Você já deve ter se deparado com diversas ilustrações de gatos em ukiyo-e, que é a forma de impressão com molde de madeira. Basicamente a xilogravura japonesa.
Eles aparecem fazendo coisas no cotidiano como se fossem humanos ou interagindo e fazendo mais coisas interessantes, bem como comuns para a época.
Neste artigo você saberá mais sobre os gatos em ukiyo-e e essa fascinação artística dos japoneses com gatos com recorte histórico, curiosidades e fatos interessantes. Ao final você também ficará fascinado/a por gatos e suas pinturas tradicionais japonesas.
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Gatos em ukiyo-e
Ukiyo-e de gato de Utagawa Kuniyoshi
Os gatos em ukiyo-e são transformados em humanos fazendo coisas do dia-a-dia, em monstros, como pets, dançando.
Além de virarem quadros e ilustrações decorativas, eles estampavam amuletos que eram vendidos para a população fazendo uma economia criativa no Japão do período Edo, a era feudal. Bem como eram brinquedos em pintura, que tinham objetivo de entreter crianças e ensinar.
Os gatos eram animais adorados pelos japoneses, tanto pela sua utilidade pública como verão mais para frente, quanto eles encantavam com sua graciosidade e fofura, bem como eram vistos com uma certa deidade com relações místicas de sorte e prosperidade, mas também relacionados a yokais e folclore.
Artistas que usavam gatos em suas composições em ukiyo-e
ukiyoe de gatos de Tsukioka Yoshitoshi. No início eles eram os pets exclusivos da aristocracia no período Heian para depois terem sido popularizados para controle de ratos na cidade Edo (atual Tóquio). Este print japonês é da série 32 costumes e maneiras de Mulheres. Gatos conquistando mulheres desde a era Edo.
Alguns mestres que eram especialistas em retratar gatos eram nomes como Utagawa Kuniyoshi (1798-1861), Utagawa Hiroshige (1797-1858), Tsukioka Yoshitoshi (1839-1892), Kiyoshika Kobayashi (1847-1915), Hiroashi Takahashi (1871-1945) e de forma indireta Kitagawa Uwamaro (?-1806). São deles as principais e mais famosos ukiyo-e de gatos.
No entanto, ukiyo-e e gatos parecem estar interligados, já que grande parte dos artistas os retratavam, pois eles faziam parte da sociedade japonesa. Seja como pets ou habitando o imaginário como seres protetores e até como seres demoníacos em folclores.
O artista Toriyama Sekien ilustrou um livro de contos e ele usou a imaginação misturando folclore para retratar um grande gatos em chamas que era um yokai.
Print de gato de Toriyama Sekiama
Não conseguiríamos citar todos os artistas de ukiyo-e que usavam gatos em sua composição aqui e citaremos apenas alguns e mais famosos nas eras que a xilogravura japonesa estava em alta na era feudal até uma parte contemporânea.
Ficará esse recorte histórico, mas que contam apenas uma parte da história do uso de gatos na arte impressa japonesa usando blocos de madeira.
Utagawa Hiroshige era artista de ukiyoe que usava gatos em sua composição artística
Um dos ilustradores mais famosos da época era o Utagawa Kuniyoshi e suas imagens de gatos ukiyo-e podem ser achadas com facilidade em pesquisas netnográfica.
Utagawa Kinoyoshi e seus gatos em ukiyo-e
Naquela época do período feudal da era Edo (1608-1868) os gatos tinham explodido em popularidade. Eles estampavam diversos produtos e eram vendidos como amuletos, não apenas itens decorativos.
Todo mundo queria uma ilustração de um gato ou tê-los em casa em forma de objeto para proteção de pragas como ratos.
O curioso é que no período Heian (794-1185) anterior ao Edo as pessoas tinham esse fascínio pelos gatos, mas elas não tinham a chance de ver um pessoalmente.
Os gatos eram pets apenas da aristocracia ou ficavam em templos budistas para proteger escrituras de papel dos ratos. Dá para entender o motivo dos gatos terem ficado com a fama de proteção.
Print de Utagawa Hiroshige
Gatinhos para todos os lados
Por isso, sua figura era vendida como amuletos sagrados, já que habitavam templos também. Depois no período Edo, uma lei foi colocada em ação em que os gatos deveriam ser soltos e viver nas ruas e casas comuns do Japão para combater a infestação de ratos que destruía plantações e dava prejuízos econômicos.
Eles se tornaram figuras centrais do dia-a-dia e de histórias com ilustrações quando mangá ainda não tinha esse nome, faziam parte de lendas e de enredos de literatura.
Vendiam muito
Aliás, tem uma série famosa do Kuniyoshi que ele fez atores de teatro kabuki que eram gatos, gatos performadores acrobáticos e ilustrações de gatos para o romance Oborozuki Neko no Soushi. Os felinos estavam em alta nos trabalhos produzidos entre 1841 e 1842, segundo informações do museu de ukiyo-e japonês Ota.
Print de Utagawa Kuniyoshi
Omocha-e
As ilustrações brinquedo omocha-e são peças de prints usando ukiyo-e que eram destinados a crianças e produzidos em larga escala.
Eram vendidos baratinhos no fim do período Edo até a era Meiji, não eram conhecidos pela qualidade e hoje em dia os originais têm alto valor para colecionadores.
As ilustrações são graciosas e engraçadas, já que mostram um mundo de gatos. Obviamente que as crianças adoravam.
O mundo encantado de gatos pode ser visto hoje em dia em adoráveis ilustrações. Para quem quiser ter essas coleções em casa, é comum lançar livros com suas séries famosas.
Ukiyo-e
A xilogravura japonesa conhecida como ukiyo-e usa várias camadas de blocos de madeira entalhados para formar imagens e colorir. Aliás, se usa técnicas de mistura de cores e uma impressão no papel meticulosa em etapas.
Os artistas se dividiam e criavam os prints de forma colaborativa com uma pessoa no processo de desenho e outras de pinturas e texturas de cada parte de forma separada. Portanto, o resultado com detalhes do que se pode ver era obra de muitas mãos agindo em conjunto.
Dessa forma, se conseguia ter impressões com muitos detalhes e rica. Era muito comum que estas ilustrações retratassem imagens do cotidiano e da cultura japonesa e o nome faz referência direta ao mundo flutuante.
Os gatos em ukiyo-e entram justamente nesse contexto para ser colocado como peça central e protagonismo da cultura japonesa. Através deles vemos costumes, roupas, arquitetura, estilos de cortes de cabelo, como eram as casas, o que se fazia.
Print de Utagawa Kuniyoshi
O mundo japonês do período feudal era envolto de samurais, peças de kabuki, geishas, cenários diferentes retratando o ambiente urbano, rural e da natureza, destinos históricos de turismo, coleções de poesia e ilustrações eróticas, conhecidas como precedentes do mangá.
Detalhes e um mundo à parte
Geralmente as composições são dinâmicas com muitas coisas acontecendo em diferentes planos mostrando que as técnicas de desenho eram masterizadas. Já as cores eram chapadas, mas vivas.
Expressão política e satírica
O artista Kuniyoshi representava os gatos de uma forma humorosa, misteriosa e os deixava muito interessantes. Além de fazê-los atuar em diferentes ações, ele os colocava de forma criativa e muitas vezes para lidar com a censura do governo Tokugawa usando a arte como modo de expressão política.
Vamos explicar a parte política: depois de anos de guerra civil, o período Edo era a primeira vez que a sociedade vivia em paz sem ter domínios diferentes lutando entre si pelo poder regional. Ao todo foram 260 anos de paz após a era dos Estados Combatentes (1467-1603).
O poder central do governo Tokugawa estabelecia uma ordem de controle que os líderes regionais não tinham espaço para fazer rebeliões como antigamente, mas com base em leis rígidas que afetavam a sociedade em consequência. Portanto, os gatos eram usados de forma satírica para essa opressão.
Entre 1842 e 1846 fazer prints de atores de kabuki, geishas e cortesãs ficou proibido, pois o governo os via como disruptores e influenciadores de más condutas na sociedade. Por isso, colocar animais como atores de kabuki acabou caindo bem em meio a censura da reforma Tenpo.
O artista Kuniyoshi tinha como fonte principal de renda fazer ilustrações de atores de kabuki que tinham fãs que compravam as artes.
Então, mantendo as poses, as roupas dos atores famosos, mas substituindo seus rostos e corpos por gatos os faziam ser reconhecidos pelos fãs e passava pela censura.
Depois que a censura ficou mais leve, a tendência de fazer atores de kabuki de animais se manteve, pois o público gostou. Dali colocar gatos em prints se tornou lucrativo e uma tendência.
Além dos motivos comerciais e políticos, o artista amava mesmo os gatos. Ele era conhecido por fazer suas artes com seu gato de estimação aninhado dentro de seu kimono e estimulava seus alunos a desenharem gatos, que estavam sempre de fácil acesso para referência. Os gatos em ukiyo-e de Kuniyoshi eram criativos, graciosos e engraçados.
Como parte do cotidiano
Já o artista Utagawa Hiroshige conhecido como um dos grandes professores de ukiyo-e retratava gatos em suas composições como pets ou de forma humorada. Eles faziam parte do ambiente e do cotidiano mostrando como os felinos habitavam casas ou eram mimados por seus donos.
Ukiyo-e de gato de Utagawa Hiroshige
Tsukioka Yoshitoshi foi aprendiz de Utagawa Kuniyoshi. Ele viveu na época do fim do período Edo e pegou o começo da Meiji caracterizado pela modernidade.
Print em ukiyoe de Tsukioka Yoshitoshi mostra batalha de gatos. Inseridos de forma histórica, mas com humor
Com mulheres lindas
Kitagawa Utamaro era considerado um dos melhores de artistas ukiyo-e. Ele retratava gatos como figuras coadjuvantes de suas imagens de belas mulheres (bijinga).
Ele viveu durante a chamada era de ouro do ukiyo-e, fazia muito sucesso com suas ilustrações de cenas de bastidores do distrito de entretenimento em Edo, bem como cenas do cotidiano familiar, entre outros.
Artista KItagawa Utamaro fazia ukiyoe de gatos de forma indireta, pois eles apareciam em cenas de cotidiano de suas ilustrações bijinga
Gatices
Gato brincando de Kitagawa Utamaro
Kiyoshika Kobayashi era reconhecido por usar cores fortes em suas composições ukiyo-e ele viveu grande parte de sua carreira na era moderna Meiji e foi muito inspirado por arte ocidental no trabalho de luz e sombra (kosen-ga).
No entanto, nessa época, as obras de ukiyo-e já não encontravam tantos adoradores e esse período foi conhecido como decadente para a arte de impressão em moldes de madeira no Japão.
Hiroaki Takahashi seguindo a tendência dos mestres do ukiyo-e também ilustrou gatinhos de uma forma moderna. Trabalhava em sua maioria fazendo ilustrações para jornais e livros. Assinava com nome artístico Shotei, Komei e Hiroaki.
Hiroaki Takahashi era artista de ukiyoe que também ilustrava gatos
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