Os uniformes escolares japoneses são mais do que meras vestimentas escolares. São símbolo de uma cultura da moda e estão sempre presente na cultura pop do Japão como mangás, animes e doramas (J-drama).

Exemplos de alguns personagens vestidos com uniformes escolares japoneses são Yusuke Urameshi e Kazuma Kuwabara do mangá e anime YuYu Hakusho, Sailor Moon, e Taki Tachibana e Mitsuha Miyamizu da animação Kimi no Na wa (Your Name).
Tem muitos outros exemplos. Agora que entenderam a importância cultural refletida nos animes, você acompanhará a evolução dos uniformes escolares japoneses desde o período Edo até a atual era Reiwa. Confira.
Período Edo: a era pré uniformes escolares japoneses
Durante o período Edo (1603 – 1868) muitas escolas pelo Japão eram diferentes das conhecidas hoje. Eram as Terakoya (clique em Terakoya: a universalização da educação no Japão na era Edo para saber mais).

As Terakoya surgiram durante o período Muromachi (1336 – 1573), mas se popularizaram durante a paz Tokugawa no período Edo. As aulas eram abertas e ministrada por monges nos templos budistas do país.
Como não existia o equivalente a um ministério da educação, as Terakoya eram descentralizadas e não seguiam nenhuma diretriz. Cada escola tinha sua própria grade curricular.

Também não existia um conceito de uniforme escolar. As crianças frequentavam com as suas roupas do dia-a-dia, ou seja, kimono ou hakama.
A qualidade das roupas também refletia o nível social de cada família que enviava seu filho para a escola.
Período Meiji: o nascimento dos uniformes escolares japoneses
O período Meiji (1868 – 1912) foi um momento extremamente conturbado no Japão. Ocorriam rebeliões de antigos daimyos insatisfeitos com a centralização do governo e a perda de seus domínios, além do processo de modernização ter sacudido a sociedade.

Em 1872 foi promulgado o Gakusei (学制). A palavra Gakusei (estudante) foi escolhida para a 1ª Ordem do Sistema Educacional do Japão. Eram três objetivos centrais:
- Unificar as escolas do período Edo (Terakoya);
- Implementar um currículo nacional padronizado;
- Criar escolas primárias para crianças de 6 a 14 anos.
O Gakusei foi fortemente inspirado no sistema educacional das principais potências ocidentais, especialmente no modelo estadunidense e substituiu os livros escolares sobre a ética confucionista por textos ocidentalizados.

No mesmo sentido, os primeiros uniformes escolares japoneses foram baseados no modelo ocidental e introduzidos nas escolas, uma sinalização do comprometimento nacional com a modernização do país.
Primeira escola a pedir uniforme
A primeira escola a introduzir os uniformes escolares japoneses masculinos foi a Gakushuin.
A atual universidade e desde sempre uma prestigiada academia frequentada pela nobreza japonesa – incluindo artistas, políticos e três Imperadores.

Gakuran
Os modelos dos uniformes escolares japoneses masculinos chamados Gakuran (学ラン) eram um modelo semelhante aos dos cadetes da marinha Imperial: cor escura, gola alta e botões de latão.
Apesar da participação feminina na educação japonesa ainda diminuta, os uniformes escolares japoneses femininos durante o perído Meiji era hakama sobre o kimono.
Uniformes escolares japoneses na era Taisho
Se o período Meiji abriu as portas para a modernização ao modelo das potências ocidentais em infraestrutura, economia, educação e forças armadas, a era Taisho (1912 – 1926) foi o auge da ocidentalização do Japão no século XX.

Isso naturalmente se refletiu na moda e nos uniformes escolares, principalmente no modelo feminino.
Serafuku
Em 1921 foi introduzido o famoso Serafuku (制服), o mais icônico uniforme escolar feminino no estilo marinheira do Japão.
A primeira instituição de ensino a introduzir o Serafuku foi a Fukuoka Jo Gakuin, a primeira escola dedicada a educação feminina no Japão fundada pela missionária e educadora estadunidense Jennie Margaret Gheer (1846 – 1910) em 1885.

Após a introdução do Serafuku na Fukuoka Jo Gakuin, esse modelo de uniformes escolares japoneses femininos inspirados na Marinha Real Britânica se espalhou para todo o país.
Símbolo de modernização e liberdade
Mais do que um símbolo da modernização do Japão, os Serafuku representaram uma quebra nas restrições de gênero e permitiram as jovens da era Taisho uma liberdade de movimentação e participação na sociedade japonesa nunca antes vista.

Os uniformes escolares masculinos continuaram sendo o modelo militar Gakuran e se estabeleceu entre os estudantes de todo o país.
Uniformes escolares militares da era Showa
Os anos 30 do século XX foram tenebrosos e culminaram na pior das guerras da história: a segunda guerra mundial.
Durante a primeira parte da era Showa (1926 – 1945), a era pré guerra, o militarismo foi fortemente exaltado.

Os uniformes escolares masculinos ficaram ainda mais militarizados com designs voltados para a prática de atividades físicas, preparação para mobilização, além da introdução dos caps.
Quando a segunda guerra mundial finalmente chegou em território japonês com os bombardeios estadunidenses, os uniformes escolares foram simplificados para facilitar a evacuação e as necessidades do país.

Calça Moppe: economia e símbolo de privações
Os uniformes femininos durante esse período foram substituídos por calças Moppe (もんぺ) por causa dos bloqueios econômicos e o racionamento. As calças Moppe utilizavam matéria-prima encontradas no próprio Japão.
As calças Moppe se tornaram um símbolo da classe trabalhadora feminina urbana no Japão durante esse período e também um símbolo das privações econômicas que o Japão enfrentou durante a guerra.
Os uniformes escolares japoneses no pós-guerra
Após a rendição japonesa em 2 de setembro de 1945 e o início da ocupação japonesa do Japão até 1952, a era Showa pós-guerra (1945 – 1989) passou por um profundo processo de desmilitarização e pacificação.

Simbologias mudam pelo pacifismo
Todas as referências militaristas das escolas japonesas foram removidas pela ocupação. A única exceção foram os uniformes por serem práticos e por sua tradição, porém, a simbologia mudou.
Assim como nas eras passadas, os uniformes escolares japoneses do pós-guerra também estavam associados ao que estava acontecendo no país naquele momento: recuperação econômica e prosperidade.

Imagem clássica dos uniformes escolares japoneses
As décadas de 50 e 60 solidificaram a imagem clássica dos uniformes escolares que até hoje está no imaginário coletivo.
Contracultura contra autoritarismo
Já nas décadas de 70 e 80 a contracultura se introduziu nos jovens que se rebelaram contra os símbolos autoritários.
Os uniformes escolares eram um desses símbolos e em algumas escolas foram abandonados pelos movimentos estudantis.
Rebeldia e gangues
Entre os anos 70 e 80 os uniformes escolares japoneses foram ressignificados por jovens rebeldes.

As Sukeban (“助番” ou “スケバン”), gangues femininas, e os Yankii (ヤンキー), gangues masculinas, eram jovens que oscilavam entre a rebeldia e a delinquência pura e simples.
Independentemente de seus motivos, essas gangues transformaram os tradicionais uniformes escolares japoneses em uma moda rebelde através de modificações de tamanhos, cores e outras formas que desafiavam a autoridade escolar.

No final da década de 80 os tradicionais uniformes escolares japoneses no estilo marinheiros foram substituídos pelos blazers, ou melhor, os blazers foram adicionados ao catálogo dos uniformes escolares aumentando a variedade para os alunos.
Os uniformes escolares japoneses durante o período Heisei
A era Heisei (1989 – 2019) foi o período em que a globalização de mercados, mercadorias, cultura e estética do século XX foi preponderante.
Os uniformes escolares japoneses dessa época foram fortemente influenciados pelos modelos ocidentais.

Blazers e saias se tornaram predominantes nas escolas privadas e nos grandes centros urbanos como um símbolo da vanguarda da moda moderna.
No começo dos anos 2000, a marca japonesa de uniformes escolares Eastboy fez uma parceria com a revista estadunidense Seventeen transformando os uniformes escolares da Eastboy o símbolo da cultura dos uniformes escolares, em especial os femininos do ensino médio.

Além de inspirações para uma série de subculturas da moda japonesa, os uniformes escolares também se tornaram artigo de luxo em 2018 quando a Taimei Elementary School, uma escola pública do distrito de Ginza, Tokyo, adotou uniformes escolares da Armani.
A inclusividade e utilidade dos uniformes na era Reiwa
A era Reiwa começou em 2019 e de lá para cá parece que 100 anos já se passaram com tantos eventos turbulentos.
As mudanças desses últimos 6 anos também se refletiram no conceito dos uniformes escolares japoneses.

Muitas escolas e instituições de ensino mudaram suas filosofia e valores para se adaptarem aos valores e necessidades desse tempo presente.
A preocupação com a manufatura dos uniformes escolares, materiais e tecnologia também entram na conta.
Utilidade, conforto e sustentabilidade
Os uniformes escolares japoneses da era Reiwa utilizam tecidos que absorvem a umidade, são resistentes a manchas, mais confortáveis para o uso diário e com maior durabilidade utilizando as melhores práticas de sustentabilidade.

Muitos fabricantes confeccionam suas peças utilizando materiais recicláveis como poliéster ou plástico retirados do meio ambiente.
Além disso, muitas instituições estão oferecendo uniformes escolares de gênero neutro.
Para além das identidades de gênero, uniformes escolares de gênero neutro também são uma forma de reduzir a discriminação entre gêneros e também diminui a sexualização do corpo feminino. É a utilidade a serviço da diversidade e inclusão na sociedade japonesa.
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