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Hitojichi-shihō: conheça a história de Matthew Ashton-Peter

A série Hitojichi-shihō (人質司法) do portal Japão Real trouxe até você leitor, duas histórias de pessoas significativamente diferentes, o ex presidente do grupo Renault-Nissan Motors e o jornalista esportivo Scott McIntyre. Nesse artigo, acompanhe a história de Matthew Ashton-Peter, um cidadão australiano acusado de receber drogas.

A série Hitojichi-shihō (人質司法) do portal Japão Real trouxe até você leitor, duas histórias de pessoas significativamente diferentes, o ex presidente do grupo Renault-Nissan Motors e o jornalista esportivo Scott McIntyre.

Além das histórias, o portal também trouxe uma perspectiva histórica sobre o conceito jurídico Daiyo Kangoku (代用監獄). Caso você tenha chegado até aqui e ainda não acompanhou esses artigos, confira clicando nos links abaixo:

Nesse artigo, acompanhe a história de Matthew Ashton-Peter, um cidadão australiano acusado de receber drogas.

Hitojichi-shihō sem conexões

O Japão é um dos países mais severos do mundo quando se trata sobre drogas, a lei do país é implacável para traficantes e para usuários.

Algumas celebridades e autoridades japonesas tiveram que se humilhar em público por serem usuários ou por terem sido pegos com quantidades irrisórias de drogas de qualquer natureza.

Pacote de cococaína
Ilustração de 1g de cocaína

Foi o que aconteceu com o australiano Matthew Ashton-Peter. Em março de 2018, Matthew foi preso sob acusação de receber 1g (um grama) de cocaína.

O jovem australiano trabalhava em uma estação de esqui durante suas férias em Hokkaido. A droga foi enviada a uma das acomodações por onde Matthew passou, mas não havia nenhum nome no pacote que indicasse quem era o destinatário.

Detenção infernal

Diferente de Carlos Ghosn e Scott McIntyre, Matthew Ashton-Peter não era uma pessoa pública e seu caso não teve nenhuma repercussão dentro ou fora do Japão.

Matthew foi detido por agentes de segurança no aeroporto de Kansai e passou pelos complexos prisionais de Kutchan e Sapporo durante 23 dias.

Prisão de Sapporo
Prisão de Sapporo

Valerie Ashton, mãe de Matthew recebeu uma mensagem via Facebook. Na mensagem, o jovem australiano disse que estava sendo preso, mas não fazia ideia do motivo.

Foi o último contato de Matthew com sua mãe que tentou desesperadamente saber o paradeiro de seu filho caçula. No entanto, só voltou a ter contato com ele 20 dias depois do ocorrido.

Matthew foi libertado sob fiança no dia 4 de abril e seu caso foi encerrado dois meses depois por falta de provas. As sequelas, porém, foram permanentes.

Quando as consequências do Hitojichi-shihō são irreversíveis

Matthew voltou para a Austrália no dia 20 de junho de 2018 depois de ser liberado pela justiça japonesa. E apesar de parecer que o pesadelo tinha acabado, Matthew se suicidou duas semanas depois de chegar em casa.

Segundo Valerie, Matthew foi interrogado todos os dias na prisão durante quatro horas. Por meio de um intérprete, os promotores diziam que ele tinha desapontado sua família e quem nem eles, nem sua namorada se importavam com seu destino.

Matthew Ashton-Peter e companheira
Matthew de volta a Austrália com sua companheira (reprodução: Tokyo Weekender)

O jovem também disse antes de sua morte que se ele se declarasse culpado poderia voltar para casa, caso contrário, passaria os próximos 10 anos preso.

Além disso, o tratavam com agressividade o fizeram se sentir inútil. O trauma foi tão grande que ele tentou se enforcar na pequena cela em que esteve preso na prisão de Sapporo por achar que ficaria preso 10 anos.

O trágico fim

Valerie relatou em entrevista ao Tokyo Weekeender como foram os últimos momentos de seu filho mais novo.

“Estávamos focados em trazê-lo de volta para casa e não consigo explicar a alegria que senti ao vê-lo. Com o êxtase, não fomos capazes de perceber seu interior. Além disso, ele não parecia nada bem, tinha perdido mais de 10kg e sua vida profissional estava declinando. Ele também estava relutante em nos dizer o que aconteceu, não insistimos, pois estávamos muito felizes em tê-lo de volta. Esse é o meu maior arrependimento.” – Valerie Matthew

Ilustração de sucídio - ligue gratuitamente para 188 para entrar em contato com o CVV (Centro de Valorização a Vida)
Ilustração de intenção de suicídio – ligue gratuitamente para 188 para entrar em contato com o CVV (Centro de Valorização a Vida)

“Para lidar com os traumas emocionais, Matthew seria levado a um psicólogo, no entanto, ele se matou na noite anterior”, continuou Valerie.

“Não há ninguém além da mãe para saber a dor que é perder seu filho amado para o suicídio. Ainda estou com muita raiva e nojo pela forma como ele foi tratado. Eles quebraram sua mente e não houve nenhum pedido de desculpas. […] é tarde demais para o meu filho, mas espero que algo seja feito para que tragédias como essa possam ser evitadas no futuro”.

Lentas mudanças

Algumas mudanças começaram no sistema judicial japonês graças a ação de novos juristas que denunciaram os abusos cometidos no país.

Uma das mudanças mais significativas foi a introdução das gravações nos interrogatórios. No entanto, as gravações ainda são limitadas e os acusados não têm o direito de ter um advogado durante esse processo.

Cena do filme Gonin
Cena do filme Gonin

Contudo, apesar de ser o único país desenvolvido do mundo a não conceder o benefício da dúvida, isso é, a presunção da inocência, o Japão tem uma das menores populações carcerárias do mundo.

São 48.802 detentos (dados divulgados em 31 de outubro de 2019 pela administração prisional nacional) em um país de 122 milhões de habitantes. Essa população representa 56,6% da capacidade carcerária (89.310 vagas).

Referências: HRWEl PaísNippon.comTokyo Weekender

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