História do teatro de fantoches Bunraku
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História do Bunraku: veja como surgiu o teatro de fantoches

Neste artigo sobre a história do teatro bunraku dê um mergulho em parte dos acontecimentos do Japão e entenda como surgiu.

Neste artigo você se aprofundará na história do teatro Bunraku e entenderá sua relação com o país através de evidências e relatos históricos para quem deseja aprofundar seus conhecimentos sobre cultura japonesa.

Portanto, continue por aqui e volte um pouco ao passado japonês com a gente. Vamos lá?

História do teatro Bunraku

Bunraku é o tradicional teatro de marionetes e é uma das artes japonesas mais antigas e maravilhosas

Em suma o teatro Bunraku foi criado no Japão como conhecemos durante o período Edo. No entanto, a história dos bonecos de fantoches é bem mais pregressa.

Fantoches são objetos de cultos xamânicos da Ásia Oriental a milhares de anos e podem ser rastreados na história a partir do século VI.

As tropas chinesas do Imperado Gāozǔ (566 – 645), {o primeiro da dinastia Tang}, invadiu o reino de Goguryeo (고구려).

Em suma era o antigo reino que compreendia o centro-setentrional da Coreia, sul da Manchuria e o Krai do Litoral.

Ao passo que entre os objetos e riquezas saqueadas estavam bonecos de fantoche. Estes tinham especial importância para o Imperador.

Vejamos mais indícios históricos da existência de fantoches no Japão do século VIII.

Fantoches foram citados em documentos

Wamyō Ruiju Shō, o mais antigo dicionário japonês onde foi registrado pela primeira vez o ter Kugutsu
Wamyō Ruiju Shō, o mais antigo dicionário japonês onde foi registrado pela primeira vez o ter Kugutsu

Além disso, mais evidências estavam em documentos budistas de origem chinesa do século VIII no Japão.

De tal forma que eles utilizaram a palavra “Kukutsu”.

Mais tarde (no Japão) se tornou “Kugutsu” e era empregada para um tipo de objeto específico: um fantoche.

A palavra Kagutsu (傀儡) aparece escrita pela primeira vez no dicionário sino-japonês Wamyō Ruiju Shō (和名類聚抄) de 930.

Fantoche mais antigo é da era Nara

Porém, o fantoche mais antigo do Japão foi encontrado em escavações e é datado da era Nara (710 – 784).

Vamos mais para frente na história? Veja um relato completo e interessante sobre a existência de teatros itinerantes no Japão.

Estes artistas encantavam de tal forma que deixavam as pessoas maravilhadas. Este tipo de arte não era comum no país, mas tinha espaço e abertura.

Kugutsu Mawashi: os marionetistas itinerantes

Durante o período Heian (784 – 1185) surgiram os chamados Kugutsu Mawashi (“傀儡回”, titeriteiros itinerantes).

Eles eram artistas que iam de porta em porta oferecer apresentações para conseguirem algum dinheiro.

Ōe no Masafusa (1041 – 1111) foi um poeta, estudioso e tutor sob os imperadores Shirakawa, Horikawa e Toba.

Ele era conhecido como Conselheiro Inteirino e escreveu o texto Kairaishi-ki ou Kuiraishi-no-ki (傀儡子記).

Este é um relato histórico e nos leva a entender a impressão destes teatros de fantoche itinerantes naquela época.

Kuiraishi-no-ki: o testemunho de Ōe no Masafusa

Kugutsu Mawashi surgem durante o período Heian como artístas nômades, visto como estrangeiros da Ásia Central e que viviam as margens da sociedade
Kugutsu Mawashi surgem durante o período Heian como artístas nômades, visto como estrangeiros da Ásia Central e que viviam as margens da sociedade

“O povo Kuiraishi não têm nenhum lugar para chamar de lar e levantam suas tendas a vontade sob os céus conforme a necessidade de água e forragem – muito semelhante à maneira dos povos dos cavalos do norte da China.

Os homens Kuiraishi são mestre na arquearia montada, alguns fazem malabarismos com espadas ou bolas e até luta livre com belos fantoches feitos de madeira de pessegueiro.

Kuiraishi-no-ki, texto que descreve os Kugutsu Mawashi nas palavras de Ōe no Masafusa
Kuiraishi-no-ki, texto que descreve os Kugutsu Mawashi nas palavras de Ōe no Masafusa

Habilidades extraordinárias

Suas habilidades são tamanhas que os fantoches parecem vivos. As suas performances se assemelham ao conto chinês da Carpa que Salta o Portão do Dragão.

Eles conseguem transformar sujeira ou pedras em moedas de ouro e transformar grama ou madeira na forma de um animal que fascina os espectadores. As mulheres Kuiraishi pintam seus olhos para parecerem mais severas e sombrias.

Elas balançam os quadris quando andam e, chocantemente, mostram os dentes quando sorriem e até utilizam pós vermelhos nas bochechas para melhorar o efeito.

Suas ações insinuam prazer sexual e elas usam seus charmes para seduzir os homens em seus braços.

Os Kugutsu Mawashi realizavam apresentações com teatro de fantoche de porta em porta em troca de algum dinheiro durante o período Heian
Os Kugutsu Mawashi realizavam apresentações com teatro de fantoche de porta em porta em troca de algum dinheiro durante o período Heian

Mesmo que seus pais e até mesmo seus maridos vejam, não as castigam.

Na verdade, agem em conluio com essas jovens mulheres para fazerem encontros com muitos transeuntes que certamente estão dispostos a pagar por tão amável companhia.

Pessoas se apaixonavam

Aqueles que se apaixonam por elas oferecem presentes como dinheiro, roupas caras, adornos para cabelos e caixas laqueadas para meninas, o que é compreensível.

Duvido que uma pessoa não possa considerar tais experiências como dignas.

Os Kuiraishi não têm nenhum pedaço de terra onde plantar, nem colhem um único galho de amoreira.

Como resultado, não têm nenhuma obrigação com o governo e são, por isso, um povo sem mestres, sem se importarem pelo nome daqueles que governam essa terra.

A visão de Ōe no Masafusa sobre as mulheres Kugutsu Mawashi, bem como as alegações que eles fossem estrangeiros, carecem de outros documentos que validem esses escritos
A visão de Ōe no Masafusa sobre as mulheres Kugutsu Mawashi, bem como as alegações que eles fossem estrangeiros, carecem de outros documentos que validem esses escritos

Os próprios governantes também desconhecem sobre eles, um fato que eles celebram por estarem livres de todas as obrigações.

Em tais celebrações eles cantam e dançam a noite inteira em veneração a seus cem espíritos padroeiros.

O chefe desses espíritos é uma deidade masculina com uma cabeça. Os Kuirashi têm grande influência nas províncias ocidentais de Mino, Mikawa e Tōtōmi.

Eram vários grupos

Há também outros grupos de Kuiraishi que vivem ao sul das montanhas na província de Harima.

Outros grupos menores também podem ser encontrados nas regiões ocidentais de Saikai e Tajima, considerados os mais humildes desse povo.

Algumas mulheres Kuiraishi são renomadas, seus nomes são Komi, Nichi-yaku, Sanzensai, Manzai, Kogimi e Magogimi.

Nas palavras de Ōe no Masafusa, as trupes de Kugutsu Mawashi se assemelham ao povo cigano
Nas palavras de Ōe no Masafusa, as trupes de Kugutsu Mawashi se assemelham ao povo cigano

Elas levantam muita poeira quando cantam e balançam até as vigas dos edifícios com suas vozes.

Os homens que assistem suas performances ficam excitados e encharcam a borlas de seus chapéus.

Cantam músicas de camponeses, poesias, músicas de viagens, rituais, cantos budistas, músicas de rios e músicas folclóricas.

Elas sabem um número incontável de refrões. Os Kuraishi são apenas uma das inúmeras coisas sob os céus. Como alguém poderia não se deixar tocar por suas vidas?

Estes artistas de espírito livre perambulavam o Japão fazendo apresentações de forma nômade.

Sem dúvidas abriu uma porta para o teatro bunraku se desenvolver depois nos moldes que podemos ver hoje com suas adaptações.

Agora confira a história do teatro Bunraku do período Heian.

Teatro de fantoches pós era Heian

Parte das ilustrações Shinzei Kogakuzu (信西古楽図) de Fujiwara no Michinori, mais conhecido como monge Shinzei
Parte das ilustrações Shinzei Kogakuzu (信西古楽図) de Fujiwara no Michinori, mais conhecido como monge Shinzei

Primeiro de tudo muitos escritos foram produzidos durante o período Heian sobre os Kugutsu Mawashi.

Um deles é o de Fujiwara no Akihira (989 – 1066). Um poeta kanshi da alta aristocrata japonesa e escreveu o livro Shinsarugaku-ki (新猿楽記). Esta é uma obra ancestral do teatro Nō.

Shinzei kogakuzu (信西古楽図) é uma coleção de ilustrações produzidas por Fujiwara no Michinori (1106 – 1159).

Além disso, ele era o monge budista mais conhecido como Shinzei e principal conselheiro do Imperador Nijō.

Bem como também registrou a trupe de titeriteiros e artistas itinerantes do Japão.

Mas ao final da era Heian houve um hiato de cerca de três séculos sem que houvesse nenhum registro histórico sobre a arte do teatro de fantoches. No entanto, não quer dizer ter desaparecido.

Bem como o teatro de fantoches só será mencionado novamente no Kanmon Gyoki (看聞御記).

É um diário de 54 volumes do príncipe Fushiminomiya Sadafusa de 1416 até 1448. Neles são relatados os entretenimentos na corte em 1416 descrito como “te-kugutsu”.

Parte das ilustrações Shinzei Kogakuzu (信西古楽図) de Fujiwara no Michinori, mais conhecido como monge Shinzei
Parte das ilustrações Shinzei Kogakuzu (信西古楽図) de Fujiwara no Michinori, mais conhecido como monge Shinzei

Teatros de fantoche ficam mais comuns

O florescimento dos diversos tipos de teatros de fantoche passou a serem comuns na corte japonesa nos séculos XV e XVI.

Da mesma forma passaram a fazer parte dos templos, vilas, santuários vilarejos e festivais populares.

A partir do período Edo, o teatro de fantoches passou a ser conhecido como Ningyō Jōruri
A partir do período Edo, o teatro de fantoches passou a ser conhecido como Ningyō Jōruri

Período Edo: o nascimento do Bunraku

No começo do período Edo existiam três formas de teatro de fantoches: Nō Ayatsuri baseadas nas histórias do teatro Nō:

Sekkyō Ayatsuri que contava histórias populares medievais narradas ao estilo Sekkyō Bushi (sermões budistas). O outro era o Ningyō Jōruri ou Jōruri Ayatsuri.

O período Edo trouxe grandes avanços e evoluções para o teatro de fantoches Ningyō Jōruri que mais tarde será conhecido como Bunraku
O período Edo trouxe grandes avanços e evoluções para o teatro de fantoches Ningyō Jōruri que mais tarde será conhecido como Bunraku

Evoluções

O teatro de fantoches foi evoluindo ao longo das eras. Bem como a forma Ningyō Jōruri (como também é conhecido o teatro Bunraku).

Este último desenvolveu seu próprio método, repertório e narração. De tal forma que possui um ritmo mais rápido e com um fundo musical suave ao som de um Shamisen.

Do que se tratavam

Os primeiros repertórios do Ningyō Jōruri eram baseados em fontes medievais e respeitavam a tradição da narrativa oral.

Em suma contos religiosos, histórias militares, especialmente as do Heike Monogatari e a Guerra Genpei (1180 – 1185). Bem como os grandes épicos.

Dessa forma, essa fórmula se espalhou como fogo pelo Japão e se tornou a principal forma de teatro de fantoches do Japão. Ainda no século XVII o Ningyō Jōruri (Bunraku) se dividiu em dois segmentos.

Em suma Sewamono (世話物), dramas domésticos sobre pessoas comuns como mercadores e geishas, e Jidaimono (時代物), peças de época.

Por consequência até hoje esses dois segmentos seguem presentes tanto no teatro Bunraku como no teatro Kabuki.

Uemura Bunrakuken: o salvador do Bunraku

Uemura Bunrakuken, fundador do Bunraku-za, teatro de fantoches que manteve viva a tradição dessa arte tradicional
Uemura Bunrakuken, fundador do Bunraku-za, teatro de fantoches que manteve viva a tradição dessa arte tradicional

Entre 1730 e 1760, o Ningyō Jōruri viveu seu ponto alto com teatros em Osaka, Kyoto, Nagoya e na capital Edo.

Ao passo que começou a vivenciar uma crise gigantesca com a crescente popularidade do teatro Kabuki – que utilizava o repertório do Ningyō Jōruri.

No final do século XVIII Uemura Bunrakuken (1751 – 1810) fundou o teatro Bunraku-za em 1790.

Em contraste com o declínio do Takemoto-za e Toyotake-za, dois grandes teatros de fantoches de Osaka.

Apesar da queda da popularidade do teatro Ningyō Jōruri existiam muitos titeriteiros amadores que apreciavam a arte como um passatempo.

Se tornou uma escola

Por isso, o teatro inaugurado por Uemura Bunrakuken também se tornou uma escola para essa forma de arte.

Entre altos e baixos na história do teatro Bunraku-za, sendo 1884 sua era de ouro. Além disso, a família Uemura continuou o legado de se percursor.

Surgimento do nome bunraku

A trupe teve o mesmo nome do teatro entre 1868 a 1912, fazendo com que o Ningyō Jōruri passasse a ser conhecido como Bunraku.

O teatro foi destruído pelos bombardeios dos EUA na segunda guerra mundial. No entanto, apesar da destruição causada pelos conflitos, as apresentações voltaram no ano seguinte ao fim do conflito.

Teatro Goryo Bunraku-za em 1914
Teatro Goryo Bunraku-za em 1914

Se tornou Propriedade Cultural Intangível

Em 1955 o Bunraku se tornou uma Importante Propriedade Cultural Intangível do Japão.

Ao passo que no ano seguinte o teatro Bunraku-za foi reinaugurado. O teatro de fantoches Bunraku sobreviveu, se recuperou e até hoje segue sendo uma parte cultural importantíssima do país.

Portanto, se estiver pelo Japão assista a uma peça de teatro prestigiando essa parte cultural.

Para concluir você conheceu uma parte da história do Japão e do surgimento do Bunraku. Já fizemos um artigo completo sobre o que é o teatro de fantoches.

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