulcânica (razão pela acidez, pelos vapores, cheiro de enxofre e poços borbulhantes) e sua última atividade vulcânica aconteceu há cerca de 10 mil anos.
Diz a mitologia que Ennin se deu conta ter chego no lugar que seu sonho proferiu ao ver a região de Osorezan.
Como instruído em seu sonho, Ennin gravou uma estátua do Bodhisattva Jizo (地蔵) no local e deu início a uma cidade budista: o templo Bodaiji. Naturalmente quase tudo isso é um mito.

O próprio nome Osorezan e que hoje significa “Montanha do Medo” provavelmente é derivado de “Ushoro”, termo Ainu para “Baía”, o que indica que o lugar não foi “descoberto” por Ennin e que é conhecido desde muito antes.
A paisagem do Osorezan
A paisagem do Osorezan é capaz de te levar ao reino dos céus e ao reino dos infernos a uma simples caminhada de distância.

A região tem como centro o lago Usori. Apesar da água ser extremamente ácida e tóxica (porém linda), o cenário é paradisíaco.
Ao redor deste lago celestial existem cerca de 108 poços de água e lama efervescente por causa da atividade vulcânica.
Esses poços representam as 108 paixões humanas que levam os seres ao sofrimento.

Para saber quais são essas 108 paixões, confira no artigo Joya-no-Kane: as 108 baladas budistas de Ano Novo no Japão. Essa é uma das razões do porque alguns consideram o Osorezan como a porta do inferno.
Apesar do forte cheiro de enxofre, as cores do Monte Osore, as rochas e mineirais, resultado da atividade vulcânica são surpreendentes.

Mas os elementos geográficos que vão de encontro a cosmologia budista não param por aí.
O lago Usoki é cercado por oito montanhas que simbolizam uma flor de lotus e o reino de Buddha.
A espiritualidade do Osorezan
Todas essas qualidades remontam desde o reino de Buddha, até os reinos infernais, incluindo um rio que faz alusão ao rio (que está mais para um córrego) mitológico rio Sanzu no Kawa (“三途の川”, Rio dos Três Cruzamentos).

Como o próprio nome do rio sugere, existem três formas de cruzar o rio Sanzu: Os que carregam pecados graves e pesados atravessam pela parte funda do rio onde há ninho de serpentes e corredeiras.
Os que carregam pecados mais leves atravessam as corredeiras e os que não carregam pecados atravessam por uma ponte de pedra.

Há também a crença de que os mortos só podem atravessar o rio Sanzu mediante o pagamento de seis moedas.
Por isso que nos tradicionais funerais japoneses os mortos são enterrados com seis moedas.
No Osorezan também está o Sai no Kawara, uma praia arenosa da mitologia budista que é uma espécie de limbo para crianças que transmigraram prematuramente.

Pequenas pilhas de pedras representando os entes queridos que morreram são deixados pelos visitantes, bem como cataventos para confortar e guiar os espíritos das crianças e bebês que morreram.
Segundo a cosmologia budista, as crianças que morrem prematuramente são atormentadas pelos Oni (“鬼”, demônios), mas são salvas e resgatadas pelo Bodhisattva Jizo para atravessar o Sanzu no Kawa.

O caminho da transmigração dos seres dependerá de seus próprios karmas, por isso que o Osorezan não é a porta do inferno, mas sim o portal para o mundo dos mortos.
Há um ditado local que diz “Hito wa shineba oyama sa igu” (Quando as pessoas morrem, vão para a montanha).
É de lá que os destinos são selados, seja para um dos seis reinos do Rukudo, seja para a Terra Pura dos Buddhas.
Bodhisattva Jizo
Uma das traduções possíveis do nome do Bodhisattva Jizo do sânscrito (“क्षितिगर्भ”, Kṣitigarbha) é “Tesouro da Terra”. O Bodhisattva Jizo é o principal padroeiro do Osorezan e do templo Bodaiji.
De livre e espontânea vontade Jizo assumiu dois compromissos: o primeiro é o de instruir todos os seres dos seis reinos do Rokudo entre a morte de Buddha Sakyamuni e a ascenção de Maitreya (o próximo Buddha).

O outro compromisso é um voto. Jizo fez um voto de não atingir a budeidade até todos os infernos sejam esvaziados. No Japão ele é o padroeiro das crianças que morrem precocemente e dos fetos abortados.
Em suma, o Bodhisattva Jizo, mais conhecido no Japão como Jizo Bosatsu é um ser que se dedica a aconselhar e conduzir os seres que transmigrarão dentro do Rukudo ou para a Terra Pura dos Buddhas.
Templo Bodaiji
O templo Bodaiji abre suas portas para visitantes do dia 1º de maio até 31 de outubro das 06:00 às 18:00 com a contribuição de entrada por JP¥ 500,00 (US$ 3,21 – R$ 18,97).

Também é possível se hospedar no Bodaiji por JP¥ 15 mil (US$ 96,14 – R$ 568,18) por pessoa.
A hospedagem dá direto a duas refeições (culinária vegetariana budista). Também é possível se banhar nas fontes termais do templo.
Osorezan Taisai
De 20 a 24 de julho é celebrado o festival Osorezan Taisai no templo Bodaiji. Pessoas de todo o país que perderam entes queridos e gostariam de se comunicar com eles vão para o Monte Osore.

Durante o período do festival, as Itako vão para Osorezan para se comunicar com os espíritos.
Para saber mais sobre quem são as Itako, confira no artigo Itako: conheça as tradicionais médiuns cegas de Aomori.
Antes de se comunicarem com os espíritos, as Itako fazem um ritual de purificação e austeridade de três meses. Essa é uma janela de oportunidade única aos que acreditam em vida pós vida.


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