No inverno de 2019 o diretor japonês Fukunaga Takeshi começou a produzir seu novo documentário: Ainu Puri (O Jeito Ainu) lançado oficialmente no segundo semestre de 2024.
Ainu Puri

Ainu Puri estreou na 29ª edição do Busan International Film Festival e na 37ª edição do Tokyo International Film Festival.
O documentário que revela o dia-a-dia da família Amanai, residentes de Shiranuka, província de Hokkaido, ganhou grande destaque nos festivais.

Inspirado pela pesca de salmão dos Ainu, Fukunaga Takeshi acompanhou como a família Amanai compartilha o prazer da presença um com os outros, sua cultura, crenças, entretenimento e técnicas de pesca de seus ancestrais.
O documentário Ainu Puri é uma consequência do filme anterior de Takeshi, o longa Ainu Mosir lançado em 2020, um filme que narra a história de Kanto, um jovem Ainu de 14 e que foi filmado em Akanko Ainu Kotan, uma vila próxima ao lago Akan.
Lá Fukunaga conheceu Amani Shigeki (Shige em seu meio social), presidente da Shiranuka Ainu Association conhecido por suas habilidades de pescar salmão com uma lança chamada Marep (マレプ). Dessa amizade surgiu o documentário Ainu Puri.
Ainu Puri: uma jornada na cultura indígena japonesa
Fukunaga Takeshi conta que viu Amani Shige pescando no outono de 2018 e ficou muito impressionado com ele entrando no lago gelado e escuro por vontade própria para pescar salmão e muito satisfeito ao capturá-los com seu Marep.
Takeshi perguntou a Shige se ele estava interessado em participar de um documentário (Ainu Puri).

Shige contou que se fosse outra pessoa ele teria recusado, mas como ele já conhecia Takeshi e o trabalho dele durante o filme Ainu Mosir aceitou o desafio.
O documentário começou a ser gravado no inverno de 2019 e levou cerca de três anos e meio para ser concluído.
O filme começa com Shige fazendo uma oferenda aos Onkami (deidades Ainu) antes de começar a pescar.

Todo o processo de pesca é profundamente espiritualizado. Cada salmão que Shige pega com seu Marep é golpeado três vezes na cabeça com um bastão chamado Ipakikni enquanto ele diz “Inaw Kor” (segure o Inaw). Por fim Shige agradece pelo sacrifício do salmão.
Tudo faz parte de um ritual de gratidão. O salmão é uma fonte de alimento reverenciada dentro da cultura Ainu. Para eles o peixe se chama Kamuy Cep (peixe divino) ou Sipe (alimento verdadeiro).
Diferença cultural
Desnecessário dizer que existem muitas diferenças culturais entre as tradições, costumes e cultura dos indígenas japonesas e relação a “cultura oficial” do Japão. Mas uma parte do documentário Ainu Puri chama bastante atenção.
Em determinado momento, Shige que além de pescador, também é um caçador profissional, caça um veado, uma tarefa difícil como o próprio caçador afirma.

Logo após matar o veado, Shige abre o animal com sua faca, retira suas vísceras e drena seu sangue.
Tudo isso é filmado nua e cruamente. Fukunaga Takeshi sabia que a cena faria com que muitos espectadores se sentissem mal, mas ele decidiu manter a cena por algumas razões.

Os Ainu só retiram da natureza aquilo que precisam para se alimentarem. Outro fator importante é alienação do consumo: quando as pessoas compram carne nos supermercados elas perdem a noção de que uma vida também foi tirada.
Por fim, Shige também é um empregado de uma empresa que vende carne de veado e urso, afinal, é praticamente impossível ou até mesmo impossível viver única e exclusivamente do tradicional modo Ainu no Japão de hoje.
O complexo sentimento Ainu
O documentário Ainu Puri não deixa de explorar o complexo sentimento que é ser um Ainu de geração para geração. O preconceito que o povo Ainu sofre continua presente.
Por exemplo, Motoki, filho de Shige, não é tão engajado em suas raízes.
Ele diz querer fazer uma escola técnica e ter um bom salário. Não é que ele rejeite suas origens, mas adolescência é um período muito difícil na vida de todos.

Muitas crianças de sua escola não sabem de sua origem Ainu. Shige disse para seu filho:
“Algumas pessoas se importam se você é Ainu ou não, e outros não se importam. Você não deve se preocupar com isso. Ninguém tem o direito de te discriminar. Seu pai tem orgulho de você, então, se alguém te dizer algo, você também se erga tão orgulhoso quanto eu”.

Uma das coisas mais fascinantes do documentário Ainu Puri é que ele foi gravado por um longo período de tempo, o que permite uma perspectiva na evolução da família muito significativa.
Yoshiki, por exemplo, o filho mais novo do casal Shige e Aika é só um bebê no começo do filme. No final ele já está andando.
Por outro lado, o documentário é um recorte muito específico de uma família e que não representa a forma como todo o povo Ainu pensa e age.
No entanto, não deixa de ser um recorte em que conhecerá costumes e hábitos do povo indígena nativo do Japão.
Curta, compartilhe e deixe a visita em nosso site em dia. Temos sempre conteúdos sobre o Japão.


0 comentário em “Ainu Puri: o jeito Ainu de ser”