A palavra Joshiryoku (女子力) é uma daquelas palavras complicadas que obrigam a problematizar seu sentido. Joshiryoku é um termo utilizado no Japão para designar “poder feminino”. Até aí tudo bem.

Se a palavra Joshiryoku parece emancipadora e empoderadora, temos aí uma confusão semiótica. E o que quer dizer semiótica? De maneira simples é a relação entre um signo, seu significado e o significante.
Em outras palavras, o signo é algo que se visualiza, sente ou ouve. O significado (objeto) é o conceito, a ideia, a literalidade do signo e o significante (interpretante) é o significado que o signo gera na mente do interpretante.

Certo. Mas por que a palavra Joshiryoku é uma confusão semiótica? Porque apesar do seu signo e seu significado, o seu significante não é liberador, emancipador ou empodera as mulheres.
Em suma, Joshiryoki é justamente o avesso dos valores emancipatórios femininos.
Poder feminino, a terceira onda do feminismo e Joshiryoki
O termo “Poder Feminino” (Girl Power) surge na terceira onda feminista a partir do final da década de 80, início da década de 90 e tem entre seus muitos objetivos lidar com a interseccionalidade que as mulheres estão expostas.

Isso quer dizer que a opressão, a desigualdade e a violência contra as mulheres são diferentes, em maior ou menor grau a partir da raça (etnia), classe social, identidade de gênero e orientação sexual.
A terceira onda do feminismo também se destaca pela luta contra o sexismo e o empoderamento para que a mulher assuma posições de liderança dentro da sociedade e tenham autonomia objetiva (física e econômica) e subjetiva (status social).

Esse resumo raso sobre o que é o Poder Feminino e a terceira onda do feminismo serviu para dizer que Joshiryoku não tem absolutamente nada a ver com o que foi descrito acima. Pelo contrário. Literalmente. Joshiryoku é oposto disso.
Mas afinal, o que significa Joshiryoku?
A palavra Joshiryoku surgiu no Japão por volta dos anos 2000 e se tornou muito popular a partir de 2009. Tal como uma praga de gafanhotos tomou conta das revistas, das salas de aulas, nas televisões e todas as mídias.
Revistas voltadas ao público feminino davam dicas passo a passo de como se tornar uma Joshiryoku. Isso, de acordo com as revistas, era permitir realçar a feminilidade. Lenços foram um grande símbolo dessa feminilidade.

Mas afinal, qual é a definição de Joshiryoku? Uma mulher japonesa que expõe seu poder feminino, Joshiryoku, deve saber cozinhar, costurar e estar sempre atenta as últimas tendências da moda. Mas fique tranquila, não é só isso.
Uma mulher que tem um grande nível de Joshiryoku também tem que escrever com uma letra bonita, cuidar da beleza do cabelo, ter unhas pintadas, cuidados com a pele, maquiagem, simpatia, sensibilidade e mais outras coisas.
Níveis de Joshiryoku
Acredite se quiser, mas o “poder feminino” no Japão é classificado em dois níveis: o alto e o baixo. Quem tem o Joshiryoku alto tem que utilizar roupas femininas clássicas, saber cozinhar, utilizar linguagem polida e não expressarem seus pontos de vista de forma enfática.

Esses são preceitos básicos para além do que já foi citado acima. As mulheres que tem o Joshiryoku considerado baixo são as que usam roupas que valorizam o seu corpo, falam com linguagem considerada rude, não usam maquiagem e pasme: seja alto astral.
Há atitudes que também contribuem para elevar o status de Joshiryoku como presentear os amigos durante o dia dos namorados, por exemplo, ou sacrificar o conforto em nome da beleza estética (colocar band-aids nos calcanhares para usar um sapato).

Quanto mais próximo da figura maternal estereotipada dos anos 50 do século XX, mais alto é o nível do “poder feminino” no Japão. Isso ainda é muito forte dentro da sociedade japonesa, um papel social tradicional que sobrevive as mudanças do tempo.
Perspectiva masculina sobre o Joshiryoku
Existe uma perspectiva masculina sobre o que é Joshiryoku, o que eles esperam de uma mulher com o seu “poder feminino”. Confira algumas das respostas colhidas pelo portal Mynavi News:
- Melhorar a aparência;
- Fazer aulas de culinária;
- Ser capaz de cozinhar e fazer trabalhos domésticos;
- Escrever com capricho;
- Se comportar de forma natural para uma mulher;
- Ser mais feminina;
- Fazer trabalhos femininos;
- Ter sensibilidade que os homens não tem;
- Ser atenciosa e apoiar o homem;
- Ver o lado positivo dos homens;
- Se familiarizar com o comportamento que atraia a atenção dos homens;
- Ter a capacidade de ser reconhecida pelos homens;
- Ter um comportamento e mentalidade que faça que os homens a tratarem como uma mulher;
- Respeitar os homens e se comportar de forma que dê elogios (cozinhar, pequenas considerações, cumprimentar vizinhos, fazer bento para encontros, preparar lanches rapidamente);
- Se esforçar para fazer atividades que os homens acham incômodas;
- Treinar para se casar;
- Se esforçar para se manter bonita;
- Aprender a fazer ou deixar a outra pessoa feliz;
- Tentar ser “Yamato Nadeshiko” (mulher japonesa tradicional idealizada);
- Ter boas maneiras;
- Observar, entender a situação e agir de acordo com o que é necessário;
- Não se exibir;
- Perder a masculinidade;
- Se comportar de maneira racional e com bom gosto;
- Cuidar da saúde;
- Aprender a etiqueta da cerimônia do chá;
- Aumentar a renda anual.
Há uma tendência no Brasil e no hemisfério ocidental muito semelhante com a visão Joshiryoku: as Tradwifes, mulheres que aderem ao modelo de esposa conservadora e tradicional no estilo dos anos 50 e 60.
Perspectiva feminina sobre Joshiryoku
Para as mulheres a percepção é diferente. Para a elas, Joshiryoku é uma tendência que descreve uma atitude de beleza interior, estilo de vida ou escolhas feitas. Para muitas mulheres, correr pela manhã e consumir alimentos orgânicos é uma forma de elevar o nível do Joshiryoku.
A feminilidade entendida como Joshiryoku tende ser mais sobre uma vida saudável e plena. Não atoa que as perspectivas entre os universos masculinos e femininos sobre o tema são radicalmente divergentes.

O top 5 para as mulheres é: manter uma aparência limpa (ainda que estar bonita não seja o essencial); habilidade de prestar atenção ao sentimento dos outros; ter uma boa personalidade; saber ler nas entrelinhas; cozinhar bem.
Já o top 5 dos homens é: boa aparência; pele bem cuidada; ter uma boa maquiagem; estar na moda e saber as tendências mais bonitas; ser cheirosa. São compreensões muito distintas sobre o mesmo termo. Então por que parece que a visão masculina se sobressai?
Joshityoku e a polissemia
Como você deve ter intuído, a mídia não é dirigida por mulheres ainda que revistas ou programas sejam direcionadas ao público feminino. O último relatório da Índice de Desigualdade de Gênero de 2024 revelou que o Japão ocupa a 118ª posição entre 146 países pesquisados.
O Japão também ocupa a 120ª quando o assunto é a participação econômica e oportunidades e 113º lugar em poder político (dados da The Global Gender Gap Index 2024). Isso se reflete em como as palavras e os termos ganham sentido na sociedade japonesa.

Polissemia pode ser entendida como uma palavra com múltiplos sentidos, mas é mais do que isso. Mikhail Bakhtin, filósofo russo dizia que as palavras estão em constante disputa por seu significado pelos campos sociais interessados.
Então, mesmo que as mulheres tenham uma visão sobre o que é Joshiryoku, os campos sociais com poder econômico e político normalmente prevalecerão sobre o sentido que querem dar para a palavra.
Conclusão
Como o termo Joshiryoku é muito comum principalmente nas escolas do Japão através da indústria cultural, não é incomum que jovens japonesas se esforcem para se encaixar nesse padrão. Afinal, quem não quer ser elogiada e ter a atenção de todos para si?
Essa armadilha travestida de poder feminino é, na verdade, uma forma de prisão que coloca a mulher em uma posição muito bem definida. Claro que há as mulheres que se identificam e querem ser esse tipo de mulher.

Isso não quer dizer que todas as mulheres querem assumir esse papel. Então a palavra Joshiryoku, seu significado e significante, a semiótica conceito de “poder feminino” dentro da palavra Joshiryoku leva a uma confusão sobre o que é empoderamento feminino.
Essa é uma batalha que as novas gerações terão de enfrentar na sua luta por uma sociedade mais aberta e inclusiva para as mulheres japonesas dentro do mundo corporativo e político.
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