A temporada das sakuras (桜) é uma das mais esperadas no Japão. O Hanami (“花見”, observação de flores) é uma tradição de contemplar o florescimento das sakuras embaixo das cerejeiras confraternizando com amigos ou colegas de trabalho, de dia ou de noite.

Mais do que uma beleza estética e natural, a observação das sakuras, Hanami, a temporada das sakuras está intrinsicamente ligado ao espírito cultural do Japão e dos japoneses de uma forma simples – mas não simplória – e poética.
Significados
O florescimento das sakuras é um símbolo da efemeridade da beleza, da vida em si, afinal, do nascimento dos brotos até a queda das flores de sakura das cerejeiras duram apenas algumas semanas, e da renovação da vida, pois todos os anos elas ressurgem.
Há também uma dimensão espiritual envolto no Hanami.
Um dos kanjis possíveis para escrever a palavra sakura é “神”, ideograma utilizado para se referir a deidades (Kami), especificamente a deidade dos arrozais.

Já o termo “Iwakura” (岩倉) significa rochas onde o espírito dos kami residem.
Quando as flores de cerejeiras florescem, é um sinal de que a deidade desceu das montanhas e é hora certa para plantar arroz.
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Origem do Hanami
O primeiro Hanami registrado na história do Japão aconteceu no ano 812 e foi promovido pelo Imperador Saga (786 – 842) no jardim do templo Shinsen-en em Kyoto com um banquete, música, poesia, caligrafia, e claro, observação das flores de sakura.

Embora a primeira apreciação das flores de cerejeira tenha acontecido oficialmente em 812, o mesmo fenômeno já fazia parte da vida das pessoas comuns antes mesmo do período Nara (710 – 794), até como indicação do início do trabalho de plantação nos campos.
Kami nas flores
Nos tempos antigos, os camponeses acreditavam que durante a primavera os kami da agricultura se revelavam nas flores de cerejeira das montanhas.
Dia de descanso
Quando as flores desabrochavam, os agricultores tiravam um dia de descanso.

Durante esse dia eles prestavam homenagens as deidades e oravam pela colheita que estava por vir.
Comidas e bebidas
A religiosidade da época, que mais tarde seria chamada de shintō, instruiu os camponeses a levarem comida e bebida para dividirem com os deuses sentados embaixo das árvores.
Já durante o período Nara muitos nobres e estudiosos japoneses foram enviados a China para aprender mais sobre a cultura e as tecnologias chinesas para impulsionar o desenvolvimento do Japão.

Das flores de ameixeira para sakuras
Nessa época (período Nara), a aristocracia japonesa tinha mais apreço pelas flores de ameixeira ume (梅) que era uma tradição da aristocracia chinesa.
Isso mudou quando o Imperador Saga ficou deslumbrado com a beleza particular das sakuras em uma visita ao santuário Jishu-jinja.
Hanami: um evento realizado anualmente para a aristocracia japonesa
Desde o primeiro Hanami em 812, os nobres começaram a plantar cerejeiras em suas propriedades e nas colinas próximas delas para apreciar sua beleza.
O Hanami só se tornou um evento anual promovido entre a aristocracia japonesa e a corte Imperial no ano 831.

Poder imperial
A árvore em si se tornou um símbolo do poder Imperial.
Luxo
Durante séculos a temporada das sakuras e o Hanami era uma exclusividade das castas superiores que podiam se dar ao luxo de realizar grandes festividades com banquetes e arte.
Inspiração para arte
O próprio Hanami foi uma grande inspiração para muitas obras de arte, desde a poesia, pintura, música e em obras literárias clássicas do Japão como o Genji Monogatari.
Ao longo dos séculos de Hanami exclusivo para a aristocracia, dois eventos se destacaram.
Em 1594, Hideyoshi Toyotomi, unificador do Japão e Taikō (太閤) durante esse período, realizou um Hanami para cerca de 5 mil convidados durante cinco dias em Yoshino, província de Nara.

No ano de sua morte, 1598, o Taikō realizou outro grande evento de apreciação das flores de sakuras.
O festival foi celebrado para cerca de 1.300 convidados no tempo Daigo-ji em Kyoto, local que Hideyoshi ordenou a plantação de 700 cerejeiras.
Hanami para as pessoas comuns
Durante quase 900 anos os eventos anuais de apreciação das sakuras foram exclusivos da aristocracia japonesa, mesmo quando Edo se tornou a capital e o shōgun Tokugawa Iemitsu (1604 – 1651) ordenou a plantação de cerejeiras no templo Kanei-ji, atual Ueno Park.
Apenas em 1720
Mas foi somente em 1720 que shōgun Tokugawa Yoshimune (1684 – 1751) ordenou a plantação de cerejeiras em Asakusa e Asukayama. Yoshimune quis dividir com as pessoas comuns as belezas das sakuras.

Há também uma tese de que Tokugawa Yoshimune ordenou a plantação de cerejeiras nas margens do rio Sumida para diminuir as enchentes.
A ideia era de que o peso das pessoas que visitariam as cerejeiras para ver o florescimento das sakuras deixaria o solo mais compacto.
Essa seria, supostamente, a razão pelo qual há diversos locais no Japão que tem cerejeiras as margens do rio.
Apesar da popularização das cerejeiras no país, foi só no final do período Edo (1603 – 1868) que as pessoas comuns passaram a ir durante a noite apreciar as sakuras.
A temporada das sakuras no Japão contemporâneo
Hoje em dia, o Hanami faz parte da vida de todos os japoneses e é aguardado com entusiasmo por leigos e por quem entende a filosofia por trás da temporada das sakuras:
tal como a vida neste plano de existência, as sakuras são belas, frágeis, mas também transitórias e fugazes.

Economia das sakuras
Há também toda uma economia por trás da temporada das sakuras, desde produtos sazonais feitos com flores de cerejeira, acomodações em hotéis nos pontos turísticos mais belos do país e até venda de comida e bebida para a ocasião.
Quando ocorre
A temporada das sakuras costuma acontecer ao final de março e dura até o começo de abril.
Curiosamente – ou nem tanto – o ano fiscal do Japão termina no dia 31 de março e começa no dia 1º de abril.

É também durante esse período em que costumam realizar o shunto (“春闘”, negociações salarias de primavera) e passam a vigorar a partir do início do ano fiscal, as graduações e formaturas, e as sessões de contratação coletivas.
Embora a temporada das sakuras aconteça tradicionalmente no final de março até o começo de abril, as mudanças climáticas estão fazendo com que partes do Japão assistam ao florescimento antecipado das flores de cerejeira.
O que fazer durante o Hanami
Normalmente o Hanami é um momento de confraternização com pessoas queridas, e para muitas pessoas, com os colegas de trabalho – algo que a maioria dos japoneses consideram como uma forma de trabalho.
Piquenique
É muito comum as pessoas se juntem para um piquenique embaixo das cerejeiras com alimentos típicos da temporada das sakuras nos parques e permitem o consumo de alimentos e bebidas em suas dependências.

Com saquê
Não é incomum ver grupos de amigos ou colegas celebrando com sake tanto de dia quanto de noite.
Cerimônia do chá
Mas uma das mais clássicas formas de contemplar o Hanami é durante uma cerimônia do chá.
Em muitos lugares há Chanoyu (茶の湯), cerimônias do chá profissionais e são cobrados dos participantes.
As cerimônias completas incluem xícaras de cerâmica com laca tradicionais, doces e toda a experiência dessa tradição estética e cultural sob uma cerejeira.

Sakuras e lanternas de papel
Durante a noite, além da iluminação especial destacando as flores de cerejeira, os visitantes e participantes do Hanami também são agraciados com as belezas das lanternas de papel que iluminam o caminho.
Regras e etiqueta durante a temporada das sakuras
Não há regras escritas sobre o que fazer o que não fazer durante.
Porém, é sempre bom manter o bom senso da convivência humana como não tomar mais espaço do que o necessário para respeitar o espaço dos outros e guardar o próprio lixo, por exemplo.
Em caso de piqueniques, não esqueça de se assegurar que o local permite e deixe sempre o local igual ou melhor do que o encontrou.
Não fique bêbado/a
Também não é recomendado fazer muito barulho ou se embriagar.

Contudo, muitos piqueniques e confraternizações começam pela manhã e vão até a noite.
Por isso, algumas pessoas podem acabar falando um pouco mais alto por causa do efeito do sake.
Mesmo assim não é recomendado sob nenhuma perspectiva, seja ética ou por saúde, se embriagar.
Não quebre galhos ou pegue flores das árvores
Respeitar as cerejeiras e não as danificar é uma premissa básica.
Sob nenhuma circunstância deve quebrar os galhos ou arrancar as flores de cerejeira, as sakuras devem cair no seu próprio tempo.
É muito importante não tocar ou alterar o caminho delas.
Curiosidades sobre as cerejeiras
De acordo com a Sakuranokai (Associação de Cerejeiras do Japão) existe nove espécies básicas de cerejeiras e mais de 100 variedades delas.
Contudo, há mais de 200 novas espécies cultivadas fruto do cruzamento entre espécies e variedades.

Há diferenças na cor das flores que podem ser tons de rosa escuro ou completamente brancas, no tamanho das pétalas e no tamanho das cerejeiras.
Algumas variedades atingem cerca de 2 metros de altura, outras podem passar dos 20 metros.
Somei-yoshino
Uma das variedades mais famosas é a Somei-yoshino criada no final do período Edo no bairro de Komagome, distrito de Sugamo na região especial de Toshima em Tokyo, também conhecida como Somei Village.

Cerca de 80% das cerejeiras do Japão são Somei-yoshino, um cruzamento entre as cerejeiras Ohshima-zakura e Edohigan-zakura.
O cruzamento das cerejeiras foi muito comum durante o período Edo.
Riscos enfrentados pelas cerejeiras
Apesar da popularidade, há um risco real que as cerejeiras enfrentam.
A maioria delas foram plantadas ao final da segunda guerra mundial, por isso são consideradas árvores velhas e há preocupação de morrerem.
A Sakuranokai diz que as cerejeiras não são árvores muito resistentes.
Elas são muito prejudicadas pelo tempo seco por não terem raízes muito profundas, podem ser danificadas se forem pisadas e se o chão estiver muito rígido.

Não nascem de sementes
Além disso, as cerejeiras não nascem de sementes, mas de enxerto da própria árvore, ou seja, todas as cerejeiras são na verdade clones de outras cerejeiras.
Mas a qualidade da genética delas é limitada quando há doenças ou mudança no ambiente.
Replantar é um problema
Outro problema é replantar uma cerejeira no lugar de outra. Elas não gostam.
Se o solo não for descontaminado, todas as antigas raízes forem arrancadas e trocar a terra por uma nova, a cerejeira não prosperará.
São 490 mil cerejeiras
Existem cerca de 490 mil cerejeiras plantadas em regiões urbanas.
Dado os problemas citados acima e o custo elevado para substituir as árvores, poderá haver dificuldades com governos locais em custear as operações de revitalização das cerejeiras.


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